Em Busca da Terra do Nunca

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 29/01/2005.

Tenho certeza de que todo mundo aí conhece de cor e salteado a história de Peter Pan, uma das maiores obras-primas da literatura fantástica. Bem, é impossível realmente existir alguém que não saiba qualquer coisinha pequena do personagem, já que o “menino que não queria crescer” ganhou tantas releituras, dentre eles o conhecidíssimo desenho animado da Disney e o longa-metragem em live-action lançado no ano passado – e se você não sabe nada sobre este conto fenomenal, isso é um SACRILÉGIO! Voltando à programação normal: o que nem todos sabem é que Peter Pan, a história, partiu de uma peça de teatro criada pelo renomado dramaturgo escocês James M. Barrie em 1904, e que esta peça histórica é tida como o espetáculo teatral infantil mais importante do teatro contemporâneo. Óia a responsa…

Só para se ter uma idéia de como o trabalho de Barrie foi fora do comum, ele inaugurou a onda das peças infantis (neste época, teatro era literalmente coisa de adultos), inovando com seus “efeitos especiais” (em 1900, um cabo para fazer alguém “voar” ainda era um recurso totalmente inédito) e tornando esta manifestação artística, até então restrita à burguesia, mais acessível ao povo. O que quase ninguém sabe, porém, é que Peter Pan só existiu por culpa de uma família rejeitada pela sociedade da época – família esta que salvou a carreira e também a vida de Barrie. É desta premissa que parte o longa Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, 2004), novo trabalho na direção do cineasta Marc Forster – o santo milagroso que fez a péssima Halle Berry ganhar um Oscar em A Última Ceia. Realmente, pra fazer isso acontecer, precisa ter o dom divino! Que, infelizmente, não funcionou muito bem aqui… :-P

Logo no começo da fita, o bem-sucedido escritor J. M. Barrie (Johnny Depp, ótimo como sempre) está escondido atrás de uma coxia, prestes a assistir à estréia de seu mais novo espetáculo. Estamos em Londres, 1904. A platéia lotada, em meio a burburinhos, confirma o que Barrie tanto temia: a peça é um lixo. Não que Barrie fosse ruim na escrita, mas o problema é que o cara sofreu um bloqueio criativo. Bem, mais ou menos. Ele até escreve, mas não consegue fugir dos mesmos temas. Por conta disso, o homem fica meio paranóico. Pra complicar ainda mais, tudo indica que seu casamento com a fútil Mary Ansell (Radha Mitchell, a esposa de Colin Farrell em Por Um Fio) está indo para o buraco. Não podia ser pra menos: a mulher só pensa em manter seu status perante à sociedade no alto, e é tão carinhosa quanto uma geladeira. E pra completar, o produtor das peças de Barrie, Charles Frohman (Dustin Hoffman, também nas telas em Entrando Numa Fria Maior Ainda), precisa que o autor crie um novo trabalho o mais rápido possível, para cobrir o prejuízo com sua montagem anterior.

Um certo dia, caminhando com seu São Bernardo pelo parque Kensington, Barrie conhece a família Llewelyn Davies: a mãe, Sylvia (Kate Winslet, outra que, assim como Depp, dispensa apresentação), e quatro filhos, quatro meninos: Jack (Joe Prospero), George (Nick Roud), Peter (Freddie Highmore) e Michael (Luke Spill). A família não anda muito bem de grana e é totalmente rejeitada pela insuportável burguesia da época. Tudo isso porque Sylvia é viúva: ela perdeu o marido para um câncer mal diagnosticado pelos médicos. Encantado com a inocência e a vitalidade das crianças, Barrie – que não aproveitou sua infância por conta de uma tragédia familiar – faz amizade com os meninos e sua mãe, e cria o hábito de passar as tardes com os Llewelyn Davies, quando inventa jogos, brinca de pirata, cria disfarces e conta histórias de fantasia.

Aos poucos, Barrie e Sylvia se tornam alvos de fofocas na cidade, já que ele é casado e rico e ela, viúva, pobre e cuida de filhos sem pai – e estas fofocas terminam por detonar de vez seu casamento com Mary e colocam Barrie na mira da enjoada e superprotetora mãe de Sylvia, Emma du Maurier (Julie Christie). Mas Barrie não está nem aí. De cada uma das “aventuras” que inventa com os meninos Llewelyn Davies, o escritor tira um elemento que, mais tarde, renova sua imaginação e criatividade, manda o bloqueio pro espaço e o ajuda a criar seu mais complexo universo, aquele que serviria de pano de fundo para seu mais importante trabalho: a Terra do Nunca de Peter Pan.

As qualidades de Em Busca da Terra do Nunca são muitas. Pra começar, o elenco está perfeito, sem exceção. Até mesmo Radha Mitchell, geralmente não tão boa assim, entrega uma atuação contida, mas muito intensa. No entanto, o destaque, além de Depp, fica por conta do pequeno Freddie Highmore, que dá um banho de interpretação como o problemático Peter Llewelyn Davies. Uma cena em particular chega a ser perturbadora, tamanha a maturidade da atuação do garoto (não vou contar pois, pra isso, teria que revelar um segredo da trama, mas vocês saberão que cena é essa quando ela chegar). Não à toa, Johnny Depp saiu dos sets deste longa arrastando o garoto para protagonizar seu próximo longa, A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Tim Burton.

Outro trunfo é a direção de arte, principalmente no que diz respeito às cenas que se passam na imaginação dos meninos. Uma coisa: preste atenção em cada cena para não perder “referências escondidas” do universo de Peter Pan. A cena que revela a fonte de inspiração para o Capitão Gancho é hilária! :-D

Mas nem tudo são flores. Em Busca da Terra do Nunca tem um problema grave, que não chega a atrapalhar muito mas ainda assim atrapalha: o roteiro do estreante David Magee se entrega por completo a todos os clichês (todos mesmo!) deste tipo de filme. Então temos o garoto revoltado que não simpatiza com o mocinho a princípio, mas depois aprende a ceder; temos as pessoas que duvidam do sucesso do empreendimento, que mais tarde aplaudirão de pé a vitória do empreendedor; temos a mãe que não aceita o mocinho, mas depois também simpatiza com ele, assim como o garoto; temos a esposa, que simplesmente sai do caminho do cara e, perto do final do filme, aparece sem ressentimentos e sorrindo à beça; temos as “frases de efeito” (Nada é impossível quando temos… imaginação! Ai, meu Deus…) seguidas de um abraço regado a lágrimas e com direito até à nossa velha conhecida “trilha sonora edificante”; e temos também a tragédia anunciada que amadurecerá boa parte dos personagens ao final da fita… ou seja, tudo aquilo que você cansa de ver nos filmes da ex-pantera Farrah Fawcett que passam no Supercine.

Como se isso não bastasse, é bem visível que o longa, independente de ser bom (e realmente é bom), foi fabricado única e exclusivamente para ganhar algumas estatuezinhas num certo evento anual. A cartilha do Oscar aqui foi seguida à risca mesmo. Não à toa, à exceção do favorito O Aviador, de Martin Scorsese, esta fita é a que possui o maior número de indicações, sete no total – algumas, já digo, sem sentido e injustificáveis. É, sem sombra de dúvidas, o mais fraco concorrente na categoria de Melhor Filme. Mas não é RUIM, como eu disse antes. Pelo contrário, é bom mesmo. Quase ótimo, até. Mas descartável. Só não vale todo o blá-blá-blá em cima. Se você gosta de se emocionar e não está nem aí pra clichés, este é o filme para você. Agora, se você quer ser tocado de verdade, sem que o longa precise apelar às “emoções fáceis”, assista Closer – Perto Demais ou Sideways – Entre Umas e Outras, que são bem melhores.

Uma pena. Pela sua importância, James Barrie realmente merecia um legado melhor.

CURIOSIDADES:

• Durante as filmagens de Em Busca da Terra do Nunca, não se sabe bem como, Dustin Hoffman sofreu um “acidente” e perdeu a ponta de um dos dedos. Neste dia, o ator se recusou a parar de trabalhar, mas só conseguiu atuar à base de muita morfina. Em determinado ponto de filme, é possível ver um curativo que “brotou” em um dos dedos num passe de mágica…

• Aliás, é a segunda vez que Hoffman se envolve com o universo de J. M. Barrie. Em 1991, o ator interpretou o Capitão Gancho em Hook, um dos grandes (e merecidos) fracassos na carreira de Steven Spielberg.

• O filme, na verdade, está pronto desde 2003. O problema é que a Columbia Pictures, neste mesmo ano, lançou Peter Pan, de P. J. Hogan, e não permitiu que a Miramax usasse determinadas cenas da peça de J. M. Barrie no período de um ano. Tanto que a estréia de Em Busca da Terra do Nunca, tanto em terras ianques quanto aqui no Brasil, se deu exatamente um ano depois da chegada às telonas do filme de Hogan.

• Johnny Depp tinha vários “truques” para tornar a atuação dos quatro meninos mais natural possível. Na cena do jantar formal na casa dos Barrie, por exemplo, o ator instalou debaixo da mesa uma “máquina de peidos” sem que ninguém soubesse e acionou-a no exato momento em que as crianças tinham que rir. As gargalhadas vistas em cena são nada mais do que a reação delas à tal “máquina”.

• Assim como no filme, sempre foi uma tradição o papel de “Peter Pan” ser interpretado por uma mulher nos palcos. A primeira atriz a interpretar o menino que não queria crescer chamava-se Nina Boucicault, irmã do primeiro diretor da peça. Somente em 1982, 78 anos após sua estréia, um homem interpretou o papel na Inglaterra.

• Numa determinada cena, em que a peça está sendo apresentada, Peter Pan pede para que os espectadores batam palmas para salvar Sininho. A reação de Julie Christie foi imediatamente começar a bater palmas. Esta cena não estava no roteiro, tanto que as quatro crianças ficaram sem saber o que fazer (suas expressões de “xi, e agora?” nesta cena são reais). Diz a lenda que Christie ficou tão emocionada e imersa na cena que reagiu daquela maneira sem pensar e, em seguida, caiu no choro.

• O verdadeiro J. M. Barrie faleceu em Junho de 1937, aos 77 anos. As crianças Llewelyn Davies, na verdade, eram cinco: o mais novo, Nicholas (mais conhecido como Nico), não aparece no filme pois nasceu depois que a peça foi escrita. O marido de Sylvia Llewelyn Davies, o advogado Arthur, ainda estava vivo quando Barrie se afeiçoou à família. Ao que consta, Arthur nunca gostou de Barrie e, assim como o resto do planeta na época, desconfiava e muito da amizade entre ele e Sylvia.

FINDING NEVERLAND • EUA/ING • 2004
Direção de Marc Forster • Roteiro de David Magee
Baseado na peça teatral The Man Who Was Peter Pan, de Allan Knee
Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Freddie Highmore, Julie Christie, Radha Mitchell e Dustin Hoffman.
106 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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