Zuzu Angel

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A-ARCA, em 03/08/2006.

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Resumindo Zuzu Angel (Idem, 2006) em uma única expressão: ainda não foi desta vez.

Agora, às explicações: para qualquer cinéfilo familiarizado com a atual situação do cinema brasileiro – que há pouco tempo entregou uma seqüência de ótimos filmes (sim, refiro-me explicitamente a Dois Filhos de Francisco) para, em seguida, perder a mão em produtinhos pretensiosos e absolutamente vazios (sim, refiro-me explicitamente ao péssimo Olga) ou em comediazinhas babacas e ofensivas (sim, refiro-me explicitamente ao horrível Gatão de Meia Idade) -, o trabalho do conceituado Sérgio Rezende (de Lamarca) passava a única impressão de ser “mais um Olga da vida”, ou seja, mais uma produção com cara de novelão das oito, até mesmo pelo grau de tragédia de seu enredo e pela presença do aterrorizante selo da Globo Filmes em seu cartaz. Para a alegria da galera, não estamos diante de “um novo Olga”. Por outro lado, não há muito o que se comemorar, não; não é novelão, mas é QUASE.

O que acontece é que Zuzu Angel, que reconta a dramática trajetória real da estilista brazuca Zuleika Angel Jones, assassinada em 1976, nitidamente foge de todos os erros na qual a chatíssima fita de Jayme Monjardim caiu: o que Olga tem de melodramático, de clichê e de excesso de estilo, Zuzu Angel tem de seco, de sóbrio e de realista. Ponto positivo, claro. O barato é que, em contrapartida a este acerto, a película tropeça num problema que parece amaldiçoar toda e qualquer produção tupiniquim: roteirista de filme nacional não sabe escrever roteiros. Não é certo generalizar, eu sei, mas este problema aparentemente é crônico.

Não digo isto para inflar discussões calorosas ou apenas para parecer polêmico, por favor não me entenda mal. É um fato. Roteirista de filme brazuca não sabe ser sutil, não sabe sugerir, não sabe falar nas entrelinhas. É tudo hiper-mega-mastigado, é tudo explicadinho nos mínimos detalhes. Ultimamente, o cinema nacional (à exceção de um ou outro sopro de genialidade, como Lavoura Arcaica e Uma Vida em Segredo) não se cansa de sugerir que o público é burro – prova disso é o recente Tapete Vermelho, com Mateus Nachtergaele; mesmo bem divertido em seu todo, o longa perde um bom tempo ensinando à platéia, com uma irritante didática de professora de primeira série, o que é o tal do Movimento Sem-Terra (o que, diga-se de passagem, quase estraga a fita inteira). Isso doeu na minha alma.

Este mesmo didatismo, esta mesma mania boba de querer entregar um produto mastigadinho e de fácil compreensão para as massas, por pouco não enterra Zuzu Angel.

E olhe que a trama poderia render um filmaço: Zuzu (vivida de forma bastante louvável por Patrícia Pillar) é uma conceituada estilista que começa a lançar-se numa bem-sucedida carreira internacional lá pelos idos dos anos 70. Infelizmente, Zuzu não tem muitos motivos para comemorar, já que vê seu filho mais velho, o militante de esquerda Stuart Angel Jones (Daniel de Oliveira, o Cazuza do cinema), desaparecer misteriosamente ao lado de sua esposa, a professora Sônia (Leandra Leal). Stuart e Sônia, envolvidos na guerrilha estudantil contra a ditadura militar, são presos, torturados e mortos pelo exército – e na boa, se o discursinho político deles realmente foi da maneira mostrada na tela, até eu quereria ser torturado! Céus, até uma criança escreveria um diálogo melhor do que aquele!

Voltando… Zuzu, até então alheia para a situação política do país, cai bruscamente na realidade e, mesmo sem saber o que raios aconteceu a Stuart e até se ele está vivo ou morto – a morte dele nunca foi oficialmente comunicada –, inicia uma sofrida, angustiante, incansável e perigosa busca pelo paradeiro do filho. E isto é só o que você precisa saber. O final, quase todo mundo já sabe, mas não sou eu que vou detalhar. ;-)

Trama muito boa, sim. O problema é o desenvolvimento do roteiro. Um enredo tão delicado pode facilmente cair no discurso panfletário, e é exatamente o que acontece. A estrutura narrativa é deveras burocrática e apoiada em fórmulas batidas do cinema político. Os diálogos são muito bem planejados, na verdade bem planejados até demais, tanto que muitas vezes tornam-se falsos e demasiadamente teatrais (pombas, ninguém fala “está” com todas as letras na vida real! Todo mundo fala “tá”!), e a direção ocasionalmente irregular de Sérgio Rezende, que deveria naturalizar a influência do texto na interpretação dos atores, só prejudica a atuação do elenco – Daniel de Oliveira, por exemplo, tinha uma grande chance de mostrar que não foi bom apenas para interpretar Cazuza, mas acaba meio apagado por conta de seus diálogos ruins.

Se há um grande motivo para conferir Zuzu Angel, este motivo é Patrícia Pillar. A atriz simplesmente nasceu para este papel. Sua Zuzu transita do estado de profissional bem-sucedida e avançada à sua época para o estado de mãe angustiada e sofredora com uma sutileza fora do comum – provas disso são as cenas (pesadíssimas, aliás) na qual ela lê a carta de um amigo de Stuart, e a seqüência na qual dialoga com o personagem de Nelson Dantas. Quando Patrícia Pillar está em cena, é impossível prestar atenção em qualquer outra coisa. Na boa, não consigo enxergar atriz mais perfeita para o papel. E como se não bastasse, ela está mais linda do que nunca, mas isto é apenas um detalhezinho perdido no meio da multidão.

Então… Zuzu Angel é ruim? Bem, eu não seria tão categórico assim. Não é sofrível, embora seja longo demais. É um trabalho muito acima das produções nacionais de hoje em dia, e está muito, muito longe de ser um horroroso dramalhão das oito como é Olga, mas também não é tão bom a ponto de merecer créditos. É apenas mais uma prova de que o cinema brasileiro tem bastante potencial, mas precisa ser mais humilde e trabalhado com um pouco mais de atenção. E a julgar pela figura histórica e emblemática que retrata, tinha por obrigação ser no mínimo excelente. Do que adianta a atriz principal honrar a memória da personagem, se o filme num saldo geral não honra? Se Zuzu Angel, a mulher, foi ousada e muito à frente de seu tempo, Zuzu Angel, o filme, peca justamente por não ter metade da ousadia de sua retratada.

E pelo amor de Deus, senhores profissionais do cinema brasileiro: nós, público, não somos incapazes de compreender uma trama apoiada em sutilezas e sugestões! Não precisa mastigar tudo! :(

ZUZU ANGEL • BRA • 2006
Direção de Sérgio Rezende • Roteiro de Sérgio Rezende e Marcos Bernstein
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Leandra Leal, Alexandre Borges, Ângela Leal, Ângela Vieira, Regiane Alves, Paulo Betti, Flávio Bauraqui, Nelson Dantas.
110 min. • Distribuição: Globo Filmes/Warner.

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