Fonte da Vida

03/01/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/11/2006.

Então, finalmente chega aos cinemas o mais do que esperado Fonte da Vida (The Fountain, 2006), terceiro filme do conceituado indie Darren Aronofsky e seu primeiro “trabalho de estúdio grande”, que sofreu tudo quanto é tipo de maldição. Sério, parece que o universo inteiro conspirou contra esta coisinha! Engatilhado desde 2002, quando Brad Pitt foi escalado para o papel central, a fita ganhou a geladeira com a saída do ator (diferenças criativas, o sujeito alegou à época) e o conseqüente desinteresse dos produtores, e só conseguiu enxergar a luz do Sol porque Darren Aronofsky, indivíduo deveras insistente, topou reduzir os custos da produção e deu seus pulinhos para concluir o projeto. O resultado final, até o momento apresentado apenas em mostras e festivais de cinema, provocou uma reação morna da crítica especializada. Em Veneza, vaiaram. Muitos acusaram Aronofsky de “pretensioso”. Outros se apaixonaram.

A pergunta: a espera valeu a pena? Bem, é tudo uma questão de ponto de vista.

Vamos às explicações: para quem não sabe, Darren Aronofsky apareceu do nada em 1998, quando comandou um suspense inteligentíssimo e ultra-bizarro chamado Pi, e em seguida dirigiu um visceral drama-quase-terror intitulado Réquiem para um Sonho, considerado por muitos (inclusive eu!) nada menos do que uma obra-prima. Com estes dois trabalhos, o cineasta mostrou não somente um domínio impressionante de linguagem cinematográfica, mas também uma tendência forte a transformar suas histórias em exercícios altamente criativos em termos de montagem e narrativa. Tais tendências tornaram Aronofsky o novo queridinho do circuito alternativo-independente, lhe deu uma parcela considerável de fãs… mas também fez muita gente torcer o nariz. Há quem diga que Pi é confuso demais e que Réquiem para um Sonho é totalmente gratuito. Bah. Descrentes.

O parágrafo acima deve ser levado em consideração por qualquer um que tencione ir ao cinema para conferir Fonte da Vida – digo desde já que, se você não travou nenhum contato com a filmografia do cara, deve obrigatoriamente correr até a locadora, alugar Pi e Réquiem para um Sonho e se familiarizar com o estilo de Aronofsky antes de pensar nesta nova produção. O causo é que o diretor é chegado em simbolismos, em metáforas bem escondidas, em pirotecnia visual, em usar toda e qualquer espécie de trama bizarra para falar de um mesmo assunto: pessoas mergulhadas na mais absoluta paranóia. E se você não conhecer ou não curtir a filmografia de Darren Aronofsky, nem perca seu tempo: você odiará Fonte da Vida com todas as suas forças.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que a fita é um típico trabalho do cineasta, é também totalmente diferente do que existe em seu currículo. Para simplificar a questão, pensemos em Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan: primeiro, o cara entregou o popularíssimo O Sexto Sentido e encantou o público em geral; depois, fez uma fita autoral, calcada em tomadas silenciosas e uma narrativa anti-convencional, e não agradou a muita gente, mesmo que este segundo trabalho tenha sido superior a seu antecessor no resultado final (e foi mesmo!). Não pude evitar pensar em Corpo Fechado durante a projeção de Fonte da Vida porque, mesmo sem um traço de semelhança entre suas estruturas, assim como Corpo Fechado segue um caminho oposto ao de O Sexto Sentido, Fonte da Vida segue um caminho oposto ao de Pi e Réquiem. Enquanto os outros filmes eram focados em temas soturnos (drogas, loucura), este é focado no amor, e nada de visões deturpadas: o negócio é bonito mesmo. Só que tudo é muito escondido; para encontrar os sentidos impostos pelo diretor, é necessário garimpar cada cena, cada diálogo, cada seqüência. Não é à toa que vaiaram o filme.

O barato é que também não consegui evitar pensar em Blade Runner: o Caçador de Andróides. Não podemos nos esquecer de que a magnífica sci-fi dos replicantes caçados por Harrison Ford foi execrada pela crítica e ignorada pelo público na ocasião de seu lançamento, em 1982 – e hoje, quase 25 anos depois, tornou-se cult e é tido por muitos, muitos mesmo, como um clássico indubitável. Será este o destino de Fonte da Vida? Nada como um dia após o outro.

A história de Fonte da Vida, ao melhor estilo As Horas, acompanha três contos em paralelo: a primeira, ambientada no século XVI, narra a obstinada busca do explorador espanhol Tomas Crep (Hugh Jackman, uma escolha perfeita para o papel) à lendária Árvore da Vida – uma entidade que, segundo prega a lenda, presenteia com o dom da imortalidade aquele que beber de seu néctar. Tomas acredita que a Árvore da Vida é a única salvação para livrar a Espanha de seus muitos inimigos, mas o que ele quer mesmo é conquistar o grande amor de sua vida, a Rainha Isabel (a oscarizada Rachel Weisz).

A jornada de Tomas Crep é lida pelo cientista Tommy Creo (Jackman) nos dias atuais. O livro é um presente de sua amada esposa, Izzy (Weisz). Fascinado pela leitura, Tommy toma aquela história para si e segue na desesperada busca de uma cura para o câncer em estado avançado que consome Izzy e, muito em breve, a levará para a morte. Finalmente, no século XXVI, o astronauta Tom (Jackman) encara o fato de que pode ter sofrido várias reencarnações e, ao lado das memórias de Izzy (Weisz), está prestes a descobrir a derradeira resposta para as questões fundamentais do universo e do sentido da vida. E não é 42! (desculpe a piadinha, não pude evitar). Enfim, as três tramas paralelas mostram Tom e suas variações em sua busca eterna… pela vida eterna.

O desenrolar de Fonte da Vida, aparentemente simples, é o que pega. Como eu disse lá em cima, é necessário ter uma afinidade com o jeitão de Darren Aronofsky para catar o sentido da fita. Sim, todos os elementos característicos do meliante, ou pelo menos a maioria, estão lá. Marcam presença as pontinhas de seus atores preferidos, Ellen Burstyn (ótima!), Mark Margolis e Sean Gullette (o anti-herói de Pi), o criativo uso de câmera, a montagem extravagante, a marcante trilha sonora de Clint Mansell… aliás, a trilha é excelente! Clint Mansell acabou de entrar na minha listinha de “grandes compositores de cinema”, ao lado de Howard Shore, Jon Brion, Bernard Herrmann, Mark Mothersbaugh e Angelo Badalamenti.

Voltando, todas as características de Darren Aronofsky estão em Fonte da Vida, mas seu resultado final é, digamos, um pouco diferente. É inegável que o longa é recheado de qualidades: o elenco está nada menos que impecável e o aspecto visual da produção é de encher os olhos. Por outro lado, o roteiro de Fonte da Vida poderia ter sido melhor trabalhado… na verdade, até melhor simplificado. Perde-se muito tempo criando situações para esconder as muitas metáforas existencialistas do enredo, que algumas situações parecem demasiadamente forçadas, escritas às pressas. Um pecado, visto que a maior qualidade dos filmes do diretor é justamente sua facilidade em transmitir suas idéias. Somando-se a este defeito, temos também o uso exagerado do visual; talvez a produção não soasse tão pretensiosa se Aronofsky lapidasse a fotografia e não se excedesse tanto na plástica do filme.

Bem, então… qual é o saldo geral, afinal de contas? É uma questão de ponto de vista, como disse lá em cima. Confesso que minha primeira impressão ao sair da sala de cinema foi razoável. No momento, achei bem mais ou menos, de verdade. No entanto, algum tempo depois me peguei pensando, repassando em minha mente cada uma das seqüências, e encontrei diversos significados que, no calor da sessão, passaram batidos. Com algumas idéias amadurecidas, repensei meu parecer e cheguei à conclusão final de que adorei cada segundo de Fonte da Vida. Hoje, digo que é um dos meus preferidos do ano.

Ainda assim, mantenho firme minha posição: se você não é fã de Darren Aronofsky, não tente curtir. Todo cinéfilo sabe que estamos falando de um cineasta sem concessões, que não se rende fácil ao esquemão hollywoodiano e está mais preocupado em contar suas histórias à SUA maneira – o que, diga-se de passagem, não agrada a muitos. Ao final, Fonte da Vida revela-se nada mais do que um belo filme independente disfarçado de superprodução e vendido da forma mais errada possível. Eu achei o máximo, mas se você odiar, eu entenderei e lhe darei razão. Uma coisa, entretanto, é inquestionável: Darren Aronofsky está caminhando a passos largos para se tornar uma referência obrigatória no futuro. Enquanto Tomas Crep quer a eternidade, Aronofsky aparentemente já conseguiu faz tempo.

Ah, sim, uma correção: Fonte da Vida não é, na verdade, sobre o amor. É sobre o medo do homem em enfrentar a chegada de um futuro iminente e, conseqüentemente, a PERDA trágica do amor. Ou seja, no final das contas, Darren Aronofsky continua sendo o mesmo bastardo insano e psicótico de sempre. ;-)

CURIOSIDADES:

• Se você achar os efeitos visuais de Fonte da Vida meio, ahn, “esquisitinhos”, não repare. É que o diretor recusou-se terminantemente a fazer bom uso do batido CGI. A exemplo de Francis Ford Coppola no maravilhoso Drácula de Bram Stoker, Aronofsky preferiu desenvolver uma nova técnica de efeitos visuais, criadas através do uso da micro-fotografia de reações e experiências químicas. O resultado ficou fascinante e totalmente experimental, mas muita gente vai achar tosco, já vou avisando.

• Em 2002, Fonte da Vida representaria a esperada união de dois astros cultuadíssimos do cinema atual: Brad Pitt, que viveria Tom (e suas variações), e Cate Blanchett, que assumiria o papel de Izzy. Quando Pitt se desligou do projeto, Blanchett também pulou fora. Curiosamente, os dois só conseguiram atuar juntos também em 2006, no elogiado drama Babel, de Alejandro González-Iñarritú, ainda inédito em nossos cinemas.

• A trilha sonora composta por Clint Mansell para Fonte da Vida foi interpretada também pelos caras do Kronos Quartet (que já trabalharam com o músico em Réquiem para um Sonho) e pela banda de rock escocesa Mogwai.

• Repare que evitei tecer comentários a detalhes da produção, algo que sempre faço. Foi por uma boa causa. Acredite, qualquer detalhezinho entregue pode matar a experiência.

• Brad Pitt desistiu de Fonte da Vida para poder atuar no babaquinha Tróia. Primeiro fez isto e depois deu um pé na buzanfa da Jennifer Aniston. Burrinho.

THE FOUNTAIN • EUA • 2006
Direção de Darren Aronofsky • Roteiro de Darren Aronofsky
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Sean Gullette, Stephen McHattie, Cliff Curtis, Ethan Suplee, Sean Patrick Thomas.
96 min. • Distribuição: 20th Century Fox/Warner Bros.


Spunk: The Official 1977 Bootleg Album

03/01/2010

Crítica de Música – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 26/12/2006, e no Whiplash.Net, em 12/01/2007.

É bem verdade que o lendário Sex Pistols é um dos alicerces do movimento punk que reinou na Inglaterra – e no resto do planeta – a partir do final dos anos 70 até meados dos 80, e que tem seguidores fiéis até hoje (viva Manchester!). É bem verdade também que a banda é amada e odiada na mesma proporção por muitos dos próprios fãs do punk-rock, que sentiram-se traídos depois que os Pistols simplesmente renegaram os rótulos que ajudaram a criar. Tudo isto colaborou para a aura mitológica que ergueu-se em cima da banda, que ganhou uma série de coletâneas tidas “não-oficiais” (como o essencial Kiss This), além de camisetas, bandanas (eu tenho uma!) e tralalá e trololó.

Para entender, portanto, a importância de Spunk: The Official 1977 Bootleg Album (1977/2006), bootleg do grupo liderado pelo senhor Johnny Rotten que finalmente chega ao formato do disquinho, basta dizer que este é, basicamente, o raro PRIMEIRÍSSIMO disco da banda. Bem, mais ou menos: Spunk é, na verdade, uma compilação dos primeiros demos gravados pelos Sex Pistols e que, poucos meses e algumas modificações depois, formariam a tracklist de seu primeiro álbum de estúdio oficial, o notório Never Mind the Bollocks Here’s The Sex Pistols (1977). Por 30 anos, Spunk rodou o mundo apenas em versão pirata e pouquíssimas cópias. Em seu trigésimo aniversário, nada mais justo e oportuno do que um lançamento digno em CD, com toda a qualidade de áudio que o formato proporciona. :-)

Por outro lado, a importância do bootleg restringe-se somente ao lado histórico da coisa, mesmo.

Não, não me xingue, eu explico: antes que qualquer um saia por aí desesperado atrás do CD, digo logo que, se você é um fã ardoroso dos Pistols e já dispõe de todo o material dos caras lançados até então, este álbum aqui deverá constar em sua estante única e exclusivamente por razões sentimentais. Não há nenhuma faixa inédita, não há nenhuma novidade escondida: Spunk traz todas aquelas velhas, boas e lendárias canções que já figuraram nas zilhões de coletâneas da banda. A diferença é que estamos falando de um material ainda cru, sofrendo mudanças, sendo aprimorado, com os arranjos de algumas faixas bem diferentes das “versões oficiais” que conhecemos. Aliás, é bem evidente aqui a influência dos novaiorquinos do New York Dolls, elemento que a banda sempre tentou encobrir.

O destaque, como era de se esperar, fica para os clássicos, que aparecem aqui com seus nomes originais. Nookie, por exemplo, é somente Anarchy in the U.K. com um título diferente; a clássica God Save The Queen dá as caras como No Future; e por aí vai. O diferencial é mesmo o arranjo mais “calminho” que caracteriza os demos: as músicas são executadas de um forma nitidamente descompromissada, leve até, e em algumas faixas (como na ótima Satellite, um bem-bolado cover de Lou Reed) Rotten não sente culpa em errar a letra ou engasgar disfarçadamente. O curioso é que dá para perceber que, às vezes, uma guitarra executada de modo diferente pode mudar tudo: uma de minhas músicas preferidas, Pretty Vacant, ficou ainda mais legal como Lots of Fun, sua versão demo. Com relação às outras, entretanto, ficou basicamente o mesmo.

Para um fã da banda como este que vos fala, o que mais valeu neste álbum foi mesmo a participação de Glen Matlock, o então baixista oficial da trupe que caiu fora em meados de 77, dando lugar àquele sujeitinho maluco e desconhecido chamado Sid Vicious. Sério, comparando os dois, dá a impressão de que os Pistols simplesmente sofreram uma overdose de adrenalina com a chegada de Vicious. A versão de God Save The Queen apresentada em Spunk é um belo exemplo de como Vicious injetou uma dose de eletricidade na banda que, até então, era até meio “moderadinha” para os padrões do gênero.

Atenção para No Fun, um bem-sacado cover não-editado dos Stooges. Aquilo NÃO PARECE Sex Pistols, meu! A não ser a partir de sua metade, quando aparentemente o baterista Paul Cook enfiou a baqueta na tomada, levou um choque e despirocou na batera. Aí Rotten começou a gritar feito um doido e então já viu. :-D

Num saldo geral, Spunk não foge à regra da discografia da banda. Trocando em miúdos, é um álbum para fãs e ponto. Se você é adepto do som dos Sex Pistols, você se sentirá na pele de um espectador convidado de uma jam session e, vamos lá, a gente sabe como isto é delirante. Não é, contudo, um disco fundamental para qualquer um que curta punk-rock em sua essência. Serve mais como uma espiada curiosa nos bastidores do início de uma era de ouro na música britânica. Ah sim, e o Johnny Rotten é o maior legal! Ele certamente compareceu mamado à gravação destas demos! Novidade, não? ;-)

SPUNK: THE ORIGINAL 1977 BOOTLEG ALBUM • SEX PISTOLS • ING • 1977/2006
Line-Up: Johnny Rotten (vocais), Steve Jones (guitarra), Paul Cook (bateria), Glen Matlock (baixo entre 1975 e 1977), Sid Vicious (baixo entre 1977 e 1978)
15 faixas • 56 min. • Distribuição: Dynamo Records.


Carrie, a Estranha

03/01/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/08/2006.

“Afe, escrever um parágrafo só para esta matéria é dose, já que eu sou um dos caras mais cagões da face do planeta Terra e me borro de medo de qualquer filmeco de terror, principalmente os pseudo-filmes dirigidos pela Eliana Fonseca (espero que ela não se ofenda). Um, entretanto, me tirou o sono violentamente, e talvez por ser o primeiro longa-metragem de horror que lembro ter assistido, ainda um mero pivete, ficou muito marcado.

Carrie, a Estranha (Carrie, 1976), inspirado num conto (ou seria romance?) de Stephen King, é apavorante por várias razões, mas acho que a principal é por ser tão próxima da realidade – ao contrário dos filmes do mesmo gênero que vi mais ou menos na mesma época, nas gloriosas sessões macabras do Tela Quente, como Poltergeist – O Fenômeno. Aqui, não tem fantasmas e coisas do tipo; apenas uma louca dotada de poderes psíquicos e com muita sede de sangue…

A história da adolescente retraída e paranormal vivida por Sissy Spacek, que decide empreender uma vingança incendiária contra seus pseudo-amigos de escola que lhe deram um banho de sangue de porco em plena festa de formatura, já é de tirar o sono por si só; pra piorar, Brian DePalma ainda fez a gentileza de dividir a tela em duas e três partes para mostrar a agonia do povo em seus mínimos detalhes. Mínimos MESMO! Nunca me esqueço, por exemplo, do horroroso destino da treinadora… Ugh! A seqüência final, então, é a grande responsável por meu grande medo de cemitérios.

Até hoje, Carrie é o filme que mais me perturbou na hora de dormir, ao lado de A Bruxa de Blair – e talvez o único que eu ainda não tenho coragem de assistir à noite de forma alguma.”

CARRIE • EUA • 1976
Direção de Brian De Palma • Roteiro de Lawrence D. Cohen
Baseado no romance de Stephen King
Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Betty Buckley, John Travolta, Nancy Allen, P. J. Soles, Piscilla Pointer.
98 min. • Distribuição: United Artists.

 

…SOBRE CARRIE, A ESTRANHA
Trecho da matéria coletiva FILMES DE HORROR DE TIRAR O SONO
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 16/08/2006
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem TERROR EM SILENT HILL (Silent Hill).


Os Piratas Invadem o Cinema

03/01/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/07/2006.

Não apenas um inesperado e gratificante sucesso de bilheteria, o divertidíssimo Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, que SÓ O FANBOY NÃO GOSTOU, representou também o retorno magistral às telonas de um gênero totalmente desgastado e a quebra de uma regra já tradicional no cinema de entretenimento até então. Afinal, os pouquíssimos filmes de piratas que surgiram nos cinemas nos últimos anos, à exceção deste próprio, resultaram em fracassos retumbantes de bilheteria – e em filmecos ruinzinhos que só eles… o que aparentemente daria continuidade a esta “tradição”, fez exatamente o contrário.

E se Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest), que chega aos cinemas nesta semana, revitalizará o subgênero de vez, só alguns aninhos dirão. Mas que merece, merece! :-D

A FORMAÇÃO DA ESTRUTURA PIRATA NOS ANOS 20

O cinema-pirata (favor não confundir com pirataria… hehehe) surgiu com o advento dos filmes de aventura, isso lá pelos anos 20, e ao lado das produções capa-e-espada (como Zorro), fez muito sucesso nas telonas. Seu primeiro título significativo foi The Black Pirate (1926), superprodução em cores dirigida por Albert Parker e estrelada pelo rei dos primórdios do cinema-pipoca, Douglas Fairbanks – intérprete de outras nobres figuras como D’Artagnan e o próprio Zorro.

Além de bastante engraçado, ainda que totalmente datado, The Black Pirate (que conta a história de um homem que infiltra-se em uma gangue pirata para vingar a morte de seu pai) serviu também para fixar os alicerces do subgênero – para ser um bom filme de pirata, era obrigatório ter uma história mais do que rocambolesca, ação desenfreada, locações em ilhas desconhecidas, tesouros escondidos e, claro, a mocinha que começa a história como vítima do ataque dos piratas e termina como aliada e interesse amoroso para o astro da história. Os efeitos visuais, que utilizam miniaturas e imagens do longa mudo The Sea Hawk (1924), são risíveis hoje em dia, mas em sua época, eram um fenômeno.

O gênero fortaleceu-se com a chegada de um astro que mexeu com o público nos anos 30: Errol Flynn. Flynn estrelou o fantástico Capitão Blood (1935) ao lado de Olivia de Havilland e com direção de Michael Curtiz. A fita, que readapta a história de Robin Hood, mostra um médico condenado injustamente por roubo em 1685, que foge da cadeia e decide tornar-se um pirata para “tirar dos ricos e dar aos pobres”. A parceria entre Curtiz e Flynn rendeu mais um longa de piratas em 1940, o ótimo O Gavião do Mar, que conta a história de Geoffrey Thorne (Flynn), um aventureiro contratado pela Rainha Elizabeth I em pessoa para subjugar a armada espanhola, que pretende atacar a Inglaterra, mas que questiona sua posição ao se apaixonar por uma bela tripulante inimiga, Dona Maria (a simplesmente sensacional Brenda Marshall).

OS ANOS 40 E 50: A ERA DE OURO DAS GARRAFAS DE RUM

As investidas de Douglas Fairbanks e Errol Flynn ao subgênero dos piratas instigou os estúdios. Em 1934, por exemplo, a Metro-Goldwyn-Mayer tratou de filmar A Ilha do Tesouro com o popularíssimo Wallace Beery e o pivete Jackie Coogan (que muitos anos depois, tornaria-se o mal-humorado Perry White dos longas do Superman com Christopher Reeve). A Ilha do Tesouro – cujo comando ficou a cargo do mesmo Victor Fleming que cinco anos depois entraria para a história ao dirigir as grandes obras-primas O Mágico de Oz e E o Vento Levou – foi refilmado em 1950 por Byron Haskin (o mesmo que dirigiu a primeira e única versão de A Guerra dos Mundos que vale alguma coisa) e também rendeu um filminho estrelado pelos Muppets em 1996 e um fracassado animado futurista da Disney em 2002, Planeta do Tesouro – que provavelmente só o Fanboy assistiu.

Outros notórios longas que beberam nesta fonte foram: Os Mares da China (1935), cujo elenco era formado pelo adorado Clark Gable e pela gloriosa vênus platinada Jean Harlow; A Princesa e o Pirata (1944), mistura de ação e comédia que serviu de veículo cômico para a dupla de comediantes Bob Hope e Virginia Mayo; Capitão Kid (1945), clássico da Sessão da Tarde com elenco formado por Charles Laughton, Randolph Scott e John Carradine; e o não menos importante O Corsário sem Pátria (1958), com direção de Anthony Quinn e atuação de Charlton Heston e um Yul Brynner em início de carreira.

Os cinemas deste período também presenciaram a febre das serials (quer saber o que é serial? Procure neste notório website a matéria sobre serials que lá eu te explico!). E claro que os piratas não poderiam ficar fora desta: pelo menos dois trabalhos em forma de seriados trabalharam esta temática em grande estilo, e estes dois trabalhos atendem pelos nomes de The Sea Hound (1947), uma das mais elogiadas serials de todos os tempos (não à toa, seu astro era ninguém menos que Buster Crabbe, o rei dos seriados de cinema), e As Aventuras do Capitão Kid (1953), com John Crawford e duração de 15 capítulos.

O DECLÍNIO E A QUASE EXTINÇÃO…

Mas tudo que sobe, um dia tem que descer… e se os piratas gozaram de absoluta popularidade nas décadas de 40 e 50, os anos 60 chegaram e trouxeram o declínio ao lado de paupérrimas e tenebrosíssimos produções oriundas principalmente da Itália. Fitas como La Venere Dei Pirati (1960), Morgan Il Pirata (1961), Il Leone di San Marco (1963) e I Pirati della Malesia (1964) ajudaram a enterrar o gênero, que já sofrera um desgaste por conta do interesse do público em filmes mais maduros.

Um dos primeiros a tentar trazer os baderneiros dos sete mares de volta à vida no celulóide foi Roman Polanski, no ultra-mega-hiper-super-fuckin-fracassado Piratas (1986), comédia de humor-negro que tentou seguir a mesma fórmula de sucesso do bacanudo A Dança dos Vampiros (1967) e acabou se dando mal – custou cerca de US$ 40 milhões e só rendeu 1,6 milhões de doletinhas… Ainda que fracassado, é errado dizer que Piratas é ruim. Não é lá aquela maravilha, mas vale uma espiada, nem que seja para se deliciar com a megnífica interpretação de Walter Matthau na pele do psicótico Capitão Red, astro da película.

AS TENTATIVAS DE REVITALIZAÇÃO

Três anos antes, chegou às telas a divertida adaptação do espetáculo da Broadway The Pirates of Penzance (1983), do compositor de óperas William S. Gilbert, também conhecido como Gilbert & Sullivan. The Pirates of Penzance, comédia-musical que acompanha um jovem (Kevin Kline) que torna-se o Rei dos Piratas por engano, foi um tremendo fiasco de bilheteria por conta de um capricho dos produtores – o que acontece é que a produção foi exibida simultaneamente no cinema e na TV, mais exatamente na emissora SelecTV, de Los Angeles; irados, os exibidores e donos de cinemas simplesmente boicotaram o filme, tirando-o do circuito em seu segundo dia de exibição. Apenas uma sala de cinema nos EUA, localizada em Washington, manteve Pirates rodando por mais de uma semana. O que não adiantou muito, já que quem realmente queria ver o filme, não se incomodou em sair de casa e preferiu ver na telinha mesmo.

A maldição continuou em 1991, com a chegada aos cinemas do ambicioso Hook – A Volta do Capitão Gancho de Steven Spielberg, livre adaptação da clássica trama de Peter Pan centrada em seu vilão, o maligno Capitão Gancho (Dustin Hoffman), talvez o pirata mais famoso da história – depois de Jack Sparrow, claro! Hehehe. Relativo fracasso em números – rendeu US$ 119 mi só nos EUA, cifra considerada baixa para seu custo de mais de US$ 70 milhões – e massacrado pela crítica, Hook não decolou como o esperado. O mesmo aconteceu com o engodo A Ilha da Garganta Cortada (1995), dirigido por Renny Harlin e estrelado por Matthew Modine e Geena Davis: a brilhante direção de arte não conseguiu disfarçar o péssimo enredo e ninguém caiu na teia. Resultado? Rendeu apenas US$ 10 milhões, e olhe que custou US$ 92 milhões! :-P

O subgênero dos piratas só voltou mesmo a cair nas graças do público com um certo longa-metragem lançado em 2003, com um certo Johnny Depp, inspirado em uma certa atração de um certo parque temático estadunidense… mas isso é outra história! ;-)

PIRATAS ANIMADOS, ENGRAÇADOS E SAFADINHOS

Obviamente, estas figuras não se restringiram apenas ao gênero de ação. Além dos já citados Planeta do Tesouro e Os Muppets na Ilha do Tesouro, os piratas também serviram de inspiração para vários desenhos animados, estrelados por figuras tarimbadas como Mickey Mouse (em Shanghaied, de 1934), Popeye (Popeye e os Piratas, de 1947), Scooby-Doo (Scooby-Doo na Ilha dos Zumbis, 1998, além de milhaaaares de episódios de seu desenho sessentista) e principalmente Looney Tunes – os maiores algozes dos saqueadores dos mares, geralmente vividos por Hortelino Troca-Letras ou Eufrasino Puxa-Briga, eram Pernalonga e o bizarro galo Frangolino (hehehehe!). Isto, sem contar os indivíduos que protagonizaram a excelente e já antológica seqüência de abertura do maravilhoso desenho animado em longa-metragem do Bob Esponja! :-D

Até o cinema pornô se rendeu à febre. Pirates, épico (leia-se: filme de suadeira com historinha) dirigido por Joone (?) e estrelado por Janine, ganhou nada menos que 11 prêmios no último AVN Awards, o Oscar do pornô. E olha, independente das cenas mais, ahn, “nervosas” (:-D), devo dizer que o trailer desta pérola do cinema pornográfico tem, no mínimo, uma produção muito bem cuidada! Não, ainda não assisti, um amigo meu que me contou, tá? :-D

E AGORA? O QUE DEVEMOS ESPERAR DESTE SUBGÊNERO?

Por enquanto, só mesmo a terceira parte de Piratas do Caribe, batizada Pirates of the Caribbean: at World’s End e com previsão de chegada aos cinemas no próximo ano. Mas se render bons frutos – e certamente ninguém tem dúvidas disso -, podemos esperar muito, muito mais. E de preferência, com o infame Jack Sparrow no meio. :-D

OS PIRATAS INVADEM O CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 20/07/2006
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem PIRATAS DO CARIBE: O BAÚ DA MORTE (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest).