Os espiões mais bacanas do cinema

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/09/2004.

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Qual é, afinal, a graça toda nas fitas estreladas por James Bond, o tal agente secreto 007? Bem, vejamos: a ação desenfreada, as tramas rocambolescas e cheias de pequenos detalhes, as missões aparentemente impossíveis, os divertidíssimos e ultra-caricatos vilões, as geringonças que fazem o sonho de qualquer um, os carrinhos mega-possantes, as belas e inocentes mulheres (inocentes? hum, até parece)… 007 é, na verdade, um indivíduo que representa o desejo de consumo de qualquer ser humano interessado em um pouquinho de aventura; um detalhe que, pra falar a real, não é exclusividade deste espião, mas também de qualquer personagem que tenha este, bem “emprego”. Em uma linha, 007 – e qualquer espião que se preze – conquista a negada porque, no fundo, todo mundo queria ser igual a ele. ;-)

Os filmes de espiões têm este diferencial: é muito fácil a identificação do público com o mocinho. Afinal, quem neste mundo não gostaria de estar na pele de alguém que viaja pelos quatro cantos do planeta, ganha um salário altíssimo, vive no limite e ainda cata as mais lindas mulheres? Além disso, este subgênero responde por cerca de 80% das produções de ação que chegam todo ano a nós, espectadores. Só para se ter uma idéia, um banco de dados virtual americano constatou que existem mais de 1.400 longas e curtas-metragens só nos Estados Unidos envolvendo espiões, detetives e afins. É número a dar com o pau! :-)

COMO SURGIU ESSE LANCE TODO?

Não se sabe exatamente como e quando o subgênero surgiu, mas uma das primeiras fitas a tratar do assunto, mesmo que indiretamente, foi Boots, filme mudo comandado por Elmer Clifton em 1919. A trama silenciosa envolve uma sapateira inglesa viciada em livros de aventuras (interpretada por Dorothy Gish) que, meio que sem querer, descobre um plano bolchevique para eliminar um funcionário do governo e resolve assumir a identidade do herói de um dos livros que lê para impedir que isto aconteça. Uma curiosidade: Dorothy Gish, considerada uma das mais belas atrizes dos anos 20, nasceu em 1898 e faleceu em 1968, aos 70 anos. A atriz atuou em 121 longas-metragens a partir de 1912. Abandonou as telas em 1927, por ser uma das centenas de profissionais a se rebelar contra a indústria cinematográfica com o advento do cinema falado.

Enfim, Boots foi bem visto na Inglaterra e nos Estados Unidos e sua popularidade abriu algumas portas. Logo, vários outros filmes exploraram os agentes secretos. Mas o gênero só ganhou mesmo notoriedade pelas mãos de Alfred Hitchcock, que nos trouxe pérolas como Os 39 Degraus (1935), Sabotagem (1936), O Agente Secreto (1936), Interlúdio (1946) e aquele que é tido até hoje como o “pai” da espionagem, O Homem que Sabia Demais (1934), e a partir daí vieram muitos outros. Inspirado nisso, resolvi relacionar aí embaixo alguns dos agentes secretos (das mais variadas espécies) mais legais que chegaram às telonas – mas veja bem, como não dá pra citar quase mil e quinhentos caras aqui, falarei só de alguns (e o 007 vai ficar de fora porque é clichê – e também porque já tem este especial gigantesco!).

• O RETARDADO

Maxwell Smart, mais conhecido como o Agente 86, sempre foi um dos caras mais estúpidos da história da espionagem. Uma sátira descarada da série de James Bond, o personagem criado por Mel Brooks e interpretado pelo saudoso Don Adams enlouqueceu sua parceira burrinha, a Agente 99 (Barbara Feldon), e conquistou o mundo na década de 60 com seu fabuloso seriado cômico. Até que, em 1980, chega aos cinemas seu primeiro filme, a comédia A Bomba que Desnuda (The Nude Bomb), dirigido por Clive Donner. A trama não fez feio aos absurdos que rolavam na telinha: Smart vê sua aposentadoria ser interrompida quando é chamado para descobrir quem é o louco que criou uma bomba que, ao explodir, carboniza as roupas das pessoas (!), deixando-as nuas. Na época, o longa foi acusado de “ofensivo à moral e os bons costumes” (principalmente por ter no elenco Sylvia Kristel, a mocinha alegre do clássico erótico Emmanuelle), tornando-se um fracasso de bilheteria, mas hoje em dia é considerado uma excelente comédia.

Por que está nesta lista: Apesar de ser uma toupeira, o Agente 86 nunca era descoberto e sempre elucidava o mistério no final – mesmo que o fizesse por puro acaso.

• O CALCULISTA

No fantástico A Caçada ao Outubro Vermelho (The Hunt for Red October, 1990), o sossegado analista da CIA Jack Ryan (Alec Baldwin) não chega a ser exatamente um agente secreto, mas funciona como tal. Afinal, sua função é investigar na surdina e tentar, de uma maneira ou de outra, impedir um ataque em massa ao submarino Outubro Vermelho, conduzido pelo capitão soviético Marko Ramius (Sean Connery), que contrariou ordens superiores e está guiando o submarino em direção a América. Na visão dos russos, Ramius é um desertor. Já para os americanos, uma guerra está para começar. Para atingir seu objetivo, Ryan move montanhas sem precisar utilizar a força bruta uma única vez. A Caçada ao Outubro Vermelho, dirigido por John McTiernan (Predador, Duro de Matar) a partir do romance de Tom Clancy, se tornou o maior sucesso de bilheteria em 1990, rendendo mais de US$ 200 milhões no mundo todo e vendendo mais de 6 milhões de exemplares do livro só nos EUA. Além disso, o trabalho consolidou a carreira de atores como Sam Neill (Jurassic Park) e Scott Glenn (O Silêncio dos Inocentes).

Por que está nesta lista: Mesmo sendo somente um analista, Jack Ryan mostrou que tem culhões e acabou ganhando uma promoção, tornando-se um respeitado agente nos livros (e filmes) seguintes, Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato – isto, sem contar o prequel destas histórias, o divertido A Soma de Todos os Medos.

• O INEXISTENTE

Quem aí se lembra do clássico da sessão da tarde Os Heróis Não Têm Idade (Cloak & Dagger, 1984)? O divertido longa dirigido por Richard Franklin marcou a infância de muita gente – inclusive eu – ao traduzir em imagens o espírito infantil de todo “futuro nerd” de participar de zilhões de aventuras ao lado de seu herói predileto. Davey (Henry Thomas, E.T., O Extraterrestre), de 11 anos, é órfão de mãe e sofre com a ausência do pai, que vive para o trabalho. Para não enlouquecer, Davey passa os dias a jogar seu game predileto, Cloak & Dagger, protagonizado pelo super-espião Jack Flack. Quando um agente do FBI prestes a ser assassinado cruza seu caminho e lhe entrega um cartucho de videogame com dados confidenciais, Davey se torna um alvo em potencial. Para escapar desta – já que nenhuma adulto acredita em sua história -, o garoto conta com a ajuda de seu “amigo imaginário” Jack Flack (vivido pelo sumidaço Dabney Coleman, que também interpreta o pai de Davey). O longa, escrito por Tom Holland, rendeu bem menos do que o esperado nas bilheterias na época de seu lançamento, mas este detalhe não o impediu de marcar uma geração.

Por que está nesta lista: Orra, e ainda tem dúvida? Jack Flack alimentou as fantasias de muita criança por aí! E a cena final no avião é arrasadora… fantasia pura!

• A BAGACEIRA

Todo mundo sabe que os ianques guardam um preconceito enorme com relação às fitas faladas em idiomas não-inglês. Esse rancor não foi um empecilho para o desempenho arrasador em terras gringas de uma pequena produção B da França em 1990. Esta fita arrecadou US$ 5 milhões em apenas três semanas numa boa – tudo bem, parece pouco se compararmos com os números de hoje, mas vamos levar em consideração que o filme é estrangeiro, e naquela época não era tudo tão supervalorizado. Bem, a fita em questão é o filmaço Nikita – Programada para Matar (La Femme Nikita, 1990), do hoje consagrado Luc Besson (Imensidão Azul). No enredo, uma garota chamada Nikita (a maravilhosa Anne Parillaud) se chapa de drogas junto a dois amigos niilistas e comete furto e assassinato. Ao invés de ser presa ou condenada à morte, porém, Nikita é enviada para uma escola especial ultra-secreta, onde é treinada para “reembolsar a sociedade” por seus atos de vandalismo. Como? Se tornando uma espiã e assassina profissional a mando do governo. Nikita lançou a carreira de Luc Besson, que mais tarde viria a dirigir obras como o poético Léon – O Profissional, a malfadada ficção O Quinto Elemento e o controverso Joana D’Arc. Além disso, abriu caminho para uma bem-sucedida franquia que conta com a refilmagem A Assassina, de John Badham e estrelado pela linda Bridget Fonda, e o seriado La Femme Nikita, com a tentativa de atriz Peta Wilson.

Por que está nesta lista: Quase uma versão mais bagaceira de 007, Nikita é capaz de matar alguém na sua frente, desaparecer em segundos e você nem notar. A menina também é expert em armas e deixa todos os homens babando por onde passa – o que muito contribui para o sucesso de suas missões.

• O SARADÃO

O conceito básico de Nikita ganhou uma nova roupagem em 2000, resultando num trabalho controverso, porém bem-sucedido financeiramente. Em Triplo X (xXx), Xander Cage (Vin Diesel, no papel que o alçou à condição de astro de filmes de ação), viciado em esportes radicais, é um meliante forçado por um agente da NSA (Samuel L. Jackson) a cooperar com o governo numa investigação. Para não parar na prisão, Cage deve se infiltrar numa criminosa facção russa. Adicione a este ingrediente um diretor e um produtor cuja parceria anterior deu muito certo (no caso, Rob Cohen e Neal H. Moritz, a mesma dupla de Velozes e Furiosos), o protagonista deste mesmo longa, uma trama recheada de situações de risco, cenas mirabolantes e pronto: aproximadamente US$ 150 milhões de doletas em apenas um mês e meio só nos Estados Unidos e uma horrorosa seqüência que chegou às telonas do planeta em 2005 (com o rapper Ice Cube ocupando a vaga do carequinha). E o filme é bom? Bem, é divertido mas facilmente descartável. Mas querer exigir muito de um filme de pancadaria é o mesmo que querer encontrar diálogos shakesperianos em fita pornô, não é mesmo?

Por que está nesta lista: O jeitão bem humorado de Xander Cage faz qualquer um torcer por ele. E qualquer fita com a magavilhosa Asia Argento no elenco merece estar em qualquer lista!

• A ENTEDIADA

Esqueça Arnold Schwarzenegger e esqueça James Cameron. O verdadeiro dono do excelente True Lies (1994) não é “dono”, e sim “dona”: Jamie Lee Curtis. A “rainha do grito”, revelada no clássico do terror Halloween, andava meio escondida, trabalhando em pouquíssimos projetos, até que arrasou com sua hilariante interpretação da dona de casa cujo marido, um vendedor de computadores, é na verdade um hiper-ultra-mega agente secreto. Entediada com sua vida de mulher do lar, Helen Tasker acaba se envolvendo com um suposto “espião”, e termina no meio de uma complicada rede envolvendo terroristas árabes – por sinal, investigados pelo seu esposo. Contar mais da história estraga: True Lies é daquele tipo de filme que não pode ser resumido em uma ou duas linhas. Refilmagem de La Totale!, longa francês de 1991 do cineasta Claude Zidi, True Lies é considerado um dos melhores filmes da carreira de James Cameron, e ainda conta com a belíssima Tia Carrere (Quanto Mais Idiota Melhor), Tom Arnold (Contra o Tempo) e um dos atores mais legais dos últimos anos, Bill Paxton (que se revelou na direção com o filmaço A Mão do Diabo) no elenco.

Por que está nesta lista: A personagem de Jamie Lee Curtis é a tradução perfeita daqueles que sonham com uma vida de aventuras – o que torna muito fácil a identificação e a empatia com ela. E a cena do strip-tease é simplesmente a melhor seqüência cômica de 1994.

• O PERVERTIDO

E por falar em comédia, é impossível escrever um artigo sobre espiões sem citar o tarado Austin Powers (Austin Powers: International Man of Mystery, 1997), de Jay Roach – tudo bem que a gloriosa Srta.Ni já falou bastante do meliante aqui nesta matéria. Por isto mesmo, se você está afim de saber mais a respeito deste indivíduo, é só ler a matéria da nossa querida nerd-girl neste link aqui! Vai fundo e be happy. ;-)

Por que está nesta lista: Austin Powers é James Bond em todos os aspectos. A não ser, claro, pelos dentes tortos e aqueles babados todos em suas roupas…

• O PIVETE

Cody Banks é um garoto como qualquer outro. Gosta de skate, detesta matemática e é um completo idiota quando o assunto é garotas. O que ninguém sabe é que Cody Banks é parte integrante de um complexo programa de agentes da CIA – mesmo tendo apenas 16 anos. Este é o mote de O Agente Teen (Agent Cody Banks, 2003). Em sua primeira lição, Banks deve se aproximar de uma garota cujo pai é um renomado cientista que trabalha para a vilanesca corporação ERIS. O problema todo é que a maior tragédia imaginável é fichinha perto do terror que é o garoto tentando conquistar uma menina! O Agente Teen chegou aos cinemas meio tímido e construiu uma carreira sólida entre os adolescentes, graças ao roteiro bem escrito e o apelo do ator principal, o estranho e hilário Frankie Muniz (Malcolm In The Middle). Também ganhou uma continuação: O Agente Teen 2, Missão Londres (Agent Cody Banks 2: Destination London, 2004), que no momento está em exibição nos cinemas.

Por que está nesta lista: Apesar de ser uma película direcionada aos adolescentes, correndo o risco de parecer até meio bobinha para os mais velhos, é impossível não cair na gargalhada com as expressões e os trejeitos de Cody Banks. E quem acompanhou Malcolm In The Middle sabe do que Frankie Muniz é capaz.

• O ESQUECIDINHO

E para encerrar esta matéria, nada melhor do que revisitar um dos agentes secretos mais divertidos a aportar nos cinemas nos últimos anos: o desmemoriado Jason Bourne (Matt Damon), que um belo dia acordou em uma idílica praia do Mar Mediterrâneo… com o corpo totalmente cravado de balas. Sem fazer ideia de quem é ou do que faz de sua vida – a única coisa que sabe é seu nome -, Bourne consegue sobreviver graças ao auxílio de um médico e descobre em seguida que possui um misterioso chip implantado em sua perna. Assim, Jason Bourne passa a correr atrás de uma resposta para o mistério de sua verdadeira identidade: um espião no meio de uma complicadíssima trama de assassinato envolvendo o alto escalão da CIA… e que é perseguido por alguns figurões que desejam sua cabeça. A odisséia de Jason Bourne, personagem extraído de uma série de romances de Robert Ludlum que já fora adaptado para a TV em 1988 (com o tosco Richardo Chamberlain como protagonista), tem início no bacanésimo A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002), comandado por Doug Liman (Swingers: Curtindo a Noite, Vamos Nessa), ganha mais um capítulo com o excelente A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004), de Paul Greengrass – que comandou um dos melhores filmes dos últimos anos, Domingo Sangrento – e prepara-se para detonar novamente nas telonas em seu terceiro (e provavelmente último) episódio, O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum), a chegar aos cinemas em 2007. Juntas, as duas primeiras fitas da saga já renderam mais de US$ 300 milhões, só nos Estados Unidos.

Por que está nesta lista: Porque é ação pura, do início ao fim. Para resumir bem, digamos que a saga de Jason Bourne é como o filme mais eletrizante de James Bond já lançado… com uma carga bem maior de adrenalina. :-)

 

OS ESPIÕES MAIS “DUCA” DO CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 23/09/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem 007: CASSINO ROYALE.

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