O Cinema Made In Rússia

27/10/2009

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/11/2005.

O Cinema Made In Rússia

Não é de hoje que os longas-metragens estrangeiros têm um espaço significativo no circuito cinematográfico brasileiro. Até pouco tempo atrás, cinema de verdade “só vinha dos Estados Unidos” – pensamentozinho meio besta, por sinal. Aos poucos, alguns países conseguiram firmar uma indústria de cinema tão atuante quanto Hollywood, embora menos glamurosa e não tão deslumbrante mitologicamente falando. Assim, lá pelos idos do final da década de 80/início de 90, uma avalanche de produções de fora dos EUA aportou nos cinemas brazucas. Hoje em dia, é comum conferir a programação das salas de exibição e notar fitas nacionais, norte-americanas e estrangeiras dividindo espaço em pé de igualdade – quer dizer, QUASE em pé de igualdade, né? :-P

O que poucas pessoas desconhecem é que, se o movimento cinematográfico mundial existe com esta força colossal que vemos hoje, isto se deve ao empenho de uma série de profissionais que nadaram contra a corrente no final do século XIX e início do século XX, quando o cinema ainda era um “luxo” ou um “sonho impossível”. Dentre este seleto grupo, um dos núcleos mais significativos e importantes diz respeito aos… russos. Mas… hein? Como é que é? Na Rússia existe cinema? :-D

Sim, sim, existe um movimento na Rússia. Um movimento que, embora não seja tão intenso por conta das dificuldades financeiras pelas quais o país passa, definiu uma série de conceitos na indústria cinematográfica. É comprovado que o cinema contemporâneo norte-americano é um resultado dos avanços obtidos exclusivamente pelos russos. Só para citar um exemplo, os longas da antiga União Soviética renovaram a linguagem com um pequeno detalhe chamado montagem: nos anos 10, a ausência de película nas faculdades de Moscou levaram os estudantes a improvisar para poder dar seguimento aos seus estudos. Assim, uniram trechos de fitas famosas em rolos únicos, gerando películas praticamente novas. Estava criada a edição de filmes.

É também do cinema russo que veio a idéia de usar o celulóide para discutir posições e pontos de vista sérios e investigativos – o que gerou um dos mais importantes gêneros cinematográficos: o drama. Infelizmente, a ditadura stalinista limitou a cultura em seu país; e com ela, as produções russas – o que diminuiu a demanda consideravelmente. Com a Revolução de 1917, porém, a censura evaporou e muitos cineastas sedentos por novidades surgiram na área, desenvolvendo temas sempre ligados à política e religião. Nomes como Sergei M. Eisenstein e Dziga Vertov, atualmente tidos como gênios, criaram longas que, mais tarde, ditariam regras seguidas mundialmente até hoje.

Quase cem anos depois, o mundo finalmente vê com respeito a chegada de um filme russo de sucesso ao circuito comercial: o épico bizarro Guardiões da Noite (2004) de Timur Bekmambetov, primeiro de uma trilogia sobre a eterna batalha entre o bem e o mal. Neste meio tempo, obviamente, muitas fitas foram lançadas – algumas discretamente, outras praticamente escondidas, mas nunca com tanto marketing e tanto falatório em cima. Só pode ser um bom sinal, certo? Bem, independente das qualidades de Guardiões da Noite, nós, os caras legais d’A ARCA, decidimos elaborar esta singela listinha com uma série de produções russas mais do que obrigatórias. Portanto, se você se interessou… chitajte i naslazhdajtes’!

• O ENCOURAÇADO POTEMKIN, de Sergei M. Eisenstein

Simplesmente um dos maiores e mais eletrizantes clássicos de toda a história da sétima arte, O Encouraçado Potemkin (1925) definiu muitos dos conceitos do cinema político de hoje. Feito sob encomenda para comemorar os 20 anos da Revolução Soviética, a fita muda narra o dramático desenrolar de um motim de um grupo de marinheiros que, em 1905, rebelam-se contra seus comandantes ao serem forçados a comer carne estragada e tomam para si o controle da embarcação de guerra chamada Potemkin. A atitude desesperada de um dos oficiais do navio desencadeia uma tragédia sem precedentes. A produção deu uma guinada na carreira de Sergei Eisenstein, que mais tarde dirigiu os também clássicos Outubro (1927) e Ivan, o Terrível (1944/58), dividido em duas partes. O longa, homenageado por Brian DePalma na cena mais significativa de Os Intocáveis (a cena do carrinho de bebê na escadaria veio daqui), ganhou em 2005 uma cópia totalmente restaurada (exibida com várias sessões lotadas na última Mostra de SP), com trilha sonora interpretada pelos caras do Pet Shop Boys e a tardia inclusão de uma seqüência nunca exibida antes: o discurso inicial de Leon Trótsky, cortado da montagem original por imposição do ditador Josef Stalin.

• O HOMEM COM UMA CÂMERA, de Dziga Vertov

O título já diz tudo: O Homem com uma Câmera (foto, 1929), de Dziga Vertov, é apenas isto. E tudo isto. Explico: o longa mostra nada mais do que um homem qualquer com uma câmera de filmar, captando imagens do cotidiano pelas ruas de Moscou durante um dia inteiro. Com esta premissa, Vertov inaugurou a era do cinema experimental – carinhosamente apelidado de kino-glaz (cinema-olho) e kino-pravda (cinema-verdade) – ao realizar montagens extravagantes e, pela primeira vez na história, utilizar aceleração e retardamento da película para criar efeitos de câmera lenta ou acelerada. O Homem com uma Câmera é tido como o ápice da carreira de Vertov e o pioneiro do gênero documentário. E este que vos fala, que assistiu à fita há pouco tempo, pode dizer numa boa: é simplezinho, mas encantador.

• SOLARIS, de Andrei Tarkovski

Favor não confundir com a horrorosa versão gringa que o prepotente Steven Soderbergh cometeu recentemente – e que só é lembrada por mostrar a bunda pelada do George Clooney: estamos falando do aclamado longa dirigido por Andrei Tarkovsky (O Sacrifício), vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Cannes do ano de 1972. A fita, inspirada no romance homônimo de Stanislav Lem e realizada como uma resposta de Tarkovsky a 2001: Uma Odisséia no Espaço (que o cineasta declaradamente nunca gostou), conta o martírio do psicólogo Kris Kelvin, enviado ao planeta Solaris para descobrir o que aconteceu com três tripulantes da estação orbital do planeta, que supostamente enlouqueceram ao mesmo tempo (!). Uma vez lá, Kelvin depara-se com uma série de fenômenos inexplicáveis, como o surgimento de sua esposa Hari, falecida há anos. O planeta, conclui Kris Kelvin, pode ter vida própria… Solaris é considerado o título mais nobre da safra de filmes de ficção-científica intimistas que infestaram as salas de projeção na década de 70 – basta saber que a produção teoricamente inspirou um certo Steven Spielberg a querer rodar seu Contatos Imediatos do 3.º Grau. Obrigatório para qualquer fã de sci-fi.

• VÁ E VEJA, de Elem Klimov

Este é um caso sério. A crítica é unânime em apontar Vá e Veja (1985) como um dos mais impressionantes, realistas, brutais e importantes dramas pacifistas já produzidos pelo cinema – para se ter uma idéia, muitos cinéfilos acusam Spielberg de ter plagiado várias idéias e maneirismos visuais de Vá e Veja em O Império do Sol (o que eu não duvido nada). Como filme, é também um fabuloso exercício de técnica, principalmente de som. O cineasta Elem Klimov, baseado em sua própria vivência no meio da 2.ª Guerra, conta a história do adolescente Florya (Alexei Kravchenko, numa atuação simplesmente genial), que, na Bielorússia de 1942, é seqüestrado por guerrilheiros anti-nazistas, perde-se de sua família em meio à guerra e, num curtíssimo espaço de tempo, perde a audição, descobre a chacina de seus familiares e presencia uma seqüência ininterrupta de atrocidades cometidas pelo regime nazista, o que o deixa cada vez mais perturbado. Um filme essencial na filmoteca de qualquer cinéfilo, mas um aviso: o negócio é pesado demais. Se você se impressiona fácil, não assista Vá e Veja DE FORMA ALGUMA. Bem, não dá pra esperar algo suave quando sabemos que o ator principal foi hipnotizado para interpretar boa parte das cenas, de modo a não sofrer danos mentais…

• ANNA DOS 6 AOS 18, de Nikita Mikhalkov

Não tenho medo de parecer mais cult do que já sou (!) ao afirmar que, na minha visão, Anna dos 6 aos 18 (1993) é uma das películas mais bonitas que já assisti. E também uma das mais criativas: o diretor Nikita Mikhalkov (de O Sol Enganador, outro grande filme russo) retrata doze aniversários de sua filha Anna, a partir dos seis anos, de 1980 a 1991. Em cada aniversário, Nikita faz cinco perguntas à garota: a) o que você mais ama, b) o que você mais odeia, c) o que te dá mais medo, d) o que você mais quer neste momento, e e) o que você mais espera. A cada ano, as respostas de Anna tornam-se menos inocentes e mais pessimistas. Através da narrativa fornecida pela garota e a mudança na personalidade de Anna à medida que os anos avançam, o diretor reconta a derrocada e a dissolução da antiga União Soviética, a triste realidade da atual Rússia e o temor do povo soviético com relação ao futuro. De encher os olhos de lágrimas.

• TESTEMUNHA MUDA, de Anthony Waller

Para quebrar um pouco o clima com as fitas pesadas, nada como um suspensinho bem comercial, não é mesmo? Embora seja uma co-produção entre a Rússia, Inglaterra, Alemanha e EUA, o verdadeiro berço do divertidíssimo Testemunha Muda (1994), de Anthony Waller (Um Lobisomem Americano em Paris) é mesmo o berço do titio Gorbachev – o longa foi totalmente rodado lá, por razões econômicas. Curiosamente, os becos escuros de Moscou caíram como uma luva para a história de Billy (Marina Sudina), surda-muda norte-americana que trabalha como maquiadora nos sets de um longa ianque rodado na Rússia. Ao ficar trancada no macabro galpão usado como estúdio, Billy presencia as filmagens de um snuff-movie pornô e o conseqüente assassinato da atriz principal. Sem ter para onde correr – e sequer com quem se comunicar, já que fala através de sinais e ainda por cima em outra língua -, resta a Billy tentar manter-se viva. Um suspense nervoso e hiper-bacanudo, tanto que ganhará em breve um remake pelas mãos de James Mangold (o mesmo do ótimo Identidade). Ah, sim: para quem não sabe, snuff-movie é um gênero que ninguém sabe se existe mesmo, em que os atores são mortos de verdade em frente às câmeras. Credo! :-)

• LUNA PAPA, de Bakhtyar Khudojnazarov

Luna Papa (1999) é, na humilde opinião deste que vos fala, o título mais fraco desta seleção. Mas merece estar aqui, afinal, é uma ótima oportunidade de conferir como os russos comportam-se no terreno da comédia, ou melhor, da tragicomédia. Co-produção entre a Rússia, a Áustria e o Tadjiquistão, Luna Papa é uma alegoria colorida, cartunesca, metafórica e extremamente surreal dos efeitos da Guerra do Afeganistão nos civis – bem, o que dizer de uma casa que sai flutuando de repente? No enredo, a jovem Mamlakat, de 17 anos, quer ser atriz. O máximo que a garota consegue, entretanto, é uma gravidez. O pai da criança é um ator vagabundo de um mirrado grupo teatral que aportou no paupérrimo vilarejo próximo à Ásia Central, onde a jovem mora com o pai e o irmão deficiente e traumatizado pela guerra (Moritz Bleibtreu, o imbecil namorado de Franka Potente no fantástico Corra Lola, Corra). Assim, os três decidem sair pelo vilarejo à procura do tal ator, para vingar a honra da família. Só para se ter uma idéia de como Luna Papa é meio esquisito, basta dizer que sua narrativa lembra vagamente (eu disse “vagamente”) a minissérie global Hoje é Dia de Maria. Ou seja: a Srta.Ni vai adorar. :-D

• ELEGIA DE UMA VIAGEM, de Aleksandr Sokurov

Considerado pela crítica mundial como um dos mais significativos cineastas vivos em atividade, o siberiano Aleksandr Sokurov é dono de um currículo com mais de 30 títulos, muito elogiados em sua maioria. Dois deles, entretanto, merecem destaque. O primeiro, Elegia de uma Viagem (2001), é o nono e último trabalho, e também o mais aclamado, de uma série intitulada Elegias, que Sokurov iniciou em 1978 com a fita Maria, Elegia Camponesa. Aqui, o diretor narra a história de um homem que, movido por uma força maior que não consegue explicar, decide viajar sozinho a lugares aleatórios. Depois de cruzar o mundo, o homem encontra-se num museu em Roterdã, na Holanda, à frente de um quadro pintado no século XVII pelo pintor Peter Saenredam – só para descobrir que é a reencarnação de uma das pessoas retratadas na pintura (!?). Bizarrão! Com uma metragem de apenas 47 minutos, Elegia de uma Viagem é, como o próprio título sugere, beeeem viajado – mas estranhamente belo de se ver.

• A ARCA RUSSA, de Aleksandr Sokurov

A segunda película assinada por Sokurov é um exercício experimental que deixou muita gente encucada – e provavelmente fez Alfred Hitchcock revirar o pó no túmulo. A Arca Russa (2002) não conta nada além de um passeio no palacete de Hermitage, em São Petersburgo, um dos maiores museus do mundo. Nos quase 100 minutos de projeção, Sokurov passeia com sua câmera por todos os cômodos do lugar, revisitando as memórias de três séculos enquanto atores reencenam as passagens mais importantes da história. Tá, mas o que torna A Arca Russa tão importante assim? Duas coisas: primeiro, o longa utiliza mais de 3.000 figurantes. Segundo, toda a fita foi rodada num ÚNICO PLANO-SEQÜÊNCIA, ou seja, nada de cortes, tudo foi filmado em seqüência! Acha inacreditável? Bem, posso dizer (pois já conferi a fita) que nada consegue ser mais inacreditável e impressionante que o excelente resultado final da empreitada. Para assistir em sessão dupla e entender como foi o processo de criação, procure também o documentário One Take Movie, de Michael Bukojemski, que explica este negócio de louco tintim por tintim.

• O RETORNO, de Andrei Zvyagintsev

Para finalizar, um excelente suspense dramático: como não quero falar muito de O Retorno (2003) para não estragar as surpresas, só vou dizer que a história fala de um homem sem nome que, depois de mais de uma década desaparecido, surge numa cidadezinha. O homem sabe que tem dois filhos, Andrei, de 15 anos, e Ivan, de 12, mas ainda não os conhece. Decide buscá-los para uma pescaria, a contragosto da mãe. E então… ok, chega! O Retorno, estréia de Andrei Zvyagintsev na direção de longas-metragens, papou mais de dez prêmios internacionais, além de CINCO premiações no Festival de Veneza em 2003, incluindo o Leão de Ouro, e uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Pena que não veremos outra fita do diretor tão cedo, já que o cara largou o cinema temporariamente por conta de um acontecimento trágico: o ator Vladimir Garin, intérprete de Andrei, morreu afogado no término das filmagens de O Retorno, no mesmo lago onde a ação da película ocorre.

Com tanta coisa boa assim, é realmente deprimente saber que temos acesso a tão pouco material vindo do cinema russo, por conta dos problemas sociais que o país enfrenta. Espero de coração que o sucesso de Guardiões da Noite abra mais portas para as produções estrangeiras em nossa terra. Afinal, não é só de Hollywood que vive o cinema, não é mesmo? Pois é. Depois ainda reclamo do statuscult de quinta” que o pessoal me eleva aqui. Em plena semana anterior à estréia do novo Harry Potter, estou aqui, falando de filmes russos. É por isto que eu me amo. :-)

UMA CURIOSIDADE BESTA: O meu nickname, Zarko, é um nome próprio original da Rússia. Êba. Eu sou feliz. Dã.

O CINEMA MADE IN RÚSSIA
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 11/11/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem GUARDIÕES DA NOITE (Nochnoy Dozor).

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A Ficção Científica Segundo Isaac Asimov

27/10/2009

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/08/2004.

Isaac Asimov

Se Eu, Robô (2004), é um bom filme, só poderemos tirar a prova nesta sexta-feira, data em que o filme de Alex Proyas (O Corvo) estreará nas telas do Brasil. A trama gira em torno de um policial (Will Smith), que investiga um crime que pode ter sido cometido por um andróide. Bem, como disse há pouco, (ainda) não sei se o trabalho é bom. De resto, só há a certeza de uma coisa: Isaac Asimov, autor da coletânea de obras em que o filme foi baseado, era um cara ferrado!

Naturalizado americano, Asimov nasceu na Rússia em 1920 e migrou aos Estados Unidos ainda bebê. Formado em Bioquímica pela Universidade de Columbia, começou a escrever com apenas 18 anos. A carreira de escritor, curiosamente, foi a única realmente bem sucedida (o cara foi Químico e Bioquímico na mesma universidade que estudou). Asimov se tornou hoje um nome histórico por, assim como H. G. Wells – criador do clássico A Guerra dos Mundos -, prever um mundo tecnológico que, em sua época, nem sonhava existir.

Em seus manuscritos, Asimov criou universos assustadoramente reais em que humanos e máquinas de inteligência artificial convivem num mesmo plano. As idéias do escritor bateram de frente com os conservadores, que consideravam a até então impossível hipótese da criação de robôs inteligentes um passo dado para uma era apocalíptica. Asimov pregava que, para os humanos e os robôs co-existirem em harmonia, eles deveriam ser tratados não como máquinas, e sim como seres providos de inteligência. Para isso, criou as Três Leis da Robótica, que geraram muita polêmica. Eis as leis:

1. Um robô nunca deve fazer mal a um ser humano, ou permitir que um ser humano sofra qualquer mal;

2. Um robô deve obedecer a qualquer ordem dada por um ser humano, desde que essa ordem não bata de frente com a execução da Lei número 1;

3. Um robô deve proteger a sua existência, desde que essa proteção não interfira nas Leis número 1 e 2.

Na verdade, nos trabalhos de Isaac Asimov, toda a tecnologia é apenas pano de fundo para histórias que tratam de um assunto tão (ou até mais) complexo do que qualquer maquinaria: as inter-relações pessoais. Tanto em Eu, Robô, coletânea de contos, quanto em O Homem Bicentenário e Fundação, este último um de seus mais conhecidos romances, as questões principais são: até que ponto nós, seres humanos, somos capazes de agir tão mecanicamente quanto uma máquina? Até onde deixamos de ter sentimentos a ponto de sermos comparados a robôs? Claro que, com idéias como estas, o envolvimento de Asimov com o cinema era só uma questão de tempo.

O primeiro trabalho de Isaac Asimov a ser adaptado para a tela grande foi Viagem Fantástica (1966), dirigido por Richard Fleischer (diretor de 20.000 Léguas Submarinas e da versão original de Doutor DoLittle). Na história, um diplomata sofre uma tentativa de assassinato, e uma equipe de médicos é miniaturizada (!) e inserida no corpo do cara. Um sabotador a bordo tenta acabar com a pioneira aventura. No elenco, os atores muito populares nos States, Stephen Boyd e Raquel Welch. O livro de Asimov também serviu de base, mesmo que sem créditos, para a divertida produção sessão-da-tarde Viagem Insólita (1987), de Joe Dante e com Dennis Quaid e Meg Ryan no elenco. Os dois trabalhos são facilmente encontrados em DVD no Brasil.

Além de algumas produções para a TV e do filme russo O Fim da Eternidade (1987), do diretor Andrei Yermash, inédito no Brasil, também saiu do papel Eu, Robô, deste ano, e O Homem Bicentenário (1999), enorme abacaxi do diretor Chris Columbus (dos dois primeiros filmes da franquia Harry Potter, A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta). Nesta produção, o andróide Andrew (Robin Williams) começa uma jornada para se tornar um homem comum, e essa jornada dura 200 anos. No elenco, Sam Neill, de Jurassic Park, e a linda Embeth Davidtz, do cultuado Possuídos. O Homem Bicentenário se tornou um fracasso monumental de bilheteria e quase afundou a carreira de Robin Williams, além de atiçar a fúria de seguidores do escritor em todo o planeta, que acusaram Columbus de destruir o conto de Asimov. O filme existe em DVD, mas alugue por sua conta e risco.

Isaac Asimov escreveu até o fim de sua vida, em 1997, quando morreu devido a um ataque cardíaco. Seu legado influenciou quase cem por cento de todos os filmes de ficção científica lançados após a publicação de seu primeiro romance. O que nos resta saber é, se algum dia, alguém se prestará a honrar a memória deste grande cientista fazendo um filme que preste. Se bem que eu gosto do Alex Proyas, mas… o Will Smith? Ei, por que não deram este projeto pro David Fincher dirigir? :-D

CURIOSIDADES:

• O apelido de Issac Asimov era “A Máquina de Datilografar Humana”, trocadilho com a rapidez com que escrevia e também com o fato de escrever somente sobre civilizações convivendo com máquinas. Asimov detestava viajar, tinha um medo enorme de altura e só se sentia seguro trancado em casa. Recentemente, sua viúva Janet Asimov divulgou que Isaac havia adquirido HIV numa transfusão de sangue em 1983 (mas, segundo ela, esta não foi a causa de sua morte).

• Os modelos de carros futuristas usados em O Homem Bicentenário são os mesmos utilizados no filme O Demolidor (1993), aquele negócio que o Sylvester Stallone cometeu em parceria com Wesley Snipes. Vai ver foi por isso que não deu certo…

• Considerada uma das melhores atrizes de sua geração, Embeth Davidtz foi revelada no oscarizado A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg.

• Em um determinado momento de Eu, Robô, surge em cena um motorista chamado Harold Lloyd. É uma referência ao notório comediante do cinema mudo, Harold Lloyd, que na vida real, passou por uma situação semelhante à que o personagem de Will Smith passa nesta mesma cena. Não vou dizer o que é pra não estragar a surpresa!

A FICÇÃO CIENTÍFICA SEGUNDO ISAAC ASIMOV
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 06/08/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem EU, ROBÔ (I Robot).


Exorcista: O Início

24/10/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 29/10/2004.

Exorcista: O Início (Exorcist: The Beginning)

Ainda me lembro como se fosse ontem da primeira vez em que assisti a O Exorcista. Foi em 1997, numa pequena sala de exibição de menos de 50 lugares, num ciclo de retrospectiva dos clássicos da Warner Bros. Era uma sessão maldita (para quem não sabe, o nome que se dá a uma sessão de cinema que começa exatamente à meia-noite), e a noite chuvosa e de vento contribuía ainda mais para o clima de terror – e também para o meu desespero! Hehehe… Quando a sessão começou, a platéia tinha milhares e milhares de três pessoas (incluindo eu), e depois de duas horas de um turbilhão de medo e comoção, saí do cinema aterrorizado, com os cabelos em pé e a sensação de ter presenciado um trabalho de gênio. No mesmo instante, O Exorcista entrou na minha listinha pessoal dos melhores filmes da história do cinema. Sem exageros.

Quando soube que Exorcista: O Início (Exorcist: The Beginning, 2004) realmente sairia do papel, odiei a idéia. Principalmente depois de todos os problemas na produção (mais detalhes no final deste artigo), que resultaram na demissão do diretor Paul Schrader (A Marca da Pantera) e contratação de Renny Harlin (Risco Total). Aí é que o negócio fedeu de vez: me revoltou a idéia dos executivos da Warner passarem a bola para um cara que até então só tinha feito filminhos de ação. Pombas, como que este Zézinho daria o tratamento que qualquer filhote do primeiro O Exorcista merece? Ainda mais que este novo longa voltaria no tempo e dissecaria o notório primeiro encontro do Padre Lancaster Merrin – imortalizado pelo grande Max Von Sydow e, desde já, o meu personagem favorito – com o demônio, encontro este apenas citado em O Exorcista.

De qualquer maneira, todos sabiam que os produtores só queriam mesmo um caça-níqueis. Mesmo sabendo disso (na verdade, com um fio de esperanças de que o trabalho fosse assistível), fui conferir este novo longa e devo dizer: ô fitinha ruim do cacete.

Vamos rapidamente à história: em 1949, o arqueólogo Merrin (o sueco Stellan Skarsgård, de Dogville), que abandonou a batina e perdeu a fé em Deus depois de uma aterrorizante experiência num campo de concentração na 2.ª Guerra, é convocado para auxiliar numa escavação na África. O que Merrin não sabe é que trata-se da descoberta de uma Igreja enterrada em pleno deserto. A Igreja, datada de 1.500 anos antes da chegada do catolicismo na região, está praticamente intacta e não apresenta nenhum sinal de desgaste do tempo.

Com o auxílio do padre Francis (James D’Arcy, Mestre dos Mares) e da médica Sarah (Izabella Scorupco, a Bondgirl do bem de 007 Contra GoldenEye), Merrin também toma conhecimento da crença da população local, que acredita que o local é amaldiçoado por maus espíritos, e descobre que os responsáveis pela descoberta sumiram misteriosamente. A coisa piora quando um dos dois filhos de um habitante local apresenta clássicos sinais de possessão demoníaca. Mais manifestações macabras acontecem e Merrin passa a desconfiar que a Igreja foi construída no exato local em que Lúficer caiu na Terra depois da guerra travada no Paraiso. Eu, hein?

Os defeitos da película não são poucos: pra começar, Renny Harlin, o diretor, acredita fielmente que o conceito do “terror” se resume a sustos previsíveis. De fato, tem muitos sustos. Sangue, então, nem se fala. É pra todo lado. Mas é só o que tem. Harlin trata Exorcista: O Início não como um exercício de medo (bem, medo você não sente em momento nenhum) mas sim como filme de ação. Esta é a idéia de “filme de horror” do cara, que acaba esquecendo de um pequeno detalhe: o clima. Aquela ambientação fantástica de sugestão do primeiro filme foi jogado pra escanteio e o que se vê aqui é um festival de escatologia, com direito a muitos animais estripados, recém-nascidos cobertos de larvas e crianças partidas em vários pedaços por hienas raivosas – cenas, aliás, que incomodarão muita gente mas não chegam nem aos pés da histórica “virada de cabeça” da menina Regan. Fora que a platéia já sabe no começo o que acontecerá no final.

Outro ponto negativo é que Renny Harlin não se decide em momento algum entre as saídas criativas e datadas d’O Exorcista original e efeitos especiais moderninhos – a tão esperada aparição do Cabrunco incorporado no corpo de alguém, depois de quase duas horas de projeção, é risível.

Além disso, o elenco é terrível, à exceção do ótimo Stellan Skarsgård, que se sai muito bem como Merrin e se mostra uma escolha perfeita para o papel. Já o resto… James D’Arcy é muito canastrão e a ex-modelo Izabella Scorupco, pior ainda. Os caras simplesmente não conseguem criar uma empatia com a platéia, e isso prejudica e muito o andamento da fita. Remy Sweeney, o ator-mirim que carrega uma responsabilidade considerável no papel de Joseph, a criança possuída, é terrível de tão péssimo. Além do próprio Merrin, o único personagem digno de nota é Jeffries, interpretado com respeito e seriedade pelo engraçadíssimo inglês Alan Ford (para quem não sabe, o perigoso Tijolo do hilário Snatch, de Guy Ritchie), mas não considero muito por ter sido muito mal aproveitado.

Outro problema grave é o excesso de clichês. Todos os chavões de filmes de terror estão lá, desde as tribos estranhas da África até os “figurantes caolhos e cheios de cicatrizes” que passeiam pelos cenários de qualquer filme cuja ação se passa em regiões pobres.

Mas o maior problema de Exorcista: O Início, além da história mal desenvolvida, é seu antecessor. Talvez este longa fosse apenas “regular” se não carregasse nas costas a enorme responsabilidade de honrar a qualidade e o prestígio do primeiro filme da série. Este fator não evita que o espectador compare esta fita com a original durante boa parte do tempo. E vamos concordar: é impossível superar o horror sentido com a primeira aparição de Regan já convertida no Tinhoso. Os caras esperavam fazer isso com o Renny Harlin dirigindo? Pelo amor de Deus!

Bem, quer um filme de terror? Alugue O Exorcista original e bom divertimento. Quer levar uns sustinhos e esquecer que viu o filme assim que sair da sessão? Pode ficar com este mesmo. Mas vai na sessão mais barata, pra não sair xingando depois! Pelo menos serviu pra uma coisa: agora a gente sabe e tem certeza de que, em matéria de medo, nada é pior do que a ganância dos executivos dos estúdios de Hollywood… Vade retro, coisa ruim! :-D

CURIOSIDADES:

• Dentre zilhões de problemas que a produção de Exorcista: O Início enfrentou, o mais notório foi, sem sombra de dúvidas, a substituição do diretor original, o estranho Paul Schrader, pelo “operário-padrão” Renny Harlin. A produtora, Morgan Creek, demitiu Schrader depois de ver o copião da primeira versão e não gostar nada do que viu. Segundo o estúdio, Schrader rodou “um drama psicológico sem um traço de escatologia”. Após a demissão do cineasta, o longa foi rodado praticamente do zero: mais de 90% do copião foi refeito, sendo que dois personagens da primeira versão foram eliminados por Renny Harlin. A Morgan Creek divulgou que, na ocasião do lançamento em DVD, as duas versões estarão no disco, e então poderemos conferir qual delas é a melhor (ou a menos ruim).

• O fantástico John Frankenheimer foi contratado para comandar as filmagens antes de Paul Schrader, mas abandonou o projeto misteriosamente. Exatamente um mês depois, o diretor faleceu, de causas naturais. Liam Neeson, o Qui-Gon Jinn de Star Wars: Episódio I, foi o primeiro cotado a interpretar o padre Merrin, mas se recusou quando soube que Frankenheimer tinha tirado o seu da reta.

• As tentativas de atores Ryan Phillipe (de Studio 54) e Kerr Smith (do seriado Dawson’s Creek) eram as escolhas iniciais para o papel do Padre Francis – mas deu na mesma, uma vez que James D’Arcy também é muito ruim.

• A produção enfrentou ainda um outro problema além dos já relatados aqui: a atriz Linda Blair, intérprete da menina Regan no primeiro filme da cinessérie, ficou chocada e ameaçou processar o estúdio por ter usado imagens suas na promoção de Exorcista: O Início, sem solicitar permissão nem pagar direitos autorais. Não se sabe a quantas anda esta história.

• Em pelo menos duas cenas de Exorcista: O Início, é possível enxergar de relance aquela arrepiante carinha branca muito usada no primeiro longa da série. Fique atento!

EXORCIST: THE BEGINNING • EUA • 2004
Direção de Renny Harlin • Roteiro de Alexi Hawley
Inspirado nos personagens criados por William Peter Blatty
Elenco: Stellan Skarsgård, Izabella Scorupco, James D’Arcy, David Bradley, Alan Ford, Remy Sweeney.
114 min. • Distribuição: Warner Bros.


Guerra dos Mundos

24/10/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/06/2005.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds)

Aqueles que lêem A ARCA há algum tempo estão mais do que carecas de ouvir falar da minha, bem, antipatia com o titio Steven Spielberg e sua visão todinha “particular” de Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005). Mas como temos uma freqüência bastante considerável de visitantes novos, explicarei o que acontece para que todos possam compartilhar do meu ponto de vista sem achar que sou um maluco: o fato é que este que vos fala talvez seja um dos maiores fãs de A Guerra dos Mundos, o ultra-clássico romance escrito pelo lendário H. G. Wells em 1898. O livro, que li pela primeira vez na minha infância e devo ter relido pelo menos umas vinte vezes até hoje, narra com detalhes uma brutal e sangrenta invasão de marcianos ao planeta Terra, mais exatamente na Londres do final do século XIX.

Até aí, tudo tranqüilo. Pelo menos até o consagrado diretor de E.T. entrar na parada. Primeiro, porque Spielberg é conhecidíssimo por conseguir transformar histórias bacanas em produtos fast-food para pessoas de todas as idades, suavizando conteúdos, eliminando sem pudor cenas mais “fortes” e deixando tudo com um gosto amargo de patriotismo e bom-mocismo estadunidense. Coisa que não tem absolutamente NADA A VER com o maravilhoso romance inglês de H. G. Wells. Nada contra o Spielberg, só acho que este projeto em particular não era pra ele. Como se não bastasse, o roteiro de Josh Friedman (M:I-2) e David Koepp (O Quarto do Pânico) ainda cometeu a heresia suprema de mudar o enredo da Inglaterra para os Estados Unidos, e o pior: ambientar a história nos dias de hoje.

Pombas, se a graça de A Guerra dos Mundos, o romance, era justamente mostrar os marcianos detonando tudo numa época em que os humanos sequer tinham inventado o avião, ou seja, não saberiam de forma alguma lidar com este infortúnio, o que impediria o Guerra dos Mundos de Spielberg de se tornar um mero Independence Day 2, já que em pleno ano de 2005 temos aviões, tanques de guerra, armamentos químicos e tudo que poderia ser utilizado contra os bastardos visitantes do nosso planeta vizinho? Enfim, eu protestei, queimei meu DVD de O Resgate do Soldado Ryan, botei o nome do Spielberg na boca do sapo (!) e fios de fumaça saíram das minhas orelhas sempre que meus queridos amigos d’A ARCA pronunciavam o nome do excelentíssimo senhor Steven – principalmente a gloriosa Srta. Ni, que parece sentir uma enorme satisfação em me ver surtando! Ô meu Deus, porque não ofereceram este projeto ao David Fincher? :-D

E como era de se esperar, finalmente chegou o dia da tal sessão especial de Guerra dos Mundos para a imprensa e o Fanboy tocou lá em casa, dizendo: “É melhor você sentar, pois tenho trabalho pra você…”. E alguém realmente duvidava que, depois de me fazer sofrer diversas vezes, os homens fortes deste site me poupariam do sacrifício supremo?

Antes de qualquer comentário sobre o filme, vamos à história: Ray Ferrier, personagem do atual sr. Katie Holmes, Tom Cruise, trabalha nas docas, é separado e um péssimo pai. Ainda no início, Ray recebe a visita de sua ex-esposa Mary Ann (Miranda Otto, a Éowyn da trilogia O Senhor dos Anéis), que desova os dois filhos do casal com o pai para poder fazer uma viagem a Boston. Os filhos: o adolescente rebelde Robbie (o canadense Justin Chatwin, de Roubando Vidas) e a garotinha Rachel (Dakota Fanning, O Amigo Oculto). Como era de se esperar, Robbie não está nem aí para Ray, um relapso por natureza. Em compensação, Rachel até alimenta algum respeito pelo cara, por menor que este respeito seja. Vale lembrar que estes personagens todos não existem no romance…

Neste mesmo dia, uma estranha tempestade aproxima-se da cidade. Cerca de 28 raios caem em seguida no mesmo ponto: o centro exato de uma encruzilhada. Além disso, a tempestade também pifa com todos os carros, corta a eletricidade, destrói todos os mecanismos de engrenagem (como relógios de pulso) e emudece os telefones. Intrigado, Ray deixa seus filhos em casa e corre ao centro para saber o que está acontecendo. Subitamente, uma cratera se abre no mesmo ponto onde os raios caíram. E uma série de máquinas da altura de um arranha-céu e que se movimentam em três pernas inicia uma destruição em massa, matando todos os habitantes da cidade com raios laser. Logo, descobre-se que o mundo está tomado pelas tais máquinas, que parecem não sossegar enquanto não assolar tudo o que vê pela frente.

Pronto! O enredo é este. Claro que, a partir daí, Ray terá que fazer das tripas coração para proteger seus pimpolhinhos e levá-los vivos e em segurança até Boston, onde está a mãe dos indivíduos. Como esperado, tem todo aquele lance do cara tentar conquistar os filhos no caminho, e a princípio os dois até resistem, e depois… ah, todo mundo já sabe o que vai acontecer. Então vamos ao que interessa: O FILME É RUIM! Não, isto não foi um ódio puro de um fã xiita revoltado, até mesmo porque enfrentei a sessão já consciente de que não veria a verdadeira história de A Guerra dos Mundos nas telonas, mas sim um cinema de entretenimento cujo único objetivo é divertir. Não digo que a película é ruim por ser um fã do romance de H. G. Wells. Tanto que Guerra dos Mundos, a produção cinematográfica, possui uma série de pontos positivos, e admito isto tranqüilamente.

O maior destes acertos do filme é sua primeira parte. Os 40 minutos iniciais de Guerra dos Mundos são simplesmente geniais, de prender o espectador na poltrona e fazer o coração pular pela boca. É neste início que ouvimos, pela primeira vez, a excepcional narração de Morgan Freeman (Menina de Ouro) – por sinal, idêntica à abertura do livro – e a climática e bacaníssima (mas não marcante) trilha incidental de John Williams, colaborador habitual de Spielberg. Os momentos que antecedem o ataque estão a anos-luz das situações descritas no livro (que é APENAS sobre uma invasão alienígena à Terra e nada mais), mas ainda assim rendem um bom drama. E os créditos iniciais são bonitinhos, por mais que pareçam ser um plágio violento dos créditos de Clube da Luta, mesmo que de uma maneira diferente.

Mas não adianta. Ninguém irá ao cinema para ver o relacionamento do titio Cruise com seus rebentos. Então, o negócio só esquenta mesmo na primeira aparição dos Tripods – as tais máquinas de guerra que movimentam-se em três pernas maleáveis e têm altura de um prédio gigantesco. As máquinas extraterrestres, além de serem lindas visualmente e possuírem o mesmo desenho descrito no romance, são tão assustadoras quanto o ED-209, aquele truculento e perigosíssimo robô adversário do primeiro RoboCop (alguém aí lembra daquele cara?). Desenho este, aliás, que também é fiel no que concerne aos aliens. É praticamente impossível achar qualquer falha no CGI dos robôs, dos prédios sendo destruídos e das vítimas dos raios de calor. A cena da Igreja (assista e saiba do que falo) é de deixar qualquer um boquiaberto. E sim, há mortes. Mortes violentas, mortes grotescas. Mas sem um pingo de sangue, embora este pequenino detalhe não diminua a força dramática de Guerra dos Mundos até esta seqüência. Eu confesso: quando o primeiro Tripod surgiu majestosamente do chão, impondo respeito e mostrando quem é que manda, pensei comigo mesmo: “Céus, eu estava errado!”. :-P

O pior é que não estava errado, não.

Depois do primeiro ataque das máquinas bestiais, Guerra dos Mundos cai vertiginosamente e torna-se um trabalho de altos e baixos. O roteiro deixa a invasão em segundo plano e dá total atenção à convivência entre Ray, Robbie e Rachel. As cenas em que estão somente o trio central não chegam a ser tããão ruins assim, por mais que os diálogos a la novela mexicana insistem em dar as caras. Quando estas cenas começam, até que não é tão deprimente assim. Mas gradativamente o negócio vai ficando tão insuportável que o espectador sente uma vontade terrível de levantar da poltrona e sair andando. Mas o titio Spielberg é esperto. Quando a história aperta e o público começa a ficar incomodado, ele põe os Tripods pra trabalhar novamente – seja na destruidora seqüência da balsa (já revelada no trailer) ou na comovente cena do ataque na planície – para que possamos desfrutar de mais um espetáculo de efeitos visuais e não sentir ganas de cair fora! :-(

As atuações correspondem a outro problema. Enquanto o quase novato Justin Chatwin interpreta tão bem quanto os dedinhos do El Cid pintados com caneta BIC (!), Tom Cruise demonstra ser realmente muito competente. O problema está no conflito entre Cruise e a genial Dakota Fanning. Explico: apesar de Cruise atuar bem, nos momentos iniciais Dakota simplesmente ENGOLE o cara em cena. A personagem da garota é bem construída, tem diálogos legais e uma carga dramática bem considerável. Só pra se ter uma idéia, quando Rachel toma consciência do que está acontecendo, sofre uma crise nervosa que por si só justificaria qualquer prêmio dado à menina. De repente, seu personagem esfria, e Dakota Fanning limita-se a correr, chorar e gritar. Bem, certamente Tom Cruise deve ter percebido que não podia competir com a piveta e tratou de cobrar do titio Spielberg que ele cortasse as asinhas da atriz-mirim… Fazer o quê, né? O astro é também o produtor. Ele é quem manda, oras! :-P

Quanto aos outros atores… de Miranda Otto nem dá pra se dizer muito, pois suas cenas juntas não chegam a somar cinco minutos. E o sempre ótimo Tim Robbins dá um show no papel de Ogilvy, homem que ficou maluco depois que perdeu a família e acredita que os humanos devem enfrentar os homenzinhos feios do espaço no “mano a mano”. Por mais que Robbins apareça em cena por pouco mais de quinze minutos, e ainda assim bem depois de uma hora de projeção, seu trabalho é muito bacana.

E então, chegamos ao final. Não ao final deste artigo (!), mas o final do filme. Pois é, o final. Até aqui, todo mundo já sabe que o início de Guerra dos Mundos é um trabalho excepcionalmente fabuloso, e que o negócio cai numa boa durante seu percurso, melhorando esporadicamente com a aparição dos tais Tripods e também dos alienígenas em si (muito mal aproveitados, por sinal). A seqüência final, entretanto, consegue botar por terra o filme IN-TEI-RO! A conclusão da película, por mais que traga uma ou outra semelhança com o romance, é tão brega e inexplicável que infelizmente nos faz esquecer todas as coisas bacanas que Guerra dos Mundos proporcionou até este derradeiro momento. Além de ser absolutamente clichê, o troço consegue ser tão emotivo quanto as fitas made for TV da Lassie… Ugh! :-P

No saldo geral, a impressão que ficou é a de que Guerra dos Mundos só existe para massagear o ego de Steven Spielberg. Assim como em O Terminal, filminho até bonitinho que só existe porque o diretor queria mostrar que podia construir um terminal de aeroporto inteiro em estúdio, parece que Spielberg decidiu realizar Guerra dos Mundos apenas por ser capaz de realizar aquelas façanhas pirotécnicas que sabemos que o cara faz muito bem, como colocar destroços reais de um gigantesco avião no meio do cenário – por mais que a cena da kombi, em que a câmera dá piruetas do lado de fora do carro em movimento, seja totalmente falsa (David Fincher fez bem melhor no passeio pela casa de O Quarto do Pânico). Então fica a pergunta: para quê dizer que se baseou na obra de H. G. Wells, já que não há quase nada do livro ali, pelo amor de Deus? Por que não realizar somente um filme sobre a chegada de ETs ao nosso planeta? O que poderia ser apenas uma boa produção de efeitos visuais pra se ver no cinema, com a cobrança de honrar a memória de Wells acaba tornando-se um belo de um abacaxi. :-P

Olha, não que eu me importe muito. De qualquer forma, dei uma de Joel Barish e já iniciei o processo para apagar esta coisa de minha memória. E enquanto isto, estou relendo A Guerra dos Mundos, o romance. Sabe como é, para me purificar. :-P

CURIOSIDADES:

• Inicialmente estimado para estrear em 2007, a pré-produção de Guerra dos Mundos foi acelerada em agosto de 2004, para estréia em junho de 2005. Segundo divulgado, esta aceleração se deve ao fato de Steven Spielberg e Tom Cruise ganharem vagas em suas agendas coincidentemente. Dizem as más línguas, porém (e eu creio muito nisso), que a antecipação do projeto aconteceu depois de Spielberg soube do outro filme inspirado no livro, um drama independente dirigido pelo obscuro Timothy Hines, que conta a história do jeito que ela é. Ter poder é um lance complicado, não? :-P

• Durante a filmagem da seqüência dos corpos boiando no rio, que aconteceram no rio Connecticut, dois bonecos de borracha usados como corpos escaparam aos olhos da equipe e desapareceram no rio. A equipe de segurança do rio realizou uma busca, mas não conseguiram encontrar os bonecos. Antes que a equipe pudesse alertar a polícia, porém, populares já tinham ligado ao DP de Connecticut, para reportar que viram cadáveres no lago…

• O personagem Ogilvy, de Tim Robbins, existe e não existe na romance. Na verdade, ele é uma junção de dois personagens do livro.

Guerra dos Mundos custou US$ 128 milhões.

WAR OF THE WORLDS • EUA • 2005
Direção de Steven Spielberg • Roteiro de Josh Friedman e David Koepp
Inspirado no romance The War of the Worlds, de Herbert George Wells
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Justin Chatwin, Tim Robbins, Miranda Otto, David Alan Basche, Morgan Freeman.
117 min. • Distribuição: DreamWorks.


Bandidas

24/10/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/07/2006.

Bandidas

Se há algo que a indústria cinematográfica ianque não cansa de nos ensinar, é que para ser executivo de estúdio por aquelas bandas, basta ser tão inteligente quanto uma toupeira – desculpe Greenpeace, prometo que nunca mais ofenderei as pobres toupeiras deste jeito (!). Bem, você entendeu o que quero dizer. E Bandidas (Idem, 2006), co-produção entre França, México e EUA, não é nada além de mais uma prova disso. Até minha tartaruguinha de estimação teria tato para jogar este projeto no lixo e demitir o primeiro “gênio” que tentasse aprová-lo. :-P

Senão, vejamos: quem em sã consciência acredita que uma mistureba de comédia e ação ambientada no Velho Oeste e estrelada por Salma Hayek e Penélope Cruz seja sinônimo de gordas bilheterias, até mesmo porque westerns, principalmente cômicos, não chamam a atenção do público há um bom tempo? Tá, ok, claro que bilheteria não quer dizer nada quando estamos falando da qualidade de um filme, mas… quem em sã consciência acha que esta salada é sinônimo de bom cinema? Sinceramente, não é necessário perder muito tempo lendo sinopses, vendo imagens da produção ou conferindo trailers para farejar uma desagradável fragrância de BOMBA rondando Bandidas.

E sim, é isso mesmo. Bandidas é ruim e ponto final. Não é um daqueles trabalhos que até têm potencial, mas se perdem em algum ponto de sua realização por cagadinha de alguém; ele é ruim desde o início. Sério mesmo, não há NADA no lugar. O roteiro começa horrível e termina catastrófico, a idéia é chula, a direção é amadora até não poder mais, e o elenco, à exceção de um único nome, é tenebroso. Não dá nem para acreditar que um dos criadores deste filmeco é ninguém menos que Luc Besson – bem, dá para acreditar sim, afinal, para cada Imensidão Azul e cada O Profissional, sempre há um Joana D’Arc e um O Quinto Elemento no currículo do sujeito… ugh! :-D

Então, já que temos que falar sobre isso (bem que mamãe queria que eu fosse médico…), vamos lá. Comecemos pelo primeiro grande erro de Bandidas: Salma Hayek e Penélope Cruz. Pelo amor de todos os deuses do universo, quem disse que elas sabem atuar? Sério, elas não sabem MEEESMO! Bem, Salma Hayek é uma coisinha assim interessante, e até que não faz feio em fitas como Ladrão de Diamantes e Frida, mas num saldo geral ela é bem canastrinha. Resumindo, ela pode até interpretar alguma coisa, mas para isso precisa ser muito bem dirigida.

Já Penélope Cruz… afe, essa nem bonita é. Canastra é pouco! Ela é muito péssima! Me dá arrepios só de lembrar dela falando “the pleasure of Sofiaaaaa” com um pavorosíssimo sotaque spanglish no Vanilla Sky. Céus! Tudo bem, podemos dizer em defesa desta pobre bastarda que ela se sai bem nos filmes assinados pelo excelentíssimo senhor Pedro Almodóvar. Mas é porque é do Almodóvar, pô! O cara é fera! Ele seria capaz de arrancar uma boa interpretação até da Tidinha, a Xuxinha rosa bizarra do SBT! Ou pior, ele conseguiria arrancar uma boa atuação até do elenco da monstruosidade chamada Coisa de Mulher!

Se bem que não, da Tidinha até pode ser, mas extrair talento do elenco de Coisa de Mulher, acho que só com milagre divino mesmo… :-)

Voltando, se Penélope Cruz e Salma Hayek já não têm muito talento individualmente (para não dizer que não tem nada), a coisa piora quando elas atuam juntas. Não há química entre as duas atrizes. Óbvio que o saldo final deixaria muito a desejar, afinal, percebe-se a cada fotograma que o pseudo-roteiro é totalmente apoiado nelas – diz a lenda que Hayek e Cruz são amigas de longa data, então acho que já sabemos o porquê da existência disso. Cá entre nós, dá pra confiar nas virtudes de um trabalho que declaradamente é apenas um veículo para que as atrizes-amiguinhas desfilem seus “dotes interpretativos”? Não, não dá. Não com este roteiro. Se eu fosse elas, teria aproveitado o manuseio de armas durante a produção para dar um tiro em si mesmas! :-P

A historinha desta tentativa de filme é assim: lá pelos idos de 1880, no México (por sinal, um México onde todos falam somente inglês), o perigoso Tyler Jackson (Dwight Yoakam, um dos meliantes de O Quarto do Pânico), representante do Banco de Nova York, ordena que seus capatazes expulsem a população de suas terras para dominá-las, não importando se alguns corpos precisem ser amontoados para este fim. Um dos corpos é o do banqueiro mais poderoso do México, Don Diego (Ismael Carlo), pai da aristocrata Sara Sandoval (Hayek), dondoquinha que cresceu e estudou na Europa. E um dos tantos que perdem suas terras é o pai da fazendeira barraqueira Maria Alvarez (Penélope Cruz). Assim, as duas unem forças para assaltar os bancos mexicanos dominados por Jackson e devolver as terras aos seus verdadeiros donzzzzzzzzz… zzzzzzzzz…

Daí, acontece o mais do mesmo: as duas se odeiam desde o início, mas as poucos aprendem os verdadeiros valores da amizade e da confiança, e tornam-se as grandes heroínas justiceiras do México, e blá blá blá. Tá, até então, sabemos que não importa se um enredo é batido, desde que ele seja bem contado. Este, claro, não é o caso de Bandidas: o filme é muito mal dirigido pelos noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg, estreantes no cinema. Mal dirigido MESMO! Só para se ter uma idéia, as seqüências de lutas e perseguições são tão “genuínas” quanto as cenas de ação das novelas da Globo – a fuga de Sara Sandoval de sua própria casa é algo vergonhoso de tão mal feito. E como não poderia deixar de ser em se tratando de uma produção de Luc Besson, imaginem um tiroteio em… bullet-time (sim, Matrix influi até no velho oeste).

O elenco coadjuvante até tenta ajudar. O cantor country Dwight Yoakam, no papel do maligno Jackson, se esforça bastante para dar dignidade ao seu personagem, mas morre na praia. O mesmo acontece com o geralmente hilário Steve Zahn, que aqui vive Quentin Cook, um gringo especialista em criminalística que chega ao México a mando do vilão e acaba aliando-se às bandidas. O cara fica totalmente perdido entre entregar-se ao pastelão ou manter um ar sério. E como se não bastasse, é o protagonista de um momento vergonhoso: o primeiro encontro com as meliantes, que começa como uma ameaça a troco de informações e termina com Sara ensinando Maria a beijar, usando o sujeito (pelado) como modelo. Esta, sem dúvidas, é uma das seqüências mais mal-elaboradas e humilhantes do cinema desde que Selma Blair ficou com a boca grudada num “canetão” naquela porcaria chamada Tudo para Ficar com Ele.

Aproveitando este parágrafo, um desabafo e um recadinho aos executivos de Hollywood que porventura estejam lendo este artigo (oi?): entendam, essa maldita piadinha dos beijos que vocês repetem 752 mil vezes durante a projeção de Bandidas NÃO TEM GRAÇA! Ela não é engraçada!

Se há alguém que se salve aqui, é só mesmo o grande Sam Shepard, numa minúscula e bacana pontinha – mas não vale, pois o cara é totalmente auto-suficiente. O mérito é só dele! Porém, não se empolgue por isso. Se der vontade de assistir à fita só por causa do Sam Shepard, corra até a locadora, alugue O Viajante ou Estrela Solitária, e seus problemas estão resolvidos. :-D

De resto, nem dá pra falar muito. Os cenários e a trilha sonora, por exemplo, até são bem feitos, mas são idênticos a tantas outras produções deste gênero. Então, não há nada que se aproveite em Bandidas? Hummm, deixe-me pensar um instante… er… NÃO! Não há nada que justifique uma conferida, nada mesmo – a não ser, claro, que você goste de comédias que não te fazem rir (?), filmes de ação que não te empolgam (??) ou não se incomode em gastar 13 pila no ingresso de cinema só para ver mulher boazuda (o que definitivamente não é meu caso, se é pra ver mulher boa eu vejo na Internet e não pago nada).

Melhor guardar dindim pra ver o “Azulão Returns”, que já está perto de estrear! ;-)

CURIOSIDADES:

• Só para se ter uma idéia de como Bandidas é tão mal escrito, vejam só esta falha horrorosa: numa seqüência, os personagens de Steve Zahn e Salma Hayek disfarçam-se de casal e, durante uma conversa com o gerente do banco que estão prestes a assaltar, comentam que ela está de luto pela morte de sua mãe. Na cena seguinte, ao levar uma bronca da personagem de Penélope Cruz por ter beijado Steve Zahn, Salma Hayek diz com todas as letras que só fez aquilo pois precisava ser autêntica em seu papel de VIÚVA (?). Nossa, então ela era casada com sua própria mãe?

• Um detalhe interessante: Bandidas conta com uma ponta minúscula de um sujeito chamado Edgar Vivar. Sabe quem é este infeliz? Simplesmente o Sr. Barriga do lendário seriado Chaves

• Sim, eu tenho medo do sotaque de Penélope Cruz em Vanilla Sky.

BANDIDAS • FRA/MEX/EUA • 2006
Direção de Joachim Rønning e Espen Sandberg • Roteiro de Luc Besson e Robert Mark Kamen
Elenco: Salma Hayek, Penélope Cruz, Steve Zahn, Dwight Yoakam, Denis Arndt, Audra Blaser e Sam Shepard.
93 min. • Distribuição: 20th Century Fox.


Apenas Uma Vez

24/10/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 24/04/2008.

Apenas Uma Vez (Once)

O mais legal nesse negócio de doido que é fazer cinema é que você não precisa necessariamente ter grandes recursos, apadrinhamento de grandes estúdios, astros e estrelas de renome e efeitos visuais de última geração para gerar trabalhos contundentes e significativos. Na verdade, precisa-se de muito pouco. E vez por outra, surge um filminho pequeno, escondido, que comprova a máxima imortalizada pelo cineasta brazuca Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Nas mãos das pessoas certas, uma historinha simples, bem escrita e bem interpretada pode simplesmente destruir qualquer um emocionalmente e martelar na mente do público por um bom tempo, mais do que aquele longa-metragem de 752 milhões de dinheiros visto por 752 milhões de espectadores que, em sua maioria, esquecerão do que assistiram em duas ou três horas após a sessão.

Sendo assim, se você é como este que vos escreve, louco psicótico capaz de gostar de viagens intergaláticas, suspenses sangrentos, serial killers, documentários do Animal Planet e comédias românticas água-com-açúcar da Meg Ryan na mesma proporção (!), é bom preparar os nervos para Apenas Uma Vez (Once, 2006), drama musical irlandês que precisou de menos de uma hora e meia de projeção para se tornar o melhor filme independente do ano (até agora, claro). E se você é como este que vos escreve, masoquista sem vergonha alguma na cara, prepare-se para querer ver (e sofrer com) esta fitinha de novo e de novo e de novo, com direito até a comprar o DVD na ocasião de seu lançamento. Pois é, gente doida é assim. :-D

E pelo visto, tem muito masoquista por aí, já que o longa, totalmente rodado com duas pequenas câmeras digitais, conquistou prêmios bem importantes, dentre eles o título de Melhor Filme Estrangeiro no Independent Spirit Awards e o Prêmio do Público no último Festival de Sundance, além do Oscar 2008 de Melhor Canção para a excelente Falling Slowly – e o fato inédito de a Academia permitir que um premiado retorne ao palco para concluir seu discurso, interrompido pela orquestra por ter extrapolado o tempo. Uau, hein? Isso é que é moral.

Toda essa babação de ovo justifica-se. O caso é que Apenas Uma Vez surpreende por apresentar uma série de pequenos elementos que propiciam uma identificação imediata do espectador. Em sua linha de enredo aparentemente rasa, trata de rejeição, carência paterna, exclusão, sonhos não realizados, resistência às barreiras lingüísticas, culturais e financeiras impostas pela sociedade, abandono, traição, frustração profissional e pessoal… tudo isto embalado em 85 minutos de uma tocante história de amor bem aos moldes de Luzes da Cidade, clássico de Charles Chaplin, protagonizada por belíssimas canções de folk-rock e personagens tão reais, tão tridimensionais, que poderiam ser seus vizinhos. É bom porque poderia acontecer com você mesmo, e você sente isso na pele.

E como toda e qualquer boa e RELEVANTE história de amor que se preze, tem tudo prá dar m%#@& no final. Será? :-D

O enredo de Apenas Uma Vez é aparentemente simples, direto ao ponto: temos duas personagens, cujos nomes nunca são ditos e são identificados pelos créditos apenas como “o cara” (Glen Hansard) e “a garota” (Marketa Irglova). O cara saiu da Inglaterra em direção à Irlanda para cuidar do pai após a morte da mãe e ajudá-lo em uma pequena lojinha de consertos de aspiradores de pó – mas sabe-se que a verdadeira razão da fuga do sujeito foi o galho sincero que ganhou de uma namorada, história narrada nas músicas que o cara toca em seu violão pelas ruas da cidade em troca de algumas moedinhas. A garota veio da República Tcheca com a mãe e a filha pequena; abandonou o marido em busca de oportunidades na terra do Bono e do Daniel Day-Lewis (!), mas encontrou uma realidade bem diferente da proposta e, para sobreviver, vende rosas pelas mesmas ruas.

A música (e a idéia de vencer na vida através dela) unirá estas personagens meio que sem querer: ele toca violão, ela é pianista e ambos possuem nítida afinidade profissional. Aos pouquinhos, quase imperceptivelmente, não conseguem enxergar-se longe um do outro. Compõem músicas, fazem duetos, tomam café, revelam alguma coisinha sobre suas histórias pessoais, e por aí vai.

E então… bem, todo mundo já deve imaginar o caminho que a bandinha vai tocar, certo? Como diria Lex Luthor, WROOOOOONG! É aí que o roteiro do irlandês John Carney, também diretor da fita, revela-se mais do que aparenta: evitando ao máximo todos os clichês do gênero, Apenas Uma Vez injeta seriedade, imprevisibilidade e até originalidade na trama ao preferir focar não em um suposto relacionamento entre os dois, mas sim na tortuosa dúvida silenciosa que surge a partir daí. Afinal, tanto o cara quanto a garota têm sonhos e é bem provável que não haja espaço para o outro nestes sonhos, embora a paixão seja de fato inevitável (ou não). O que fazer? Entregar-se a um amor que pode ou não ser correspondido? Não arriscar e deixar ir embora aquele(a) que pode ser sua definitiva cara-metade?

A melhor forma de desabafo segue nas canções executadas pela dupla durante a fita – canções aterrorizantes, compostas em grande parte pelos próprios atores, Marketa Irglova e Glen Hansard (músico profissional, integrante da popularíssima banda irlandesa The Frames e também ator de um dos filmes mais legais dos anos 90, The Commitments – Loucos Pela Fama, de Alan Parker). Sério, algumas das músicas são de cortar o coração, ainda mais analisando a perfeição do contexto das cenas na qual são utilizadas… e masoquista que sou, já tenho até o CD da trilha. Céus! :-D

Bem, para não entregar o jogo todo (o texto está ficando longo demais e, de qualquer forma, se quiser saber mais, vá ao cinema, oras!), basta dizer que Apenas Uma Vez é um daqueles trabalhos curtinhos, sem rodeios, mas de sensibilidade ímpar, que se constrói – e destrói, hehehe – com base em sugestões, na leveza dos diálogos, de seqüências marcantes e das personagens brilhantemente defendidas por Hansard e Irglova. Um filme que te deixa a sensação de ter sido esmurrado, estraçalhado, amassado e atropelado por um trator (!), e tudo isso com um tremendo sorriso no rosto. Veja o filme, compre a trilha, pegue seu violãozinho e saia por aí soltando o gogó! Só escolha bem o repertório. Nada de “quando Deus te desenhou” ou troços do gênero, ok? Nossos tímpanos, comovidos, agradecem. ;-)

Em tempo: na seqüência do passeio, o cara faz uma pergunta à garota, que responde em seu idioma natal e, ignorando a súplica do sujeito, não dá qualquer tipo de pista sobre o que aquela resposta significa. Daí fui forçado a procurar o significado nas Internets da vida… pra quê? Só me deu mais raiva ainda! Cacetada! :-D

ONCE • IRL • 2006
Direção de John Carney • Roteiro de John Carney
Elenco: Glen Hansard, Marketa Irglova, Hugh Walsh, Gerard Hendrick, Bill Hodnett, Danuse Ktreskova, Alistair Foley, Geoff Minogue.
85 min. • Distribuição: Imagem Filmes.


Terra Fria

24/10/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/02/2006.

Terra Fria (North Country)

O plot é manjado: uma mulher, sem esperança alguma na vida, come o pão que o diabo amassou para poder viver com dignidade e, cansada dos maus tratos, decide lutar pelos seus direitos e dá a volta por cima. Se a origem da repressão feminina vem do interior de uma empresa ou uma indústria, então, a coisa fica ainda mais batida – filmes como Norma Rae, com Sally Field, já trataram de temas similares, só para citar um exemplo bem conceituado. Sendo assim, que novidade este Terra Fria (North Country, 2005) poderia oferecer a nós, reles mortais espectadores?

Eu respondo: muitas. Antes de mais nada, Terra Fria recria (com muitas liberdades, claro) nada menos que o caso real que tornou-se o primeiro processo judicial por abuso moral e sexual da história dos Estados Unidos. Outra razão está no nome da pessoa que decidiu levar este projeto adiante, uma tal de Niki Caro, neozelandeza que responde por um dos grandes filmes de 2002, o fantástico Encantadora de Baleias, e tem cacife suficiente para não deixar a história central de Terra Fria cair na mesmice. E por último, a beleza e o talento sempre bem-vindos da maravilhosa Charlize Theron (Monster – Desejo Assassino), acompanhada de outro ser bastante interessante chamado Michelle Monaghan (de Beijos e Tiros). Dois motivos fortíssimos para gastar dindim no ingresso, né não? ;-)

O problema é que a empreitada não dá tão certo assim… tá, Terra Fria é uma produção bem legal, que sabe mexer com os sentimentos do público. Em seu geral, entretanto, ela luta, luta e luta mas não consegue escapar do discurso feminista. E olhe que esta história tinha tudo para transformar a fita num marco do cinema político… é uma pena mesmo. :-(

Então, vamos ao enredo: Charlize Theron vive Josey Aimes, mulher que abandona o marido, de quem era saco de pancadas, e retorna à sua cidade natal ao norte de Minnesota, carregando seus dois pimpolhos e a promessa de uma vida melhor. Instalada na casa dos pais, Hank (Richard Jenkins, As Loucuras de Dick e Jane) e Alice (Sissy Spacek, Entre Quatro Paredes), Josey torna-se alvo fácil da atrasada cidade por ser mãe solteira. Pra piorar as coisas, quando percebe que o lugar vive uma época difícil e de empregos escassos, ela segue o conselho de sua melhor amiga, a respeitada Glory (a ótima Frances McDormand, queridinha dos Irmãos Coen), e decide trabalhar na principal fonte de empregos da região: as minas de ferro. E se você pensou “Uau, a Charlize vai pegar no ferro”, você tem a mente bem sujinha. Hehehe! :-D Ok, esta piada foi horrorosa, então esqueça a última linha e sigamos em frente.

Enfim, a partir daí, a vida de Josey torna-se o inferno na Terra: a mina é um lugar de predominância masculina, e os mineiros, homens de mente fechada, acreditam que lugar de mulher é literalmente na cozinha; ter o grupo de garotas da qual Josey faz parte trabalhando como mineira – um emprego típicamente masculino – representa uma ameaça. Para manter seu emprego e poder sustentar sua família, Josey deverá engolir sapo dos colegas de trabalho, que a humilham, perseguem, zombam, ofendem e até chegam ao cúmulo de atacá-la. E quando tenta se impôr, Josey encontra resistência não só dos seus superiores, mas também de toda a comunidade e até de sua família – o que acaba desenterrando publicamente algumas podreiras de seu passado e deixando a pobre Josey ainda mais afogada…

Então, pode crer que o espectador enfrentará uma bela sucessão de injustiças abatendo nossa querida protagonista, que sofrerá muito, muito e MUITO nas mãos dos homens sem-coração para provar a si mesma e a todos que tem seu valor, e no final… bem, tenho certeza que você já sabe como tudo isto irá acabar. E este realmente é o grande problema de Terra Fria: o roteiro escrito por Michael Seitzman (do obscuro Here on Earth) é quadradinho demais, burocrático demais. Os mais descolados em películas do gênero serão capazes de matar até alguns diálogos, de tão “seguidor-da-cartilha-estadunidense-de-cinema” que o filme é. Isto incomoda e decepciona um pouco, principalmente quando sabemos que a diretora de Terra Fria veio de uma fita tão contundente e anti-clichê como Encantadora de Baleias.

Terra Fria também peca na posição na qual coloca os personagens masculinos, embora tente fugir deste estigma a todo tempo através das figuras de Woody Harrelson (de Quem é Morto Sempre Aparece, aqui como o advogado e suposto pretendente de Josey) e principalmente de Sean Bean (o Boromir, como o dedicado marido de Glory). Num saldo geral, os indivíduos do sexo masculino retratados aqui são intolerantes, sujos, vulgares e malvados, quando deveriam ser mostrados apenas como o que realmente são: pessoas ignorantes não por sua culpa, criadas com a mentalidade de que mulheres são feitas para ficar em casa e cuidar apenas dos afazeres domésticos, deixando para eles a parte “pesada” da coisa. O personagem de Jeremy Renner (S.W.A.T.), o bronco Bobby Sharp, então, é o cúmulo da vilania: se acontecesse hoje uma votação para escolher os vilões mais macabros do cinema, o cara ficaria na frente até do Darth Vader! :-) Infelizmente, não são poucos os momentos em que Terra Fria cai no estereótipo, mas isto é uma falha de roteiro, e não de direção.

Aliás, a direção de Niki Caro é o principal fator que impede Terra Fria de ser um filme ruim. Caro é tão perfeccionista e tão sensível em sua direção que é impossível o público não simpatizar com a história, o que rende vááários momentos tocantes e cheios de lágrimas. Aqui, ela só comprova o talento natural no comando de atores que demonstrou em Encantadora de Baleias, e arranca mais uma grande atuação tanto de Charlize Theron (a conversa de Josey com seu filho na porta de casa é de torcer o coração de qualquer um) quanto de Frances McDormand (magistral como a imbatível Glory – reparem na terrível degradação física da personagem, que sofre de esclerose amiotrófica) e Sissy Spacek (como a silenciosa mãe de Josey). Quando qualquer uma das três está em cena, o negócio fica brabo. :-)

Então, Terra Fria é um bom filme? Sim, sem dúvidas (embora não justifique gastar tanto assim no ingresso – melhor esperar o lançamento nas locadoras). Tem uma história competente, traz grandes trabalhos de atuação de todo o elenco, é bem dirigido, faz os olhos do espectador encherem de lágrimas em muitos momentos… só não é a produção excelente que poderia ter sido se não se rendesse aos estreótipos do gênero – e para uma fita que reconta um dos momentos mais importantes da história judicial dos EUA, é um pecado a ser considerado. A ironia já vem estampada no cartaz; enquanto a tagline diz Ela só queria fazer sua vida, e acabou fazendo história, o longa de Niki Caro poderia ter feito história numa boa. Mas infelizmente, não passou de “apenas mais um filme”. Não foi desta vez. :-(

CURIOSIDADES:

• Os, bem, “restos humanos” de uma nojentíssima cena envolvendo Michelle Monaghan (não vou detalhar aqui para não estragar a desagradável surpresa de quem assistir…) foram feitos de uma mistura de Gatorade e recheio de torta de abóbora.

• Em entrevistas, Frances McDormand comentou que, antes de saber qualquer detalhe do enredo, já decidira dizer “sim”. Afinal, ela quis participar do filme apenas pela oportunidade de aprender a dirigir um caminhão (?). Bem, esta eu não entendi. Ou pelo menos estou fingindo que não entendi… por favor, ninguém me explique! :-)

NORTH COUNTRY • EUA • 2005
Direção de Niki Caro • Roteiro de Michael Seitzman
Baseado no livro Class Action: The Landmark Case that Changed Sexual Harassment Law, de Clara Bingham e Laura Leedy Gansler
Elenco: Charlize Theron, Frances McDormand, Sissy Spacek, Woody Harrelson, Sean Bean, Richard Jenkins, Jeremy Renner, Michelle Monaghan.
126 min. • Distribuição: Warner Bros.