Os espiões mais bacanas do cinema

29/09/2013

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/09/2004.

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Qual é, afinal, a graça toda nas fitas estreladas por James Bond, o tal agente secreto 007? Bem, vejamos: a ação desenfreada, as tramas rocambolescas e cheias de pequenos detalhes, as missões aparentemente impossíveis, os divertidíssimos e ultra-caricatos vilões, as geringonças que fazem o sonho de qualquer um, os carrinhos mega-possantes, as belas e inocentes mulheres (inocentes? hum, até parece)… 007 é, na verdade, um indivíduo que representa o desejo de consumo de qualquer ser humano interessado em um pouquinho de aventura; um detalhe que, pra falar a real, não é exclusividade deste espião, mas também de qualquer personagem que tenha este, bem “emprego”. Em uma linha, 007 – e qualquer espião que se preze – conquista a negada porque, no fundo, todo mundo queria ser igual a ele. ;-)

Os filmes de espiões têm este diferencial: é muito fácil a identificação do público com o mocinho. Afinal, quem neste mundo não gostaria de estar na pele de alguém que viaja pelos quatro cantos do planeta, ganha um salário altíssimo, vive no limite e ainda cata as mais lindas mulheres? Além disso, este subgênero responde por cerca de 80% das produções de ação que chegam todo ano a nós, espectadores. Só para se ter uma idéia, um banco de dados virtual americano constatou que existem mais de 1.400 longas e curtas-metragens só nos Estados Unidos envolvendo espiões, detetives e afins. É número a dar com o pau! :-)

COMO SURGIU ESSE LANCE TODO?

Não se sabe exatamente como e quando o subgênero surgiu, mas uma das primeiras fitas a tratar do assunto, mesmo que indiretamente, foi Boots, filme mudo comandado por Elmer Clifton em 1919. A trama silenciosa envolve uma sapateira inglesa viciada em livros de aventuras (interpretada por Dorothy Gish) que, meio que sem querer, descobre um plano bolchevique para eliminar um funcionário do governo e resolve assumir a identidade do herói de um dos livros que lê para impedir que isto aconteça. Uma curiosidade: Dorothy Gish, considerada uma das mais belas atrizes dos anos 20, nasceu em 1898 e faleceu em 1968, aos 70 anos. A atriz atuou em 121 longas-metragens a partir de 1912. Abandonou as telas em 1927, por ser uma das centenas de profissionais a se rebelar contra a indústria cinematográfica com o advento do cinema falado.

Enfim, Boots foi bem visto na Inglaterra e nos Estados Unidos e sua popularidade abriu algumas portas. Logo, vários outros filmes exploraram os agentes secretos. Mas o gênero só ganhou mesmo notoriedade pelas mãos de Alfred Hitchcock, que nos trouxe pérolas como Os 39 Degraus (1935), Sabotagem (1936), O Agente Secreto (1936), Interlúdio (1946) e aquele que é tido até hoje como o “pai” da espionagem, O Homem que Sabia Demais (1934), e a partir daí vieram muitos outros. Inspirado nisso, resolvi relacionar aí embaixo alguns dos agentes secretos (das mais variadas espécies) mais legais que chegaram às telonas – mas veja bem, como não dá pra citar quase mil e quinhentos caras aqui, falarei só de alguns (e o 007 vai ficar de fora porque é clichê – e também porque já tem este especial gigantesco!).

• O RETARDADO

Maxwell Smart, mais conhecido como o Agente 86, sempre foi um dos caras mais estúpidos da história da espionagem. Uma sátira descarada da série de James Bond, o personagem criado por Mel Brooks e interpretado pelo saudoso Don Adams enlouqueceu sua parceira burrinha, a Agente 99 (Barbara Feldon), e conquistou o mundo na década de 60 com seu fabuloso seriado cômico. Até que, em 1980, chega aos cinemas seu primeiro filme, a comédia A Bomba que Desnuda (The Nude Bomb), dirigido por Clive Donner. A trama não fez feio aos absurdos que rolavam na telinha: Smart vê sua aposentadoria ser interrompida quando é chamado para descobrir quem é o louco que criou uma bomba que, ao explodir, carboniza as roupas das pessoas (!), deixando-as nuas. Na época, o longa foi acusado de “ofensivo à moral e os bons costumes” (principalmente por ter no elenco Sylvia Kristel, a mocinha alegre do clássico erótico Emmanuelle), tornando-se um fracasso de bilheteria, mas hoje em dia é considerado uma excelente comédia.

Por que está nesta lista: Apesar de ser uma toupeira, o Agente 86 nunca era descoberto e sempre elucidava o mistério no final – mesmo que o fizesse por puro acaso.

• O CALCULISTA

No fantástico A Caçada ao Outubro Vermelho (The Hunt for Red October, 1990), o sossegado analista da CIA Jack Ryan (Alec Baldwin) não chega a ser exatamente um agente secreto, mas funciona como tal. Afinal, sua função é investigar na surdina e tentar, de uma maneira ou de outra, impedir um ataque em massa ao submarino Outubro Vermelho, conduzido pelo capitão soviético Marko Ramius (Sean Connery), que contrariou ordens superiores e está guiando o submarino em direção a América. Na visão dos russos, Ramius é um desertor. Já para os americanos, uma guerra está para começar. Para atingir seu objetivo, Ryan move montanhas sem precisar utilizar a força bruta uma única vez. A Caçada ao Outubro Vermelho, dirigido por John McTiernan (Predador, Duro de Matar) a partir do romance de Tom Clancy, se tornou o maior sucesso de bilheteria em 1990, rendendo mais de US$ 200 milhões no mundo todo e vendendo mais de 6 milhões de exemplares do livro só nos EUA. Além disso, o trabalho consolidou a carreira de atores como Sam Neill (Jurassic Park) e Scott Glenn (O Silêncio dos Inocentes).

Por que está nesta lista: Mesmo sendo somente um analista, Jack Ryan mostrou que tem culhões e acabou ganhando uma promoção, tornando-se um respeitado agente nos livros (e filmes) seguintes, Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato – isto, sem contar o prequel destas histórias, o divertido A Soma de Todos os Medos.

• O INEXISTENTE

Quem aí se lembra do clássico da sessão da tarde Os Heróis Não Têm Idade (Cloak & Dagger, 1984)? O divertido longa dirigido por Richard Franklin marcou a infância de muita gente – inclusive eu – ao traduzir em imagens o espírito infantil de todo “futuro nerd” de participar de zilhões de aventuras ao lado de seu herói predileto. Davey (Henry Thomas, E.T., O Extraterrestre), de 11 anos, é órfão de mãe e sofre com a ausência do pai, que vive para o trabalho. Para não enlouquecer, Davey passa os dias a jogar seu game predileto, Cloak & Dagger, protagonizado pelo super-espião Jack Flack. Quando um agente do FBI prestes a ser assassinado cruza seu caminho e lhe entrega um cartucho de videogame com dados confidenciais, Davey se torna um alvo em potencial. Para escapar desta – já que nenhuma adulto acredita em sua história -, o garoto conta com a ajuda de seu “amigo imaginário” Jack Flack (vivido pelo sumidaço Dabney Coleman, que também interpreta o pai de Davey). O longa, escrito por Tom Holland, rendeu bem menos do que o esperado nas bilheterias na época de seu lançamento, mas este detalhe não o impediu de marcar uma geração.

Por que está nesta lista: Orra, e ainda tem dúvida? Jack Flack alimentou as fantasias de muita criança por aí! E a cena final no avião é arrasadora… fantasia pura!

• A BAGACEIRA

Todo mundo sabe que os ianques guardam um preconceito enorme com relação às fitas faladas em idiomas não-inglês. Esse rancor não foi um empecilho para o desempenho arrasador em terras gringas de uma pequena produção B da França em 1990. Esta fita arrecadou US$ 5 milhões em apenas três semanas numa boa – tudo bem, parece pouco se compararmos com os números de hoje, mas vamos levar em consideração que o filme é estrangeiro, e naquela época não era tudo tão supervalorizado. Bem, a fita em questão é o filmaço Nikita – Programada para Matar (La Femme Nikita, 1990), do hoje consagrado Luc Besson (Imensidão Azul). No enredo, uma garota chamada Nikita (a maravilhosa Anne Parillaud) se chapa de drogas junto a dois amigos niilistas e comete furto e assassinato. Ao invés de ser presa ou condenada à morte, porém, Nikita é enviada para uma escola especial ultra-secreta, onde é treinada para “reembolsar a sociedade” por seus atos de vandalismo. Como? Se tornando uma espiã e assassina profissional a mando do governo. Nikita lançou a carreira de Luc Besson, que mais tarde viria a dirigir obras como o poético Léon – O Profissional, a malfadada ficção O Quinto Elemento e o controverso Joana D’Arc. Além disso, abriu caminho para uma bem-sucedida franquia que conta com a refilmagem A Assassina, de John Badham e estrelado pela linda Bridget Fonda, e o seriado La Femme Nikita, com a tentativa de atriz Peta Wilson.

Por que está nesta lista: Quase uma versão mais bagaceira de 007, Nikita é capaz de matar alguém na sua frente, desaparecer em segundos e você nem notar. A menina também é expert em armas e deixa todos os homens babando por onde passa – o que muito contribui para o sucesso de suas missões.

• O SARADÃO

O conceito básico de Nikita ganhou uma nova roupagem em 2000, resultando num trabalho controverso, porém bem-sucedido financeiramente. Em Triplo X (xXx), Xander Cage (Vin Diesel, no papel que o alçou à condição de astro de filmes de ação), viciado em esportes radicais, é um meliante forçado por um agente da NSA (Samuel L. Jackson) a cooperar com o governo numa investigação. Para não parar na prisão, Cage deve se infiltrar numa criminosa facção russa. Adicione a este ingrediente um diretor e um produtor cuja parceria anterior deu muito certo (no caso, Rob Cohen e Neal H. Moritz, a mesma dupla de Velozes e Furiosos), o protagonista deste mesmo longa, uma trama recheada de situações de risco, cenas mirabolantes e pronto: aproximadamente US$ 150 milhões de doletas em apenas um mês e meio só nos Estados Unidos e uma horrorosa seqüência que chegou às telonas do planeta em 2005 (com o rapper Ice Cube ocupando a vaga do carequinha). E o filme é bom? Bem, é divertido mas facilmente descartável. Mas querer exigir muito de um filme de pancadaria é o mesmo que querer encontrar diálogos shakesperianos em fita pornô, não é mesmo?

Por que está nesta lista: O jeitão bem humorado de Xander Cage faz qualquer um torcer por ele. E qualquer fita com a magavilhosa Asia Argento no elenco merece estar em qualquer lista!

• A ENTEDIADA

Esqueça Arnold Schwarzenegger e esqueça James Cameron. O verdadeiro dono do excelente True Lies (1994) não é “dono”, e sim “dona”: Jamie Lee Curtis. A “rainha do grito”, revelada no clássico do terror Halloween, andava meio escondida, trabalhando em pouquíssimos projetos, até que arrasou com sua hilariante interpretação da dona de casa cujo marido, um vendedor de computadores, é na verdade um hiper-ultra-mega agente secreto. Entediada com sua vida de mulher do lar, Helen Tasker acaba se envolvendo com um suposto “espião”, e termina no meio de uma complicada rede envolvendo terroristas árabes – por sinal, investigados pelo seu esposo. Contar mais da história estraga: True Lies é daquele tipo de filme que não pode ser resumido em uma ou duas linhas. Refilmagem de La Totale!, longa francês de 1991 do cineasta Claude Zidi, True Lies é considerado um dos melhores filmes da carreira de James Cameron, e ainda conta com a belíssima Tia Carrere (Quanto Mais Idiota Melhor), Tom Arnold (Contra o Tempo) e um dos atores mais legais dos últimos anos, Bill Paxton (que se revelou na direção com o filmaço A Mão do Diabo) no elenco.

Por que está nesta lista: A personagem de Jamie Lee Curtis é a tradução perfeita daqueles que sonham com uma vida de aventuras – o que torna muito fácil a identificação e a empatia com ela. E a cena do strip-tease é simplesmente a melhor seqüência cômica de 1994.

• O PERVERTIDO

E por falar em comédia, é impossível escrever um artigo sobre espiões sem citar o tarado Austin Powers (Austin Powers: International Man of Mystery, 1997), de Jay Roach – tudo bem que a gloriosa Srta.Ni já falou bastante do meliante aqui nesta matéria. Por isto mesmo, se você está afim de saber mais a respeito deste indivíduo, é só ler a matéria da nossa querida nerd-girl neste link aqui! Vai fundo e be happy. ;-)

Por que está nesta lista: Austin Powers é James Bond em todos os aspectos. A não ser, claro, pelos dentes tortos e aqueles babados todos em suas roupas…

• O PIVETE

Cody Banks é um garoto como qualquer outro. Gosta de skate, detesta matemática e é um completo idiota quando o assunto é garotas. O que ninguém sabe é que Cody Banks é parte integrante de um complexo programa de agentes da CIA – mesmo tendo apenas 16 anos. Este é o mote de O Agente Teen (Agent Cody Banks, 2003). Em sua primeira lição, Banks deve se aproximar de uma garota cujo pai é um renomado cientista que trabalha para a vilanesca corporação ERIS. O problema todo é que a maior tragédia imaginável é fichinha perto do terror que é o garoto tentando conquistar uma menina! O Agente Teen chegou aos cinemas meio tímido e construiu uma carreira sólida entre os adolescentes, graças ao roteiro bem escrito e o apelo do ator principal, o estranho e hilário Frankie Muniz (Malcolm In The Middle). Também ganhou uma continuação: O Agente Teen 2, Missão Londres (Agent Cody Banks 2: Destination London, 2004), que no momento está em exibição nos cinemas.

Por que está nesta lista: Apesar de ser uma película direcionada aos adolescentes, correndo o risco de parecer até meio bobinha para os mais velhos, é impossível não cair na gargalhada com as expressões e os trejeitos de Cody Banks. E quem acompanhou Malcolm In The Middle sabe do que Frankie Muniz é capaz.

• O ESQUECIDINHO

E para encerrar esta matéria, nada melhor do que revisitar um dos agentes secretos mais divertidos a aportar nos cinemas nos últimos anos: o desmemoriado Jason Bourne (Matt Damon), que um belo dia acordou em uma idílica praia do Mar Mediterrâneo… com o corpo totalmente cravado de balas. Sem fazer ideia de quem é ou do que faz de sua vida – a única coisa que sabe é seu nome -, Bourne consegue sobreviver graças ao auxílio de um médico e descobre em seguida que possui um misterioso chip implantado em sua perna. Assim, Jason Bourne passa a correr atrás de uma resposta para o mistério de sua verdadeira identidade: um espião no meio de uma complicadíssima trama de assassinato envolvendo o alto escalão da CIA… e que é perseguido por alguns figurões que desejam sua cabeça. A odisséia de Jason Bourne, personagem extraído de uma série de romances de Robert Ludlum que já fora adaptado para a TV em 1988 (com o tosco Richardo Chamberlain como protagonista), tem início no bacanésimo A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002), comandado por Doug Liman (Swingers: Curtindo a Noite, Vamos Nessa), ganha mais um capítulo com o excelente A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004), de Paul Greengrass – que comandou um dos melhores filmes dos últimos anos, Domingo Sangrento – e prepara-se para detonar novamente nas telonas em seu terceiro (e provavelmente último) episódio, O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum), a chegar aos cinemas em 2007. Juntas, as duas primeiras fitas da saga já renderam mais de US$ 300 milhões, só nos Estados Unidos.

Por que está nesta lista: Porque é ação pura, do início ao fim. Para resumir bem, digamos que a saga de Jason Bourne é como o filme mais eletrizante de James Bond já lançado… com uma carga bem maior de adrenalina. :-)

 

OS ESPIÕES MAIS “DUCA” DO CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 23/09/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem 007: CASSINO ROYALE.

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Batman: O Seriado dos Anos 60

14/09/2013

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 08/06/2005.

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Todo mundo está careca de saber que o excelentíssimo senhor Joel Schumacher fez a gentileza de zombar da cara do glorioso e atromentado Batman nos cinemas, com aqueles dois trágicos longas-metragens cheios de luzes, cores, plumas, neon e mamilos salientes (!). Até então, beleza. Só que Schumacher não foi o único. Antes disso, mais exatamente em 1966 – 29 anos à frente do terrível ano de 1995, ano de estréia de Batman Eternamente -, um certo produtor de televisão chamado William Dozier também sacaneou o Homem-Morcego ao dar a partida em Batman & Robin, seriado que durou 120 episódios. A diferença entre Dozier e Schumacher é que o primeiro conseguiu o que o segundo jamais conseguirá: gerou um clássico. Hooray! :-D

E de onde surgiu a idéia de um herói ultra-colorido, “barrigudinho” e um fiel ajudante muito… suspeito? O lance veio meio que por acaso. Nos anos 60, a televisão ainda não contava com seriados tão sérios como hoje em dia. Para fazer sucesso, precisava ser um folhetim de ação e aventura, como Perdidos no Espaço e Jornada nas Estrelas, ou então uma comédia para toda a família, como o tenebroso Os Monkees. No início da década sessentista, a rede americana ABC mostrou interesse em trabalhar um seriado protagonizado por um super-herói. A proposta dos executivos da emissora era criar uma série movimentada e ao mesmo tempo cômica, que pudesse atrair tanto crianças quanto adultos.

A idéia de transformar Batman no personagem central de um folhetim surgiu por diversos fatores: William Dozier e seu co-produtor Howie Horvitz queriam um herói popular nos gibis, para que o programa conquistasse esta fatia de público não tão acostumada às “maravilhas” da “caixa de imagens” (os nerds da época). Em 1966, a televisão em cores era uma novidade ainda ausente em alguns lares americanos, e a ideia do programa era justamente explorar este avanço tecnológico para impulsionar a venda do aparato – ideia que caiu como uma luva para os produtores, visto que a proposta consistia em transformar Batman, a série, numa versão fiel da estrutura dos gibis para a TV, como se o seriado fosse nada mais do que uma HQ em movimento. Tudo neste novo programa precisava ser exageradamente tosco.

E por que justo o nosso querido vigilante mascarado? Porque, dentre vários, o personagem era aquele com o custo de direitos autorais mais baixo, portanto, o mais viável financeiramente falando. :-D

Então, o seriado estreou em 12 de Janeiro de 1966, com dois capítulos por semana (geralmente às quartas e quintas-feiras), produzido pela ABC em parceria com a 20th Century Fox e estrelado pelos desconhecidos Adam West e Burt Ward como Batman e Robin, o menino-prodígio, respectivamente. Enquanto o primeiro, um desconhecido ator profissional, era a primeira escolha de Dozier para o papel, o segundo, um mero estudante com conhecimento em dramaturgia zero, foi escolhido por suas habilidades como lutador de artes marciais e também pela incrível semelhança com o Robin dos quadrinhos.

A estrutura de Batman era mais do que simples: Batman e Robin estavam sempre prontos para livrar Gotham City de seus vilões malucos, que geralmente revezavam-se nos episódios. Ao final do primeiro capítulo da semana, os dois sempre acabavam em alguma mirabolante armadilha do meliante da vez e, tentando escapar, surgia a narração do próprio Dozier: “Será que este é o fim de nossos heróis?”. Tudo isto era apenas um gancho para, no início do capítulo seguinte, a dupla dinâmica conseguir se safar no último segundo.

Se por um lado os mocinhos eram ilustres desconhecidos, a galeria de vilões era composta de atores consagradíssimos no cinema. Não à toa, os bandidos que eram a verdadeira alma de Batman, fundamentais para o sucesso da série; se comparados a eles, os heróis não tinham um traço de carisma. Atores e atrizes, visando popularidade entre o público ianque, disputavam uma participação no seriado a tapa, o que fez com que a Fox gerasse um sem fim de hilários personagens coadjuvantes. Gente do porte de Jerry Lewis, Vincent Price e até mesmo o mestre Bruce Lee já deram as caras na Gotham City dos anos 60.

Pouco antes da estréia do seriado, a tensão era grande, visto que Batman, ao ser exibido para um reduzido círculo de “cobaias”, recebeu a pior avaliação de teste de audiência até então. Na verdade, a série só foi ao ar porque muito dinheiro tinha sido investido nela. Ironicamente, Batman estourou de uma maneira inesperada na telinha, tornando-se uma das dez maiores audiências em 1966, mantendo-se no ar por três anos e sendo repetido à exaustão até hoje. Só pra se ter uma idéia, em suas primeiras semanas, de cada 100 televisores dos States, pelo menos 49 sintonizavam o programa do Homem-Morcego. Quase tão popular quanto os paredões dos Big Brothers da vida… :-P

Mas nem tudo eram flores na vida do vigilante mascarado. A série enfrentou graves problemas: boa parte dos fãs de HQs inicialmente torceram o nariz e acusaram a ABC de suavizar o conteúdo do gibi, tornando-o kitsch demais e com doses cavalares do “politicamente correto” que decididamente não fazia parte da HQ. Tanto que, depois do cancelamento do seriado, as revistas adotaram uma estética dark e muito macabra para o personagem, na tentativa de apagar a imagem “feliz” do paladino das telinhas.

Outro problema envolvia a convivência entre Adam West e Burt Ward. West, notório por sua arrogância, não suportava o sucesso que Ward fazia entre as adolescentes, e muitas vezes atropelava o garoto nos diálogos, interrompendo suas falas. West tinha também a mania de falar pausadamente, para ficar mais tempo em cena. Ward, por sua vez, corria em suas falas para tentar não ser cortado. O mais ridículo é que estas cenas sempre iam ao ar, já que a política da Fox era economizar. Logo, as sequências com falhas jamais eram refeitas. Mais ou menos nesta época, Ward gerou mais dores-de-cabeça ao estúdio quando resolveu reivindicar um salário maior (seu cachê era o mais baixo de toda a equipe).

Os gastos da produção também eram preocupantes. Batman foi até então o seriado de maior custo da televisão; seus episódios chegavam freqüentemente ao valor de US$ 75 mil, um absurdo na época. Por maior que fosse o ibope do programa, este valor nunca se pagava. Boa parte desta grana era investida nos magníficos cenários da série: só a batcaverna era recheada de elementos ultra-modernos, além do famoso “estacionamento circular” do batmóvel, que facilitava bastante na hora de atender algum chamado do Comissário Gordon e do Chefe O’Hara – afinal, o cara não podia perder tempo fazendo balisa! O batmóvel, aliás, tinha cinco réplicas idênticas de reserva. Sem contar o batcóptero, a batmoto (com um providencial sidecar para o Menino-Prodígio), a batlancha, os bat-trecos personalizados… Nada disto poderia faltar.

A maior pedra no sapato de Batman, contudo, é a tal suposta homossexualidade dos dois, ahn, “parceiros”. A suspeita de que o Homem-Morcego e o Menino Prodígio eram mais do que apenas “bons amigos” até conseguia ser disfarçada nos gibis, mas ganhou um impulso aterrador com a atmosfera colorida da série. Para amenizar a situação, os produtores inseriram personagens inexistentes no universo das HQs, como a infame Tia Harriett, e geraram interesses românticos para o herói, como a Mulher-Gato – descartada por ser uma vilã, logo, um péssimo exemplo para a sociedade puritana dos States. De nada adiantou, porque a reputação dos dois ficou manchada do mesmo jeito.

Pra tirar de uma vez a noite de sono dos executivos da Fox, a censura da época atazanou os produtores por conta de um detalhe no mínimo bizarro: o volume na sunga do Robin (esta é a parte em que eu tento conter os risos). O que acontece: diz a lenda que Burt Ward era um sujeito, digamos, “avantajado” (!), e a sunga não conseguia disfarçar este “pequeno” detalhe. Mesmo com duas sungas, o volume ainda estava lá. O estúdio chegou ao cúmulo de enviar Burt Ward a um médico “especializado”, para que pudesse tomar pílulas para diminuir o tamanho dos órgãos genitais (!!!). Para que os censores não incomodassem mais, a Fox decidiu filmar Robin somente em plano americano, ou seja, da cintura para cima… Pois é, naquele tempo não tinha CGI para apagar, er, o lance todo. :-P

Todos os percalços não impediram que Batman construísse uma sólida e bem-sucedida carreira em termos de público na TV. A glória do seriado só começou a cair entre o final de 1967 e o início de 1968, quando os espectadores inexplicavelmente perderam o interesse nas aventuras do Homem-Morcego. A duração dos episódios, de 50 minutos, foi cortada pela metade. A direção do seriado chegou até a acrescentar mais uma integrante ao batgrupo, a valente Batgirl (com a intenção de atrair a parcela masculina), mas nem a garota, interpretada por Yvonne Craig, conseguiu salvar o programa do marasmo total.

A série foi cancelada de vez em Maio de 68, quando a Fox acatou à decisão de interromper a produção de novos capítulos para reprisar os primeiros episódios, na tentativa de obter algum lucro em cima do investimento. Nem mesmo o lançamento do longa-metragem Batman & Robin: a Dupla Dinâmica, de 1966, dirigido por Leslie H. Martinson e protagonizado pelos mesmos atores do seriado, conseguiu reconquistar a audiência.

Falhas, problemas, exageros e tosqueiras à parte, ninguém pode negar que Batman entrou para a história como um marco da televisão e da juventude de muita gente. Afinal, aqueles que puderam acompanhar o seriado na transmissão original ou em suas reprises jamais conseguirão esquecer a maravilhosa música-tema composta por Neal Hefti, ou as hilariantes onomatopéias que surgiam na telinha quando Batman e Robin partiam para a pancadaria com os capangas dos vilões – SMASH! POW! BIFF! SOC! POOF! CRASH! BOING! UFFF! ZAPP! KAPOW! -, ou o simples mas funcional chavão do Menino Prodígio – santa tolice, Batman! – ou até mesmo a narração final, quando aquela voz estridente anunciava “não perca mais um bat-capítulo, neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-canal!”. Alegre, politicamente correto e visualmente colorido e bizarro demais? Sim, pode ser. Mas sou obrigado a dizer que, por mais que esteja realmente muito empolgado com a chegada do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, não troco as bat-aventuras bat-inocentes e bat-bobinhas do Batman gordinho de 1966 por nada. :-D

A GALERIA DOS MOCINHOS

Bruce Wayne/Batman (Adam West) era o cúmulo do “bom-mocismo”. Correto até a medula-óssea, coisas como matar um vilão jamais passaria pela sua cabeça. Adam West, hoje com 77 anos, trabalhou bastante depois do seriado, mas em filmes para a TV. Participou como ele mesmo de um telefilme inspirado nos bastidores do programa, De Volta à Batcaverna, ao lado de Burt Ward, em 2003. Ainda aparece em algumas pontas em filmes, e atualmente dubla um personagem na série animada The Batman, além de ter um papel na esperada animação Chicken Little.

Dick Grayson/Robin (Burt Ward) foi adotado pelo playboy Bruce Wayne e se tornou motivo de chacota. Só servia mesmo pra se meter em encrencas, e não fazia muito além de atrapalhar, mesmo que sem querer, os affairs de Bruce com a Mulher-Gato. Burt Ward tem 60 anos e não atuou muito depois da série. Em 1977, participou com Adam West do telefilme Legends of Super Heroes, inédito por aqui. Atualmente é dono de uma pequena imobiliária, e ainda participa de um trabalho ou outro no cinema. Não fez nada significativo como ator além de Robin.

Barbara Gordon/Batgirl (Yvonne Craig) surgiu para elevar a audiência do seriado, coisa que não aconteceu. A bibliotecária Barbara Gordon, filha do comissário Gordon, tinha um esconderijo secreto atrás de sua própria penteadeira, de onde saía como Batgirl em sua bat-lambreta (é sério!), para dar uma ajudinha aos dois paladinos da justiça quando a coisa apertava… Yvonne Craig, com 68 anos, quase não atuou depois do seriado. É presença constante em convenções do Batman.

Alfred Pennyworth (Alan Napier), fiel mordomo de Bruce Wayne, era o único que conhecia a verdadeira identidade de Batman e Robin. E também da Batgirl, coisa que nem o Homem-Morcego sabia – o que prova que Alfred era realmente o homem digno de confiança que Bruce tanto alardeava. O personagem, morto nos gibis na época do lançamento do seriado, foi ressuscitado nas HQs devido ao sucesso de seu intérprete. Nascido em 1903, o inglês Alan Napier atuou em mais de 40 séries de TV e cerca de 95 filmes desde 1930. Faleceu em Agosto de 1988, um ano antes da estréia do Batman de Tim Burton.

Tia Harriett Cooper (Madge Blake) não existia nas HQs, e foi incorporada ao seriado para quebrar um pouco do falatório envolvendo a, er, “união” do morcegão com Robin. Ao contrário de Alfred, Harriett, tia de Dick Grayson, jamais desconfiou da identidade secreta da dupla. Madge Blake nasceu em 1899 e faleceu em 1969, pouco antes de completar 70 anos, de ataque do coração. Sua saúde debilitada a afastou do seriado em 1967. Blake era uma conhecida comediante dos anos 50, tendo atuado inclusive no clássico musical Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen.

Comissário James Gordon (Neil Hamilton) tinha uma única função em Batman: acionar o herói em qualquer emergência, através do bat-sinal, o que era raríssimo, ou pelo bat-fone. Gordon nunca corria atrás dos bandidos! Neil Hamilton, também nascido em 1899, era um veterano do cinema mudo, e integrou o elenco de obras-primas como Beau Geste e O Grande Gatsby. A série representou um de seus últimos trabalhos, e reza a lenda que o ator levava seu papel tão a sério que saía na mão com qualquer um que afirmasse que Batman era “uma série cômica”. Ué, mas não era? Hamilton faleceu em 1984.

Chefe O’Hara (Stafford Repp) era dono de uma função ainda mais “importante” que o Comissário Gordon. Seu trabalho consistia em ficar parado, em pé, ao lado do Comissário, pra fazer comentários engraçadinhos e aleatórios quando Batman surgia no recinto. Especialista em séries de televisão, o semi-desconhecido Stafford Repp fazia praticamente o mesmo papel em todas elas: o alívio cômico. Nasceu em 1918 e morreu em 1974.

OS VILÕES ESPECIALMENTE CONVIDADOS

Coringa/The Joker (Cesar Romero) deu as caras em 19 episódios da série. Romero (1907-1994), filho de cubanos, ganhou fama na Hollywood dos anos 30 e 40 interpretando latin lovers, e atuou em mais de 110 filmes, dentre eles a primeira versão de Onze Homens e um Segredo. A única exigência de Romero ao participar do seriado era que ninguém ousasse fazê-lo raspar seu conceituado bigode, conhecido como sua marca registrada. A maquiagem até tenta cobrir, mas em certos momentos não consegue… :-D

Pingüim/The Pengüin (Burgess Meredith) atazanou o Batman em 20 episódios. A risada maquiavélica e o tom de voz do personagem era nada mais do que a resposta natural de Meredith ao cigarro: Pingüim fumava praticamente o tempo todo, e Meredith era não-fumante. O ator, nascido em 1907 e falecido em 1997, é um dos nomes mais festejados do cinema dos anos 50 e 60, e deu as caras em muitas produções de sucesso. Atuou em mais de 100 longas e seriados, e é dono de duas indicações ao Oscar, em 75 e 76 – esta última, por Rocky, um Lutador. Meredith, que foi casado com Paulette Goddard (ex-esposa de Charles Chaplin), era a segunda escolha para o papel de Pingüim. A primeira, Spencer Tracy, só aceitaria o papel caso o Pingüim assassinasse o Batman no final da série!

Mulher-Gato/Catwoman (Julie Newmar) apareceu em 13 episódios no corpo desta atriz. A personagem também apareceu como Eartha Kitt (a primeira Mulher-Gato negra da história, em 3 capítulos) e Lee Meriwether (no longa-metragem). A ladra felina não era tãããão vilã assim, e preocupava-se muito mais em tentar dar um créu no Homem-Morcego. Ele até cedia algumas vezes, porém Robin sempre aparecia para atrapalhar tudo… Newmar, atualmente com 72 anos, não realizou nenhum trabalho tão significativo quanto Batman, mas a série já foi o suficiente para transformá-la num ícone dos anos 60, especialmente entre os gays. Tanto que ganhou uma homenagem na comédia Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar, com Patrick Swayze, John Leguizamo e Wesley Snipes interpretando drag-queens.

Charada/The Riddler (Frank Gorshin) marcou presença em 10 episódios. O meliante, que foi vivido apenas duas vezes por John Astin (graças a Deus), tinha como objetivo derrotar o Morcegão com suas charadas infames, sempre sem sucesso. Gorshin, nascido em 1933 e falecido recentemente, construiu uma sólida carreira em filmes independentes, chegando até a trabalhar com o conceituadíssimo cineasta Guy Maddin. A última aparicão importante do ator foi no ótimo Os 12 Macacos, do insano ex-Monty Python Terry Gilliam.

O Cabeça de Ovo/Egghead (Vincent Price), que apareceu em 7 capítulos, não tinha um passado definido, acho. E só deve ser lembrado mesmo por ter sido interpretado pelo grande Vincent Price (1911-1993), gênio que dispensa maiores comentários) que, por sinal, odiava ter que usar a maquiagem do bandidão. Ou você confiaria num vilão cuja única característica é usar uma variedade de armas, bombas e armadilhas feitas com ovos? :-P

Rei Tut/King Tut (Victor Buono) deu as caras em 10 episódios da série. Tut era um professor universitário de arqueologia, que sofreu um acidente e perdeu a memória. Com isso, passou a acreditar que era um antigo rei egípcio. Victor Buono (1938-1982) fez muito sucesso em Hollywood nos anos 50, e deu vida a um papel chave do longa-metragem dramático quase de horror O Que Terá Acontecido a Baby Jane?. Vale lembrar que o Rei Tut seria originalmente interpretado por ninguém menos que o carecão ferradaço Yul Brynner, de Westworld: Onde Ninguém Tem Alma.

Sr. Frio/Mr. Freeze (George Sanders, Eli Wallach e Otto Preminger) queria congelar Gotham City de qualquer maneira. Para isto, contou com três atores diferentes: George Sanders (em 2 capítulos), Eli Wallach (2 vezes também) e o cineasta Otto Preminger (2 episódios). Este último, assim como o saudoso Richard Harris em Harry Potter, só topou participar da brincadeira pra fazer um agradinho às netas…

OUTROS VILÕES MENORES ESPECIALMENTE CONVIDADOS

O Chapeleiro Louco/Mad Hatter (David Wayne) • O Menestrel/The Minstrel (Van Johnson) • O Arqueiro/The Archer (Art Carney) • Minerva (Zsa Zsa Gabor) • Louie, o Lilás/Louie the Lilac (Milton Berle) • O Rei Relógio/Clock King (Walter Slezak) • A Viúva Negra/Black Widow (Tallulah Bankhead) • Márcia, a Rainha dos Diamantes/Marsha (Carolyn Jones) • Zelda, a mágica (Anne Baxter) • Olga, a Rainha dos Cossacos (Anne Baxter também).

CURIOSIDADES:

• Dizem que Bob Kane não gostou nada do resultado do seriado. Mas ficou de bico calado pois, gostando ou não do que os produtores da Fox e da ABC fizeram com o Homem-Morcego, a série elevou consideravelmente a venda dos gibis do herói.

• A grande maioria dos astros de cinema e TV da época ansiavam por uma participação em Batman. Como não haviam tantos vilões assim para encaixar os atores e atrizes, a solução foi colocá-los como eles mesmos em pequenas pontas. Exemplo: sempre que Batman e Robin precisavam subir em algum prédio, nunca usavam portas, escadas ou elevadores. A dupla dinâmica laçava a bat-corda no topo do edifício, para poder escalá-lo (!). Durante a escalada, uma janela do prédio sempre se abria e um astro hollywodiano dava um alôzinho aos dois…

• No seriado, os vilões raramente se cruzavam. Já no longa-metragem, o roteirista Lorenzo Semple Jr. decidiu unir num único plano os quatro mais importantes arqui-inimigos do vigilante noturno: Coringa, Mulher-Gato, Charada e Pingüim. Este último era o personagem mais popular de toda a série; tanto que os produtores sempre tinham um roteiro pronto para o Pingüim, caso Burgess Meredith estivesse ocasionalmente em Los Angeles e tivesse um tempinho para filmar.

• A gargalhada maníaca de Frank Gorshin no seriado foi copiada do personagem Tommy Udo, interpretado pelo aterrorizante Richard Widmark no clássico noir O Beijo da Morte, de 1947. Este mesmo filme ganhou uma refilmagem em 1995, com Nicolas Cage e Samuel L. Jackson.

• A clássica cena em que o Batmóvel sai da batcaverna à toda (que, por sinal, era sempre a mesma cena, por mais que fosse exaustivamente usada) foi filmada numa caverna em Hollywood Hills, com o carro a menos de 15km/h. Isto, porque a largura da saída da batcaverna era muito estreita, e havia o sério risco de o carro sair danificado. A seqüência foi rodada em câmera lenta e acelerada na sala de montagem para causar o efeito que vemos na tela.

• A frase “Santa (…)”, proferida por Robin, ganhou exatamente 352 variações durante toda a série. 84 foi o número total de onomatopéias usadas nas cenas de luta.

• O Batmóvel não tinha cintos de segurança. Sim, os censores encrencaram com isso. Os produtores escaparam do crivo da organização, depois de alegar que Batman e Robin colocavam os cintos rapidamente assim que “pulavam” para dentro do carro. Segundo a produção, a tal cena existia, mas ficou na sala de montagem. Nossa. Além de puritanos e hipócritas, os censores ainda eram burros.

• Eu tenho medo do Cabeça de Ovo.

BATMAN: O SERIADO DOS ANOS 60
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 08/06/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem BATMAN BEGINS.


Madrugada dos Mortos

14/09/2013

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/07/2005.

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…ou: ENQUANTO NÃO HOUVER ESPAÇO NO INFERNO…

“…Os mortos caminharão sobre a Terra”. Enquanto A Noite dos Mortos-Vivos de 1990 manteve-se fiel aos conceitos básicos do subgênero zombie fundado por George Romero, o recente Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004), refilmagem de O Despertar dos Mortos, deu uma bela recauchutada em alguns aspectos “históricos”. A mudança mais marcante, claro, foi a transformação pelo qual os mortos-vivos passam: aqui, não há a lerdeza característica destes filmes. Aqui, há uma horda de cadáveres ambulantes vorazes, sedentos por sangue… e totalmente velozes! Sim, os caras correm tão ou até mais rápido que os humanos. Medo! A princípio, todo mundo chiou. Mas a mudança foi para melhor, e as criaturas estão mais assustadoras que nunca.

O enredo original também sofreu metamorfoses, e não foi uma ou outra como com A Noite. Nesta nova versão, um grupo até numeroso de sobreviventes encontra em um shopping-center de Wisconsin o lugar ideal para esconder-se dos mortos, que voltaram à vida e caminham (ops, correm) pela cidade em busca de comida. Assim como em O Despertar dos Mortos, o grupo, liderado por Michael (Jake Weber) e Ana (Sarah Polley), encanta-se com a possibilidade de poder usufruir do que há de melhor no shopping, e sem pagar nada. Há também os conflitos internos, característica bastante marcante nos filmes de Romero. Mas a crítica mordaz à sociedade consumista e materialista ficou para trás. Nada de muita profundidade, o esquema aqui é apenas terror. E tome cenas violentíssimas, além do surgimento de um, pasmem, bebê-zumbi!

Certamente o mais ambicioso da saga, o claustrofóbico Madrugada dos Mortos, cuja distribuição ficou nas mãos da Universal (a mesma de Terra dos Mortos), custou a bagatela de US$ 28 milhões, rendendo US$ 60 milhões só em bilheterias ianques. Merecidamente, diga-se de passagem!

DAWN OF THE DEAD • EUA • 2004
Direção de Zack Snyder • Roteiro de James Gunn
Baseado no roteiro de Dawn of the Dead (1978), escrito por George A. Romero
Elenco: Sarah Polley, Ving Rhames, Jake Weber, Ty Burrell, Mekhi Phifer, Michael Kelly, Kevin Zegers, Lindy Booth.
101 min. • Distribuição: Universal Pictures.

GEORGE A. ROMERO E A TRILOGIA DOS MORTOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 21/07/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead).


Cinema Noir

24/04/2012

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/07/2005.

Se você quiser encontrar aquele seu amigo fã de quadrinhos nesta sexta-feira, ou qualquer outro mortal que goste um mínimo de gibis, a única solução será correr ao cinema mais próximo. Claro! Afinal, estamos falando da esperadíssima sexta-feira da estréia de Sin City – A Cidade do Pecado em solo tupiniquim! Depois de tanto tempo de espera, depois de tanto tempo sofrendo com as ótimas críticas lá fora, depois de tanto tempo de incertezas acerca de seu lançamento por aqui, finalmente nós, meros brazucas, poderemos conferir esta belezinha em tela grande.

Mas as salas de projeção não deverão estar lotadas somente de adoradores da saga de Frank Miller e de HQs em geral: a parcela cult e boa parte de cinéfilos também poderão marcar presença, embora seja difícil encontrar alguém que goste tanto de filmes nerd quanto de filmes cult (salvo uma exceção chamada Zarko). O fato é que Sin City não é somente uma adaptação de um gibi: é também uma pusta de uma homenagem ao saudosíssimo cinema noir.

Quem não sabe o que diabos este termo significa, ou quem pensa que isto foi apenas um erro de digitação (!), não precisa se preocupar, pois eu explico: o cinema noir (favor pronunciar NOÁR) é um dos mais populares e adorados gêneros cinematográficos do passado, mais exatamente dos anos 30 até os 50. Traduzindo literalmente, o termo, criado por críticos franceses para denominar fitas policiais, significa “novela escura”. Como o próprio nome diz, a principal característica dos exemplares desta categoria envolvem a exploração do lado sinistro do duelo mocinho vs. bandido.

Até os idos de 1930, os longas-metragens policiais eram bem claros: o mocinho era bondoso e puro; o bandido era o estereótipo máximo da vilania, o que o tornava muitas vezes risível. O noir procurava dissecar o lado psicológico deste embate; nos filmes noir, integridade era uma palavra inexistente, ou seja, o bom poderia ser tão corrupto, sinistro e dissimulado quanto o mal. Às vezes, até mais. O objetivo do gênero era explorar o filão policial através de seu lado mais complicado: o psíquico.

Segundo muitos críticos, o primeiro longa genuinamente noir é Quem Matou Vicki? (I Wake Up Screaming, 1942), dirigido por H. Bruce Humberstone, que narra o empenho de um sádico policial (Laird Cregar) em aterrorizar os personagens de Victor Mature e Betty Grable, supostos suspeitos de um assassinato. Embora a narrativa pareça estar focada na investigação do tal crime, o centro nervoso da produção é o pesadelo psicológico construído pelo perigoso policial, que abusa de sua autoridade para satisfazer desejos pessoais, e que serve de armadilha para os dois suspeitos. Quem Matou Vicki? ditou a mais importante regra dos filmes noir: a lei nunca é indiscutivelmente confiável, e pode muito bem surtir o efeito contrário ao que deveria (o tal “proteger e servir”). Se ótimas películas de hoje como Seven e Jogos Mortais existem, a culpa é de Quem Matou Vicki?.

Obviamente, para fazer parte desta ilustre categoria do cinema dos anos 30-40-50, era necessário seguir algumas regras. Se você está na década de 40 e quer rodar um autêntico noir, você deve: narrar um crime; ambientar seu enredo numa cidade grande e suja, cheia de becos escuros e inferninhos; utilizar uma atmosfera soturna e sombria, de preferência com uma fotografia sem cores e bastante contrastada; contar sua história sob a perspectiva do(s) bandido(s); retratar a polícia como uma organização com um potencial fora do comum para se corromper; ter uma femme fatale entre seus personagens, para causar o declínio do mocinho; mostrar gangues ou grupos de homens (bandidos ou mocinhos) cheios de amor e ódio para um com o outro; não ter medo de filmar violência; e ler muitos livros de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, considerados os pais do noir.

Bem, já que você agora sabe o que é um filme noir, confira logo abaixo uma listinha bacanuda de 16 exemplares absolutamente obrigatórios deste gênero. Vale lembrar que os títulos abaixo não seguem uma ordem de importância: segundo a crítica especializada, cada um destes trabalhos sintetizam à perfeição o que o noir representou e ainda representa para a meca do cinema. E posso dizer com conhecimento de causa, já que este que vos fala, um autêntico maluco obcecado pela arte cinematográfica, já assistiu estas fitas no mínimo cinco vezes cada uma! Enfim… leia, assista e diga em voz alta: mocinho perfeito é o cacete! :-D

• O FALCÃO MALTÊS (The Maltese Falcon, 1941)

O chefão: John Huston

O caso: O detetive particular Sam Spade (Humphrey Bogart) é contratado pela misteriosa Brigid O’Shaughnessy (Mary Astor). Segundo a moça, um homem a segue insistentemente e ela quer saber porquê. Spade pede que seu parceiro siga o meliante e, na mesma noite, tanto o parceiro de Spade quanto o suposto bandido aparecem mortos. Desconfiado da sedutora mulher, Spade passa a investigá-la e descobre que foi envolvido numa absurda trama de roubo e traições, cujo pivô é uma valiosa estátua de falcão vinda da Ilha de Malta. Todos querem a estátua. Inclusive Sam Spade.

Caso encerrado: É, na opinião da crítica e do público-alvo, o melhor longa-metragem do gênero. Cheio de tensão e personagens canalhas.

• LAURA (1944)

O chefão: Otto Preminger

O caso: O policial Mark McPherson (Dana Andrews) investiga o assassinato cruel e aparentemente sem motivo da jovem publicitária Laura Hunt (Gene Tierney), morta com um tiro de espingarda no rosto. O principal suspeito é o jornalista Waldo Lydecker (Clifton Webb), amigo de Laura. Aos poucos, McPherson começa a se apaixonar pela morta (!). Certa noite, ao adormecer sobre um retrato da moça, ela reaparece (!!). A vítima, agora, ocupa o primeiro lugar da lista de suspeitos (!!!).

Caso encerrado: Um quebra-cabeças com todas as peças no lugar. E a reviravolta do meio do filme, junto com o final surpresa (hoje já defasado), deixa todo mundo embasbacado! M. Night Shyamalan? Faça-me o favor.

• GILDA (1946)

O chefão: Charles Vidor

O caso: Depois de salvar a vida do dúbio ricaço Ballin Mundson (George Macready), o malandro de coração de ouro Johnny Farrell (Glenn Ford) é contratado como sócio da boate da qual o primeiro é dono, em Buenos Aires. Johnny precisa de dinheiro e Ballin, de alguém intimidador. Então casou direitinho, e tudo corre às mil maravilhas. As coisas começam a desandar quando Ballin viaja a negócios e retorna casado com a cantora Gilda (Rita Hayworth), amante de Johnny no passado. Gilda, mulher indomável, promete transformar a vida do rapaz num inferno de proporções inimagináveis, fazendo de tudo para provocá-lo sexualmente.

Caso encerrado: Rita Hayworth, como Gilda, entregou a melhor femme fatale do cinema até hoje. E quem não se arrepia todo com o strip-tease de uma luva que a moçoila faz em dado momento da fita?

• O DESTINO BATE À SUA PORTA (The Postman Always Rings Twice, 1946)

O chefão: Tay Garnett

O caso: Na Califórnia dos anos 30, o truculento Frank Chambers (John Garfield) é contratado para trabalhar como frentista num pequeno restaurante anexo a um posto-de-gasolina de beira de estrada. Em pouco tempo, Chambers é seduzido pela sensual Cora Smith (Lana Turner), infiel esposa do dono do lugar, Nick (Cecil Kellaway). Frank e Cora começam a ter um caso, e não demora muito para que os dois pombinhos tenham a brilhante e infalível idéia de assassinar Nick para fugir com seu dinheiro…

Caso encerrado: A tela literalmente pega fogo! Não assistir usando qualquer coisa inflamável.

• O BEIJO DA MORTE (Kiss of Death, 1947)

O chefão: Henry Hathaway

O caso: O gatuno Nick Bianco (Victor Mature) é preso e, durante seu interrogatório, recusa-se a delatar um colega. Seu discurso logo muda quando descobre que sua esposa cometeu suicídio. Assim, Bianco aceita trabalhar como informante da polícia em troca da liberdade condicional, para que possa reencontrar as duas filhas que agora vivem em um orfanato. O problema é que o sádico Tommy Udo (Richard Widmark), um dos homens que Bianco ajudou a prender, foi absolvido e sabe que o outro é delator. Tommy Udo está sedento por vingança.

Caso encerrado: Se Gilda é de Rita Hayworth, O Beijo da Morte é exclusivamente de Richard Widmark, aquele tipo de sujeito que mete medo só de olhar para você. O cara era muito, muito bom!

• A DAMA DE SHANGHAI (The Lady From Shanghai, 1948)

O chefão: Orson Welles

O caso: Como forma de gratidão por ter protegido a bela Elsa Bannister (Rita Hayworth) durante um incidente, o marido inválido desta, Arthur (Everett Sloane) decide dar um emprego ao pobretão Michael O’Hara (Orson Welles) em seu iate. Mesmo com uma iminente sensação de que algo fede, O’Hara aceita o serviço. E percebe ter feito a pior burrada de sua vida ao se aproximar ainda mais da maligna Elsa e se deixar envolver por uma série de acontecimentos trágicos.

Caso encerrado: Orson Welles mutilou os cabelos longos e ruivos de Rita Hayworth para transformá-la numa loira gelada. E criou a seqüência dos espelhos, uma das cenas mais famosas da história do cinema!

• UMA VIDA POR UM FIO (Sorry Wrong Number, 1948)

O chefão: Anatole Litvak

O caso: Leona Stevenson (Barbara Stanwyck) é uma mulher rica e doente, que não consegue sair da cama e tem em seu telefone o único meio de contato com o mundo exterior. Sua vida torna-se um pesadelo quando ouve, em uma linha cruzada, um plano de assassinato a ser concretizado naquela mesma noite. Não seria algo tão alarmante se outros telefonemas não revelassem que a vítima do plano é ela mesma (!) e o assassino, seu próprio marido, Henry (Burt Lancaster), encrencado até a medula por causa de dívidas de jogo.

Caso encerrado: O filme é bastante conhecido por conta de Alfred Hitchcock, que bradou a quem quisesse ouvir que adoraria ter dirigido este filme. Preciso dizer mais? Se preciso, basta que você saiba que Uma Vida por Um Fio tem um dos finais mais aterrorizantes da história do cinema. Sim, é de dar pesadelos à noite!

• O TERCEIRO HOMEM (The Third Man, 1949)

O chefão: Carol Reed

O caso: O escritor americano Holly Martins (Joseph Cotten) viaja à Áustria a convite de seu amigo de infância, Harry Lime (Orson Welles), que prometera-lhe um emprego. Quando chega em Viena, porém, Martins recebe a notícia da misteriosa morte de Lime, ocorrida naquela mesma manhã. Chocado, desorientado e sem saber o que fazer, o escritor vaga pelas ruas da cidade e, certa noite, jura de pé junto que viu Lime de relance. Ao investigar o caso por conta própria, Martins descobre que Harry Lime está vivo e é o cabeça de um perigoso esquema de tráfico de penicilina. Martins percebe que está em uma enrascada.

Caso encerrado: De todos desta lista, sem dúvidas é o meu preferido. A cítara de Anton Karas e as expressões tristonhas da belíssima Alida Valli, somada à fotografia inspirada, tornam este longa uma experiência única.

• COM AS HORAS CONTADAS (D.O.A./Dead on Arrival, 1950)

O chefão: Rudolph Maté

O caso: O empresário Frank Bigelow (Edmond O’Brien) chega a São Francisco para se divertir por uma noite, antes que assuma de vez seu noivado com a bela Paula (Pamela Britton). Depois de uma noitada, Frank acorda na manhã seguinte e descobre que fora envenenado e tem somente 24 horas de vida! Assim, o homem empreende uma insana busca para descobrir quem o envenenou e o porquê.

Caso encerrado: História originalíssima! Uma sucessão de injustiças que faz o espectador querer morrer. Imaginem o empenho do indivíduo, mesmo tendo consciência de que seu esforço será totalmente em vão… Mais revoltante que isto, só o motivo do envenenamento. No bom sentido, claro!

• CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset Boulevard, 1950)

O chefão: Billy Wilder

O caso: O endividado roteirista Joe Gillis (William Holden) esconde-se de agiotas no que parece ser uma mansão abandonada, na conhecida Sunset Blvd., em Hollywood. A mansão, entretanto, é habitada pela ex-diva do cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson) e seu mordomo Max (Erich Von Ströheim). Norma transforma Gillis em seu prisioneiro e, em seguida, seu amante. A idéia da atriz é fazer com que o roteirista escreva uma história com a qual ela possa voltar aos seus dias de fama e glamour. E se isto não acontecer, cabeças vão rolar.

Caso encerrado: Talvez o único suspense noir de humor negro. Bizarro. E lindo, muito lindo. Considerado pela crítica o melhor filme da carreira do saudoso cineasta Billy Wilder.

• O SEGREDO DAS JÓIAS (The Asphalt Jungle, 1950)

O chefão: John Huston

O caso: O escroque Doc Erwin Riedenschneider (Sam Jaffe), recém-saído da prisão, contrata um grupo de pessoas desconhecidas entre si para realizar um ousado roubo milionário. A princípio, o plano até que dá certo. Mas a ganância e o egoísmo de cada um dos integrantes do bando começam a se manifestar, colocando tudo a perder.

Caso encerrado: De onde vocês acham que surgiu Cães de Aluguel? :-D

• MEU OFÍCIO É MATAR (Suddenly, 1954)

O chefão: Lewis Allen

O caso: A pequena e pacata cidade de Suddenly torna-se palco de um acontecimento trágico envolvendo a jovem e popular viúva Ellen Benson (Nancy Gates). Sua casa é invadida por um grupo de bandidos liderados pelo atirador John Baron (Frank Sinatra), que tomam a viúva, seu pai e seu filho pequeno como reféns. O motivo: o Presidente dos Estados Unidos visitará a cidade de trem, e a residência de Benson é o único lugar com uma vista boa para a estação. Cabe ao xerife Tod Shaw (Sterling Hayden) contornar a situação. Mas será que Shaw é confiável?

Caso encerrado: Frank Sinatra… como um assassino de aluguel? Yeah!

• O MENSAGEIRO DO DIABO (The Night of the Hunter, 1955)

O chefão: Charles Laughton

O caso: Harry Powell (Robert Mitchum), um matador que usa um disfarce de pastor religioso, sai da cadeia determinado a encontrar e eliminar Willa Harper (Shelley Winters) e seus dois filhos pequenos, John e Pearl. Embora ninguém saiba o real motivo da caçada que o assassino empreende, logo as coisas se encaixam: o companheiro de cela de Powell e ex-marido de Willa, Ben Harper (Peter Graves), assaltou um banco, levando consigo uma bolada em dinheiro vivo e matando duas pessoas no caminho. Antes de morrer enforcado, contudo, Harper revelou a Powell a chave para a localização do dinheiro roubado: o interior da inseparável boneca de sua filha Pearl.

Caso encerrado: O Robert Mitchum dá medo. Muito medo. E no bom sentido, que fique bem claro.

• HORAS DE DESESPERO (The Desperate Hours, 1955)

O chefão: William Wyler

O caso: A sossegada rotina da família Hilliard, comandada por Dan (Frederic March), é quebrada com a chegada de um trio de bandidos liderado pelo psicótico assassino Glenn Griffin (Humphrey Bogart). O trio, que acabou de escapar da cadeia, invade a casa e toma a família como refém, até que a namorada de um deles chegue com uma maleta recheada de dinheiro; dinheiro este que os bandidos pretendem usar para fugir. Griffin é claro em suas ordens: se ninguém cometer burradas, ninguém sairá machucado. Obviamente, muitas coisas acontecerão…

Caso encerrado: Horas de Desespero eleva ao cubo o embate psicológico entre refém e carrasco. Um duelo verbal e mental difícil de encontrar em outro filme.

• A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil, 1958)

O chefão: Orson Welles

O caso: O policial mexicano Ramon Vargas (Charlton Heston) e sua esposa Susan (Janet Leigh) estão passando a lua-de-mel numa pequena cidade na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Um crime acontece, e Ramon, ou Mike (como costuma ser chamado), decide investigar. O problema é que um enorme obstáculo não sairá do caminho do honesto tira mexicano: o corrupto oficial americano Quinlan (Orson Welles). Quinlan, cuja especialidade é forjar provas e pistas, faz de tudo para defender aqueles que ama, por mais que estes sejam culpados. Os dois policiais entrarão em choque.

Caso encerrado: Para muitos, A Marca da Maldade é o filme que mais fez uso dos elementos característicos do noir. Irônico, sabendo que o gênero teve seu fim praticamente decretado depois desta produção. Chave de ouro!

• UM CORPO QUE CAI (Vertigo, 1958)

O chefão: Alfred Hitchcock

O caso: O detetive Scottie Ferguson (James Stewart) carrega um pesadíssimo medo de alturas, conseqüência de um trauma ocorrido quando presenciou a trágica morte de seu parceiro. Algum tempo depois do acontecido, Ferguson é contratado para seguir a bela Madeleine Elster (Kim Novak), mulher meio pancada com fortes tendências suicidas. Ferguson é envolvido num jogo doentio, envolvendo Madeleine e uma outra garota, Judy Barton (também Kim Novak), praticamente uma cópia carbono da primeira.

Caso encerrado: Alfred Hitchcock não tem substitutos. Não adianta ninguém querer chegar perto. Afinal, o cara conseguiu realizar o único filme noir a cores realmente digno de nota.

O cinema noir começou a perder força por volta do final dos anos 50, com o advento dos filmes coloridos – uma das marcas registradas do gênero era a fotografia em preto-e-branco, embora não fosse isto uma lei. Depois desta fase, surgiram muitos trabalhos que reciclaram as características da categoria, bem como filmes cujo propósito era somente homenagear o noir. Estas duas categorias são chamadas de neo-noir, que é exatamente o que é Sin City. Dentre alguns títulos neo-noir, é fácil citar coisas bacanas como 8MM, Chinatown, À Queima-Roupa, Voltar a Morrer, O Homem Que Não Estava Lá, entre outros.

Acima de tudo, o cinema noir tornou-se um divisor de águas por representar uma evolução na forma de trabalhar os filmes. O gênero, com seus exemplares de alto teor psicológico, ajudou a definir o final de um era de inocência no cinema mundial – principalmente o americano – e o início de outra era mais madura, com roteiros mais consistentes e não tão inocentes, com personagens mais complexos e não tão superficialmente definidos. Pois é, o negócio foi bom mesmo! Época de evolução e amadurecimento que, infelizmente, parece não ter mais lugar no nosso cinema de hoje. Pelo menos vivemos na era do DVD, onde isto é sanado rapidamente! Afinal, mesmo que uma série de Gisele Bündchens assaltando bancos de biquíni pipoquem na telona, sempre haverá uma Rita Hayworth esperando por você, para fazer um strip-tease tirando apenas uma luva. :-)

CINEMA NOIR
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 25/07/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem SIN CITY – A CIDADE DO PECADO (Sin City).


Os Insanos Longas de Pedro Almodóvar

28/03/2012

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/11/2004.

Há um tempo atrás, a palavra “cinema” significava Estados Unidos da América. Sim, os filmes da terrinha do Tio Sam não eram só os melhores, mas também os únicos. Não que não houvesse qualquer outro país disposto a mandar ver na arte de fazer cinema, mas os americanos dominavam e o restante era fadado à obscuridade. Pela metade do século XX, cineastas europeus como François Truffaut e Luis Buñuel quebraram algumas barreiras e conseguiram invadir o território norte-americano, mas seus filmes, geralmente com temas pesados e de difícil digestão entre as massas, restringiam-se ao círculo underground.

O nome responsável por tornar o cinema estrangeiro mais popular e aceitável nos States (e também no resto do mundo) nasceu no pequeno vilarejo de Calzada de Calatrava, na região de La Mancha, na Espanha, em 24 de Setembro de 1949 (ou 1951, ninguém sabe ao certo). Pedro Almodóvar Caballero, ou apenas Pedro Almodóvar, passou a infância e a adolescência vendendo objetos usados e trabalhando em companhias telefônicas. Em 1970, comprou uma câmera Super 8, e rodou vários curtas-metragens entre 1972 e 1978. Dois anos depois, ficou conhecido em toda Espanha por conta de seu primeiro longa, e exatamente 24 anos, 15 filmes e 59 prêmios internacionais depois, é tido como o maior cineasta espanhol vivo e um dos maiores europeus da atualidade. Além disso, abriu as portas do mundo para as fitas de outras nacionalidades além da terra do senhor Bush, e lançou o nome de muitos grandes atores e atrizes espanhóis – que hoje correspondem a uma fatia considerável e bem requisitada pelos gringos.

Todo o falatório em cima da filmografia de Almodóvar não é à toa. O diretor/ator/roteirista/compositor soube como ninguém transformar tragédias gregas em comédias sutis, hilariantes e de grande apelo popular. Além disso, chamou a atenção para Madri – uma das mais belas cidades do mundo – e o visual colorido e bem particular de seus trabalhos combinam perfeitamente com as desgraças de seus personagens. E que personagens… cada um mais bizarro que o outro! Bem, ao invés de dissecar a biografia do cineasta ateu e fanzoca do Caetano Veloso, nada melhor do que dar uma passeadinha rápida em cada um de seus trabalhos, para entender melhor o fascínio que Pedro Almodóvar exerce nas platéias de todo o planeta – e também esquentar as turbinas para Má Educação (La Mála Educación, 2004), seu novo (e polêmico) trabalho, que chega às telonas nesta sexta-feira cercado de expectativas e com ninguém menos que Gael García Bernal no elenco:

PEPI, LUCI, BOM (Pepi Luci Bom y Otras Chicas Del Montón, 1980)

História: Três mulheres: a maluquinha Pepi (Carmen Maura) é vizinha da submissa Luci (Eva Siva – que nominho, hein?), casada com um policial, e de Bom (Olvido “Alaska” Gara), vocalista de uma banda de rock e lésbica. A vida das três moças se cruzam depois de um acontecimento insólito: o policial marido de Luci estupra Pepi em troca de seu silêncio – Pepi tem uma plantação de maconha em casa – e Luci, que é sado-masoquista (!), se envolve amorosamente com Bom. Eita!
Notas: O primeiro longa de Almodóvar lançou seu nome na Espanha por conta das características que viriam a marcar toda sua filmografia: personagens caricatos, situações absurdas tratadas com naturalidade e um visual berrante (a cor das roupas das atrizes devem até brilhar no escuro!). A trilha sonora é uma atração à parte (rock misturado com tango), e o próprio Almodóvar faz um ponta, como o mestre-de-cerimônias de uma competição entre homens para ver quem tem o maior… bem… aquilo. Pepi, Luci, Bom também marcou o fim da ditadura do General Franco na Espanha, e é o primeiro trabalho do diretor com sua eterna musa Carmen Maura.

LABIRINTO DE PAIXÕES (Laberinto de Pasiones, 1982)

História: A violenta e ninfomaníaca Sexília (Cecilia Roth – olha o nome da personagem!!) e o filho de um imperador árabe chamado Riza Niro (Imanol Arias) iniciam um relacionamento amoroso. Ela acabou de montar uma banda de punk rock e ele está fugindo dos capangas de seu pai, liderados por Sadec (Antonio Banderas), um terrorista gay – e ex-namorado de Riza Niro. O casalzinho normal (normal!?!?) enfrenta as barras do primeiro relacionamento hétero de ambos com a ajuda de Queti, “fã n.º 1” de Sexília.
Notas: O segundo trabalho do diretor, pouco visto por aqui (mesmo tendo sido lançado há pouco tempo em DVD), segue pelo mesmo caminho de Pepi, Luci, Bom, com a diferença de que, aqui, Almodóvar centra sua câmera exclusivamente nas figuras exóticas que se concentram no cenário underground da Madri dos anos 80, retratando como pano de fundo a ascensão artística do rock da época. Em Labirinto de Paixões, também fica claro a obsessão quase doentia do cara por sexo, e é a primeira vez em que ele trabalha com Cecilia Roth, que mais tarde protagonizaria o clássico Tudo Sobre Minha Mãe.

MAUS HÁBITOS (Entre Tinieblas, 1983)

História: A cantora de bar Yolanda (Cristina Sánchez Pascual) sofre um baque quando presencia a morte do noivo por overdose. Perseguida pela polícia, que acredita fielmente que o incidente encobre um assassinato, Yolanda se esconde num convento lotado de freiras lésbicas e viciadas em heroína! Pra piorar, passa a ser assediada pela Madre Superiora (Julieta Serrano), que está doida pra… bem… tirar o atraso!
Notas: Maus Hábitos é confuso e extremamente bizarro, e ainda assim é considerado o melhor longa desta primeira fase de Almodóvar. Aqui, o diretor exercita seu ateísmo numa boa, e o que tinha tudo pra se tornar um fracasso (freiras homossexuais e drogadas não devem atrair muito público…) rendeu muito bem na Espanha.

O QUE EU FIZ PRA MERECER ISTO? (¿Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto?!!, 1984)

História: O caos se instaura numa família de classe-média em Madri: a mãe (Carmen Maura, mais uma vez) é faxineira e viciada em produtos de limpeza; o pai (Ángel de Andrés López) é um aborrecido chofer apaixonado por uma cantora alemã – ele também trabalha como falsificador de documentos; um dos dois filhos adolescentes do casal vende heroína e o outro dorme com todos os homens que encontra pela frente; a sogra dela tranca todos os doces da casa e vende-os para a própria família. A família ficará mais doentia ainda quando dois escritores escrevem as memórias de Hitler e contratam o pai para reescrevê-lo com a caligrafia do ditador alemão…
Notas: Estranho é pouco! Não à toa, este é um dos poucos filmes de Almodóvar (talvez o único) que ainda é proibido em alguns países. Apesar da temática um tanto quanto… excêntrica, este longa fez muito sucesso na Espanha, mas ficou restrito à salinhas bem escondidas e obscuras no Brasil.

MATADOR (Matador, 1986)

História: Um toureiro (Nacho Martínez) não consegue abandonar o hábito de matar. Quando as touradas não conseguem mais saciar suas necessidades de sangue, o homem passa a se relacionar sexualmente com qualquer mulher que cruze seu caminho para, durante o ato sexual, matá-la. Diego, o toureiro, encontrará em Maria (Assumpta Serna) e Angel (Antonio Banderas) dois fortes obstáculos.
Notas: Matador foi oficialmente o primeiro longa do cineasta a ser lançado no Brasil. O destaque fica por conta da mudança de gênero: pela primeira vez, Almodóvar deixa a comédia rasgada de lado para se aventurar no suspense – que, na verdade, não chega a ser totalmente sério. Também chamou a atenção para um jovem ator espanhol que costuma atender pelo nome de Antonio Banderas.

A LEI DO DESEJO (La Ley Del Deseo, 1987)

História: Pablo (Eusebio Poncela) e Tina (Carmen Maura) são irmãos. Ele é um escritor e diretor de cinema gay e acaba de romper um bizarro relacionamento com Juan (Miguel Molina). Ela nasceu homem, e depois de uma experiência traumatizante com um padre (!), resolveu mudar de sexo, e agora tem uma filha adotiva e tenta a carreira de atriz. Pablo tem uma aventura com Antonio (Antonio Banderas), que enlouquece de ciúmes quando descobre que Pablo ainda sente algo por Juan. Sua vingança será maligna! Hehehe…
Notas: O pesadíssimo sexto filme de Pedro Almodóvar só foi lançado oficialmente no nosso país em 1996, quase dez anos depois de sua estréia na Espanha. A história não chega a ser tão bizarra quanto as de seus trabalhos antecessores, mas é tão polêmico quanto qualquer um deles, ou até pior, por conta das quase explícitas cenas de sexo entre Antonio Banderas e Eusebio Poncela, e das milhões de sugestões sexuais nas cenas “limpas” – reparem na cena em que Carmen Maura se “esfrega” toda diante do jato de uma mangueira… Vixe!

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, 1988)

História: A dubladora de TV Pepa (adivinha quem?) é abandonada pelo seu amante, Ivan (Fernando Guillén). Desesperada e à espera de explicações, ela caça o cara por todos os cantos de Madri até se encontrar trancada num apartamento ultra-colorido com um grupo de pessoas que até então desconhecia: o filho de Ivan, Carlos (Antonio Banderas), e a noiva virgem dele, Marisa (Rossy de Palma); Lucia (Julieta Serrano), a mãe de Carlos, que tem sérios distúrbios e comportamento psicopata; e Candela (Maria Barranco), mulher burrinha que sofre pelo ex-namorado terrorista.
Notas: Inspirado em partes num conto de Jean Cocteau, Mulheres à beira… é o primeiro grande sucesso de Almodóvar em terras gringas. O longa, que custou 700.000 dólares, rendeu aproximadamente US$ 8 milhões só nas telonas ianques, e em uma semana de exibição na Espanha atraiu mais de 42 mil pessoas. Foi também o primeiro longa do cineasta a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e o primeiro a ser produzido por sua recém-fundada produtora, a El Deseo S/A. Uma curiosidade: o fantástico Javier Bardem, de Antes do Anoitecer, faz uma pontinha bem minúscula.

ATA-ME! (¡Átame!, 1990)

História: Recém-saído de um hospital psiquiátrico, o marginal Ricky (Antonio Banderas… de novo) resolve seqüestrar a ex-atriz pornô e atual atriz de filmes B Marina (Victoria Abril), com quem teve uma tórrida noitada dentro de um banheiro público no passado. Seu objetivo: fazer com que ela se apaixone por ele.
Notas: Apesar de ser um longa muito divertido, a indecisão entre o clima soturno e o “kitsch” prejudicou um pouco a carreira de Ata-me! nos cinemas espanhóis (e também no mundo). Bem, pelo menos serviu para apresentar Victoria Abril, a nova diva do diretor, ao planeta. Foi indicado a 15 prêmios Goya, o Oscar da Espanha, e a trilha sonora é do excelente Ennio Morricone, homenageado recentemente por Quentin Tarantino em seu ótimo Kill Bill: Vol. 2.

DE SALTO ALTO (Tacones Lejanos, 1991)

História: Becky (Marisa Paredes), cantora de sucesso nos anos 60, retorna a Madri depois de passar alguns anos no México, e reencontra sua filha Rebeca (Victoria Abril), locutora de telejornal, que está casada com Manuel (Feodor Atkine). O problema: Manuel foi amante de Becky no passado. A relação entre mãe e filha, que já era tensa, explode ainda mais com a descoberta de que Manuel tem outra amante, a também locutora Isabel (Miriam Diaz Aroca). As três mulheres se metem numa enrascada quando Manuel aparece morto.
Notas: O estranho De Salto Alto – bem, qual trabalho de Pedro Almodóvar não é estranho? :-) – representa um salto considerável na carreira do diretor, por se tratar de seu primeiro longa financiado por outro país, no caso a França. Uma prova concreta de que seus filmes são bem populares em vários cantos… aqui, Almodóvar trabalha pela segunda vez com um nome de responsa na sua técnica (no caso, o lendário compositor Ryuichi Sakamoto, autor da trilha de O Último Imperador), e dedica boa parte das cenas à ótima Marisa Paredes. Há uma lenda urbana que diz que este filme, através do personagem de Miguel Bosé, ajudou a popularizar os clubes noturnos e as drag queens (para quem não sabe, aqueles caras que se vestem de mulher por diversão). Bem Almodóvar mesmo.

KIKA (Kika, 1993)

História: Kika (Verónica Forqué) é uma maquiadora casada com o fotógrafo Ramón (Alex Casanovas). Ela mantém um caso ardente com Nicholas (o americano Peter Coyote), escritor americano. Detalhe: Nicholas é padrasto de Ramón. Kika vê seu mundinho cair quando é ameaçada por duas figuraças: Juana (Rossy de Palma), sua empregada lésbica, e uma tal de Andrea Caracortada (Victoria Abril – ué, cadê a Carmen Maura?), ex-namorada de Ramón e atual apresentadora de um reality show.
Notas: Inspirado de leve no romance policial Carne Viva, da escritora Ruth Rendell, este é o trabalho que finaliza a fase mais rasgada e colorida do cineasta, que já não se limita tanto à sua terra natal. O elenco é encabeçado por Peter Coyote (de E.T., O Extraterrestre) e os figurinos (inclusive a “roupa-câmera” utilizada por Victoria Abril) são assinados pelo francês Jean Paul Gaultier. Não chegou a fazer muito sucesso fora da Espanha – rendendo “somente” US$ 2 milhões.

A FLOR DO MEU SEGREDO (La Flor de Mi Secreto, 1995)

História: A solitária Leo (Marisa Paredes) escreve romances bem ao estilo Sabrina sob o pseudônimo de Amanda Gris. Enfrentando uma grave crise no casamento com um oficial da OTAN, Leo afunda ainda mais quando é procurada por Angel (Juan Echanove), editor do jornal El Pais. Angel, sem conhecer a identidade secreta de Leo, pede a ela que escreva um artigo falando mal da obra de Amanda Gris.
Notas: O excelente A Flor do Meu Segredo é o primeiro da atual safra de longas “sérios” de Almodóvar. A partir daqui, o diretor deixou um pouco de lado a atmosfera kitsch que envolveu todos os seus filmes anteriores a passou a se dedicar mais aos sentimentos de seus personagens, centrando sua câmera na atuação excepcional de Marisa Paredes. As tramas continuam tão malucas quanto sempre, porém com os pés mais fincados na realidade. Para nós, brasileiros, a maluquice fica por conta de uma cena em que podemos ouvir Caetano Veloso cantando Tonada de Luna Llena ao fundo…

CARNE TRÊMULA (Carne Trémula, 1997)

História: O destino de três pessoas se cruzam depois de quatro anos. A junkie Elena (Francesca Neri) é surpreendida pelo entregador de pizzas Victor (Liberto Rabal), apaixonado por ela. Arma-se uma confusão, entram em cena os policiais David (Javier Bardem) e Sancho (Jose Sancho), e um tiro disparado por Victor acaba por deixar David paralítico. Quatro anos depois, Victor sai da prisão e reencontra Elena, agora sóbria e casada com David, que se tornou jogador de basquete em cadeira de rodas. Ao mesmo tempo, Victor tem um caso com Clara (Angela Molina), esposa de Sancho – o real responsável pelo disparo que vitimou David.
Notas: Carne Trêmula simbolizou o retorno triunfal de Almodóvar ao esquemão norte-americano: o filme foi muito bem recebido por lá (e também aqui no Brasil). Com um roteiro bem amarrado, que mescla boas doses de erotismo a uma trama policial bem interessante, e vários grandes atores no elenco – sem contar, claro, a aparição ao início da fraquinha Penélope Cruz em uma pontinha -, é tido como a primeira obra-prima do espanhol, segundo a crítica.

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo Sobre Mi Madre, 1999)

História: Manuela (Cecilia Roth) leva seu filho Esteban (Eloy Azorin), de 17 anos, para assistir à montagem de Um Bonde Chamado Desejo no dia de seu aniversário. A atriz principal da peça é Huma Rojo (Marisa Paredes), a preferida do adolescente. Num lapso de nostalgia, Manuela confessa a Esteban que interpretou este mesmo papel há 20 anos, onde atuou com o pai do garoto, de quem este nunca ouviu falar. Antes que Manuela possa falar mais sobre o pai de Esteban, este morre atropelado. Atordoada, Manuela decide procurar o pai do menino falecido, que é travesti, para amarrar algumas pontas em aberto.
Notas: Sem dúvidas, o melhor trabalho de toda a carreira de Pedro Almodóvar. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de mais 41 prêmios de todas as espécies, Tudo Sobre Minha Mãe conquistou crítica e público com uma história comovente e personagens muito carismáticos, dentre os quais se destacam Cecilia Roth como Manuela, a atriz interpretada por Marisa Paredes e principalmente a hilária travesti Agrado (Antonia San Juan), dona dos diálogos mais legais do filme e injustamente ignorada pelo Oscar. A fotografia desta produção é do brasileiro Affonso Beato.

FALE COM ELA (Hable Con Ella, 2002)

História: Marco (Dario Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara, um ator simplesmente bárbaro) estão sentados lado a lado na platéia de um teatro. Assistem ao famosíssimo espetáculo de dança Café Müller. Eles não se conhecem. Marco está chorando, emocionado. Benigno sente-se comovido com aquela cena, e também gostaria de demonstrar que está tocado, mas não consegue. Tempos depois, Marco e Benigno se reencontram numa ocasião insólita: o segundo é enfermeiro de um hospital onde a noiva do primeiro, a toureira Lydia (Rosario Flores… ou seria a Maria Bethânia?), está em coma. O núcleo completa-se com a bailarina Alicia (Leonor Waitling), também em coma, por quem Benigno é apaixonado. Os dois homens desenvolverão uma forte amizade.
Notas: Fechando com chave de ouro o ciclo dos aclamadíssimos trabalhos cujo início se deu com A Flor do Meu Segredo, Fale Com Ela rendeu o primeiro Oscar (e único, por enquanto) de Melhor Roteiro da carreira de Pedro Almodóvar – o prêmio conquistado com Tudo Sobre Minha Mãe, por ser da categoria “melhor filme”, vai para o produtor do filme, e não para o diretor. Além de ser um espetáculo visual no que diz respeito a enquadramentos de cena e montagem, as atuações dos atores centrais estão ótimas, com destaque para Javier Cámara. Duas curiosidades: este é o tão comentado longa que contém uma cena com Caetano Veloso (particularmente, não sou tão fã assim do cantor, mas a cena é de uma poesia tremenda), e em uma cena de tourada, podemos ouvir Elis Regina interpretando a clássica Por Toda a Minha Vida, de Tom Jobim.

Observando a versátil – e muito bizarra – filmografia deste tranqüilo espanhol, dá pra perceber que o sucesso, os prêmios e o prestígio de Pedro Almodóvar são mais do que merecidos. Dá pra entender, também, o motivo pelo qual Almódovar é chamado de “o homem que amava as mulheres” – não houve nenhum outro diretor que soubesse retratar o complexo universo feminino com tamanha fidelidade e devoção. Acima de tudo, é importante salientar que Pedro Almodóvar é, sem dúvidas, o homem que ama o cinema. O público agradece.

CURIOSIDADES:

• Antes de se tornar cineasta pra valer, Pedro Almodóvar escreveu contos eróticos. Um destes contos se transformou em seu único romance publicado: Fogo nas Entranhas é um hilário texto que narra a desventuras de um chinês, Chu Ming Ho, dono de uma fábrica de absorventes que, irado com as mulheres (por ter sido abandonado por quatro em seguida), resolve se vingar criando um “tampax” que faz a mulherada transar até a morte! Obrigatório. O livro já foi publicado aqui no Brasil.

• Os filmes de Almodóvar são geralmente produzidos por Augustín Almodóvar, irmão de Pedro. Tanto Augustín quanto Francisca Caballero, mãe de Pedro, sempre fazem pontinhas em seus trabalhos.

• Pedro Almodóvar se recusa a filmar nos Estados Unidos. Sensato.

• O monólogo de Agrado, uma das melhores cenas de Tudo Sobre Minha Mãe, é na verdade inspirada em um fato verídico. Quando o sistema eletrônico de um teatro argentino falhou, o diretor do espetáculo a ser apresentado cancelou a sessão. A atriz Lola Membrives, sem jeito de dispensar a platéia lotada, chegou ao centro do palco, explicou o problema e lançou um convite: para não perder a viagem (e precisar pegar o dinheiro de volta), ela narrou detalhes picantes de sua vida para quem se dispôs a continuar na platéia.

OS INSANOS LONGAS DE PEDRO ALMODÓVAR
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 11/11/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem MÁ EDUCAÇÃO (La Mala Educación).


O Cinema Sobre Duas Rodas

20/06/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/02/2007.

Se você acompanha A ARCA, está mais do que careca de saber que qualquer troço é motivo para que o povo aqui da redação saia por aí feliz e contente fazendo listinhas, em um clássico exemplo de Complexo de Rob Gordon (ah, vai dizer que você não lembra de Alta Fidelidade, pô?). E obviamente, a estréia do esperado Motoqueiro Fantasma (2007) nas telonas brazucas nos fez pensar em mais uma relaçãozinha de filmes que envolvem o tema. No caso… filmes de motoqueiros! Ou quase: filmes que falam, de forma direta ou indireta, da arte de sair pelo mundo em cima de uma motoca. Ou no caso de alguns títulos específicos, filmes com alguma cena marcante pelo simples fato de mostrar seus protagonistas em presença imponente em cima de uma motocicleta. Então, chega de enrolação e dê logo uma olhada em nossos escolhidos! Corra para a locadora mais próxima… de moto, de carro, de busão ou “de a pé”! ;-D

• SEM DESTINO, de Dennis Hopper

Claro que o primeiro desta seleção de filmes sobre motocicletas e motociclistas tinha que ser O FILME sobre motocicletas e motociclistas. Se você é um cinéfilo, você deve por obrigação assistir a Sem Destino (1969). Um clássico do cinema sessentista, um símbolo da contracultura norte-americana que marcou uma geração e é cultuado até hoje. Os primeiros minutos desta estréia de Dennis Hopper na direção já são antológicos: Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Hopper), cujos nomes remetem imediatamente aos foras-da-lei Wyatt Earp e Billy The Kid, vendem uma certa quantia de cocaína a um sujeito qualquer por uma bela grana e usam o dindim para se livrar de todas as amarras e viajar sem destino e sem pressa pelos EUA em cima de duas Harley Davidson modelo Chopper, com o objetivo de descobrir o que é, afinal, os Estados Unidos. No caminho, encontram um jovem advogado vivido por Jack Nicholson, uma comunidade hippie e uma série de hostilidades e repúdios por parte de populares que não estão preparados para aceitar dois “vagabundos” “barbudos” e “cabeludos” – ou o espírito de revolta e liberdade que eles representam. Sem Destino foi indicado à Palma de Ouro em Cannes, dois Oscars e transformou Born To Be Wild, do Steppenwolf, em hino eterno. De quebra, deu um tapa na cara da hipocrisia ianque e que continua atual, mesmo depois de quase 40 anos.

• O SELVAGEM DA MOTOCICLETA, de Francis Ford Coppola

Um dos mais populares trabalhos de Francis Ford Coppola, em parte por sua incansável exibição nas Sessões da Tarde da vida, O Selvagem da Motocicleta (1983) é na verdade um filme menor do cineasta, tanto tecnicamente falando – visto que Coppola estava no auge de sua carreira, graças a filmes grandiosos como Apocalypse Now e a saga O Poderoso Chefão – quanto em seu resultado final. Sim, é um de seus filmes “menos bons”, mas devemos atentar para o fato de que, em se tratando de Coppola, não existe filme ruim. Filmado propositadamente em preto-e-branco e com um péssimo som (que justifica-se em um momento do longa que não vamos contar para não estragar a surpresa de quem não viu), O Selvagem da Motocicleta acompanha a rotina de um adolescente, Rusty James (Matt Dillon), que vive em uma bucólica cidadezinha, onde nada acontece. Sua mãe fugiu há anos, seu pai bebe, e não há nada que Rusty pode fazer a não ser liderar uma pequena gangue e se meter em confusões. Na verdade, o garoto só espera mesmo ser tão respeitado e amado quanto seu irmão mais velho, chamado de Motorcycle Boy (Mickey Rourke), um rebelde sem causa que saiu da cidade e nunca mais apareceu. Uma das fitas mais intimistas de Coppola, O Selvagem da Motocicleta é um belo, embora muito melancólico, retrato da juventude perdida dos anos 80 que não tinha muito o que buscar e nada podia fazer a não ser ver sua vida ir embora, sem perspectivas – uma idéia refletida em uma metáfora memorável: a visão de um relógio em quase todas as cenas do filme. Vale uma visita.

• RUAS DE FOGO, de Walter Hill

Outro grande clássico da Sessão da Tarde, Ruas de Fogo (1984) naufragou feio nos cinemas, mas conquistou um merecidíssimo destaque quando em seu lançamento em vídeo. Trata-se de uma divertidíssima aventura rodada em tom de fábula, que homenageia sobretudo os quadrinhos dos anos 50 (sim, sério!). Senão, vejam a história: em uma cidade onde nunca amanhece (!) e onde os anos 50 estão notadamente mesclados com o melhor da tecnologia futurista (!!), a lendária e deliciosa cantora de rock Ellen Aim (Diane Lane) é brutalmente seqüestrada por uma gangue de motoqueiros liderada pelo vilãozaço da parada, o nojento Raven Shaddock (Willem Dafoe, excelente no papel). Para resgatá-la, seu namorado e empresário Billy Fish (o sumido Rick Moranis) aciona um mercenário de aluguel, Tom Cody (Michael Paré, um dos “galãs fracassados” mais legais dos anos 80). O que Fish não sabe é que Cody é somente o ex-namorado de Ellen Aim. Assim, Cody une-se a outra mercenária, a violenta McCoy (Amy Madigan) e segue em uma verdadeira odisséia pela cidade para encontrar Ellen Aim e acertar as contas com Shaddock. Ruas de Fogo divide com outro clássico dirigido por Walter Hill, o fabuloso Warriors: os Selvagens da Noite, o posto de “fita de gangues mais legal do cinema”. E como se não bastasse, conta com uma excelente trilha sonora, com destaque para a música-tema, a chiclete I Can Dream About You, de Dan Hartman. Ah, você conhece, pô!

• O EXTERMINADOR DO FUTURO, de James Cameron

Ah, vai… jura mesmo que O Exterminador do Futuro (1984) ainda precisa de qualquer apresentação? Filmaço de ficção-científica que nasceu cult, tranformou-se em clássico com o passar dos anos, virou referência para toda produção que ousassse falar do futuro e ainda gerou uma continuação que é um divisor de águas na forma de se fazer efeitos visuais. Quer mais? Então basta dizer que esta obra-prima de James Cameron finalmente deu respeito ao canastríssimo ator/governador Arnold Schwarzenegger – e também ao próprio gênero sci-fi. Então, somos enviados a 2029, quando o supercomputador Skynet iniciou uma guerra das máquinas contra os humanos que o construíram e quase destruiu o planeta por completo. Quase, pois os humanos, liderados pelo rebelde John Connor, fundaram uma equipe de resistência que conseguiu destruir as máquinas. Prevendo sua derrota, entretanto, a Skynet envia um cyborg, T-800 (Schwarzenegger), ao passado. O objetivo de T-800: matar Sarah Connor (Linda Hamilton), que em breve engravidará e dará a luz a aquele que se tornará John Connor. Os humanos também enviam um sujeito, Kyle (Michael Biehn), cuja tarefa é proteger Sarah. Tem início o caos. E o que motociclismo tem a ver com o banho de sangue empreendido pelo exterminador enquanto não chega a seu alvo? Oras, e como você acha que Arnold Schwarzenegger corre atrás da moçoila? De ônibus? :-D

• AKIRA, de Katsuhiro Otomo

Sim, nós já falamos de Akira (1998), bem aqui nesta matéria. Só que é impossível falar sobre produções que envolvem motociclismo sem citar este impressionante desenho animado que chocou o mundo e ganhou zilhões de fãs (e detratores) nos anos 80, já que sua abertura já traz uma alucinante seqüência de perseguição sobre duas rodas e um de seus personagens principais, o marginal Kaneda, é apenas o líder de uma facção de motociclistas. Kaneda é um dos muitos jovens sem perspectiva que vivem em Neo-Tóquio – a antiga Tóquio, agora devastada pela 3.ª Guerra Mundial. Kaneda junta uma série de marginais para enfrentar o governo e tentar resgatar seu melhor amigo, Tetsuo, seqüestrado por autoridades interessadas em uma particularidade do garoto; o caso é que Tetsuo é dotado de poderes psíquicos e o governo sabe que estes poderes podem ser muito úteis em um caso extremo. Só que os experimentos científicos aplicados em Tetsuo libertam uma fera incontrolável dentro do garoto. Aos poucos, ele torna-se uma ameaça em escala mundial… Este excelente trabalho de Katsuhiro Otomo (o mesmo de Steamboy) não poupou inovações técnicas e violência gráfica para contar sua história, adaptada de seu próprio mangá. O resultado? Um mega-sucesso de bilheteria e um dos banhos de sangue mais violentos do cinema, ainda que em forma de desenho.

• EL MARIACHI, de Robert Rodriguez

A estréia de Robert Rodriguez na direção de longas, o aclamado mexicano El Mariachi (1992), rendeu mais de US$ 2 milhões apenas em solo gringo. Quem aí acredita que a fita custou a mixaria de 7.725 dólares, arrecadados depois que Rodriguez vendeu sua própria casa e submeteu-se a cobaia para remédios contra colesterol? Pois é. Este divertido longa de ação só conseguiu enxergar a luz do Sol porque a Columbia Pictures teve acesso ao material e investiu pesado em sua transferência para 35mm (o filme foi rodado em 16mm) e em uma campanha promocional milionária. Sorte a nossa: El Mariachi, mesmo rodado de maneira beeeem amadora, dá um gás surpreendente à história do Mariachi (Carlos Gallardo) que segue de cidade em cidade à procura de um barzinho qualquer onde possa ganhar uns trocados cantando suas serestas. Quando o sujeito acha que a maré está a seu favor quando chega a um pequeno vilarejo mexicano e logo consegue trabalho, eis que um assassino profissional (Reinol Martinez), caçado por um grupo de traficantes, aparece nas redondezas; não tarda para que espalhe-se a notícia da chegada de um matador vestido de preto e com um estojo de violão cheio de armas… a exata descrição do Mariachi! Obviamente, o pobre seresteiro será confundido com o assassino. Embora a motocicleta da fita dê as caras só em sua ótima seqüência final, onde Carlos Gallardo mostra quem é que manda no pedaço, El Mariachi é a prova concreta e absoluta de que dinheiro pouco importa. O que vale mesmo é a criatividade: com apenas 80 minutos, Robert Rodriguez dá um banho de direção em muito cineasta milionário com uma história rasa, mas divertidíssima! El Mariachi ainda ganhou uma seqüência, o fraco A Balada do Pistoleiro (onde Carlos Gallardo foi trocado por Antonio Banderas), e Robert Rodriguez iniciou uma carreira bastante irregular. Afinal, demorou 13 longos anos para que o diretor entregasse um filme genuinamente BOM e que não seja nhé em momento algum: Sin City, a Cidade do Pecado

• CARO DIÁRIO, de Nanni Moretti

Se você não é um cult-maldito-bastardo como este que vos fala, provavelmente terá ouvido falar pouco a respeito de Nanni Moretti. Bem, o italiano Moretti é somente aquilo tudo que o intragável Roberto Benigni sempre quis ser e nunca conseguiu: um cineasta/ator que transita tranqüilamente e de maneira genial entre gêneros tão antagônicos quanto desafiadores como a comédia (Aprile, 1998) e o drama (O Quarto do Filho, 2001), sem abandonar sua fortes tendências políticas anti-Berlusconi. O esquisitaço Caro Diário (foto, 1993) é bem bacana, mas por favor, não me pergunte o que é esta coisa! Hehehe. O que acontece é que a fita não tem um gênero definido, na verdade não tem nem uma história com começo, meio e fim. É apenas uma colagem de três contos rodados em tom de documentário e protagonizados por Moretti. Em uma de suas tramas, o diretor filma a si mesmo em uma viagem pelas ruas de Roma a bordo de uma pequena Vespa, visitando lugares históricos (como a praia em que Pier Paolo Pasolini foi assassinado), descobrindo histórias e tecendo comentários hilariantes (e ácidos, beeem ácidos) sobre a própria Itália e seus habitantes. Ainda que possa parecer extremamente superficial quando apenas relatado como uma sinopse, esta história de Caro Diário é nada menos que uma brilhante viagem de auto-conhecimento e uma declaração de amor ao país, ainda que Moretti demonstre, o tempo todo, estar muito “p” da vida com os rumos da política local – o que só agravou com a ascensão de Silvio Berlusconi, que está para Moretti como George W. Bush está para Michael Moore. E… puxa, eu quero ter uma Vespinha daquela! :-D

• O ALVO, de John Woo

Além de marcar a estréia em solo ianque do cultuado cineasta cantonês John Woo (o mesmo de hits como Fervura Máxima e Bala na Cabeça), aquele que é chegado em pombas (!), o tosquésimo O Alvo (1993) é também uma demonstração de como Jean-Claude Van Damme tinha tudo para se tornar um bacana astro de filmes de ação, caso tomasse mais cuidado com as escolhas que faz. Afinal, esta bizarra produção de ação mostra o cara em sua melhor forma, na pele de um estivador do cais, Chance Boudreaux (que nome batuta, meu!), que ajuda a pobre advogada Natasha Binder (Yancy Butler) a encontrar seu pai desaparecido. O couro começa a comer quando a dupla descobre que o pai de Natasha morreu nas mãos de uma gangue de lunáticos liderada pelo maligno Fouchon (Lance Henriksen… o Bishop, meu!); a tal gangue tem a mania de contratar mendigos e afins para participar de uma espécie de safári, onde endinheirados pagam pelo prazer de caçar e matar pessoas… e o que pode acontecer quando Chance, um ás em artes marciais, torna-se a mais nova vítima do bando? Muita pauleira, muita pancadaria, muita cena sem sentido! Pois é, O Alvo é recheado de seqüências mal-filmadas e (d)efeitos visuais, mas sustenta-se com seu ótimo humor e com a habilidade fora do comum de John Woo em “poetizar” a violência, bem ao estilo de Sam Peckinpah, o que deixa a fita bem acima da média. Pena que, depois do sucesso de O Alvo (mais de US$ 70 milhões mundialmente), John Woo só tenha feito o mesmo filme várias e várias e várias vezes. Ah, e as malditas pombas estão lá, aqueles ratos com asas. Ugh! Ah sim, e você precisa ver o que o Van Damme faz com sua CG em uma das cenas mais “tensas”!

• A VIDA DE JESUS, de Bruno Dumont

Estranhou a presença de um filme com este título em uma matéria sobre produções que envolvem motocicletas? Não se deixe enganar pelas aparências: A Vida de Jesus (1997), estréia no cinema do hoje aclamado cineasta francês Bruno Dumont e vencedor do Camera D’Or no Festival de Cannes, fala sim sobre Jesus Cristo. Mas de uma maneira bastante metafórica, tanto que é necessário uma boa dose de concentração para encontrar suas semelhanças. Para tanto, Dumont usa a história de um grupo de jovens desajustados em uma pequena cidade do interior da França chamada Bailluel. Entre eles, está Freddy (David Douche), sujeitinho sem pretensões na vida que passa seus dias a passear de moto com seus amigos, a despejar sua raiva em imigrantes árabes e a alimentar um relacionamento absolutamente carnal com sua namoradinha Marie (Marjorie Cottreel). Mesmo sendo apenas mais um no meio de tantos, Freddy, que sofre de epilepsia, é uma pessoa especial – e nota-se que estamos falando de alguém mais, na falta de uma palavra melhor, “evoluído” quando o cara está com sua turma. A pacata vida desta molecada em Bailluel sai da rotina quando Marie envolve-se com um árabe. Com um ritmo lento, por vezes arrastado, e com uma infinidade de cenas de nudez e sexo quase explícitas, A Vida de Jesus moderniza o Novo Testamento para mostrar a sua visão do que é o Cristo, um Cristo que pode e é constantemente traído por seus predominantes sentimentos humanos.

• DIÁRIOS DE MOTOCICLETA, de Walter Salles

Não seria exagero dizer que Diários de Motocicleta (2004), primeiríssima produção dirigida por Walter Salles para um grande estúdio, traz algumas semelhanças gritantes com Sem Destino, o primeiro citado nesta matéria. Senão, veja só: um filme que fala sobre dois amigos que resolvem viajar de moto para explorar um continente e, diante de situações que não compreendem, descobrem a si mesmos durante a jornada. Entretanto, enquanto temos duas Harley Chopper e dois hippies interessados em desmascarar a América em Sem Destino, em Diários de Motocicleta temos uma Norton 500 caidaça e dois amigos que querem viver a América Latina que só conheciam dos livros. E um destes amigos, aliás, é um jovem chamado Ernesto (Gael García Bernal), que algum tempo depois se transformaria em um dos ícones da revolução cubana e uma das figuras pop mais adoradas do planeta, Che Guevara. Engana-se, porém, quem pensa que veremos o sujeito barbudo e usando sua lendária boina aqui: o mote de Diários de Motocicleta é justamente a transformação da ideologia do jovem Ernesto Guevara, e o que o faz transitar de garoto pacato para líder revolucionário disposto a dar sua própria vida para melhorar o mundo. Para muitos, Diários de Motocicleta é o ápice de Walter Salles, desbancando até seu magistral Central do Brasil. Digo apenas que é um filme visceral: lindo, com um roteiro enxuto e um apuro visual de tirar o fôlego. Obrigatório.

• AMIGO É PRA ESSAS COISAS, de Pierre Jolivet

O que dizer de um filme sobre motos… sem motos? Bem, quase isso. Amigo é Pra Essas Coisas (2005), comandada por Pierre Jolivet, é uma comédiazinha francesa simples, curtinha (88 minutos) e direta ao ponto – o que não o torna um filmeco, que fique claro. E aqui, tudo o que abate o pobre bastardo do personagem central, o maluquete Zim (Adrien Jolivet, indicado ao César de ator revelação), é conseqüência de um acidente que o rapaz de 20 anos provocou com sua scooter. Agora, Zim precisa arrumar um emprego registrado no prazo máximo de 10 dias para poder se livrar da prisão. Só que o único emprego que encontra exige que Zim tenha um carro e carteira de habilitação… o que ele não tem. E agora? A ajuda chega na forma de seus atrapalhados amigos estrangeiros, o africano Arthur, a árabe Safia e o marroquino Cheb. Tem início, assim, uma odisséia homérica para Zim arrumar um carro e tirar sua carta em 10 dias. Do contrário, irá para o xilindró. Simples, não? Um quarteto de protagonistas bem competente, um roteiro dinâmico e várias cutucadas na forma altamente preonceituosa que a França lida com seus moradores imigrantes, Amigo é Pra Essas Coisas é um daqueles longas que quebram facilmente o velho paradigma de que “produções da França precisam ser chatos e arrastados”. Para ver e comer uma pizza em seguida.

• DESAFIANDO OS LIMITES, de Roger Donaldson

Pouco visto nos EUA e praticamente ignorado aqui no Brasil, onde ganhou um discretíssimo lançamento em DVD sem passar nos cinemas (apenas em festivais com pouquíssimas sessões), o drama neozelandês Desafiando os Limites (2005) é bem mais contundente do que aparenta. Pô, e alguém aí ainda acredita em um filme sobre um sujeito que nada contra a corrente e desafia meio mundo para poder realizar seu sonho impossível, mostrando que tudo é uma questão de perseverança? Não mesmo. Felizmente, Desafiando os Limites escapa a esta armadilha e agrada bastante. Boa parte de seu carisma deve-se à instigante interpretação de Anthony Hopkins (nosso amigo Hannibal Lecter, saca?), completamente à vontade no papel de Burt Munro, um homem que, em plenos anos 70, sai da Nova Zelândia em direção a Utah, nos Estados Unidos, com a intenção de participar do percurso de Utah Bonneville e tornar-se o homem mais rápido do mundo. Algumas limitações, como a idade avançada e a própria motocicleta, uma Indian dos anos 20 totalmente reformada, podem atrapalhar os planos de Munro. Inspirado em uma história real, a fita de Roger Donaldson (o mesmo do ótimo Treze Dias Que Abalaram o Mundo) foge do convencional e comove com facilidade, graças ao fenomenal trabalho de Hopkins e à simplicidade do enredo, que evita cair em situações melô. Merece uma olhadela.

O CINEMA SOBRE DUAS RODAS

Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 28/02/2007
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem MOTOQUEIRO FANTASMA (Ghost Rider).


A Noite dos Mortos-Vivos

12/06/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/07/2005.

…ou: ELES ESTÃO VINDO DE NOVO, BARBARA!

Ok, ok, tá certo. A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1990) pode não ser exatamente parte integrante da clássica cinessérie que imortalizou os zumbis na cultura pop. Aliás, o filme sequer foi dirigido por George A. Romero. Bem, quase. A verdade é que, em 1989, Romero soube que perderia os direitos de seu primeiro filme e, temendo que algum espertinho chegasse na frente, correu para desenvolver um remake da fita. O resultado é este ótimo trabalho dirigido pelo protegido de Romero, Tom Savini (também responsável pela maquiagem), e com produção executiva do próprio. Savini optou por utilizar como base o primeiro roteiro da fita de 1968 – para quem não sabe, a versão final do filme original usou um roteiro revisado e com certas mudanças, para não bater violentamente com a censura. O que de nada adiantou, pois bateu do mesmo jeito! :-)

O que vemos aqui, então, é quase o mesmo enredo, com leves mudanças na personalidade de alguns personagens – Barbara (Patricia Tallman), por exemplo, não é mais uma “anta” e sabe se virar muito bem quando o negócio é “auto-defesa” – e no destino de outros, além da ausência das metáforas sobre a política estadunidense. Mais uma vez, sete estranhos encontram-se ilhados em uma pequena casa, à mercê de dezenas de cadáveres reanimados por alguma razão não muito bem esclarecida. E dá-lhe membros decepados, órgãos expostos e uma quantidade satisfatória de sangue! Rodado com o orçamento estimado em quase US$ 5 milhões, este A Noite dos Mortos-Vivos de 1990 conta com excelentes efeitos de maquiagem, um senhor clima de horror e um final bacaníssimo, ainda que de certa forma otimista, o que não é bem a cara de George Romero. Ei, e qualquer fita que seja protagonizada por Tony Todd, mais conhecido como o sujeito que deu vida a um dos vilões mais legais no terrorzaço O Mistério de Candyman, já vale o aluguel do DVD, oras! :-D

O curioso é que a distribuição de A Noite dos Mortos-Vivos foi assinada pela Columbia Pictures, a mesma que recusou o primeiro longa da série sem pensar duas vezes. E um comentário altamente spoilerento: demorou vinte e dois anos até que alguém, no caso Barbara, levasse em consideração a idéia de caminhar entre os zumbis, visto que as criaturas são bastante lentas. E não é que é um caso a se pensar?

NIGHT OF THE LIVING DEAD • EUA • 1990
Direção de Tom Savini • Roteiro de George A. Romero
Baseado no roteiro de Night of the Living Dead (1968), escrito por John A. Russo e George A. Romero
Elenco: Tony Todd, Patricia Tallman, Tom Towles, McKee Anderson, William Butler, Katie Finneran, Bill Moseley, Heather Mazur.
92 min. • Distribuição: Columbia Pictures/21st Century Film Corporation.

 

GEORGE A. ROMERO E A TRILOGIA DOS MORTOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 21/07/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead).