Os Insanos Longas de Pedro Almodóvar

28/03/2012

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/11/2004.

Há um tempo atrás, a palavra “cinema” significava Estados Unidos da América. Sim, os filmes da terrinha do Tio Sam não eram só os melhores, mas também os únicos. Não que não houvesse qualquer outro país disposto a mandar ver na arte de fazer cinema, mas os americanos dominavam e o restante era fadado à obscuridade. Pela metade do século XX, cineastas europeus como François Truffaut e Luis Buñuel quebraram algumas barreiras e conseguiram invadir o território norte-americano, mas seus filmes, geralmente com temas pesados e de difícil digestão entre as massas, restringiam-se ao círculo underground.

O nome responsável por tornar o cinema estrangeiro mais popular e aceitável nos States (e também no resto do mundo) nasceu no pequeno vilarejo de Calzada de Calatrava, na região de La Mancha, na Espanha, em 24 de Setembro de 1949 (ou 1951, ninguém sabe ao certo). Pedro Almodóvar Caballero, ou apenas Pedro Almodóvar, passou a infância e a adolescência vendendo objetos usados e trabalhando em companhias telefônicas. Em 1970, comprou uma câmera Super 8, e rodou vários curtas-metragens entre 1972 e 1978. Dois anos depois, ficou conhecido em toda Espanha por conta de seu primeiro longa, e exatamente 24 anos, 15 filmes e 59 prêmios internacionais depois, é tido como o maior cineasta espanhol vivo e um dos maiores europeus da atualidade. Além disso, abriu as portas do mundo para as fitas de outras nacionalidades além da terra do senhor Bush, e lançou o nome de muitos grandes atores e atrizes espanhóis – que hoje correspondem a uma fatia considerável e bem requisitada pelos gringos.

Todo o falatório em cima da filmografia de Almodóvar não é à toa. O diretor/ator/roteirista/compositor soube como ninguém transformar tragédias gregas em comédias sutis, hilariantes e de grande apelo popular. Além disso, chamou a atenção para Madri – uma das mais belas cidades do mundo – e o visual colorido e bem particular de seus trabalhos combinam perfeitamente com as desgraças de seus personagens. E que personagens… cada um mais bizarro que o outro! Bem, ao invés de dissecar a biografia do cineasta ateu e fanzoca do Caetano Veloso, nada melhor do que dar uma passeadinha rápida em cada um de seus trabalhos, para entender melhor o fascínio que Pedro Almodóvar exerce nas platéias de todo o planeta – e também esquentar as turbinas para Má Educação (La Mála Educación, 2004), seu novo (e polêmico) trabalho, que chega às telonas nesta sexta-feira cercado de expectativas e com ninguém menos que Gael García Bernal no elenco:

PEPI, LUCI, BOM (Pepi Luci Bom y Otras Chicas Del Montón, 1980)

História: Três mulheres: a maluquinha Pepi (Carmen Maura) é vizinha da submissa Luci (Eva Siva – que nominho, hein?), casada com um policial, e de Bom (Olvido “Alaska” Gara), vocalista de uma banda de rock e lésbica. A vida das três moças se cruzam depois de um acontecimento insólito: o policial marido de Luci estupra Pepi em troca de seu silêncio – Pepi tem uma plantação de maconha em casa – e Luci, que é sado-masoquista (!), se envolve amorosamente com Bom. Eita!
Notas: O primeiro longa de Almodóvar lançou seu nome na Espanha por conta das características que viriam a marcar toda sua filmografia: personagens caricatos, situações absurdas tratadas com naturalidade e um visual berrante (a cor das roupas das atrizes devem até brilhar no escuro!). A trilha sonora é uma atração à parte (rock misturado com tango), e o próprio Almodóvar faz um ponta, como o mestre-de-cerimônias de uma competição entre homens para ver quem tem o maior… bem… aquilo. Pepi, Luci, Bom também marcou o fim da ditadura do General Franco na Espanha, e é o primeiro trabalho do diretor com sua eterna musa Carmen Maura.

LABIRINTO DE PAIXÕES (Laberinto de Pasiones, 1982)

História: A violenta e ninfomaníaca Sexília (Cecilia Roth – olha o nome da personagem!!) e o filho de um imperador árabe chamado Riza Niro (Imanol Arias) iniciam um relacionamento amoroso. Ela acabou de montar uma banda de punk rock e ele está fugindo dos capangas de seu pai, liderados por Sadec (Antonio Banderas), um terrorista gay – e ex-namorado de Riza Niro. O casalzinho normal (normal!?!?) enfrenta as barras do primeiro relacionamento hétero de ambos com a ajuda de Queti, “fã n.º 1” de Sexília.
Notas: O segundo trabalho do diretor, pouco visto por aqui (mesmo tendo sido lançado há pouco tempo em DVD), segue pelo mesmo caminho de Pepi, Luci, Bom, com a diferença de que, aqui, Almodóvar centra sua câmera exclusivamente nas figuras exóticas que se concentram no cenário underground da Madri dos anos 80, retratando como pano de fundo a ascensão artística do rock da época. Em Labirinto de Paixões, também fica claro a obsessão quase doentia do cara por sexo, e é a primeira vez em que ele trabalha com Cecilia Roth, que mais tarde protagonizaria o clássico Tudo Sobre Minha Mãe.

MAUS HÁBITOS (Entre Tinieblas, 1983)

História: A cantora de bar Yolanda (Cristina Sánchez Pascual) sofre um baque quando presencia a morte do noivo por overdose. Perseguida pela polícia, que acredita fielmente que o incidente encobre um assassinato, Yolanda se esconde num convento lotado de freiras lésbicas e viciadas em heroína! Pra piorar, passa a ser assediada pela Madre Superiora (Julieta Serrano), que está doida pra… bem… tirar o atraso!
Notas: Maus Hábitos é confuso e extremamente bizarro, e ainda assim é considerado o melhor longa desta primeira fase de Almodóvar. Aqui, o diretor exercita seu ateísmo numa boa, e o que tinha tudo pra se tornar um fracasso (freiras homossexuais e drogadas não devem atrair muito público…) rendeu muito bem na Espanha.

O QUE EU FIZ PRA MERECER ISTO? (¿Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto?!!, 1984)

História: O caos se instaura numa família de classe-média em Madri: a mãe (Carmen Maura, mais uma vez) é faxineira e viciada em produtos de limpeza; o pai (Ángel de Andrés López) é um aborrecido chofer apaixonado por uma cantora alemã – ele também trabalha como falsificador de documentos; um dos dois filhos adolescentes do casal vende heroína e o outro dorme com todos os homens que encontra pela frente; a sogra dela tranca todos os doces da casa e vende-os para a própria família. A família ficará mais doentia ainda quando dois escritores escrevem as memórias de Hitler e contratam o pai para reescrevê-lo com a caligrafia do ditador alemão…
Notas: Estranho é pouco! Não à toa, este é um dos poucos filmes de Almodóvar (talvez o único) que ainda é proibido em alguns países. Apesar da temática um tanto quanto… excêntrica, este longa fez muito sucesso na Espanha, mas ficou restrito à salinhas bem escondidas e obscuras no Brasil.

MATADOR (Matador, 1986)

História: Um toureiro (Nacho Martínez) não consegue abandonar o hábito de matar. Quando as touradas não conseguem mais saciar suas necessidades de sangue, o homem passa a se relacionar sexualmente com qualquer mulher que cruze seu caminho para, durante o ato sexual, matá-la. Diego, o toureiro, encontrará em Maria (Assumpta Serna) e Angel (Antonio Banderas) dois fortes obstáculos.
Notas: Matador foi oficialmente o primeiro longa do cineasta a ser lançado no Brasil. O destaque fica por conta da mudança de gênero: pela primeira vez, Almodóvar deixa a comédia rasgada de lado para se aventurar no suspense – que, na verdade, não chega a ser totalmente sério. Também chamou a atenção para um jovem ator espanhol que costuma atender pelo nome de Antonio Banderas.

A LEI DO DESEJO (La Ley Del Deseo, 1987)

História: Pablo (Eusebio Poncela) e Tina (Carmen Maura) são irmãos. Ele é um escritor e diretor de cinema gay e acaba de romper um bizarro relacionamento com Juan (Miguel Molina). Ela nasceu homem, e depois de uma experiência traumatizante com um padre (!), resolveu mudar de sexo, e agora tem uma filha adotiva e tenta a carreira de atriz. Pablo tem uma aventura com Antonio (Antonio Banderas), que enlouquece de ciúmes quando descobre que Pablo ainda sente algo por Juan. Sua vingança será maligna! Hehehe…
Notas: O pesadíssimo sexto filme de Pedro Almodóvar só foi lançado oficialmente no nosso país em 1996, quase dez anos depois de sua estréia na Espanha. A história não chega a ser tão bizarra quanto as de seus trabalhos antecessores, mas é tão polêmico quanto qualquer um deles, ou até pior, por conta das quase explícitas cenas de sexo entre Antonio Banderas e Eusebio Poncela, e das milhões de sugestões sexuais nas cenas “limpas” – reparem na cena em que Carmen Maura se “esfrega” toda diante do jato de uma mangueira… Vixe!

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, 1988)

História: A dubladora de TV Pepa (adivinha quem?) é abandonada pelo seu amante, Ivan (Fernando Guillén). Desesperada e à espera de explicações, ela caça o cara por todos os cantos de Madri até se encontrar trancada num apartamento ultra-colorido com um grupo de pessoas que até então desconhecia: o filho de Ivan, Carlos (Antonio Banderas), e a noiva virgem dele, Marisa (Rossy de Palma); Lucia (Julieta Serrano), a mãe de Carlos, que tem sérios distúrbios e comportamento psicopata; e Candela (Maria Barranco), mulher burrinha que sofre pelo ex-namorado terrorista.
Notas: Inspirado em partes num conto de Jean Cocteau, Mulheres à beira… é o primeiro grande sucesso de Almodóvar em terras gringas. O longa, que custou 700.000 dólares, rendeu aproximadamente US$ 8 milhões só nas telonas ianques, e em uma semana de exibição na Espanha atraiu mais de 42 mil pessoas. Foi também o primeiro longa do cineasta a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e o primeiro a ser produzido por sua recém-fundada produtora, a El Deseo S/A. Uma curiosidade: o fantástico Javier Bardem, de Antes do Anoitecer, faz uma pontinha bem minúscula.

ATA-ME! (¡Átame!, 1990)

História: Recém-saído de um hospital psiquiátrico, o marginal Ricky (Antonio Banderas… de novo) resolve seqüestrar a ex-atriz pornô e atual atriz de filmes B Marina (Victoria Abril), com quem teve uma tórrida noitada dentro de um banheiro público no passado. Seu objetivo: fazer com que ela se apaixone por ele.
Notas: Apesar de ser um longa muito divertido, a indecisão entre o clima soturno e o “kitsch” prejudicou um pouco a carreira de Ata-me! nos cinemas espanhóis (e também no mundo). Bem, pelo menos serviu para apresentar Victoria Abril, a nova diva do diretor, ao planeta. Foi indicado a 15 prêmios Goya, o Oscar da Espanha, e a trilha sonora é do excelente Ennio Morricone, homenageado recentemente por Quentin Tarantino em seu ótimo Kill Bill: Vol. 2.

DE SALTO ALTO (Tacones Lejanos, 1991)

História: Becky (Marisa Paredes), cantora de sucesso nos anos 60, retorna a Madri depois de passar alguns anos no México, e reencontra sua filha Rebeca (Victoria Abril), locutora de telejornal, que está casada com Manuel (Feodor Atkine). O problema: Manuel foi amante de Becky no passado. A relação entre mãe e filha, que já era tensa, explode ainda mais com a descoberta de que Manuel tem outra amante, a também locutora Isabel (Miriam Diaz Aroca). As três mulheres se metem numa enrascada quando Manuel aparece morto.
Notas: O estranho De Salto Alto – bem, qual trabalho de Pedro Almodóvar não é estranho? :-) – representa um salto considerável na carreira do diretor, por se tratar de seu primeiro longa financiado por outro país, no caso a França. Uma prova concreta de que seus filmes são bem populares em vários cantos… aqui, Almodóvar trabalha pela segunda vez com um nome de responsa na sua técnica (no caso, o lendário compositor Ryuichi Sakamoto, autor da trilha de O Último Imperador), e dedica boa parte das cenas à ótima Marisa Paredes. Há uma lenda urbana que diz que este filme, através do personagem de Miguel Bosé, ajudou a popularizar os clubes noturnos e as drag queens (para quem não sabe, aqueles caras que se vestem de mulher por diversão). Bem Almodóvar mesmo.

KIKA (Kika, 1993)

História: Kika (Verónica Forqué) é uma maquiadora casada com o fotógrafo Ramón (Alex Casanovas). Ela mantém um caso ardente com Nicholas (o americano Peter Coyote), escritor americano. Detalhe: Nicholas é padrasto de Ramón. Kika vê seu mundinho cair quando é ameaçada por duas figuraças: Juana (Rossy de Palma), sua empregada lésbica, e uma tal de Andrea Caracortada (Victoria Abril – ué, cadê a Carmen Maura?), ex-namorada de Ramón e atual apresentadora de um reality show.
Notas: Inspirado de leve no romance policial Carne Viva, da escritora Ruth Rendell, este é o trabalho que finaliza a fase mais rasgada e colorida do cineasta, que já não se limita tanto à sua terra natal. O elenco é encabeçado por Peter Coyote (de E.T., O Extraterrestre) e os figurinos (inclusive a “roupa-câmera” utilizada por Victoria Abril) são assinados pelo francês Jean Paul Gaultier. Não chegou a fazer muito sucesso fora da Espanha – rendendo “somente” US$ 2 milhões.

A FLOR DO MEU SEGREDO (La Flor de Mi Secreto, 1995)

História: A solitária Leo (Marisa Paredes) escreve romances bem ao estilo Sabrina sob o pseudônimo de Amanda Gris. Enfrentando uma grave crise no casamento com um oficial da OTAN, Leo afunda ainda mais quando é procurada por Angel (Juan Echanove), editor do jornal El Pais. Angel, sem conhecer a identidade secreta de Leo, pede a ela que escreva um artigo falando mal da obra de Amanda Gris.
Notas: O excelente A Flor do Meu Segredo é o primeiro da atual safra de longas “sérios” de Almodóvar. A partir daqui, o diretor deixou um pouco de lado a atmosfera kitsch que envolveu todos os seus filmes anteriores a passou a se dedicar mais aos sentimentos de seus personagens, centrando sua câmera na atuação excepcional de Marisa Paredes. As tramas continuam tão malucas quanto sempre, porém com os pés mais fincados na realidade. Para nós, brasileiros, a maluquice fica por conta de uma cena em que podemos ouvir Caetano Veloso cantando Tonada de Luna Llena ao fundo…

CARNE TRÊMULA (Carne Trémula, 1997)

História: O destino de três pessoas se cruzam depois de quatro anos. A junkie Elena (Francesca Neri) é surpreendida pelo entregador de pizzas Victor (Liberto Rabal), apaixonado por ela. Arma-se uma confusão, entram em cena os policiais David (Javier Bardem) e Sancho (Jose Sancho), e um tiro disparado por Victor acaba por deixar David paralítico. Quatro anos depois, Victor sai da prisão e reencontra Elena, agora sóbria e casada com David, que se tornou jogador de basquete em cadeira de rodas. Ao mesmo tempo, Victor tem um caso com Clara (Angela Molina), esposa de Sancho – o real responsável pelo disparo que vitimou David.
Notas: Carne Trêmula simbolizou o retorno triunfal de Almodóvar ao esquemão norte-americano: o filme foi muito bem recebido por lá (e também aqui no Brasil). Com um roteiro bem amarrado, que mescla boas doses de erotismo a uma trama policial bem interessante, e vários grandes atores no elenco – sem contar, claro, a aparição ao início da fraquinha Penélope Cruz em uma pontinha -, é tido como a primeira obra-prima do espanhol, segundo a crítica.

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo Sobre Mi Madre, 1999)

História: Manuela (Cecilia Roth) leva seu filho Esteban (Eloy Azorin), de 17 anos, para assistir à montagem de Um Bonde Chamado Desejo no dia de seu aniversário. A atriz principal da peça é Huma Rojo (Marisa Paredes), a preferida do adolescente. Num lapso de nostalgia, Manuela confessa a Esteban que interpretou este mesmo papel há 20 anos, onde atuou com o pai do garoto, de quem este nunca ouviu falar. Antes que Manuela possa falar mais sobre o pai de Esteban, este morre atropelado. Atordoada, Manuela decide procurar o pai do menino falecido, que é travesti, para amarrar algumas pontas em aberto.
Notas: Sem dúvidas, o melhor trabalho de toda a carreira de Pedro Almodóvar. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de mais 41 prêmios de todas as espécies, Tudo Sobre Minha Mãe conquistou crítica e público com uma história comovente e personagens muito carismáticos, dentre os quais se destacam Cecilia Roth como Manuela, a atriz interpretada por Marisa Paredes e principalmente a hilária travesti Agrado (Antonia San Juan), dona dos diálogos mais legais do filme e injustamente ignorada pelo Oscar. A fotografia desta produção é do brasileiro Affonso Beato.

FALE COM ELA (Hable Con Ella, 2002)

História: Marco (Dario Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara, um ator simplesmente bárbaro) estão sentados lado a lado na platéia de um teatro. Assistem ao famosíssimo espetáculo de dança Café Müller. Eles não se conhecem. Marco está chorando, emocionado. Benigno sente-se comovido com aquela cena, e também gostaria de demonstrar que está tocado, mas não consegue. Tempos depois, Marco e Benigno se reencontram numa ocasião insólita: o segundo é enfermeiro de um hospital onde a noiva do primeiro, a toureira Lydia (Rosario Flores… ou seria a Maria Bethânia?), está em coma. O núcleo completa-se com a bailarina Alicia (Leonor Waitling), também em coma, por quem Benigno é apaixonado. Os dois homens desenvolverão uma forte amizade.
Notas: Fechando com chave de ouro o ciclo dos aclamadíssimos trabalhos cujo início se deu com A Flor do Meu Segredo, Fale Com Ela rendeu o primeiro Oscar (e único, por enquanto) de Melhor Roteiro da carreira de Pedro Almodóvar – o prêmio conquistado com Tudo Sobre Minha Mãe, por ser da categoria “melhor filme”, vai para o produtor do filme, e não para o diretor. Além de ser um espetáculo visual no que diz respeito a enquadramentos de cena e montagem, as atuações dos atores centrais estão ótimas, com destaque para Javier Cámara. Duas curiosidades: este é o tão comentado longa que contém uma cena com Caetano Veloso (particularmente, não sou tão fã assim do cantor, mas a cena é de uma poesia tremenda), e em uma cena de tourada, podemos ouvir Elis Regina interpretando a clássica Por Toda a Minha Vida, de Tom Jobim.

Observando a versátil – e muito bizarra – filmografia deste tranqüilo espanhol, dá pra perceber que o sucesso, os prêmios e o prestígio de Pedro Almodóvar são mais do que merecidos. Dá pra entender, também, o motivo pelo qual Almódovar é chamado de “o homem que amava as mulheres” – não houve nenhum outro diretor que soubesse retratar o complexo universo feminino com tamanha fidelidade e devoção. Acima de tudo, é importante salientar que Pedro Almodóvar é, sem dúvidas, o homem que ama o cinema. O público agradece.

CURIOSIDADES:

• Antes de se tornar cineasta pra valer, Pedro Almodóvar escreveu contos eróticos. Um destes contos se transformou em seu único romance publicado: Fogo nas Entranhas é um hilário texto que narra a desventuras de um chinês, Chu Ming Ho, dono de uma fábrica de absorventes que, irado com as mulheres (por ter sido abandonado por quatro em seguida), resolve se vingar criando um “tampax” que faz a mulherada transar até a morte! Obrigatório. O livro já foi publicado aqui no Brasil.

• Os filmes de Almodóvar são geralmente produzidos por Augustín Almodóvar, irmão de Pedro. Tanto Augustín quanto Francisca Caballero, mãe de Pedro, sempre fazem pontinhas em seus trabalhos.

• Pedro Almodóvar se recusa a filmar nos Estados Unidos. Sensato.

• O monólogo de Agrado, uma das melhores cenas de Tudo Sobre Minha Mãe, é na verdade inspirada em um fato verídico. Quando o sistema eletrônico de um teatro argentino falhou, o diretor do espetáculo a ser apresentado cancelou a sessão. A atriz Lola Membrives, sem jeito de dispensar a platéia lotada, chegou ao centro do palco, explicou o problema e lançou um convite: para não perder a viagem (e precisar pegar o dinheiro de volta), ela narrou detalhes picantes de sua vida para quem se dispôs a continuar na platéia.

OS INSANOS LONGAS DE PEDRO ALMODÓVAR
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 11/11/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem MÁ EDUCAÇÃO (La Mala Educación).

Anúncios

Poseidon

27/03/2012

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/06/2006.

Outro dia, me perguntaram qual a minha opinião sobre Titanic. Respondi que acho bem “nhé”, mas sempre que a fita é exibida na TV, paro o que estou fazendo, a qualquer hora do dia, para assistir. Explico: o filme de James Cameron é chatíssimo e muito mal desenvolvido em seu lado “romance”, que nem deveria existir, mas representa um espetáculo visual único quando o foco é o navio afundando. Do momento em que o transatlântico choca-se com o iceberg até o momento em que finalmente vai a pique, sento e vejo tudo sem piscar e sem mover um músculo. E quando o último pedacinho do navio desaparece no mar, nem espero o filme acabar; já desligo logo a TV e a vida continua.

Num saldo geral, Titanic é mal escrito, clichêzento e absolutamente maçante, mas se o namorico mela-cueca entre Leonardo DiCaprio e Kate Winslet não existisse, seria mais um filmão daqueles que James Cameron consegue fazer como poucos.

E o que Titanic tem a ver com Poseidon (Poseidon, 2006), além do fato de ter um navio afundando? Tudo. Primeiro, porque este disaster movie dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen (de O Barco: Inferno no Mar e Mar em Fúria) faz exatamente o que Titanic deveria ter feito: focar sua história apenas no naufrágio e na corrida de alguns de seus tripulantes pela sobrevivência. Nada de romancezinho chulé! Nada de perder uma hora inteira só com blá-blá-blá! E segundo, porque assim como Titanic, este Poseidon cai na armadilha de entregar muitos efeitos visuais batutinhas e esquecer-se do fator primordial para a qualidade de qualquer longa-metragem, independente de seu gênero: um roteiro decente. O roteiro aqui é um problema sério, meu!

Tá, tudo bem. Claro que ninguém esperava que Poseidon, remake de um dos mais famosos filmes-catástrofe da história, O Destino do Poseidon (1972), fosse algo além de “efeitos legais e ponto”. Mas a produção peca em não desenvolver itens fundamentais para o andamento desta história e, o pior de tudo, peca em tentar se levar a sério. Um filme destes não é para se levar a sério, não estamos falando de um clássico do cinema catástrofe! Bem, se pararmos para analisar, nem O Destino do Poseidon era tão legal assim… mas pelo menos tinha personagens carismáticos, algo em falta nesta nova fita. Ou seja: Poseidon é mais um filme-escravo-do-CGI, filme que só funciona em função de seus efeitos – quando na verdade, os efeitos deveriam servir para ajudar a contar a história, e não ser seu único atrativo. :-P

De uma coisa não pode-se reclamar: Poseidon é tão rápido que você nem sente. Perde-se pouquíssimo tempo para o público conhecer superficialmente os protagonistas, o acidente acontece muito rápido e, quando você acha que a trama ainda está na metade, o filme acaba. Simples assim. Quando começa a projeção, não demoram 10 minutos até que uma onda gigante (muito bem fotografada, por sinal) choque-se com o transatlântico de luxo SS Poseidon no Oceano Atlântico, em plena festa de ano novo, virando-o de ponta cabeça em questão de segundos, matando mais da metade da tripulação e enclausurando os poucos sobreviventes no salão de festas, uma enorme bolha de ar no meio de um navio totalmente inundado.

Ignorando a ordem do capitão Bradford (Andre Braugher, de Cidade dos Anjos), que quer que todos fiquem ali no salão aguardando um possível resgate, um grupo de pessoas decide escalar o Poseidon por dentro, até encontrar uma saída que dê acesso ao casco do navio e, conseqüentemente, à saída – ao contrário do que o capitão prega, eles sabem que é apenas questão de tempo, de muito pouco tempo, até que o Poseidon vá a pique. O grupo:

• Dylan (Josh Lucas), cara misterioso que de repente torna-se o Indiana Jones da turma;
• Robert (Kurt Russell), ex-bombeiro e ex-prefeito, que odeia Dylan não se sabe porquê;
• Jennifer (Emmy Rossum), filha de Robert, que não tem coragem de contar ao pai que vai casar;
• Chris (Mike Vogel), noivo de Jennifer e mais um alvo do ódio de Robert;
• Maggie (Jacinda Barrett), amorosa mãe-solteira do pivete xereta Conor (Jimmy Bennett);
• Elena (Mia Maestro), passageira clandestina que entrou no navio com a ajuda do garçom Valentin (Freddy Rodriguez);
• Lucky Larry (Kevin Dillon, o menos afortunado irmão de Matt Dillon), o arrogante e nojento da vez;
• Richard Nelson (Richard Dreyfuss), arquiteto gay abandonado pelo namorado e suicida em potencial.

Ok, isso é tudo que você precisa saber. Até mesmo porque o restante do filme nem dá atenção à história de cada um deles, restringindo-se a mostrar o grupo passando diversos apuros e sofrendo algumas baixas. Mas como se não bastasse a batidíssima construção da história escrita por Mark Protosevich (assim que o grupo se une, já dá pra saber quem morre e quem fica) e os aborrecedores estereótipos (dá nos nervos ver Richard Dreyfuss passando por um perigo de morte e, ao mesmo tempo, chamando o garçom de “lindão” e “maravilhoso”…), o fiapo de trama deixa buracos tenebrosos – só para exemplificar, nunca se explica a razão da picuinha entre Robert e Dylan, nem como este último conhece tão bem a estrutura do Poseidon, nem por qual motivo Richard Nelson, que preparava-se para se suicidar quando viu a onda, desistiu da morte e lutou por sua vida.

O problema maior, a meu ver, é que este tipo de trabalho exige uma boa construção de personagens, de modo que o público possa se identificar e torcer por eles – coisa que não acontece aqui. O roteiro não dá brechas para que cada um tenha um tempo em cena o suficiente para fazer o espectador gostar deles. Ou seja: você não consegue torcer. Você não consegue ficar nervoso com as situações, você não consegue se comover quando alguém “bate a caçoleta”, você não consegue fazer nada além de prestar atenção nos belos efeitos visuais. Apenas isso. Enfim, nem dá pra tecer maiores comentários, pois não tem o que comentar; Poseidon é apenas um navio afundando e algumas pessoas morrendo, mais nada.

Por isso, nem me atrevo a dissecar a atuação do povo aqui. Em sua maioria, são todos ótimos atores, mas não há como fazer um bom trabalho neste longa. Não tem material pra isso!

Mas nem tudo está perdido, é verdade. Como eu disse lá em cima, este é um autêntico disaster movie, e até mesmo os mais conceituados exemplares do gênero nunca deram muita atenção para outras coisas além da situação extrema de perigo e a tentativa de algumas pessoas em escapar imune à esta situação. Enxergando por este prisma, Poseidon vale numa boa o valor do ingresso, mas desde que o espectador vá consciente de que estamos falando de um genuíno filme-escravo-do-CGI e nada mais que isso. Vejamos pelo lado bom: pelo menos este é bem melhor e mais “assistível” do que as pérolas que o mocorongo patriotinha Roland Emmerich costuma soltar por aí… :-D

CURIOSIDADES:

• A produção de Poseidon enfrentou um probleminha ao final das filmagens, quando boa parte do elenco, tanto o central quanto o elenco de apoio, apresentou  algumas infecções por passar várias horas por dia imersos em água suja. Menos sorte teve Josh Lucas, que durante uma cena foi golpeado por Kurt Russell na cabeça com uma lanterna. Acidentes acontecem, não?

POSEIDON • EUA • 2006
Direção de Wolfgang Petersen • Roteiro de Mark Protosevich
Baseado no romance de Paul Gallico
Elenco: Josh Lucas, Kurt Russell, Richard Dreyfuss, Jacinda Barrett, Emmy Rossum, Mike Vogel, Mia Maestro, Jimmy Bennett, Andre Braugher, Freddy Rodriguez, Kevin Dillon.
99 min. • Distribuição: Warner Bros.


Pai e Filho

26/03/2012

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 04/08/2006.

Provavelmente você nunca ouviu falar deste filme. E provavelmente nunca ouvirá falar. O caso é que é mesmo uma surpresa o lançamento do drama Pai e Filho (Otets I Syn, 2003) nos cinemas brazucas. Afinal de contas, estamos falando de um obscuro longa-metragem co-produzido entre Rússia, Itália, Holanda e Alemanha (antes da bisonha sci-fi Guardiões da Noite, não ouvia-se falar muito de produções russas nas nossas telonas) e datado de 2003. Nem mesmo eu, que assisti a este filme há exatos três anos atrás em uma mostra de cinema, poderia imaginar que ele chegaria às nossas salas.

Claro que Pai e Filho não chega por aqui no circuitão, e é por isto que eu digo que muitos sequer conhecerão esta película guiada pelo consagrado siberiano Aleksandr Sokurov (o mesmo de Arca Russa e Elegia de uma Viagem). Certamente dará para contar nos dedos de uma mão o número de salas que exibirão esta coisinha – até onde sei, é só uma no centro de SP e olhe lá -, e há grandes chances de sua permanência não ultrapassar duas semanas.

Quer uma dica? Se você está próximo de qualquer sala de cinema que esteja exibindo Pai e Filho, corra para lá. Agora! Mas termina de ler o texto antes, tá bão? :-D

Opa, peraí: a coisa não é bem assim. Tal qual todos os trabalhos de Aleksandr Sokurov, Pai e Filho não foi feito para qualquer espécie de público. Aliás, foi feito para uma grande minoria: é um longa parado, silencioso, intimista, ambígüo até não poder mais, recheado de imagens estáticas e carregadas de surrealismo, e com uma trama simplória contada através de diálogos que, de tão cheio de significados, chegam a ser confusos. Para quem não gosta desta espécie de cinema, quinze minutos de Pai e Filho demoram mais a passar do que 752 anos (!). Quem dispor de um tempinho e se aventurar nesta fita com a mente aberta, entretanto, não deverá se arrepender – além de ser uma excelente aula de cinema, também é tocante pela forma que narra o relacionamento entre os personagens centrais.

Pai e Filho conta a relação entre um pai, um soldado reservista sem nome (Andrej Shetinin, ótimo), e um filho, Alexei (Aleksei Nejmyshev), que dividem um isolamento em um apartamento. Ao contrário da maioria das produções neste estilo – que costumam focar conflitos e rebeldia -, aqui o relacionamento entre eles é pacífico. Na verdade, é BASTANTE pacífico, tão amistoso que não é difícil acreditar que tratam-se de dois amigos (a pouca diferença de idade entre eles também ajuda). O elo entre pai e filho é tão forte e tão carregado de manias e cumplicidade, que a crítica internacional chegou até a apontar várias “referências homoeróticas” na fita, já começando pela bizarríssima seqüência inicial – referências estas negadas pelo cineasta, mas tudo bem (sinceramente, pra mim isso é papo de quem procura cabelo em ovo, não enxerguei referência alguma na projeção).

Voltando, a história começa pra valer quando Alexei ingressa no serviço militar. Fora do seu mundinho particular, trava contato com outras pessoas, arranja uma quase-namorada e descobre que gosta de esportes. A tal namoradinha sente ciúmes da relação entre os dois, mas isso não dá dor de cabeça ao rapaz. Seu problema maior é saber que, um dia, naturalmente se afastará de seu pai para seguir seu curso. Este também sente o mesmo. E conseguirão, genitor e primogênito, sobreviver distantes um do outro?

E ponto. É só isso. Nada de história rocambolesca, nada de grandes revelações. Não falei que a trama era bem simplezinha? :-D

Mas por favor, não vamos confundir “simplicidade” com “filme chulé”. Acostumado a dirigir grandes “superproduções” carregadas de estilo e pirotecnias visuais, Sokurov entrega aqui um trabalho comedido, absurdamente tradicional, rodado da forma mais convencional e objetiva possível, mas que traz em sua curta duração (apenas 80 minutos) uma série de seqüências belíssimas e tocantes, todas inspiradas em pinturas (uma das marcas registradas de Sokurov), como quando pai e filho conversam sobre a jovem mãe deste, morta há anos. A desconstrução do sofrimento do pai ao tomar consciência de que precisa se afastar do filho para cada um seguir seu caminho, mote central da película, já vale por si só. Sério, não é difícil sair da sessão em prantos, e não é preciso ninguém morrer ou nada disso pra despertar este sentimento no espectador.

Então, vale a pena uma visita? Claro que sim. Porém, antes que você pense em torrar seu dinheirinho do ingresso para conferir este drama, deve ser grifado, sublinhado, posto em negrito e em itálico, que Pai e Filho é uma produção para muito poucos. Não apenas por seu parado, mas também pela ambigüidade que permeia cada milímetro da metragem da fita. Mas vale cada centavo do ingresso, pela forma singela, quase sagrada, de retratar o laço paterno. Um ótimo filme (se você gosta deste tipo de filme), perfeito para curtir o Dia dos Pais ao lado de seu paizão – mas isto, claro, se ele curtir estes troços cult (!). :-D

Nossa! Que crítica ENORME para os meus padrões! ;-)

OTETS I SYN • RUS/HOL/ITA/ALE • 2003
Direção de Aleksandr Sokurov • Roteiro de Sergei Potepalov
Elenco: Andrej Shetinin, Aleksei Nejmyshev, Aleksandr Razbash, Fyodor Lavrov, Marina Zasukhina.
82 min. • Distribuição: Filmes do Estação.


Miami Vice

26/03/2012

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/08/2006.

Incrível como uma única peça fora do lugar (ou em seu devido lugar) pode definir se uma história qualquer, quando convertida para as telonas, transformar-se-á em uma bomba homérica… ou em um clássico do cinema. Depois de finalmente conferir Miami Vice (Miami Vice, 2006), declaradamente um dos filmes que mais espero este ano (depois de Serpentes a Bordo, claro!), pode-se dizer que estamos diante de um perfeito exemplo disto. Seu enredo poderia render uma produção bastante nhé, ou na melhor e mais otimistas das hipóteses, apenas uma fitinha de ação descartável com zilhões de seqüências mirabolantes, câmeras com mal de Parkinson e desenvolvimento de trama nulo. E se Miami Vice driblou esta má expectativa e virou o sensacional longa-metragem policial que é, devemos agradecer a um único elemento chamado Michael Mann.

Então, vamos às considerações. Pra começar, Miami Vice, o seriado cult oitentista que originou este quase-remake (depois explico melhor o porquê do “quase”), já não tinha lá um plot tão fenomenal a ponto de justificar uma revisita, sejamos francos. E ainda assim, o enredo criado para esta nova versão não traz nenhuma novidade ao gênero policial. Trocando em miúdos, seria fácil demais ver a película cair na armadilha da cartilha dos filmes de ação/policial/pancadaria hollywoodianos e, com isto, ser apenas mais um longa como tantos outros espalhados por aí.

Fique sossegado: este não é o caso do novo Miami Vice. A narrativa da busca dos detetives undercover James “Sonny” Crocket (Colin Farrell) e Ricardo “Rico” Tubbs (Jamie Foxx) em desmascarar uma gigantesca transação de drogas é conduzida da forma mais crua possível, com uma fotografia seca e granulada (captada em HD, técnica já utilizada por Mann em seu longa anterior, o angustiante Colateral), pouquíssimo uso de trilha sonora e de cenas de pancadaria absoluta, e com total ausência de todos os clichês impostos por filmes como os das cinesséries Duro de Matar e Máquina Mortífera. Assistir a Miami Vice é como assistir a um eletrizante episódio do Most Amazing Police Videos, só que sem aquela narração bisonha e com um roteiro com começo, meio e fim. E que fim, diga-se de passagem! :-D

Uma pena que poucas pessoas entenderão o recado.

Na verdade, este Miami Vice é nada menos que uma releitura fiel do seriado, só que sem estereótipos e com uma carga generosa de maturidade – e daí que vem a expressão quase-remake. O clima bem humorado da série estrelada por Don Johnson e Philip Michael Thomas não existe aqui; o que existe é o mesmo universo do Miami Vice original, mas sem piadinhas-clichê e com um pezão na realidade. As referências resumem-se ao visual de Sonny (sim, os blazers com ombreiras e os tenebrosos mullets estão lá!), aos fantásticos carrões, lanchas e jatinhos pilotados pela dupla, e principalmente ao retrato glamouroso de Miami, tão carinhosamente retratado que quase torna-se um personagem da trama. O que é normal na filmografia do cineasta.

Ah, a trama. Bem, Rico e Sonny são designados pelas autoridades locais a colaborar na investigação de um engenhoso esquema de tráfico de drogas (que não vale a pena detalhar para não estragar o charme do enredo). O que eles querem, entretanto, é tentar descobrir quem eliminou os detetives encarregados do caso – por sinal, amigos seus. Assim, Sonny e Rico assumem nova identidade e, junto com sua dedicada equipe, embrenham-se numa transação com o perigosíssimo Jesus Montoya (Luis Tosar). Obviamente, tudo pode feder quando Sonny cai de amores pela maravilhosa sino-cubana Isabella (Gong Li), braço-direito de Montoya e espécie de “contadora” do traficante, e compromete seu disfarce.

E é isso. Achou simples? Bem, é quase. Miami Vice traz seus segredinhos, mas não é nada tão espetacular, tão surpreendente, tão M. Night Shyamalan (leia-se: uma história legal no começo e um KinderOvo no final). Por outro lado, não espere adivinhar os rumos da história por sua sinopse. Como eu disse lá em cima, estamos falando de um trabalho bem anti-clichê, portanto não espere por soluções fáceis. Também não espere por trocentas seqüências de ação de tirar o fôlego; o que acontece é que Miami Vice, do ponto de vista da ação propriamente dita, demora a pegar no tranco. As (poucas) seqüências-pauleira demoram a aparecer e, ao contrário dos típicos longas policiais de hoje em dia, são bem simples e diretas, mas não menos surpreendentes. Os últimos vinte minutos, por sinal, grudam o espectador na poltrona tranqüilamente – e o desfecho do filme é, pra mim, nada menos que brilhante; não me refiro à conclusão do plot, e sim às últimas cenas mesmo.

Infelizmente, este pequeno fator torna Miami Vice um filme para poucos. Porque, afinal, é um filme cuja ação, cuja tensão vem dos diálogos, assim como a obra máxima do diretor, O Informante. Ou seja: uma cacetada de gente vai odiar e, não à toa, Miami Vice rendeu quase nada nos States. Então, não fique surpreso se, ao final da sessão na qual você porventura esteja presente, boa parte dos presentes sair reclamando… :-P

São vários os méritos da produção. Um saldo muito positivo é a ausência de estereótipos. O personagem de Colin Farrell, só para citar um exemplo, tem todo o jeitão de gozador e palhaço a la Martin Riggs que acomete 99,99% das duplas policiais do cinema atual. Mas só o jeito, pois seu Sonny Crockett não é assim de forma alguma – ainda que seja adepto daquele visual extremamente, ahn, “exótico” (!). Os vilõezões da história também são tratados e defendidos por seus atores da forma mais realista e minimalista possível; um deles, o arrepiante traficante Jose Yero (o ótimo John Ortiz), dá MUITO medo e é vivido de forma tão centrada e sóbria que noz faz imaginar que, se todos os bandidões reais são assim, o mundo está mesmo é com a vida ilhada… :-)

Um exemplo bem bacanudo da sobriedade aplicada a cada fotograma da película é a seqüência na qual a equipe de Sonny e Rico devem estourar o cativeiro de um importante refém (que não vou dizer quem é e porquê pois não sou estraga-prazeres): a seqüência é quase totalmente rodada sem trilha sonora e sem iluminação de estúdio. Apenas sons noturnos, câmera no ombro e uma franquíssima iluminação que forja sensores de visão noturna. Mais real e mais nervoso, impossível!

E pelo amor de Deus, quem é mais linda? Gong Li (Lanternas Vermelhas), uma das mais cultuadas atrizes asiáticas dos anos 90, ou Naomie Harris (Ladrão de Diamantes), que vive Trudy Joplin, a namorada de Rico e integrante de sua equipe? Céus, por favor, que ninguém me faça escolher uma das duas para salvar a humanidade. ;-D

O grande quê de Miami Vice, entretanto, não reside na ótima química entre a dupla central, Farrell e o excelente Foxx (simplesmente não dá pra saber quem está melhor em cena – detratores de Colin Farrell, engulam a seco!), ou na soberba fotografia, ou na trama em si. O grande mojo, como diria nosso querido amigo e irmão Austin Powers, é mesmo a incrível habilidade técnica de Michael Mann no comando. Como eu disse aqui, Mann é um dos pouquíssimos diretores em atividade no cinema de hoje capazes de arrancar leite de pedra – Colateral, estrelado por Foxx e Tom Cruise, é uma prova disto.

Sinceramente? À exceção de grandes cineastas do passado, como John Frankenheimer e Francis Coppola, não imagino ninguém além de Michael Mann capacitado para dirigir este filme da maneira como deve ser feito (bem, talvez Joe Carnahan, de Narc).

Pra resumir bem a questão, Miami Vice é um filmaço. É sim. Mas embora não seja mesmo o melhor filme do ano, com certeza traz o MELHOR TRABALHO DE DIREÇÃO do ano, isto é inegável. Só que poucos entenderão, mas isto é um problema de cada um. E algumas pequenas informações: a) não, Sonny Crockett não está acompanhado de nenhum jacaré, b) sim, os fãs do seriado devem gostar bastante, c) não, o fato de sua história não ser ambientada nos anos 80 não estraga NADA, e d) sim, a maldita música do Linkin Park com o Jay-Z que está no trailer também toca no filme. Droga. :-D

MIAMI VICE • EUA • 2006
Direção de Michael Mann • Roteiro de Michael Mann
Baseado na série de TV “Miami Vice”, criada por Anthony Yerkovich
Elenco: Jamie Foxx, Colin Farrell, Gong Li, Naomie Harris, Ciáran Hinds, Justin Theroux, Luis Tosar, Barry Shabaka Henley, John Ortiz, Elizabeth Rodriguez, Isaak De Bankolé, Eddie Marsan.
137 min. • Distribuição: 20th Century Fox.


Terra dos Mortos

26/03/2012

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/07/2005.

Pois é, todo sofrimento pelo qual passamos não foi em vão. Como diria aquele velho ditado brega, “depois da tempestade, sempre chega a bonança”. E eis que, depois de um período negro na história do cinema de horror, há pouco tempo atrás dominado por equivocadas releituras de clássicos (Exorcista: O Início), refilmagens de produções nipônicas (O Grito, O Chamado 2) e até uma recém-tentativa de renovação dos terríveis suspenses teen (Amaldiçoados), o verdadeiro dono do pedaço chegou para botar ordem no barraco e mostrar, afinal, quem é que manda no gênero. Só pra citar mais uma frase bacanuda, e desta vez de autoria do matemático Ian Malcolm, personagem de Jeff Goldblum em Jurassic Park: “Previsões não funcionam. A natureza encontra seus meios”. Não sei se era bem assim, mas acho que todo mundo entendeu o que eu quis dizer, né! :-)

Estou falando, óbvio, do cineasta master George A. Romero (todos fazendo reverência, por favor!). O homem que fundou o subgênero gore em 1968 com o ultra-clássico A Noite dos Mortos-Vivos e revolucionou o cinema de horror com suas continuações, Zombie: O Despertar dos Mortos (1978) e Dia dos Mortos (1985) retorna triunfal às telonas com o esperadíssimo Terra dos Mortos (Land of the Dead, 2005), depois de um intervalo de 12 anos entre este e seu último trabalho para o cinema, o subestimado A Metade Negra (1993). Bom para Romero, que anda em alta. Bom para os executivos de Hollywood, que estão lucrando bem distribuindo seus trabalhos através dos grandes estúdios (no caso, a Universal). E bom para nós, que finalmente podemos assistir a um filmaço de qualidade no gênero! Já não era sem tempo.

Como todos devem saber, Terra dos Mortos é o quarto longa-metragem do ciclo zombie inaugurado por Romero há 37 anos atrás. Aqui, Romero descarta algumas mudanças apresentadas em fitas similares, como o lance dos “zumbis-maratonistas” do excelente Madrugada dos Mortos, e renova as origens das criaturas comedoras de massa encefálica. Logo, quem procura muito sangue, tripas, órgãos internos expostos, membros amputados e mortos-vivos lerdos e rastejantes, está no lugar certo! Entretanto, verdade seja dita: como era de se esperar, este não é o melhor exemplar da saga. Eu mesmo prefiro O Despertar dos Mortos sem pensar duas vezes. Isto não significa, contudo, que não seja bom. Ao contrário: Terra dos Mortos deixa todos os outros longas de terror do ano comendo poeira – salvo o ótimo Jogos Mortais, que não é exatamente de terror, mas chega perto.

Neste novo filme, que visivelmente dá continuidade aos eventos de Dia dos Mortos, não presenciamos uma casa no campo, um shopping center ou uma cidade sendo invadida pelos zumbis. Aqui, os mortos-vivos já invadiram o planeta há tempos. Sim, o PLANETA. Não há lugar qualquer no mundo que não esteja lotado destes seres nefastos. Mas ainda há um ou outro foco de resistência humana espalhado por aí. Um destes focos fica em Pittsburgh, cidade que atualmente divide-se em quatro partes: a) um gigantesco centro empresarial e residencial chamado Fiddler’s Green, governado pelo escroto empresário Kaufman (Dennis Hopper, Sem Destino) e povoado por ricaços metidos, b) a própria cidade de Pittsburgh, praticamente morta, que rodeia o edifício e é onde encontra-se o submundo da jogatina e a parcela pobre que não tem condições de bancar um apartamento no Fiddler’s Green, c) um enorme rio que circunda a cidade, e d) o resto do mundo, habitado pelos zumbis. Medo! :-)

A coisa funciona basicamente assim: os presuntos não têm como atravessar o rio e, mesmo que consigam, ainda deverão enfrentar um núcleo de “soldados” armados até os dentes antes que consigam chegar ao Fiddler’s Green. Portanto, a coisa está sob controle. Tudo certo, até aqui, não é?

Dentro deste grupo de soldados, existe um outro núcleo, cuja missão é buscar suprimentos em cidades tomadas pelos monstros para saciar a sede de consumo dos entediados burgueses do arranha-céu. Este núcleo é liderado pelo mercenário Riley (Simon Baker, o repórter de O Chamado 2). O indivíduo está em seu último dia de trabalho e só pensa em ir embora para o Canadá, onde não há mais vivos e supostamente nem mortos. Pois é, o sujeito é daqueles que gostam de sossego, sabe? Seu segundo comandante é o ambicioso Cholo (John Leguizamo, Assalto à 13.ª DP), mexicano que contrabandeia futilidades que rouba na cidade para vendê-las ao dono do prédio, Kaufman, de modo que consiga garantir um lugarzinho lá dentro. Cholo só quer um cantinho para se encostar, onde possa dormir em paz e de preferência nunca mais olhar na cara de um morto-vivo novamente.

Quando Kaufman recusa-se a vender um espaço a Cholo – afinal, não importa se o cara tem dinheiro, o problema é que ele é latino -, este decide chantagear o poderoso empresário, sob pena de reduzir o Fiddler’s Green a um punhado de pó com seu arsenal de bombas. Assim, Riley é convocado para (tentar) deter Cholo. E para isto, conta com a ajuda de seu fiel escudeiro Charlie (Robert Joy, Possuídos) e da revoltada prostituta Slack (Asia Argento, Triplo X).

Tá, e os zumbis com esta história toda? Bem, como eu disse (ou melhor, escrevi) lá em cima, “a natureza encontra seus meios”. O que acontece é que uma legião de seres reanimados, liderados pelo defuntão Big Daddy, também chamado de Grandão (Eugene Clark), está sofrendo uma espécie de “evolução”. Aparentemente, seus cérebros apresentam um mínimo sinal de funcionamento, ou os caras são guiados pelo instinto mesmo, mas de qualquer forma eles estão aprendendo a dominar determinadas situações e também movimentos seqüenciais, como golpear com um machado ou usar armas. Sim, agora os zumbis PENSAM, por menor que esta expressão possa parecer. Logo, é apenas uma questão de tempo até que os caras consigam arrumar uma forma qualquer de atravessar o rio e chegar ao Fiddler’s Green…

Simples, não? Pois é, Terra dos Mortos não é uma película complicada. Falando o português claro, ela é tudo aquilo que o espectador espera ao ver o trailer. Portanto, digo desde já que você deve evitar Terra dos Mortos caso seu estômago embrulhe fácil. Embora a primeira hora seja de fácil digestão – com a apresentação dos personagens, o foco voltado à construção do enredo e poucas aparições dos zumbis -, o negócio estoura mesmo depois de seus quase 50 minutos de projeção. Os zumbis estão muito bem caracterizados, e as cenas dos ataques são divertidíssimas e totalmente nojentas! E o titio George, para fazer jus à sua alcunha de rei do gore, trata de fechar closes em cenas repugnantes, toscas e lotadas de sangue! A rápida “seqüência do piercing”, que não detalharei para não estragar a surpresa, é de fazer vomitar. Isto, se você não fechar os olhos e/ou virar o rosto a tempo. Bom saber que o cineasta não deixou de ser escatológico para agradar ao estúdio. :-P

Mais legal ainda é saber que George A. Romero ainda é um excelente contador de histórias. Terra dos Mortos é um trabalho bastante interessante, com atuações propícias ao enredo – Simon Baker até que daria um bom herói de produções de pancadaria – e roteiro muito bem escrito. Uma fita de horror que cumpre o que promete com boas doses de sustos, nojeiras, e medo! E o final mais do que aberto (eu diria “arregaçado”, aliás) só me dá esperanças de ver, e de preferência o mais rápido possível, mais um trabalho que misture Romero e seus zumbis maravilhosos. Bom, já que agora sabemos quem é que manda, que tal se os queridos executivos de Hollywood parassem de investir neste lance já desgastados de refilmagens de longas japoneses ou terror com adolescentes chatos e inexpressivos?

E pra finalizar, uma pergunta: como se faz para matar um zumbi SEM CABEÇA??? :-D

CURIOSIDADES:

• Como forma de agradecimento por ter sido homenageado com o hilariante Shaun of the Dead, George A. Romero convidou os criadores do longa inglês, Simon Pegg e Edgar Wright, a fazer uma pontinha em Terra dos Mortos como dois zumbis. Bem, eles toparam. E sinceramente, nem reparei na hora; só ficou aquela sensação de “conheço estes caras de algum lugar”… Não vou contar qual a participação dos caras, descubra por si mesmo!

• O título original do filme seria Dead Reckoning (traduzindo literalmente, ajuste de contas com a morte), mas a produção decidiu mudar quando teve conhecimento de um longa do mesmo nome, protagonizado por Humphrey Bogart em 1947 e batizado por aqui como Confissão. Dead Reckoning também é o nome do ultra-veículo que os personagens chamam de “O Destruidor”, por ser praticamente impenetrável.

• Embora sua ação seja ambientada em Pittsburgh, assim como todos os outros exemplares da Trilogia dos Mortos, as filmagens de Terra dos Mortos foram realizadas em Toronto, no Canadá. Era uma forma de evitar gastos excessivos, já que as taxas de impostos do Canadá são muito mais baratas.

• Asia Argento é filha de ninguém menos que o cineasta italiano Dario Argento, um dos grandes nomes do cinema de terror europeu e grande amigo pessoal de George A. Romero. Dario Argento co-produziu Zombie: O Despertar dos Mortos e dirigiu o controverso Dois Olhos Satânicos (1990) em parceria com o amigo.

• O logo de abertura da Universal usado em Terra dos Mortos é o mesmo usado nas produções dos anos 20 e 30. :-)

• Comentário pessoal: se antes eu já tinha medo de palhaços (cortesia daquele canalha chamado Stephen King), agora eu tenho ainda mais, pois Terra dos Mortos apresenta talvez o primeiro PALHAÇO-ZUMBI da história do cinema… Sai fora!

GEORGE A. ROMERO’S LAND OF THE DEAD • CAN/FRA/EUA • 2005
Direção de George A. Romero • Roteiro de George A. Romero
Elenco: Simon Baker, John Leguizamo, Dennis Hopper, Asia Argento, Robert Joy, Eugene Clark.
93 min. • Distribuição: Universal Pictures.