O Código Da Vinci

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/05/2006.

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Brincadeiras à parte, a última coisa que eu queria na face da Terra era escrever uma crítica para O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006), aquele longa que ninguém conhece inspirado naquele livro que ninguém conhece. Sério, não queria de forma alguma. Não porque eu não goste do livro de Dan Brown, embora realmente considere a obra um esplendoroso pé-no-saco de tão mal escrito; e não porque eu declaradamente não curta os três principais envolvidos na produção – a saber, o diretor Ron Howard, o roteirista Akiva Goldsman e, claro, Tom Hanks. Não, minha vontade de não falar nada sobre este filme não envolve de forma alguma meu apreço (ops, a falta dele) com relação à sua equipe, até mesmo porque, de qualquer forma, eu assistiria ao filme descompromissadamente.

E não, não é por causa do vergonhoso descaso praticado aqui com relação a muitos veículos de imprensa, entre eles A ARCA – e analisando o resultado final, até dá pra entender por qual motivo a distribuidora insistiu tanto em esconder o filme de todos, inclusive da imprensa, até o último instante.

Eu não queria falar sobre O Código Da Vinci por uma única e simples razão: se a fita do senhor Ron Howard realmente cumprisse as expectativas e resultasse num tremendo abacaxi em termos de qualidade, seria muito fácil para muitos usuários deste glorioso website nerd pensar e me acusar erroneamente de “não ter gostado porque é com o Tom Hanks”. E cá entre nós, esse negócio de me acusar de não gostar de uma obra por ser “do Steven Spielberg ou do Tom Hanks” já encheu o saco e é um argumento furreca de quem não tem outro argumento para contestar. :-P

Por isso mesmo, quando a santa tríade d’A ARCA, numa de nossas várias reuniões de pauta, demonstrou interesse em enviar a mim para a resenha disto, e o caríssimo Emílio Elfo, fã de Dan Brown, chocado e revoltado, foi tomado por um siricotico e sofreu todas as dores da Via Láctea, o El Cid falou “tá bom, então é você que vai” e eu pensei “que vá com Deus, Jesus e Maria Madalena” (desculpem o trocadilho, hóhóhó). Mas a vida é irônica, o Elfo infartou com o pôster do Superman (!) e a bucha caiu no meu colo de novo… Então, antes de qualquer coisa, quero explicitar dois fatores primordiais para a compreensão deste texto:

O fator Zarko vs. Ron Howard: não acho que o cineasta seja incompetente; meu problema com ele é que o cara é “operário-padrão” e “pau-mandado” demais em grande parte de seu currículo. Howard não é o tipo de diretor que ousa e desafia convenções, preferindo esconder-se em amontoados de clichês e naquele irritante “bom mocismo” americano. E sua filmografia tem mais erros do que acertos (até mesmo Uma Mente Brilhante, apenas um bom filme, não é tão maravilhoso assim e costuma ser muito supervalorizado…). Por outro lado, sou extremamente APAIXONADO por dois de seus filmes: Fábrica de Loucuras (aquele com o Michael Canastra Keaton, lembram) e O Grinch (talvez o melhor filme de Natal dos últimos tempos). Neste último, aliás, o mérito é praticamente inteiro da criativíssima direção de Howard.

O fator Zarko vs. Tom Hanks: não, eu não ODEIO o dito cujo. Só não o considero versátil e, em muitas vezes, chega a ser irritante. Irritante MESMO. Sua voz não muda, seu jeito-dããã-de-ser não muda, e Hanks não consegue fazer outra coisa além do mesmo papel (quase) sempre. Entretanto… adoro seus longas antigos, como A Última Festa de Solteiro, O Homem do Sapato Vermelho (sensacional!) e Um Dia a Casa Cai; o drama Palco de Ilusões é um dos longas mais belos que já assisti; sua atuação em Filadélfia realmente é digna de qualquer prêmio; Hanks carregou Matadores de Velhinha nas costas; e um dos cinco melhores filmes dos anos 90, pra mim, é Joe Contra o Vulcão, aquele delicioso trabalho estrelado pelo sujeito.

Por favor, não esqueça nunca que os fatores Zarko vs. Ron Howard e Zarko vs. Tom Hanks não interferem na opinião deste que vos fala com relação ao resultado final de O Código Da Vinci. :-)

Sendo assim, vamos ao que todo mundo quer saber: se o tal do Código é bom ou não é. Bem, eu vos digo. Assim como o livro, O Código Da Vinci é, sim, um tremendo de um pé nas partes onde o Sol não bate! Não, não estou brincando. Todo o alarde, todo o bafafá, toda a controvérsia gerada… a troco de nada. Decepcionante.

Tá, vamos detalhar isso aí: o fracasso desta produção nada tem a ver com a direção básica de Howard, tampouco com a atuação meio inexpressiva de Hanks como o historiador e simbologista Robert Langdon (ele não incomoda tanto, sério). O problema todo é a FONTE e a ADAPTAÇÃO. Comparando com o texto de Dan Brown, o filme é uma transposição fiel e nada mais além disso; portanto, quem adora o livro com certeza adorará a fita e ponto final. Este público-alvo (os leitores de Dan Brown) certamente sairá da sala de cinema declarando erroneamente que trata-se do melhor filme do ano. Afe.

O público de cinema, entretanto, não é formado apenas por este núcleo: há também aqueles que leram o romance e detestaram (que, por sinal, não são poucos); há o público médio que sequer chegou perto do livro; e há a parcela de espectadores que entende o mínimo da técnica de se fazer cinema, independente de curtir o texto de Dan Brown ou não. Para este pessoal, Código não passará de um filme “nhé”. Sem ritmo, devagar, com atuações decepcionantes de um elenco que sabemos ser extremamente competente, diálogos tão batidos quanto risíveis e um tempo de projeção muito mais longo do que deveria ser e muito mais curto do que parece. Sério, aquilo nunca termina!!! E digo numa boa que a turma mais “escolada” em processo de construção cinematográfica encontrará alguns errinhos gritantes…

A história (quase) todo mundo já conhece: logo no início, Jacques Saunière (Jean-Pierre Marielle) é perseguido e alvejado em pleno Museu do Louvre, na França. Seu algoz, como descobrimos nesta mesma cena, é o bizarro monge Silas (Paul Bettany, de Mestre dos Mares, cartunesco ao extremo) – mas a história dele fica pra depois. Encarregado do caso, o Inspetor Bazu Fache (Jean Reno, de Dupla Confusão) convoca Robert Langdon, expert em simbologia, para auxiliar na investigação, visto que, antes de morrer, Saunière desenhou um símbolo pagão em seu próprio corpo e escreveu vários códigos no chão.

Ao chegar no Louvre, Langdon conhece a agente Sophie Neveu (Audrey Tautou, a eterna Amélie, linda e nada mais), que disfarçadamente lhe revela: você corre perigo. O que acontece é que a polícia de Paris, por uma série de pistas mal esclarecidas, acredita que Langdon é o assassino; este, por sua vez, escapa dos policiais e une-se a Sophie para tentar descobrir o que aconteceu a Saunière e desvendar os muitos códigos que encontra na cena do crime e também a partir daí – coisas como uma chave, um cofre de banco, um artefato e etc. O que Langdon e Sophie não sabem é que não serão perseguidos apenas por Fache, mas também por integrantes de uma seita chamada Opus Dei, interessada em preservar e não permitir que um dos maiores segredos do cristianismo, cujas provas concretas encontram-se estampadas nas pinturas de Leonardo Da Vinci, venha à tona e cause uma crise sem precedentes na instituição católica.

O plot é até interessante – embora eu não consiga entender até agora porque raios um monte de gente se revoltou com as idéias e as pseudo-teorias conspiratórias do enredo, já que elas visivelmente não fazem SENTIDO ALGUM. Só que, assim como Dan Brown usou uma escrita totalmente didática e preguiçosa para desenvolvê-la no romance, o PÉSSIMO Akiva Goldsman não só seguiu esta diática à risca como ainda piorou a coisa. A todo momento, cada um dos personagens precisa explicar verbalmente, tintim por tintim, o que acontece na tela e porquê acontece daquele jeito, como se o espectador não fosse capaz de deduzir por si só. O roteiro explica o tempo todo o que é o maldito criptex, o que é a maldita chave, quem é Saunière… Ai céus! Gente, quem disse que Akiva Goldsman escreve bem? Ele destruiu o Batman, catzo!

Na ânsia de deixar a história bem explicada, o roteiro de O Código Da Vinci tornou-se um engodo maçante, cansativo, arrastado, totalmente previsível (sim, na metade do filme qualquer um que não conheça o enredo mata as “charadas”) e absurdamente ofensivo para quem tem um mínimo de inteligência. Quando é que os executivos de Hollywood entenderão que a platéia que freqüenta os cinemas não é BURRA? Não precisa explicar que um mais um é dois, caceta! :-P

Quanto ao restante… bem, não há do que reclamar da bela fotografia de Salvatore Totino (mas os clichês de “igrejas escuras, macabras e cobertas de névoa” ainda estão lá…) ou da trilha sonora climática de Hans Zimmer – o mesmo não se pode dizer da montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill e dos desnecessários “efeitos especiais explicativos em flashback” (assista e entenda). O elenco em geral está bem abaixo da média, com destaque para a inexpressividade de Tom Hanks e os estereótipos irritantes de Paul Bettany; por outro lado, Jean Reno, o grande Ian McKellen (como o milionário Sir Leigh Teabing) e o nosso amigo Octopus, Alfred Molina (no papel do maligno Bispo Aringarosa) se saem muito bem e compensam o ingresso quando estão em cena. Ian McKellen, em especial, ENGOLE Hanks e Audrey Tautou em cena, é impressionante! O que era de se esperar, não?

Então, O Código Da Vinci não vale a pena? Bem, isto depende muito de quem vê – e de quem não se incomoda em passar duas horas e meia trancafiado no cinema só para ver uma traminha chula. O que posso dizer tranquilamente é que aqueles que se incomodam com as “teses” levantadas pelo livro podem ficar despreocupados, pois tanto no romance quanto no longa o troço todo é tão absurdo e tão sem nexo que precisa ser muito ingênuo e muito influenciável para acreditar naquelas baboseiras. Se você está à procura de BOM CINEMA, pelo amor de Deus, passe longe. Mas vale uma espiada, nem que seja só para notar como a influência da mídia pode ser tão poderosa a ponto de supervalorizar e transformar em sucesso milionário (ops, bilionário) um produtinho tão medíocre quanto O Código Da Vinci. E quando digo “medíocre”, me refiro ao livro… bem, ao filme também.

Vejam só o caso do Tom Hanks: ele até topou manter seu cabelinho-a-vaca-lambeu por isso! :-P

CURIOSIDADES:

• O criador de 24 Horas, Joel Surnow, achou que O Código Da Vinci seria uma excelente ideia de trama para a terceira temporada da série. Surnow perguntou ao seu chefe, o produtor Brian Grazer, sobre adquirir os direitos do livro – mas Dan Brown não queria ver sua obra transformada em seriado e rejeitou a proposta. Meses mais tarde, a Sony Pictures pagou US$ 6 milhões para adaptar o livro e contratou Grazer como produtor.

• Oficiais da abadia de Westminster, na Inglaterra, se recusaram a permitir que o filme fosse rodado por lá, acusando o filme de ser “teologicamente incorreto”. As cenas que se passariam lá acontecem, na verdade, na Lincoln Cathedral.

• Por falar nesta igreja, foi a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial II que seu famoso sino, o “Great Tom”, ficou em silêncio – para não atrapalhar as filmagens por lá, que aconteceram entre 15 e 19 de agosto de 2005.

• Para proteger as instalações do prédio e também as obras de arte abrigadas dentro dele, o uso que a produção fez do Museu do Louvre, em Paris, foi cuidadosamente controlado. Por exemplo, nenhum equipamento poderia entrar no museu durante o dia, apenas à noite. A equipe não podia jogar luz na Mona Lisa original, então uma réplica acabou sendo usada. Nenhum sangue ou escritos misteriosos poderiam ser aplicados no chão de madeira – e esta cena em especial acabou sendo rodada nos Pinewood Studios, próximo de Londres.

THE DA VINCI CODE • EUA • 2006
Direção de Ron Howard • Roteiro de Akiva Goldsman
Baseado no livro “The Da Vinci Code”, de Dan Brown
Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Alfred Molina, Paul Bettany, Jean Reno, Etienne Chicot, Jürgen Prochnow, Jean-Pierre Marielle, Clive Carter
149 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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