Frances Ha

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no JUDÃO, em 28/08/2013.

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Quantos filmes você já assistiu e teve a sensação de que foram feitos exclusivamente para você? Quantos vezes você já foi ao cinema e, enquanto a sessão rolava, você pensou “não é possível, esse cara escreveu esse roteiro pensando em mim”? Quantas vezes você saiu da sala de cinema com a sensação de ter assistido não a um filme, mas sim ter vivido uma experiência?

Maior barato como algumas produções são capazes de nos pegar pelo estômago, e fazer com que a gente fique pensando por dias a fio. Acho que isto explica o sucesso de Frances Ha, uma fitinha pequena e despretensiosa dirigida por Noah Baumbach (do genial A Lula e a Baleia) que chegou de mansinho e conquistou uma legião de fãs, sendo alçada à condição de cult instantâneo e lançando também sua estrela e co-roteirista, a sensacional Greta Gerwig, ao status de musa indie do momento. E olha: merecido, viu? Esta comédia dramática P&B e sem nenhum atrativo aparente não precisa de cores ou de uma metragem extensa (tem menos de uma hora e meia de duração) para amolecer o público. Sério, precisa mesmo ser muito carrancudo e amargurado para não se render ao charme e à honestidade de Frances, a amalucada protagonista que vive na bancarrota mas nunca perde o bom-humor, e principalmente não se enxergar nela. :-)

E olha que Frances, defendida com maestria por Gerwig, não é mesmo o tipo de pessoa por qual nos apaixonaríamos de imediato. Na verdade, é muito mais fácil sentir VERGONHA ALHEIA por todos que convivem com a pobre garota, já que ela é do tipo que te esbofeteia no meio da rua só pra “brincar de lutinha” (?). Com quase 30 anos nas costas, esta californiana que está tentando a sorte em Nova York vive sua vida como se estivesse estacionada nos anos de faculdade: é aprendiz em uma companhia de ballet e vive à espera de um dia poder ingressar no grupo oficial, mesmo que seja claro como a água que isto não acontecerá, e joga qualquer pretendente na friendzone para que nunca precise deixar de estar com sua melhor amiga, Sophie (Mickey Sumner, a graciosa filhota do Sting), a quem idolatra e com quem divide um apartamento meio zoneado, mas bastante aconchegante.

Frances Ha começa mais ou menos com Sophie anunciando a Frances que vai morar com outra colega, em um bairro mais caro da cidade. O mundo de Frances não chega a ruir, mas como não tem condições de arcar sozinha com o aluguel, ela terá de encontrar outro lugar. E não demora muito para que a garota se mude para o apê dos seus novos amigos Lev (Adam Driver) e Benji (Michael Zegen), que ela mal conhece, mas até que são legais. Só que o mundo dá voltas, e logo Frances está novamente à procura de um cantinho para chamar de seu. E ainda tem o emprego, as contas para pagar, a falta de dinheiro, o final de ano com a família… Mesmo correndo de um lado para o outro, Frances vê seus amigos conquistando seus espaços e fazendo sucesso, e para ela, sobra a sensação iminente de que nunca sai do lugar. E quem nunca se sentiu assim, sem rumo definido?

A diferença é que nada é capaz de derrubar Frances, que, mesmo com a delicadeza de uma bigorna e uma noção muito estranha de amizade e relacionamentos, nunca deixa o otimismo de lado e vive sua vida com uma felicidade genuína – e contagiante. A gente pode até sentir vergonha dela, mas é impossível deixar de se apaixonar. :-)

Dividido em pequenos capítulos, cujos títulos são exatamente os endereços pelo qual a personagem passou, Frances Ha é um sopro de criatividade na ainda curta carreira de Noah Baumbach, um cineasta acostumado a misturar fantasia e doses de realidade – não à toa, o sujeito é parceiro habitual de Wes Anderson, de quem roteirizou A Vida Marinha Com Steve Zissou e O Fantástico Sr. Raposo. Com uma espetacular fotografia em preto-e-branco que nos remete à filmografia de Woody Allen (mais exatamente Manhattan) e uma trilha sonora com faixas de Georges Delerue e Antoine Duhamel extraídas de clássicos da Nouvelle Vague (para quem não sabe, o notório movimento cinematográfico sessentista que revelou gênios como Jean-Luc Godard e François Truffaut, este último uma clara referência aqui), Frances Ha apresenta um roteiro inteligente e sincero, atores talentosos e algumas cenas memoráveis. Como não se encantar com a cena da corridinha em Nova York, e como não sofrer com a seqüência de Frances perdida em Paris?

Frances Ha parece simplista à primeira vista, mas discute com sobriedade e sem estereótipos os anseios de uma geração que encontra tantos obstáculos pela frente que mal consegue deixar sua zona de conforto, que dirá lutar pelos seus sonhos. E foi aí que fui pego pelo estômago, que senti que Noah Baumbach fez este filme para mim: quando, na última cena, finalmente entendemos o que é o “Ha” do título, e lembramos que aquela garota tão amorosa passou uma hora e meia de projeção apanhando prá cacete da vida sem perder o sorriso no rosto, a gente esquece qualquer problema, por maior que seja. Frances Ha é tão honesto que tem o poder de fazer o espectador, qualquer um que seja, sentir que aquela história é para ele, apenas ele. O que o torna, automaticamente, um clássico a ser descoberto, e sem dúvidas um dos melhores filmes do ano, senão o melhor. :-)

Olha, deu até uma vontade sincera de gritar um “AHOY SEXY!” e dar um abraço na primeira pessoa que aparecer na frente (se você não entendeu, assista ao filme, ué!), ou então sair por aí correndo feito um louco no meio da rua e fazendo passinhos de ballet ao som de Modern Love, do David Bowie. Vergonha alheia total. :-D

FRANCES HA • EUA • 2012
Direção de Noah Baumbach • Roteiro de Noah Baumbach e Greta Gerwig
Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Michael Zegen, Grace Gummer, Patrick Heusinger.
86 min. • Distribuição: IFC Films.

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