Despedida em Las Vegas

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/08/2005.

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Talvez eu seja o único colaborador deste site que encarou a proposta de falar sobre o filme de sua vida com certo temor. Digo isto porque foi extremamente difícil chegar a um consenso comigo mesmo sobre “o que” falar e sobre “qual” fita falar. Tanto que, ao final da reunião de pauta na qual a equipe d’A ARCA discutiu e planejou esta série de artigos, minha listinha pessoal de “filmes em potencial” era composta por exatos 37 títulos, todos eles com uma indiscutível importância para mim como cinéfilo, como profissional e como pessoa.

O que me pegou de jeito foi o pensamento de que, para um fã de cinema tão obcecado como eu, é impossível chegar aqui e simplesmente escolher um filme. Eu poderia falar sobre o belíssimo Encontros e Desencontros, mas seria injusto com Brilho Eterno, As Pontes de Madison, Closer, Magnólia e tantos outros que me comovem; poderia falar de clássicos como O Terceiro Homem, que me hipnotiza de uma maneira impressionante, mas há pelo menos outros vinte longas antigos que me causam o mesmo efeito; poderia falar sobre o fenomenal longa brazuca Lavoura Arcaica, mas para este simplesmente não tenho palavras; e por aí vai…

Então, finalmente consegui escrever um texto bacana sobre Seven: Os Sete Crimes Capitais, ultra-hiper-mega-maxiclássico de David Fincher (diretor que, como todos sabem, ocupa o primeiríssimo lugar na lista de meus preferidos). Mas descartei, por entender que admiro muito mais seus aspectos técnicos do que os aspectos emocionais. Em seguida, escrevi outro texto, desta vez sobre Asas do Desejo, maravilhoso exercício de sentidos do cineasta alemão Wim Wenders que deu origem a um remake americano chamado Cidade dos Anjos. E também descartei, por acreditar que o artigo era vago demais para a enorme intensidade dramática do roteiro de Wenders – e também para evitar que os caríssimos usuários deste site confirmassem o fato de que não passo mesmo de um cult de quinta categoria…

Na verdade, esqueçam estes parágrafos aí em cima.

A questão é que eu tentei desconversar para não acabar onde acabei. Assim que recebi a pauta e descobri que deveria escrever sobre um filme significativo, um único título martelou na minha cabeça, mas tentei fugir de qualquer maneira, passando por todo o processo que descrevi nas primeiras linhas. E não consegui. Portanto, o meu filme é Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas,1995), pesadíssimo drama dirigido por Mike Figgis em 1995, que deu o Oscar de Melhor Ator a Nicolas Cage.

Explico: Despedida em Las Vegas é uma produção sobre o qual odeio falar. Odeio mesmo, e não é por não gostar da fita. O problema que envolve a minha pessoa e a história é uma questão pura e simples de identificação: me vejo retratado na tela em cada fotograma, e me sinto destruído, derrotado e desesperançoso a cada vez que decido revê-lo, embora seja um masoquista de primeira e pare o que estiver fazendo sempre que o filme é reprisado na TV – basicamente o mesmo sentimento que me domina quando ouço Nick Drake ou leio O Apanhador no Campo de Centeio, mas isto é uma outra história.

Falar sobre Despedida em Las Vegas, para mim, é ter que revisitar alguns fantasmas que, embora não se manifestem com a mesma intensidade de outrora, ainda não me deixaram em paz.

Assisti ao filme pela primeira vez numa sessão solitária, como já era de praxe. Na época, eu, ainda um adolescente récem-consciente de seu amor pela sétima arte, tinha o costume de sair do colégio no horário do almoço e correr ao cinema para conferir qualquer coisa; Despedida em Las Vegas era exibido na menor das oito salas de cinema, e precisei insistir para que o projecionista decidisse trabalhar – antigamente, os cinemas de rua tinham por lei não exibir o filme caso o número de espectadores para a sessão fosse inferior a 4 (éramos apenas eu e uma senhora naquele dia), o que já não acontece hoje em dia nos multiplexs da vida, programados para funcionar direto, com público ou não.

Naquele tempo, o ato de ir ao cinema por si só já tinha um quê de magia. Geralmente tinha a sala só para mim e mais alguns outros gatos pingados, e costumava sentar-me à última fileira do fundo, bem próximo à saída da imagem do projetor. O coração acelerava quando as luzes apagavam-se de uma só vez e o silêncio era cortado por aquele magnífico barulhinho das engrenagens e mecanismos do projetor começando a rodar o rolo de fita. Volta e meia desligava-me por alguns segundos do que rolava na tela e olhava para cima, para admirar o feixe de luz em movimento que saía da lente do projetor em direção à tela. Momentos mágicos de cerca de duas horas que me faziam esquecer do mundo.

Aquela sessão não seria diferente. O ritual seguiu naturalmente, como qualquer outro dia, qualquer outro filme. E a princípio, o momento não me marcou muito, embora me lembre com clareza da minha revolta ao interpretar as atitudes de Ben Sanderson, personagem de Cage, como um simples ato de covardia. Ben, um roteirista maníaco-depressivo com sérias tendências ao alcoolismo, perde o emprego e a família. Se desfaz de todos os seus bens pessoais e decide ir a Las Vegas, onde gastará todo o dinheiro da rescisão de contrato bebendo até morrer. E eu pensei: “Pombas, estes são motivos plausíveis para querer desistir de tudo?”. E por que raios o cara não tentou sequer se apoiar no carinho da doce prostituta Sera (Elisabeth Shue, linda), mulher que decidiu acolhê-lo em Vegas e que, mesmo metida em situações ainda piores que a do cara, tanto lutou para mantê-lo a seu lado e fazê-lo sair daquela condição?

Obviamente, eu ainda não era maduro o suficiente para entender as entrelinhas do enredo e a psiquê dos personagens – amadurecimento este que me veio depois, através do próprio cinema. Só pude entender, concordar e sofrer com o filme alguns anos mais tarde, quando o revi numa retrospectiva de produções premiadas com o Oscar, num cineclube qualquer: depois de sofrer uma brusca mudança de comportamento e ter adquirido uma série de complicações de saúde, fui diagnosticado com depressão, próximo de se tornar psicose maníaco-depressiva, o mesmo estado de Ben Sanderson; doença esta que, mesmo já controlada e quase morta, insiste em dar as caras de vez em quando. Assim como Ben, me sentia quase sozinho, mesmo que por opção própria, já que decidira tentar esconder minha situação da família e cuidar das coisas a meu modo.

Assim, tudo ficou claro e a ficha finalmente caiu. Ben não tinha mais o que esperar da vida, estava cansado de correr atrás de uma felicidade de plástico e tudo o que queria era chegar ao fim dela. A companhia de Sera era apenas uma forma lírica e tranqüila de atravessar aquele túnel. Os motivos de Sera, entretanto, eram outros: ela encontrou no cara a única pessoa que se deu ao trabalho de tratá-la com um mínimo de dignidade ao qual tem direito, e o declínio dele serve para que ela descubra que, em suas veias, ainda corre sangue quente. Ela não quer salvá-lo (tanto que concorda em deixá-lo cumprir seu objetivo de morrer), pois sabe que mantê-lo vivo implicará em torná-lo infeliz. E ele não pretende mudá-la, pois sabe que precisa dela daquele jeito.

Se unissem os dois personagens num só, certamente este personagem poderia ter sido inspirado em mim, já que ambos possuem elementos parecidíssimos com o que eu costumava ser.

Pra resumir, Ben e Sera são duas almas rejeitadas pelo mundo, que não têm nada além de um ao outro, mas estar juntos é o suficiente para continuar levando a vida (por mais que Ben não consiga desistir de seus planos e sair da enorme bola de neve ao qual está imerso), o que fica evidente na cena em que os dois são expulsos até mesmo de um hotel hiper-fuleiro. Ao casal, é negado até o direito de ser humano, mas de nada importa, pois eles têm um ao outro. Se olharmos bem, não há tanta diferença entre este casal e Amélie e Nino, ou Bob Harris e Charlotte, ou Joel Barish e Clementine, ou o anjo Damiel e a trapezista Marion. É tudo movido pelo amor e pela vontade de ter ao menos um momento de paz e bonança nesta turbulência toda que é a vida.

Mas o que isto tem a ver com o Zarko, afinal? Bem, não é somente uma questão de ter me identificado, até mesmo porque nunca fui de beber e me considero sortudo por ter tido pouquíssimas crises violentas a ponto de ter pensamentos de morte. O que mata é que conversas e frases de consolo não adiantam em nada quando você sofre de depressão, às vezes até pioram o estado, visto que não é algo controlável. Como conseqüência, não há como evitar uma certa clausura (o que é o meu caso). E Despedida em Las Vegas serviu para me mostrar sem blá-blá-blás, mesmo que de uma maneira trágica, que eu não era o único a chorar escondido e sem motivos aparentes, a querer desaparecer sem deixar vestígios, a querer parar o tempo para mudar tudo, a não ter um ombro para se apoiar.

Este choque, somado à magia das sessões diurnas da minha fase adolescente, me fizeram enxergar algo que carrego ainda hoje e que me motiva quase sempre: o cinema, aquilo que eu sempre amei, me deu o ombro e jamais me abandonaria, e me acolheria sempre que a vida me desse um tapa na cara. Isto ainda acontece, de vez em quando, embora eu tente ser uma pessoa melhor.

Não vale a pena dissecar aqui as muitas qualidades técnicas de Despedida em Las Vegas, que é mesmo um filmão muito bem dirigido, bem interpretado e bem fotografado, independente de qualquer coisa. E não é esta a proposta, já que estamos falando de filmes que marcam de uma maneira emocional. Então, para que você entenda minha escolha por este filme, basta que você saiba que, com Despedida em Las Vegas, eu descobri que era Ben Sanderson (e ainda sou, de vez em quando). A diferença é que Ben não tinha escolha e seguiu até o fim. Eu, mesmo sem enxergar as opções e ainda sentindo desejos constantes de chorar, agarrei uma meta. E entendi que ainda tenho um coração pulsando aqui dentro. Ele falha algumas vezes, mas a gente vai levando.

MEU FILME É… DESPEDIDA EM LAS VEGAS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 28/08/2005
Complemento do especial OS FILMES DA NOSSA VIDA.

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