Café da Manhã em Plutão

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A-ARCA, em 06/08/2006.

Café da Manhã em Plutão (Breakfast on Pluto)

Todo cinéfilo que se preze tem sua listinha de grandes diretores (ao menos um cinéfilo eu sei que tem: eu mesmo!). E o cineasta irlandês Neil Jordan costuma estar presente em grande parte destas listinhas. De exatos 15 longas dirigidos entre 1982 e 2006, o cara conseguiu a façanha de não “cometer” uma fita ruim sequer – talvez alguns discordem pelo menos do suspense A Premonição, com Annette Bening, mas eu defendo que, embora seja meio decepcionante enquanto enredo, é muito bom como “experiência climática”.

O grande mérito de Neil Jordan, entretanto, não é sua imensa habilidade em contar histórias, e sim o fato de ser extremamente imprevisível. Explico: enquanto ótimos diretores como Christopher Nolan, Darren Aronofsky e David Fincher costumam dirigir variações dentro de um mesmo gênero, Jordan é capaz de transitar entre gêneros absurdamente antagônicos e ainda imprimir sua indefectível marca. De um minúsculo e surpreendente thriller político independente (Traídos pelo Desejo), o cara foi para uma luxuosa superprodução hollywoodiana estrelada por vampiros (Entrevista com o Vampiro) para, em seguida, voltar às origens e narrar um aterrador drama irlandês sobre um garotinho homicida cuja terapeuta é a própria Virgem Maria (Nó na Garganta) e, logo depois, contar uma trágica história de amor envolvendo um escritor, uma senhora casada e Deus (!) em plena 2.ª Guerra Mundial (Fim de Caso). Todos estes títulos, nada menos que excepcionais.

O mais incrível na filmografia de Neil Jordan é que você nunca sabe qual será seu próximo passo. Seu novo filme, Café da Manhã em Plutão (Breakfast on Pluto, 2005), é uma prova concreta do que falo: é diferente de tudo o que existe no currículo do diretor e sem qualquer ligação com seu longa anterior, o policial Lance de Sorte. Só há duas semelhanças entre este e o resto de seus trabalhos: a) assim como os outros, todas as marcas do cineasta estão lá, o que nos faz identificar sua autoria automaticamente, e b) mais uma vez, Neil Jordan conseguiu não errar a mão. Melhor pra nós. :-D

Poucos cineastas, aliás, teriam sensibilidade suficiente para extrair uma linguagem sóbria e não piegas da dolorosa e surrealista história de Patrick “Kitten” Braden (Cillian Murphy). Senão, veja só: quando bebê, Patrick foi abandonado pela mãe na porta da paróquia do Padre Bernard (Liam Neeson) que, não por acaso, é seu pai; adotado por uma insuportável carola (Ruth McCabe), Patrick come o pão que o diabo amassou quando começa a demonstrar sua tendência ao homossexualismo e à rebeldia; já um pós-adolescente em plenos anos 70, vivendo, vestindo e falando como uma mulher, é expulso de casa e, ao travar um idílico contato com um grupo de motociclistas fumados – trecho que explica a metáfora do título do filme –, Patrick decide fugir da Irlanda e seguir a Londres para tentar encontrar sua mãe biológica. Tudo o que Patrick (ou Kitten, como prefere ser chamado) quer é sentir um pouco de calor humano e um pouco de afeto, por menor que seja; algo que nunca teve e talvez, bem provavelmente, nunca tenha.

A odisséia de Kitten não é tão simples como o parágrafo acima aparenta – como o próprio personagem diz no diálogo que abre a fita, “bem poucos dão conta da história de Patrick Braden”. Em um curtíssimo espaço de tempo, Kitten mergulha em uma espiral de excentricidades: envolve-se com uma banda de glam-folk-rock simpatizante do IRA nas horas vagas, apaixonando-se por seu vocalista (Gavin Friday); é quase assassinado por um galanteador serial killer; torna-se assistente de palco de um mágico bondoso, porém aproveitador (Stephen Rea); emprega-se em um curioso parque temático de contos de fada, fantasiando-se como um de seus personagens e fazendo amizade com um colega de trabalho bêbado (Brendan Gleeson); e é confundido com o autor de um atentado a uma discoteca inglesa. Aos poucos, tudo indica que Kitten está próximo de encontrar sua redenção. Ou não.

Analisando os detalhes da história de Kitten Braden, é de dar alívio que a produção tenha ficado a cargo de Neil Jordan. O caso é que o cineasta sabe como ninguém contar uma história recheada de surrealismo sem cair no dramalhão ou no cartunesco; embora totalmente macabro e cheio de momentos do mais puro sofrimento de novela das nove, o roteiro de Jordan e Patrick McCabe (também autor do romance na qual a película se baseia) é construído como uma deliciosa tragicomédia, uma fábula cujas situações muitas vezes não acabam bem. Portanto, não se sinta intimidado se o personagem se estrepar feio por alguma razão e você sentir um desejo sincero de sorrir daquilo… Uma cena em especial – na qual Kitten, pressionado e apanhando da polícia, narra a dois detetives seus fictícios dias de espiã terrorista (??) – é simplesmente hilária, ainda que cheia de melancolia.

É fato que muitos estranharão os diálogos recitados e quase poéticos da fita, além da forma despojada de se lidar com temas complicados como o terrorismo, a Igreja Católica (um dos alvos preferidos de Jordan) e a própria tendência do personagem central em enxergar-se como uma mulher – detalhe que definitivamente NÃO É o centro nervoso da fita, já vou avisando. Uma trama como a de Café da Manhã em Plutão é tão carregada no absurdo que seria mesmo impossível ser levada a sério – só para se ter uma ideia, há uma série de liberdades artísticas, como a presença de dois engraçadíssimos passarinhos fofoqueiros em certo momento (!). O que não significa que a história não seja séria. Ao mesmo tempo em que faz rir, emociona. A aleatoriedade de momentos trágicos e cômicos a cada episódio (o filme é dividido em 36 pequenos capítulos) estabelece um delicado equilíbrio que prossegue durante toda a projeção.

E o outro responsável por este mérito chama-se Cillian Murphy: o ator, mais conhecido como o Espantalho de Batman Begins e o gelado assassino de Vôo Noturno, provavelmente encontrou o papel de sua vida aqui. Sua construção de Patrick Braden é sutil, branda, sem qualquer traço de estereótipo e, ao mesmo tempo em que diverte, é muito, mas muito comovente – sério, não é nem um pouco difícil apaixonar-se por Kitten e torcer para que ele consiga encontrar alguém que “o leve para o hospital quando estiver caído” (não entendeu a citação, assista ao filme), independente da opinião do espectador acerca do que ele é. Não há como enxergar outro intérprete para este personagem e entende-se perfeitamente porque a crítica festeja Cillian Murphy como um dos melhores atores em atividade. E ele é mesmo, contra fatos não há argumentos.

Mas Murphy não está sozinho. A imensa galeria de coadjuvantes (cada um deles aparece muito pouco em cena, o que é uma pena) merece aplausos, em especial a mágica atuação de Liam Neeson como o indeciso Padre Bernard, e há pelo menos uma grande revelação aqui: a bela irlandesa Ruth Negga, intérprete da sensível Charlie, melhor amiga de Kitten. Só as atuações deste trio, as fantásticas canções da trilha sonora – a música de abertura, Sugar Baby Love, dos Rubettes, já ficou marcada – e a belíssima fotografia de Declan Quinn (responsável pelas líricas imagens de Despedida em Las Vegas) já valeriam a fita por si só. Felizmente, há muitos outros pontos a favor aqui.

A meu ver, o que faz a diferença em Café da Manhã em Plutão é mesmo a tremenda agilidade e os sentidos aguçados de Neil Jordan na direção. Ok, posso até ser suspeito para falar, pois declaradamente assisto qualquer coisa que este elemento faça desde que fui pego de surpresa com Traídos pelo Desejo. Mas é fato que Café da Manhã em Plutão é um trabalho que tinha tudo pra dar errado, caso o diretor responsável não o tratasse com certo despojamento e irreverência, e não soubesse focar sua câmera onde ela realmente deve ser focada. Nas mãos de qualquer um, poderia tornar-se apenas uma apologia à diversidade sexual (o que não é, torno a dizer). Ou então, poderia tornar-se apenas um libelo panfletário contra o terrorismo, já que o personagem central vive e sente na pele algumas conseqüências dos conflitos entre o IRA e a milícia real armada que aterrorizaram a Irlanda dos anos 70.

Nas mãos de quem entende do assunto, porém, torna-se exatamente aquilo que é: um emocionante, triste, musical, surreal e divertido drama tragicômico (esquisito, não?) sobre a busca de um homem (ou uma mulher, dependendo do ponto de vista) por seu passado e, conseqüentemente, por sua felicidade. Um trabalho capaz de deixar o espectador alegre ou triste, dependendo de seu estado de espírito ao assisti-lo. Para resumir, Café da Manhã em Plutão é mais um longa-metragem que comprova que Neil Jordan merece mesmo estar em qualquer lista de grandes cineastas de qualquer cinéfilo. Vejamos agora qual será seu próximo trabalho imprevisível.

E se você não conhece os filmes deste sujeito… Já está na hora, viu? :-)

BREAKFAST ON PLUTO • ING/IRL • 2006
Direção de Neil Jordan • Roteiro de Neil Jordan e Patrick McCabe • Baseado no romance de Patrick McCabe
Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Ruth Negga, Lawrence Kinlan, Stephen Rea, Brendan Gleeson, Gavin Friday, Ian Hart, Eva Birthistle, Ruth McCabe, Steven Waddington.
135 min. • Distribuição: Sony Pictures Classics.

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