O Cinema Sobre Duas Rodas

20/06/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/02/2007.

Se você acompanha A ARCA, está mais do que careca de saber que qualquer troço é motivo para que o povo aqui da redação saia por aí feliz e contente fazendo listinhas, em um clássico exemplo de Complexo de Rob Gordon (ah, vai dizer que você não lembra de Alta Fidelidade, pô?). E obviamente, a estréia do esperado Motoqueiro Fantasma (2007) nas telonas brazucas nos fez pensar em mais uma relaçãozinha de filmes que envolvem o tema. No caso… filmes de motoqueiros! Ou quase: filmes que falam, de forma direta ou indireta, da arte de sair pelo mundo em cima de uma motoca. Ou no caso de alguns títulos específicos, filmes com alguma cena marcante pelo simples fato de mostrar seus protagonistas em presença imponente em cima de uma motocicleta. Então, chega de enrolação e dê logo uma olhada em nossos escolhidos! Corra para a locadora mais próxima… de moto, de carro, de busão ou “de a pé”! ;-D

• SEM DESTINO, de Dennis Hopper

Claro que o primeiro desta seleção de filmes sobre motocicletas e motociclistas tinha que ser O FILME sobre motocicletas e motociclistas. Se você é um cinéfilo, você deve por obrigação assistir a Sem Destino (1969). Um clássico do cinema sessentista, um símbolo da contracultura norte-americana que marcou uma geração e é cultuado até hoje. Os primeiros minutos desta estréia de Dennis Hopper na direção já são antológicos: Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Hopper), cujos nomes remetem imediatamente aos foras-da-lei Wyatt Earp e Billy The Kid, vendem uma certa quantia de cocaína a um sujeito qualquer por uma bela grana e usam o dindim para se livrar de todas as amarras e viajar sem destino e sem pressa pelos EUA em cima de duas Harley Davidson modelo Chopper, com o objetivo de descobrir o que é, afinal, os Estados Unidos. No caminho, encontram um jovem advogado vivido por Jack Nicholson, uma comunidade hippie e uma série de hostilidades e repúdios por parte de populares que não estão preparados para aceitar dois “vagabundos” “barbudos” e “cabeludos” – ou o espírito de revolta e liberdade que eles representam. Sem Destino foi indicado à Palma de Ouro em Cannes, dois Oscars e transformou Born To Be Wild, do Steppenwolf, em hino eterno. De quebra, deu um tapa na cara da hipocrisia ianque e que continua atual, mesmo depois de quase 40 anos.

• O SELVAGEM DA MOTOCICLETA, de Francis Ford Coppola

Um dos mais populares trabalhos de Francis Ford Coppola, em parte por sua incansável exibição nas Sessões da Tarde da vida, O Selvagem da Motocicleta (1983) é na verdade um filme menor do cineasta, tanto tecnicamente falando – visto que Coppola estava no auge de sua carreira, graças a filmes grandiosos como Apocalypse Now e a saga O Poderoso Chefão – quanto em seu resultado final. Sim, é um de seus filmes “menos bons”, mas devemos atentar para o fato de que, em se tratando de Coppola, não existe filme ruim. Filmado propositadamente em preto-e-branco e com um péssimo som (que justifica-se em um momento do longa que não vamos contar para não estragar a surpresa de quem não viu), O Selvagem da Motocicleta acompanha a rotina de um adolescente, Rusty James (Matt Dillon), que vive em uma bucólica cidadezinha, onde nada acontece. Sua mãe fugiu há anos, seu pai bebe, e não há nada que Rusty pode fazer a não ser liderar uma pequena gangue e se meter em confusões. Na verdade, o garoto só espera mesmo ser tão respeitado e amado quanto seu irmão mais velho, chamado de Motorcycle Boy (Mickey Rourke), um rebelde sem causa que saiu da cidade e nunca mais apareceu. Uma das fitas mais intimistas de Coppola, O Selvagem da Motocicleta é um belo, embora muito melancólico, retrato da juventude perdida dos anos 80 que não tinha muito o que buscar e nada podia fazer a não ser ver sua vida ir embora, sem perspectivas – uma idéia refletida em uma metáfora memorável: a visão de um relógio em quase todas as cenas do filme. Vale uma visita.

• RUAS DE FOGO, de Walter Hill

Outro grande clássico da Sessão da Tarde, Ruas de Fogo (1984) naufragou feio nos cinemas, mas conquistou um merecidíssimo destaque quando em seu lançamento em vídeo. Trata-se de uma divertidíssima aventura rodada em tom de fábula, que homenageia sobretudo os quadrinhos dos anos 50 (sim, sério!). Senão, vejam a história: em uma cidade onde nunca amanhece (!) e onde os anos 50 estão notadamente mesclados com o melhor da tecnologia futurista (!!), a lendária e deliciosa cantora de rock Ellen Aim (Diane Lane) é brutalmente seqüestrada por uma gangue de motoqueiros liderada pelo vilãozaço da parada, o nojento Raven Shaddock (Willem Dafoe, excelente no papel). Para resgatá-la, seu namorado e empresário Billy Fish (o sumido Rick Moranis) aciona um mercenário de aluguel, Tom Cody (Michael Paré, um dos “galãs fracassados” mais legais dos anos 80). O que Fish não sabe é que Cody é somente o ex-namorado de Ellen Aim. Assim, Cody une-se a outra mercenária, a violenta McCoy (Amy Madigan) e segue em uma verdadeira odisséia pela cidade para encontrar Ellen Aim e acertar as contas com Shaddock. Ruas de Fogo divide com outro clássico dirigido por Walter Hill, o fabuloso Warriors: os Selvagens da Noite, o posto de “fita de gangues mais legal do cinema”. E como se não bastasse, conta com uma excelente trilha sonora, com destaque para a música-tema, a chiclete I Can Dream About You, de Dan Hartman. Ah, você conhece, pô!

• O EXTERMINADOR DO FUTURO, de James Cameron

Ah, vai… jura mesmo que O Exterminador do Futuro (1984) ainda precisa de qualquer apresentação? Filmaço de ficção-científica que nasceu cult, tranformou-se em clássico com o passar dos anos, virou referência para toda produção que ousassse falar do futuro e ainda gerou uma continuação que é um divisor de águas na forma de se fazer efeitos visuais. Quer mais? Então basta dizer que esta obra-prima de James Cameron finalmente deu respeito ao canastríssimo ator/governador Arnold Schwarzenegger – e também ao próprio gênero sci-fi. Então, somos enviados a 2029, quando o supercomputador Skynet iniciou uma guerra das máquinas contra os humanos que o construíram e quase destruiu o planeta por completo. Quase, pois os humanos, liderados pelo rebelde John Connor, fundaram uma equipe de resistência que conseguiu destruir as máquinas. Prevendo sua derrota, entretanto, a Skynet envia um cyborg, T-800 (Schwarzenegger), ao passado. O objetivo de T-800: matar Sarah Connor (Linda Hamilton), que em breve engravidará e dará a luz a aquele que se tornará John Connor. Os humanos também enviam um sujeito, Kyle (Michael Biehn), cuja tarefa é proteger Sarah. Tem início o caos. E o que motociclismo tem a ver com o banho de sangue empreendido pelo exterminador enquanto não chega a seu alvo? Oras, e como você acha que Arnold Schwarzenegger corre atrás da moçoila? De ônibus? :-D

• AKIRA, de Katsuhiro Otomo

Sim, nós já falamos de Akira (1998), bem aqui nesta matéria. Só que é impossível falar sobre produções que envolvem motociclismo sem citar este impressionante desenho animado que chocou o mundo e ganhou zilhões de fãs (e detratores) nos anos 80, já que sua abertura já traz uma alucinante seqüência de perseguição sobre duas rodas e um de seus personagens principais, o marginal Kaneda, é apenas o líder de uma facção de motociclistas. Kaneda é um dos muitos jovens sem perspectiva que vivem em Neo-Tóquio – a antiga Tóquio, agora devastada pela 3.ª Guerra Mundial. Kaneda junta uma série de marginais para enfrentar o governo e tentar resgatar seu melhor amigo, Tetsuo, seqüestrado por autoridades interessadas em uma particularidade do garoto; o caso é que Tetsuo é dotado de poderes psíquicos e o governo sabe que estes poderes podem ser muito úteis em um caso extremo. Só que os experimentos científicos aplicados em Tetsuo libertam uma fera incontrolável dentro do garoto. Aos poucos, ele torna-se uma ameaça em escala mundial… Este excelente trabalho de Katsuhiro Otomo (o mesmo de Steamboy) não poupou inovações técnicas e violência gráfica para contar sua história, adaptada de seu próprio mangá. O resultado? Um mega-sucesso de bilheteria e um dos banhos de sangue mais violentos do cinema, ainda que em forma de desenho.

• EL MARIACHI, de Robert Rodriguez

A estréia de Robert Rodriguez na direção de longas, o aclamado mexicano El Mariachi (1992), rendeu mais de US$ 2 milhões apenas em solo gringo. Quem aí acredita que a fita custou a mixaria de 7.725 dólares, arrecadados depois que Rodriguez vendeu sua própria casa e submeteu-se a cobaia para remédios contra colesterol? Pois é. Este divertido longa de ação só conseguiu enxergar a luz do Sol porque a Columbia Pictures teve acesso ao material e investiu pesado em sua transferência para 35mm (o filme foi rodado em 16mm) e em uma campanha promocional milionária. Sorte a nossa: El Mariachi, mesmo rodado de maneira beeeem amadora, dá um gás surpreendente à história do Mariachi (Carlos Gallardo) que segue de cidade em cidade à procura de um barzinho qualquer onde possa ganhar uns trocados cantando suas serestas. Quando o sujeito acha que a maré está a seu favor quando chega a um pequeno vilarejo mexicano e logo consegue trabalho, eis que um assassino profissional (Reinol Martinez), caçado por um grupo de traficantes, aparece nas redondezas; não tarda para que espalhe-se a notícia da chegada de um matador vestido de preto e com um estojo de violão cheio de armas… a exata descrição do Mariachi! Obviamente, o pobre seresteiro será confundido com o assassino. Embora a motocicleta da fita dê as caras só em sua ótima seqüência final, onde Carlos Gallardo mostra quem é que manda no pedaço, El Mariachi é a prova concreta e absoluta de que dinheiro pouco importa. O que vale mesmo é a criatividade: com apenas 80 minutos, Robert Rodriguez dá um banho de direção em muito cineasta milionário com uma história rasa, mas divertidíssima! El Mariachi ainda ganhou uma seqüência, o fraco A Balada do Pistoleiro (onde Carlos Gallardo foi trocado por Antonio Banderas), e Robert Rodriguez iniciou uma carreira bastante irregular. Afinal, demorou 13 longos anos para que o diretor entregasse um filme genuinamente BOM e que não seja nhé em momento algum: Sin City, a Cidade do Pecado

• CARO DIÁRIO, de Nanni Moretti

Se você não é um cult-maldito-bastardo como este que vos fala, provavelmente terá ouvido falar pouco a respeito de Nanni Moretti. Bem, o italiano Moretti é somente aquilo tudo que o intragável Roberto Benigni sempre quis ser e nunca conseguiu: um cineasta/ator que transita tranqüilamente e de maneira genial entre gêneros tão antagônicos quanto desafiadores como a comédia (Aprile, 1998) e o drama (O Quarto do Filho, 2001), sem abandonar sua fortes tendências políticas anti-Berlusconi. O esquisitaço Caro Diário (foto, 1993) é bem bacana, mas por favor, não me pergunte o que é esta coisa! Hehehe. O que acontece é que a fita não tem um gênero definido, na verdade não tem nem uma história com começo, meio e fim. É apenas uma colagem de três contos rodados em tom de documentário e protagonizados por Moretti. Em uma de suas tramas, o diretor filma a si mesmo em uma viagem pelas ruas de Roma a bordo de uma pequena Vespa, visitando lugares históricos (como a praia em que Pier Paolo Pasolini foi assassinado), descobrindo histórias e tecendo comentários hilariantes (e ácidos, beeem ácidos) sobre a própria Itália e seus habitantes. Ainda que possa parecer extremamente superficial quando apenas relatado como uma sinopse, esta história de Caro Diário é nada menos que uma brilhante viagem de auto-conhecimento e uma declaração de amor ao país, ainda que Moretti demonstre, o tempo todo, estar muito “p” da vida com os rumos da política local – o que só agravou com a ascensão de Silvio Berlusconi, que está para Moretti como George W. Bush está para Michael Moore. E… puxa, eu quero ter uma Vespinha daquela! :-D

• O ALVO, de John Woo

Além de marcar a estréia em solo ianque do cultuado cineasta cantonês John Woo (o mesmo de hits como Fervura Máxima e Bala na Cabeça), aquele que é chegado em pombas (!), o tosquésimo O Alvo (1993) é também uma demonstração de como Jean-Claude Van Damme tinha tudo para se tornar um bacana astro de filmes de ação, caso tomasse mais cuidado com as escolhas que faz. Afinal, esta bizarra produção de ação mostra o cara em sua melhor forma, na pele de um estivador do cais, Chance Boudreaux (que nome batuta, meu!), que ajuda a pobre advogada Natasha Binder (Yancy Butler) a encontrar seu pai desaparecido. O couro começa a comer quando a dupla descobre que o pai de Natasha morreu nas mãos de uma gangue de lunáticos liderada pelo maligno Fouchon (Lance Henriksen… o Bishop, meu!); a tal gangue tem a mania de contratar mendigos e afins para participar de uma espécie de safári, onde endinheirados pagam pelo prazer de caçar e matar pessoas… e o que pode acontecer quando Chance, um ás em artes marciais, torna-se a mais nova vítima do bando? Muita pauleira, muita pancadaria, muita cena sem sentido! Pois é, O Alvo é recheado de seqüências mal-filmadas e (d)efeitos visuais, mas sustenta-se com seu ótimo humor e com a habilidade fora do comum de John Woo em “poetizar” a violência, bem ao estilo de Sam Peckinpah, o que deixa a fita bem acima da média. Pena que, depois do sucesso de O Alvo (mais de US$ 70 milhões mundialmente), John Woo só tenha feito o mesmo filme várias e várias e várias vezes. Ah, e as malditas pombas estão lá, aqueles ratos com asas. Ugh! Ah sim, e você precisa ver o que o Van Damme faz com sua CG em uma das cenas mais “tensas”!

• A VIDA DE JESUS, de Bruno Dumont

Estranhou a presença de um filme com este título em uma matéria sobre produções que envolvem motocicletas? Não se deixe enganar pelas aparências: A Vida de Jesus (1997), estréia no cinema do hoje aclamado cineasta francês Bruno Dumont e vencedor do Camera D’Or no Festival de Cannes, fala sim sobre Jesus Cristo. Mas de uma maneira bastante metafórica, tanto que é necessário uma boa dose de concentração para encontrar suas semelhanças. Para tanto, Dumont usa a história de um grupo de jovens desajustados em uma pequena cidade do interior da França chamada Bailluel. Entre eles, está Freddy (David Douche), sujeitinho sem pretensões na vida que passa seus dias a passear de moto com seus amigos, a despejar sua raiva em imigrantes árabes e a alimentar um relacionamento absolutamente carnal com sua namoradinha Marie (Marjorie Cottreel). Mesmo sendo apenas mais um no meio de tantos, Freddy, que sofre de epilepsia, é uma pessoa especial – e nota-se que estamos falando de alguém mais, na falta de uma palavra melhor, “evoluído” quando o cara está com sua turma. A pacata vida desta molecada em Bailluel sai da rotina quando Marie envolve-se com um árabe. Com um ritmo lento, por vezes arrastado, e com uma infinidade de cenas de nudez e sexo quase explícitas, A Vida de Jesus moderniza o Novo Testamento para mostrar a sua visão do que é o Cristo, um Cristo que pode e é constantemente traído por seus predominantes sentimentos humanos.

• DIÁRIOS DE MOTOCICLETA, de Walter Salles

Não seria exagero dizer que Diários de Motocicleta (2004), primeiríssima produção dirigida por Walter Salles para um grande estúdio, traz algumas semelhanças gritantes com Sem Destino, o primeiro citado nesta matéria. Senão, veja só: um filme que fala sobre dois amigos que resolvem viajar de moto para explorar um continente e, diante de situações que não compreendem, descobrem a si mesmos durante a jornada. Entretanto, enquanto temos duas Harley Chopper e dois hippies interessados em desmascarar a América em Sem Destino, em Diários de Motocicleta temos uma Norton 500 caidaça e dois amigos que querem viver a América Latina que só conheciam dos livros. E um destes amigos, aliás, é um jovem chamado Ernesto (Gael García Bernal), que algum tempo depois se transformaria em um dos ícones da revolução cubana e uma das figuras pop mais adoradas do planeta, Che Guevara. Engana-se, porém, quem pensa que veremos o sujeito barbudo e usando sua lendária boina aqui: o mote de Diários de Motocicleta é justamente a transformação da ideologia do jovem Ernesto Guevara, e o que o faz transitar de garoto pacato para líder revolucionário disposto a dar sua própria vida para melhorar o mundo. Para muitos, Diários de Motocicleta é o ápice de Walter Salles, desbancando até seu magistral Central do Brasil. Digo apenas que é um filme visceral: lindo, com um roteiro enxuto e um apuro visual de tirar o fôlego. Obrigatório.

• AMIGO É PRA ESSAS COISAS, de Pierre Jolivet

O que dizer de um filme sobre motos… sem motos? Bem, quase isso. Amigo é Pra Essas Coisas (2005), comandada por Pierre Jolivet, é uma comédiazinha francesa simples, curtinha (88 minutos) e direta ao ponto – o que não o torna um filmeco, que fique claro. E aqui, tudo o que abate o pobre bastardo do personagem central, o maluquete Zim (Adrien Jolivet, indicado ao César de ator revelação), é conseqüência de um acidente que o rapaz de 20 anos provocou com sua scooter. Agora, Zim precisa arrumar um emprego registrado no prazo máximo de 10 dias para poder se livrar da prisão. Só que o único emprego que encontra exige que Zim tenha um carro e carteira de habilitação… o que ele não tem. E agora? A ajuda chega na forma de seus atrapalhados amigos estrangeiros, o africano Arthur, a árabe Safia e o marroquino Cheb. Tem início, assim, uma odisséia homérica para Zim arrumar um carro e tirar sua carta em 10 dias. Do contrário, irá para o xilindró. Simples, não? Um quarteto de protagonistas bem competente, um roteiro dinâmico e várias cutucadas na forma altamente preonceituosa que a França lida com seus moradores imigrantes, Amigo é Pra Essas Coisas é um daqueles longas que quebram facilmente o velho paradigma de que “produções da França precisam ser chatos e arrastados”. Para ver e comer uma pizza em seguida.

• DESAFIANDO OS LIMITES, de Roger Donaldson

Pouco visto nos EUA e praticamente ignorado aqui no Brasil, onde ganhou um discretíssimo lançamento em DVD sem passar nos cinemas (apenas em festivais com pouquíssimas sessões), o drama neozelandês Desafiando os Limites (2005) é bem mais contundente do que aparenta. Pô, e alguém aí ainda acredita em um filme sobre um sujeito que nada contra a corrente e desafia meio mundo para poder realizar seu sonho impossível, mostrando que tudo é uma questão de perseverança? Não mesmo. Felizmente, Desafiando os Limites escapa a esta armadilha e agrada bastante. Boa parte de seu carisma deve-se à instigante interpretação de Anthony Hopkins (nosso amigo Hannibal Lecter, saca?), completamente à vontade no papel de Burt Munro, um homem que, em plenos anos 70, sai da Nova Zelândia em direção a Utah, nos Estados Unidos, com a intenção de participar do percurso de Utah Bonneville e tornar-se o homem mais rápido do mundo. Algumas limitações, como a idade avançada e a própria motocicleta, uma Indian dos anos 20 totalmente reformada, podem atrapalhar os planos de Munro. Inspirado em uma história real, a fita de Roger Donaldson (o mesmo do ótimo Treze Dias Que Abalaram o Mundo) foge do convencional e comove com facilidade, graças ao fenomenal trabalho de Hopkins e à simplicidade do enredo, que evita cair em situações melô. Merece uma olhadela.

O CINEMA SOBRE DUAS RODAS

Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 28/02/2007
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem MOTOQUEIRO FANTASMA (Ghost Rider).


Hollywoodland – Bastidores da Fama

20/06/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/03/2007.

E com seis meses de diferença para sua estréia gringa, finalmente chega às telonas brasileiras Hollywoodland – Bastidores da Fama (Hollywoodland, 2006), aquele longa que um dia foi chamado de Truth, Justice and the American Way – por sinal, um título legal pra dedéu e que faz todo o sentido do mundo, como explicarei mais tarde – e é popularmente conhecido como “o outro filme do Superman” por ter entre seus personagens principais ninguém menos que George Reeves, o sujeito que viveu o Homem-de-Aço no seriado de TV dos anos 50.

Não estamos falando, entretanto, de uma produção centralizada no super-herói que faz a alegria de zilhões de nerds do mundo inteiro. Mesmo com infinitas referências ao personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, Hollywoodland aproxima-se muito mais de um Dália Negra da vida do que de qualquer história de fantasia protagonizada pelo Superman. Aliás, muita gente por aí refere-se a Hollywoodland como uma cinebiografia de George Reeves. Não, não, não. Esqueça este papo que o buraco é bem mais embaixo.

O que acontece é que Superman e o próprio George Reeves são apenas pequenas peças de um quebra-cabeças que aparentemente tenta desvendar um dos casos mais bizarros e polêmicos da história do mundinho do entretenimento estadunidense dos anos 40/50, mas que ao final, revela-se um instrumento de objetivo bem maior e mais, digamos, subversivo. O trailer indica que o filme é sobre a vida de Reeves, quando você assiste ao filme descobre que é sobre a investigação de um acontecimento verídico que botou um ponto final na vida do ator, e ao sair do cinema, nota-se que o verdadeiro objetivo da produção comandada pelo veterano da telinha Allen Coulter (de Sex And The City e Família Soprano) é alfinetar a frieza da indústria cinematográfica norte-americana, acostumada a tratar suas estrelas como simples números e a fazer de tudo para encobrir qualquer desvio, única e exclusivamente para ver seu bolso cheio e longe de ameaças.

E estes objetivos foram cumpridos? Hummmm… mais ou menos, vá. Não estamos falando de um ótimo exemplar de cinema, como vários já comentaram por aí, mas também não é um lixo da pior qualidade, como também já ouvi. Resumindo o lance todo, é um trabalho bacaninha que poderia ter um resultado muito além do satisfatório caso a direção de Allen Coulter e o roteiro de Paul Bernbaum não optasse por alguns rumos meio equivocados e não tivesse a pretensão de criticar a meca do cinema, ao invés de simplesmente contar sua história. Esse pessoal adora inventar, não é possível! :-P

O pior é que a história é mesmo muito boa. Temos um plot verídico, que é a bizarra morte de George Reeves – encontrado morto em sua casa, nu e com um tirombaço na cabeça -, registrada como suicídio, e temos a parte ficcional, que é a investigação conduzida pelo detetive particular Louis Simo (Adrien Brody) e a descoberta de alguns detalhes “debaixo do tapete” que podem indicar que a morte de Reeves foi, na verdade, um assassinato. Uma trama que, como pode-se ver, abre um leque de possibilidades, que precisam, claro, de um roteirista e um diretor no mínimo experientes, como Brian De Palma, por exemplo, que tirou leite de pedra com seu Dália Negra.

Não é o caso aqui. A falta de experiência do roteirista Bernbaum e do diretor Coulter não consegue impedir Hollywoodland de mergulhar em alguns clichês enjoadíssimos dos thrillers ambientados nesta época, como a mulher fatal (e aqui, nem precisava tanto, sejamos sinceros), o detetive obstinado e cafajeste, e blá blá blá blá. Não são defeitos que prejudicam o filme por completo, não é o que quero dizer. Mas que dá uma decaída… ah, isso dá – e o estrago só não é maior porque Hollywoodland conta com uma excelente reconstituição de época e um climão noir tão competente quanto o de Dália Negra e Los Angeles – Cidade Proibida, outra obra que inevitavelmente nos vêm à mente durante a exibição deste.

Então, George Reeves (Ben Affleck) foi encontrado morto de 16 de junho de 1959, nu, em um quarto de sua casa, com várias pistas espalhadas pelo quarto que indicam fortemente que trata-se de suicídio. E olhe que Reeves até tinha seus motivos para querer conhecer Jesus mais rápido (!): com o cancelamento do seriado do Azulão (por sinal, personagem que não era do agrado de Reeves por ser “superficial e infantil” demais), o ator jamais conseguiu reaver o pouco sucesso que tinha com a série e chegou ao ponto de amargar uma obscura carreira como competidor em torneios de luta-livre.

Voltando, uma série de evidências apontam que George Reeves realmente suicidou-se, e o caso é encerrado. Mas a mãe de Reeves, Helen Bessolo (Lois Smith), jura de pé junto que o filho jamais seria capaz de atentar contra sua própria vida. Com o troço todo arquivo, a senhora não vê outra saída a não ser apelar para o detetive particular Louis Simo. Aos poucos, Simo, um sujeitinho sedento por status, obcecado por dinheiro e louco para se tornar um queridinho da mídia, encontra diversas contradições nas pistas espalhadas no local do crime. Não demora muito para que ele também se convença de que há alguma conspiração para acabar com a existência do ex-Superman, e dois fatores só ajudam a alimentar esta desconfiança: o primeiro é o aparente descaso da noiva de Reeves, Leonore Lemmon (Robin Tunney), uma das primeiras pessoas a encontrá-lo sem vida.

O segundo fator é a descoberta de um segredinho perigoso: Reeves mantinha um caso com a senhora Toni Mannix (Diane Lane, cada vez mais linda), esposa de ninguém menos que Eddie Mannix (Bob Hoskins), executivo da MGM cuja função é encobrir escândalos do porte de drogas e homossexualismo entre os astros e estrelas da TV e do cinema. E… CHEGA! Agora eu não falo mais nada, que é para não estragar o resto da fita. ;-)

Tá, então temos uma trama ducacete que poderia ter rendido um filmaço com F maiúsculo. Infelizmente, Hollywoodland perde-se no meio dos clichês, do certo amadorismo do roteiro e também da narrativa fragmentada demais, o que deve espantar a parcela do público médio que prefere uma trama contada de forma linear. O problema maior, pra mim, ainda é a mania dos caras de querer enxertar críticas ao governo ianque, à obsessão quase cega de Hollywood por dinheiro e fama, à busca de pessoas comuns pela felicidade de plástico que uma carreira como astro/estrela de cinema proporciona, e principalmente à forma com que os Estados Unidos lida com o conceito de verdade e justiça que tanto prega – o tal “American Way” do primeiro título. Cá entre nós, o filme exagerou na dose com relação a estas metáforas.

E a pergunta que não quer calar: o Ben Affleck está bom mesmo? Olha… sim, ele se sai muito bem no papel de George Reeves. Mas é algo extremamente relativo, visto que Reeves era em sua época exatamente aquilo que Affleck é hoje, ou seja, um cara sem talento algum – tanto que, nas cenas em que Reeves está caracterizado como Clark Kent/Superman, nota-se o grau de canastrice de Ben Affleck (e imagina-se que ele não fez muito esforço para chegar àquele estágio, hehehe!). Nas seqüências mais dramáticas, até que Affleck não decepciona, mas não vi aqui NADA que justifique o prêmio dado ao ator no Festival de Veneza do ano passado.

Por sinal, se há realmente uma grande atuação em Hollywoodland, estamos falando exclusivamente de Adrien Brody. É engraçadíssimo vê-lo tão à vontade no papel de anti-herói, um detetive tão sacana quanto cafajeste. Embora o ator não tenha feito nenhuma declaração a respeito, tenho certeza de que ele se inspirou em Humphrey Bogart para compôr seu personagem – quem conhece os filmes de Bogart, enxergará o saudoso Sam Spade em cada milímetro do personagem de Adrien Brody aqui. Acho que o prêmio em Veneza deveria ter sido dado a ele, não é por nada não. :-D

Então… Hollywoodland compensa o ingresso? Ah, compensa sim, principalmente porque é bastante bem-sucedido em um dos itens primordiais em um longa policial: segurar a atenção do público. Embora seja excessivamente fragmentado, Hollywoodland sustenta-se pela curiosidade em saber como esta história terminará. E até que termina bem, viu? Mas se você quer um clássico, é melhor procurar a sessão de noir na videolocadora mais próxima. Bem, olhando a metade cheia do copo, até dá pra dizer que George Reeves ganhou uma “quase-cinebiografia” à altura de seu talento… :-P

CURIOSIDADES:

Hollywoodland é uma referência a um dos maiores símbolos de Los Angeles: o letreiro de Hollywood, que tinha o “land” no final até meados de 1949. Embora a ação da fita se passe dez anos depois da remoção das quatro últimas letras do letreiro, o título justifica-se por conta de uma metáfora cuja explicação aqui não é cabível para não estragar o clima da produção.

• O outro título original, Truth, Justice and the American Way, traz uma série de metáforas mas é também uma expressão muito utilizada pelo Superman do seriado. O título foi trocado pois a DC Comics, detentora dos direitos do personagem, não autorizou o uso. A editora também proibiu qualquer referência ao Homem-de-Aço no cartaz promocional e nos trailers da película. Curiosamente, permitiu que o Super desse as caras em quase todo o filme. Vai entender…

• George Reeves seria vivido originalmente por Hugh Jackman, que não pôde assinar por estar envolvido com as filmagens de Fonte da Vida. Kyle MacLachlan, o eterno Agente Dale Cooper de Twin Peaks, também foi considerado para o papel.

• O papel de Louis Simo foi oferecido primeiro a Benicio Del Toro, que pulou fora por outros compromissos. Joaquin Phoenix chegou a fazer um teste para o papel. Por sinal, este é o segundo papel disputado por Phoenix e Adrien Brody: o primeiro foi Lucius Hunt, o herói de A Vila.

HOLLYWOODLAND • EUA • 2006
Direção de Allen Coulter • Roteiro de Paul Bernbaum
Elenco: Adrien Brody, Diane Lane, Ben Affleck, Bob Hoskins, Lois Smith, Robin Tunney, Larry Cedar, Jeffrey DeMunn, Dash Mihok, Molly Parker.
126 min. • Distribuição: Imagem Filmes.


Minha Super Ex-Namorada

20/06/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/08/2006.

Um dos assuntos mais abordados nos e-mails que recebo referem-se ao descontentamento de alguns com relação a esta onda de filmes inspirados em super-heróis de HQs. Bem, obviamente Hollywood só vai parar de produzir live-actions de heróis dos gibis quando este filão não render mais nada. De qualquer forma, devo dizer que isso não me incomoda nem um pouco: ainda que eu seja um quase-leigo quando o assunto é quadrinhos, me diverti adoidado com muitos destes longas – e ainda sonho com um filme do Authority. O meu problema mesmo é com as variações do gênero, mais exatamente com as comédiazinhas idiotas estreladas por super-heróis, como por exemplo os asquerosos family movies produzidos pela Disney – entre eles, SuperEscola de Heróis e a futura gororoba Zoom, estrelada por Tim Allen, mais conhecido como “mamãe-é-a-única-criatura-da-face-do-planeta-que-me-acha-engraçado”.

De todos os trabalhos lançados e/ou divulgados até então, Minha Super Ex-Namorada (My Super Ex-Girlfriend, 2006) é o que tem a idéia mais criativa e engraçada. Ou melhor, a idéia mais criativa e potencialmente engraçada. Afinal, comédias sobre a batidíssima guerra dos sexos são, em suma, bem divertidas; quando sabemos que uma das partes é dotada de poderes extraordinários (como voar e ter superforça), abre-se um leque de possibilidades. Eu mesmo, embora não acreditasse nas virtudes deste projeto desde o início, pensei em pelo menos cinco piadas prontas dentro deste contexto que adoraria ver executadas na telona.

E vejam só: ironicamente, este que tinha tudo para ser o único exemplar realmente digno deste subgênero, acabou como o exemplar mais vergonhoso! Quer dizer, salvo Zoom, que ainda não vi (e provavelmente cometerei suicídio antes de ver). :-P

O grande problema reside exatamente naquilo que o senhor El Cid já comentou nas gloriosas páginas d’A ARCA: a idéia de Minha Super Ex-Namorada é boa, mas estraga-se em seu desenvolvimento. O que poderia render uma pá de piadas divertidíssimas, transforma-se em um equívoco tremendo do início ao fim, e a culpa é toda do roteiro indeciso de Don Payne e da direção insossa de Ivan Reitman. Não dá nem pra acreditar que estamos falando, respectivamente, do roteirista de vários episódios de Os Simpsons e do cineasta que nos entregou uma das películas mais batutinhas dos anos 80, Os Caça-Fantasmas. :-(

Então, vamos à história: seguindo um conselho de seu melhor amigo, o desajeitado arquiteto Matt Saunders (Luke Wilson, de Tudo em Família, novamente no piloto automático) decide cantar uma bela garota que conhece no metrô de Nova York. Para sua surpresa, a garota, a tímida Jenny Johnson (Uma Thurman, provando que só se sai bem mesmo sob a tutela de Quentin Tarantino), corresponde às suas investidas. A coisa fica ainda mais legal quando Matt descobre que Jenny é apenas o disfarce da imbatível G-Girl, super-heroína que zela pela paz e pela justiça da Grande Maçã – aliás, que nominho babaca para um herói, não? Afe.

Enfim, a surpresa e o orgulho em ser apenas um cara comum namorando uma super-heroína dá lugar ao incômodo quando Jenny/G-Girl começa a comportar-se de maneira, digamos, “excêntrica”. Fica nervosa, grudenta, possessiva, extremamente ciumenta e muito, mas muito dependente. Sentindo que é hora de sair pela tangente, Matt decide dar o fora nela e investir em um relacionamento mais “normalzinho” e menos estressante com sua colega de trabalho, a moderninha Hannah (Anna Faris, Todo Mundo em Pânico). E o alívio dá lugar ao desespero quando Jenny, chutada-magoada-estraçalhada, mostra ser uma bela pedra no sapato do zézinho ao comunicá-lo: “você vai se arrepender de ter nascido”. Cruzes! Realmente, ganhar a antipatia de uma pessoa dotada de superpoderes e absolutamente vingativa não é a melhor das opções…

Aí é que está: a idéia não é ruim. O grande erro de Minha Super Ex-Namorada reside na estrutura desta história. O que temos aqui é um desfile de personagens clichê ultra-sem graça, como o patético melhor amigo de Matt, Vaughn (Rainn Wilson, péssimo), que representa o cúmulo do estereótipo do amigo feioso e boboca que se acha o tal com as mulheres. Pra piorar ainda mais a situação dos personagens, o roteiro de Don Payne não titubeia em apelar para diálogos tão vulgares quanto embaraçantes: numa certa cena, por exemplo, Matt pergunta a Vaughn, “Se você pudesse ter um superpoder, qual seria?”, e o cara responde, “Poder fazer sexo oral em mim mesmo” (?). Afe! Pra quê um diálogo desse? E se ele acha que isso é um grande mistério da vida, alguém dá logo o telefone do Ron Jeremy e do Marilyn Manson para este sujeito! :-D

Acredite. Há frases de efeito muuuito piores durante a projeção. E o que dizer da G-Girl prometendo a Matt enfiar uma serra elétrica em sua traseira (!) caso ele revele sua identidade secreta a alguém? ¬¬ Sentiu, né? Enfim, é aquela velha mania que Hollywood tem de acreditar que o público ainda acha graça em piadinhas chulas.

Claro que os pontos negativos da fita não param por aí. É muito incômoda, só pra citar um exemplo, a inevitável e mega-desnecessária presença de um super-vilão na história, o tal Professor Bedlam (Eddie Izzard, dublador daquele maldito coala do cacete, daquele outro lixo chamado Selvagem), que quer neutralizar a heroína custe o que custar: seu plano para derrotar a G-Girl é tão idiota quanto a origem da garota e a razão do ódio do elemento por ela. Céus, um enredo destes nem precisava de vilão! Era só centrar a história na briga entre Jenny e Matt e pronto! Na boa, não dá pra saber qual personagem é pior, este Professor Bedlam ou o tal do melhor amigo de Matt. Ah, sim: vamos somar aí a bizarra chefe de Matt, vivida por Wanda Sykes (A Sogra), obcecada por assédios sexuais. Alguém me explica o sentido DAQUILO, pelo amor de Deus! :-P

Estes desacertos até poderiam passar em branco caso Minha Super Ex-Namorada fosse bem-sucedido em sua proposta central: o barraco entre Jenny e Matt. Sério, a idéia de ver uma super-maluca perseguindo um cara medrosão rende umas piadinhas bacanas! Infelizmente, não há nenhuma delas aqui. Os “ataques” da enlouquecida G-Girl são esporádicos e deixam de ser criativos e engraçados para se render a um punhado de efeitos especiais – a tal seqüência do tubarão (na qual a moçoila arremesa um tubarão branco dentro do apartamento de Hannah) é perfeita em termos técnicos, mas constrangedora em seu resultado final, pois não há sentido algum nela. Parece até que o diretor Ivan Reitman se preocupou mais em criar bons efeitos visuais a desenvolver uma trama coerente e divertida. Bem, isto já acontecera com o terrível Evolução, então acho que é hora de pendurar as chuteiras.

E olhe que nem me atrevo a comentar… o FINAL DESTE FILME! Afe, que final HORROROSO! Totalmente forçado, totalmente melado, totalmente ilógico! Parece que foi filmado às pressas! Olha, se Minha Super Ex-Namorada possuísse algum ponto a seu favor, certamente ficaria queimado só por causa da conclusão da história!

Num saldo geral, dá pra concluir que não basta ter somente um plot interessante em mãos, tem que saber estruturar este plot. Ou seja: o que poderia render uma comédia descartável de qualidade, rendeu apenas mais um filmeco para fazer jus à má fama das comédias tosquinhas estreladas por super-heróis… Se eu soubesse que enfrentaria um troço destes, teria mantido meu pedido de demissão sem medo de ser feliz. Embora ainda dê pra considerar esta possibilidade, afinal, até onde sei, não há nenhum super-herói escondido entre os gloriosos colunistas deste website. Meu medo é ver um iradíssimo Fanboy me caçar até no inferno para voltar a escrever! Se bem que o inferno não deve ser pior do que sofrer com estas bombas que andam me passando… :-P

E mês que vem… Zoom, com Tim Allen! Se alguém me procurar, diga que eu morri, por favor.

CURIOSIDADES:

• Se você for louco o suficiente para gastar dinheiro conferindo este filme, fique até o final dos créditos para uma cena surpresa. Não é lá estas coisas, mas se você perdeu 90 minutos vendo a fita inteira, não morrerá se ficar mais alguns minutos a mais. Como diz um amigo, “o que é uma flatulência para quem já evacuou em suas roupas de baixo”, não é mesmo? :-D

• Como todos podem perceber, não consegui encontrar muitas curiosidades a respeito deste filme…

MY SUPER EX-GIRLFRIEND • EUA • 2006
Direção de Ivan Reitman • Roteiro de Don Payne
Elenco: Luke Wilson, Uma Thurman, Anna Faris, Rainn Wilson, Eddie Izzard, Wanda Sykes, Margaret Anne Florence.
95 min. • Distribuição: Columbia Pictures.


Filmes para Sofrer no Dia dos Namorados

12/06/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/05/2006.

Um velho conhecido da galerinha nerd-cinéfila, um tal de Joel Barish, costumava dizer que o Dia dos Namorados – evento que, por sinal, comemora-se no dia 12 de junho aqui por nossas bandas – não passa de uma data comemorativa inventada pelos fabricantes de cartões para fazer as pessoas se sentirem como lixo. Há algum sentido nisto? De certa forma sim. :-) Enquanto o sr. El Cid, cheio de amor pra dar, diz que é uma oportunidade de ouro para se dedicar ainda mais à pessoa amada com muito carinho, muita paixão, muito mel e muitas canções sensuais de Sidney Magal (?), eu prefiro acreditar que é apenas mais uma data para nos fazer gastar dinheiro. Hehehe!

E se você está na pindaíba (como eu) e não faz a menor idéia do que fazer para não desapontar a patroa (ou o patrão, hehe), nada melhor do que um sofá camarada, um edredon convidativo, um suculento balde de pipocas e… filmes, muito filmes! Logo, como nós d’A ARCA somos extremamente simpáticos e complacentes com a sua situação miserável, eis mais uma seleção de fitas bacanas, engraçadas, depressivas e sofredoras para alegrar qualquer casalzinho cinéfilo – ou para fazer todo mundo mergulhar na fossa de vez!

Só um adendo: não espere neste artigo obviedades como clássicos universais (Casablanca), fenômenos pop (Titanic, Ghost – Do Outro Lado da Vida e Moulin Rouge – Amor em Vermelho) ou fitinhas adolescentes com as Hilary Duffs e Lindsay Lohans da vida. Coisas mela-cueca ao melhor estilo Julia Roberts, Meg Ryan e Freddie Prinze Jr., menos ainda. O foco desta matéria são as produções menores, fora do circuitão comercial, geralmente restritas a circuitos reduzidos e fadadas injustamente ao limbo nas videolocadoras… ou seja, sem muito apelo ao público médio. Esta matéria é pra fazer todo mundo sair por aí cavucando os cantinhos escuros das locadoras! :-D

Sendo assim, curta o seu 12 de junho (ou qualquer outra data, não importa) na companhia de:

• PETER WARNE & ELLIE ANDREWS (Clark Gable & Claudette Colbert)

Quem são os ditos cujos? Ellie Andrews, a única herdeira da milionária família Andrews, é insuportável, arrogante e mimada até não poder mais. Para irritar seu pai, é capaz até mesmo de casar-se com um nojento playboy. E ela o faz! Para conter a figura, o pai anula o tal casamento e prende a moçoila em um iate. O senhor Andrews só não contava com a indomável rebeldia de Ellie, que pula do iate e tenta, de todas as formas, fugir de Miami para Nova York – o que a transforma em objeto de procura nacional… Peter Warne é um repórter desempregado e absolutamente oportunista que quer a história de Ellie com exclusividade para reaver seu emprego (pois é, naquela época provavelmente não existiam notícias mais urgentes). O que pode acontecer quando estas figuras totalmente odiosas – e que detestam-se mutuamente com a delicadeza de uma bigorna – são forçadas a seguir viagem lado a lado?

Onde encontrá-los: na divertida comédia ianque Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934), de Frank Capra, um dos três únicos longas-metragens da história a papar os cinco Oscars principais – filme, ator, atriz, diretor e roteiro.

• T. R. DEVLIN & ALICIA HUBERMAN (Cary Grant & Ingrid Bergman)

Quem são os ditos cujos? Alicia Huberman é uma graciosa jovem que, em 1946, mergulha em um inferno astral ao ver seu pai ser preso e condenado por espionagem à favor do governo alemão. Para se livrar da imagem negativa ocasionada pelo incidente, Alicia concorda em servir de espiã disfarçada na caça a supostos agentes nazistas escondidos no Brasil (sim, aqui mesmo). Forçada a casar-se com um provável espião inimigo por conta das investigações, Alicia se vê numa enrascada. O problema, ninguém sabe, é que ela e o agente americano T. R. Devlin, seu superior, são apaixonados e mantém um tórrido romance em segredo… Detalhezinho que pode detonar uma crise de proporções catastróficas, destruir a missão e também provocar a ira do alemão Alexander Sebastian, o tal marido de Alicia.

Onde encontrá-los: no aterrador suspense Interlúdio (Notorious, 1946), um dos mais elogiados trabalhos de Alfred Hitchcock em sua gloriosíssima fase p&b.

• BO DECKER & CHÉRIE (Don Murray & Marilyn Monroe)

Quem são os ditos cujos? O cowboy de rodeios Beauregard Decker, mais conhecido como Bo, é um grandalhão inocente, burro, totalmente tapado, que chega em Phoenix, Arizona. Lá, apaixona-se perdidamente pela sensual e delicada cantora de saloon Chérie. Sem pensar duas vezes, Bo, bronco que só ele, pede Chérie em casamento, sem ao menos questionar seu passado ou dar um tempinho para conhecê-la melhor. Obviamente, a meiga Chérie, que já não queria nada com o sujeito, recusa o pedido. Mal sabia a garota que o seu sonoro “não” daria a partida em uma série de confusões inocentemente causadas por Bo, que não pretende sossegar enquanto não conseguir conquistar a cantora – nem que, para este fim, faça Chérie passar pelas mais absurdas, estúpidas e constrangedoras situações…

Onde encontrá-los: na deliciosa comédia Nunca Fui Santa (Bus Stop, 1956), de Joshua Logan, considerado um dos melhores filmes da curta carreira da diva Marilyn Monroe.

• FREDERICK CLEGG & MIRANDA GREY (Terence Stamp & Samantha Eggar)

Quem são os ditos cujos? O introvertido, tímido e silencioso Frederick Clegg, funcionário público londrino, tem dois estranhos hábitos: colecionar borboletas (o que lhe é motivo de freqüente gozação) e observar a jovem Miranda Grey à distância, a quem ama de longa data. Miranda, endinheirada, linda e habituada a ser o centro das atenções, sequer sabe da existência de Frederick; este, por sua vez, é consciente de que uma garota como Miranda, com o mundo a seus pés, jamais dirigiria o olhar a um exímio representante da plebe, como ele. Ao ganhar uma bolada na loteria, porém, Frederick vê uma luz no fim do túnel. Afasta-se de todos, pede demissão, compra uma casa no meio do nada e… seqüestra Miranda, mantendo-a em cativeiro até que ela se apaixone por ele à força. E é melhor que isto aconteça, e rápido. Senão…

Onde encontrá-los: em O Colecionador (The Collector, 1965), uma trágica história de amor e morte dirigida por William Wyler.

• ETIENNE NAVARRE & ISABEAU D’ANJOU (Rutger Hauer & Michelle Pfeiffer)

Quem são os ditos cujos? No século XIII, em plena época medieval, Isabeau D’Anjou e o capitão da guarda Etienne Navarre são extremamente apaixonados um pelo outro. A afeição do casal é tão intensa que desperta a cólera do tenebroso Bispo de Áquila. O cara, que deseja Isabeau como escrava sexual, é rejeitado por ela a favor do capitão Navarre. O Bispo, furioso, decide vingar-se dos amantes, rogando-lhes uma terrível maldição: durante o dia, a moça transforma-se em um falcão; e durante a noite, Navarre vira um lobo. Assim, jamais poderão encontrar-se em sua forma humana e consumar seu amor. Para quebrar o feitiço e acabar com a vida do ardiloso Bispo de Áquila, o casal conta com a ajuda de um padre meio pancada, Imperius, e de Phillipe Gaston, um hilário saltimbanco foragido das masmorras da cidade.

Onde encontrá-los: em O Feitiço de Áquila (Ladyhawke, 1985), de Richard Donner, um clássico do cinema oitentista que nunca mais foi reprisado na gloriosa Sessão da Tarde – e, diga-se de passagem, anda fazendo falta.

• DAMIEL & MARION (Bruno Ganz & Solveig Dommartin)

Quem são os ditos cujos? Damiel não é um ser humano. Damiel é um anjo. Invisível aos humanos, Damiel é uma entidade que vive há milênios na superfície da Terra e atualmente percorre as ruas de Berlim, auxiliando e confortando toda e qualquer alma solitária e depressiva que encontra em seu caminho. Damiel, entretanto, não é como os milhões de anjos espalhados pelo planeta. O que o difere de outras entidades é o fato de ser absurdamente infeliz. Damiel está cansado de enxergar em preto e branco, de não poder sentir em sua pele o que os humanos podem sentir: medo, angústia, dor, desejo, amor… Tudo o que Damiel mais deseja em sua existência é, um dia, tornar-se mortal e poder ter o privilégio dos sentidos. Ele não quer confortar: ele quer sentir e ser confortado. Sua vontade torna-se obstinação quando Damiel conhece uma mortal, a sublime trapezista Marion, e apaixona-se por ela.

Onde encontrá-los: no maravilhoso Asas do Desejo (Les Ailes Du Désir/Der Himmel über Berlin, 1987), de Wim Wenders, indiscutivelmente um dos longas mais belos que o cinema contemporâneo já viu; não confundir com sua refilmagem, Cidade dos Anjos, que não honra seu antecessor mas também tem muito charme.

• TOMEK & MAGDA (Olaf Lubaszenko & Grazyna Szapolowska)

Quem são os ditos cujos? Tomek é um jovem de 19 anos, órfão, ermitão e problemático, que mantém uma arrasadora paixão platônica por Magda, sua vizinha, mulher bem mais velha que ele. Noite após noite, Tomek dedica-se a observar Magda da janela de seu quarto, do apartamento onde mora com a mãe de um amigo ausente. Não contente em apenas contemplá-la, o rapaz faz de tudo para atrapalhar os encontros de Magda com outros homens e até forja situações estapafúrdias apenas com o intuito de estar próximo a ela. Depois de um incidente, Tomek não vê outra saída a não ser revelar-se a Magda. Esta, fascinada com a inocência e a humildade de Tomek, decide investir em um relacionamento com o garoto. O que pode não ser exatamente uma boa coisa…

Onde encontrá-los: no intrigante drama romântico polonês Não Amarás (Krótki Film o Milosci, 1988), o trabalho que apresentou o saudoso cineasta Krzysztof Kieslowski ao mundo.

• SAILOR RIPLEY & LULA PACE FORTUNE (Nicolas Cage & Laura Dern)

Quem são os ditos cujos? Sailor Ripley é um sedutor indivíduo que acabou de sair da prisão, onde passou quase dois anos enclausurado por matar um homem que o atacara com uma faca. Lula Pace Fortune é uma turbulenta garota que gosta de se autodenominar “mais quente que o asfalto da Georgia”. Lula e Sailor mantém um romance tão tórrido que quase chega a ser incendiário. Sufocada por sua rotina e tarada por novas aventuras, Lula decide fugir com Sailor pelos EUA afora; Marietta, mãe de Lula, já não batia muito bem da cabeça e, quando descobre que sua filha fugiu com o meliante, enlouquece de vez e jura por Deus que Sailor e Lula jamais ficarão juntos, nem que um deles, ou os dois, tenham que morrer por isto – o que ninguém sabe é que Marietta tem lá suas taras por Sailor… Assim, a doida contrata o detetive particular Johnnie Farragut com o objetivo de caçar os dois amantes. Mas Lula Pace Fortune e Sailor Ripley, praticamente duas bombas-relógio ambulantes, não serão detidos tão facilmente.

Onde encontrá-los: no bacanésimo Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990), mais uma impressionante sandice do senhor David Lynch.

• JESSE & CELINE (Ethan Hawke & Julie Delpy)

Quem são os ditos cujos? O norte-americano Jesse e a francesinha Celine encontram-se casualmente em um trem que segue de Budapeste para Viena. Ela segue para a França, onde deverá estar até o dia seguinte, enquanto ele prepara-se para voltar aos Estados Unidos. Começam a conversar e descobrem pequenas afinidades. A chegada à Viena desperta um senso aventureiro em Jesse, que sugere uma loucurinha à Celine: descer do trem e aproveitar a noite para conhecer e explorar a cidade. A noite, regada a drinques, conversas e passeios a lugares históricos, desperta gradativamente a paixão entre eles. Há, entretanto, uma iminente verdade: dentro de algumas horas, Celine voltará à França e Jesse, aos States. Cabe ao casal, então, degustar o pouco tempo que lhes resta para alimentar este sentimento.

Onde encontrá-los: no cativante e inteligente cult movie Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995), e em sua impressionante seqüência, Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004), ambos dirigidos com maestria por Richard Linklater. Ah, e também em Waking Life (2001), do mesmo diretor, onde o casal tem uma minúscula participação em forma de desenho animado…

• BEN SANDERSON & SERA (Nicolas Cage & Elisabeth Shue)

Quem são os ditos cujos? Ben Sanderson e Sera conhecem-se depois de um acidente em Las Vegas. Ben, ex-roteirista hollywoodiano, perdeu tudo o que tinha por conta de seu alcoolismo, e se mandou para Vegas com o objetivo de instalar-se em um hotel, comprar o máximo de bebidas que seu dinheiro permitir… e beber até morrer. Sera, doce e sofrida prostituta, passa os dias a sofrer toda e qualquer espécie de humilhação por conta de sua atividade, e ainda é obrigada a agüentar os maus-tratos de seu cafetão Yuri. Ben e Sera, duas pessoas rejeitadas pela sociedade, apóiam-se um no outro e apaixonam-se de imediato: enquanto a prostituta acredita em Ben como uma última oportunidade de escapar de sua tenebrosa existência, Ben quer apenas a agradável e angelical companhia de Sera enquanto realiza sua “transição”.

Onde encontrá-los: em Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995), de Mike Figgis, talvez o romance mais assustadoramente trágico e depressivo já visto no cinema.

• OTTO & ANA (Fele Martínez & Najwa Nimri)

Quem são os ditos cujos? Otto e Ana são dois jovens que se amam desde o momento em que se conheceram, quando ainda eram crianças. Otto bate os olhos em Ana e descobre de imediato que ela é predestinada a ser a mulher de sua vida; Ana bate os olhos em Otto e entende instantaneamente que a alma de seu pai, falecido recentemente, está no garoto. Otto e Ana conviveram pacificamente e silenciosamente todos os dias, da infância até a juventude, visto que o pai de Otto abandonou a mãe do menino (que cometeu suicídio em seguida) para viver com a mãe de Ana. Juntos, descobriram o amor, o sexo e também a dor. Otto sabe que ele e Ana estão ligados de alguma forma cósmica pelo resto de suas vidas, e o rapaz tem provas disso; uma destas provas é o fato de seus nomes representarem palíndromos. A crença no destino e na força de seu amor faz com que Otto rebele-se contra a autoridade paterna e, numa atitude desesperada, fuja de casa e parta numa perigosa jornada rumo ao final do Círculo Polar Ártico. Ana irá atrás dele.

Onde encontrá-los: em Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes del Círculo Polar, 1998), do espanhol Julio Medem, considerado por muitos não somente um filme, mas uma experiência de sentidos. De fato, sua narrativa inovadora e suas cenas-quase-pinturas representa um grande desafio às formas convencionais de se fazer cinema.

• O HOMEM & A MULHER (Sergi Lopez & Nathalie Baye)

Quem são os ditos cujos? O homem e a mulher, ambos na faixa dos 40 anos, dois personagens sem nome, encontram-se casualmente em um café parisiense. Ela publicou um anúncio em uma revista, à procura de um homem com a qual pudesse realizar uma fantasia sexual sem compromisso. Ele respondeu ao anúncio. Ela é categórica ao afirmar que não quer nenhum envolvimento além daquele dia, daquela transa. Ele consente. Depois do ato, entretanto, combinam um novo encontro, para a próxima semana. Seguem-se vários outros encontros. Sem entrar em detalhes de suas vidas, o homem e a mulher conversam, trocam confidências, realizam fantasias. Até que um dia, a mulher sugere ao homem que não realizem a fantasia, e sim apenas… façam amor. Com este detalhe, enfrentam um problema: além do desejo carnal, agora existe a paixão. E com a paixão, chega também as crises, as brigas e as dúvidas…

Onde encontrá-los: no lírico Uma Relação Pornográfica (Une Liaison Pornographique, 1999), de Frédéric Fonteyne, que de pornográfico não tem nada. É, sim, um drama curto (pouco mais de uma hora de projeção), tocante e muito criativo.

• MAURICE BENDRIX & SARAH MILES (Ralph Fiennes & Julianne Moore)

Quem são os ditos cujos? Maurice Bendrix é escritor e vive na Inglaterra de 1939, às vésperas da guerra. Certa noite, encontra ocasionalmente um amigo de longa data. Este amigo, chamado Henry Miles, lhe confidencia um segredo; ele suspeita da fidelidade de sua esposa, e pede a Maurice que investigue a jovem senhora. Mas Maurice tem outros motivos para aceitar o pedido: num passado bem próximo, ele e a esposa de Henry, Sarah Miles, foram amantes; em um acontecimento ultra-bizarro, horas depois de lhe jurar amor eterno, ela simplesmente desapareceu de sua vida. O que aconteceu? É o Maurice quer descobrir. Só há duas certezas: a chama entre Maurice e Sarah ainda não se apagou. E há muito, muito mais, muito mais MESMO, do que esta história mal-explicada aparenta.

Onde encontrá-los: em um dos longas-metragens mais arrepiantes da década de 90, Fim de Caso (The End of the Affair, 1999), de Neil Jordan. Assista com o mínimo de informação possível – e preparado(a) para o baque no final.

• BODO RIEMER & SISSI SCHMIDT (Benno Fürmann & Franka Potente)

Quem são os ditos cujos? A caladona Simone Schmidt, mais conhecida como Sissi, é uma tímida enfermeira que trabalha e mora em um decadente hospital psiquiátrico. Sissi não tem outra vida a não ser dedicar-se integralmente ao trabalho. Bodo Riemer é um ex-soldado e agora marginal, não é muito bem-sucedido neste novo ramo, pra não dizer “totalmente idiota” (!). O primeiro encontro entre os dois é antológico: Bodo provoca um acidente que quase tira a vida de Sissi; ele a salva da morte certa e desaparece em seguida. Sissi apaixona-se de imediato, e Bodo também sente o mesmo, mas as circunstâncias exigem um sumiço. O segundo encontro entre eles, algumas semanas depois, será mais estranho ainda: ao entrar em um banco, ela testemunha um audacioso assalto prepetuado por ele. Como forma de retribuir o favor do encontro passado, Sissi decide auxiliar Bodo em sua fuga. Enquanto fogem, iniciam um relacionamento esquisito, quase platônico… e que pode ser interrompido a qualquer momento, com a chegada da polícia.

Onde encontrá-los: em A Princesa e o Guerreiro (Der Krieger und die Kaiserin, 2000), romance menor, barra-pesada e muito divertido, dirigido pelo mesmo alemão chamado Tom Tykwer que nos presenteou com o hilário Corra Lola, Corra.

• CHOW & LI-SHUN (Tony Leung & Maggie Cheung)

Quem são os ditos cujos? Chow é jornalista e precisa de um lugar pra morar, em plena Hong Kong de 1962. Ele e sua esposa, mulher de negócios que costuma praticamente viver no escritório, mudam-se para um pequeno prédio habitado por nativos de Xangai. Assim como Chow, a belíssima secretária Li-Shun é nova no prédio e também é casada, mas mal vê seu marido – como representante comercial de uma conceituada empresa japonesa, o esposo de Li-Shun viaja mais do que fica em casa. Chow e Li-Shun, que são vizinhos, não conseguem habituar-se ao fato de passar grande parte do tempo sozinhos. Por conta de suas situações semelhantes, iniciam uma amizade ora fria, ora gratificante, regada a noitadas em jantares e carteado na companhia dos vizinhos ao som dos boleros de Nat King Cole… até que descobrem, aterrorizados, que seus respectivos companheiros são também amantes. A traição de seus cônjuges desencadeia outra situação delicada: Chow e Li-Shun sabem que a dor não é pelo “galho”, e sim por também sentirem algo um pelo outro. O que fazer?

Onde encontrá-los: no metafórico Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa/In The Mood For Love, 2000), de Wong Kar-Wai, um difícil, porém brilhante exercício de sentidos.

• PIG & RUNT (Cillian Murphy & Elaine Cassidy)

Quem são os ditos cujos? Pig (apelido de Darin) e Runt (apelido de Sinéad) são dois adolescentes cujos caminhos seguem paralelo desde a maternidade, já que nasceram no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo hospital. Unidos por uma forte amizade (e algo mais) até então, o mundo de Pig começa a ruir com a chegada do 17.º aniversário de ambos: Runt começa a sair com um colega de classe, Marky, o que o deixa doente de ciúmes – embora nada possa fazer, uma vez que não há um envolvimento amoroso entre eles. A relação entre os jovens começa a preocupar os pais e os professores. Aconselhados pela direção da escola, os pais de Runt tomam uma atitude drástica e despacham a garota a um colégio interno distante, ao norte da Irlanda. Mas ficar com Runt é só o que Pig quer na vida, e não será a distância que irá impedi-lo.

Onde encontrá-los: no bacana-porém-obscuro Disco Pigs (2001), estréia da cineasta irlandesa Kirsten Sheridan na direção de longas.

• NINO QUINCAMPOIX & AMÉLIE POULAIN (Mathieu Kassovitz & Audrey Tautou)

Quem são os ditos cujos? Amélie Poulain é uma adorável, inocente e singela jovem francesa que vive sozinha em um apartamento simples e dedica-se às deliciosas coisas simples da vida. A vida de Amélie é tão simples que chega a ser tediosa – até que um dia, ao assistir horrorizada o noticiário que divulga a trágica morte de Lady Di, Amélie descobre um pequeno tesouro escondido em seu apê: uma caixinha cheia de brinquedos e lembranças. A garota descobre que aquela caixa pertenceu a um antigo morador do apartamente, agora um senhor de idade, e dedica-se a encontrá-lo para devolver seus pertences. Objetivo alcançado, Amélie entende sua vocação: trazer felicidade às pessoas. Amélie só fica abalada quando a questão é a SUA felicidade, representada em forma humana na figura do também simplório, sonhador e cheio de manias Nino Quincampoix.

Onde encontrá-los: no adorável O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001), a obra máxima do francês Jean-Pierre Jeunet que nós aqui d’A ARCA não cansamos de assistir! :-)

• BOB HARRIS & CHARLOTTE (Bill Murray & Scarlett Johansson)

Quem são os ditos cujos? Bob Harris é um conhecido e respeitado ator norte-americano que passará alguns dias em Tokyo, Japão, para rodar um comercial. Charlotte também é norte-americana e também está em Tokyo, acompanhando seu marido John, fotógrafo contratado para registrar a turnê de uma banda de rock. Bob, homem em plena crise de meia-idade, sofre por não ter diálogo algum com sua esposa; Charlotte até que tenta, mas não consegue fazer John entender que ela precisa de um pouco de atenção de vez em quando. Bob e Charlotte são estranhos em um mundo visivelmente diferente do seu. Não conseguem dormir e passam madrugadas solitárias no bar do hotel onde estão hospedados, bebendo e fumando. Conhecem-se. Fazem amizade. Conversam. Apóiam-se um no outro para superar a dor silenciosa. Os próximos dias no Japão reservarão algumas surpresas…

Onde encontrá-los: no singelo Encontros e Desencontros (Lost In Translation, 2003), segundo e doloroso trabalho comandado pela excelentíssima senhorita Sofia Coppola.

• CAHIT & SIBEL (Birol Ünel & Sibel Kekilli)

Quem são os ditos cujos? Cahit e Sibel são duas pessoas de origem turca que vivem na Alemanha. Ele é alcóolatra, vive de recolher garrafas em um inferninho sujo e, depois da morte de sua esposa, tudo o que mais deseja na vida é morrer, e o mais depressa possível; ela precisa desesperadamente se livrar das amarras da família que parece odiá-la, e tudo o que faz só serve para denegrir ainda mais sua própria imagem. Quando se conhecem, num situação no mínimo insólita (ambos tentaram suicídio e recuperam-se na mesma clínica), Sibel vê em Cahit uma bela chance de dar adeus a seus entes não-tão-queridos. Assim, propõe-lhe casamento, mesmo não sentindo nada por ele. O caso é que Cahit, por ser turco, será facilmente aprovado pela tradicional família de Sibel. Então, Sibel e Cahit tornam-se marido e mulher. A convivência faz com que o amor surja, mais cedo ou mais tarde… mas com o amor, surge também um corpo de um homem assassinado por Cahit… então…

Onde encontrá-los: no apavorante Contra a Parede (Gegen Die Wand, 2003), co-produção turca-alemã de Fatih Akin, uma das grandes surpresas do Festival de Berlim de 2004. Acredite, é realmente perturbador.

• ANDREW & SAM (Zach Braff & Natalie Portman)

Quem são os ditos cujos? Andrew Largeman, ou simplesmente Large, vive de subempregos e da esperança de conseguir um lugar ao Sol como ator em Los Angeles. Só o que conseguiu foi a fama passageira de um papel de quarterback com problemas mentais em um filme feito para a TV. Forçado a voltar à sua cidade natal, Nova Jersey, por conta do súbito falecimento de sua mãe, Large aproveita a ocasião para “tirar férias” do lítio e dos antidepressivos receitados pelo próprio pai, o psiquiatra Gideon Largeman. Andrew e seu pai não se falam direito, por conta de um trauma do passado. Mas Large está disposto a tentar reverter este quadro e dar um trato definitivo em sua medíocre existência. Não será fácil. Não, pelo menos até Large conhecer e previsivelmente se apaixonar pela doce e carismática Sam, que é mentirosa compulsiva.

Onde encontrá-los: em Hora de Voltar (Garden State, 2004), a surpreendente estréia na direção de Zach Braff, o J.D. de Scrubs.

• TAE-SUK & SUN-HWA (Hee Jae & Seung-Yeon Lee)

Quem são os ditos cujos? Tae-Suk é um estranho andarilho com uma mania mais estranha ainda: ele costuma invadir casas quando seus donos não estão, não com o intuito de roubar, mas para passar a noite e sentir um mínimo de conforto que jamais sentirá em outras circunstâncias. Como forma de agradecimento pela “hospitalidade”, Tae-Suk faz faxina e pequenos consertos nas residências que invade. Sun-Hwa é uma jovem que tem tudo o que quer, mas deseja escapar do casamento infeliz ao qual está imersa. Ela poderia não ter nada, desde que tivesse liberdade. Tae-Suk conhece Sun-Hwa quando invade uma mansão aparentemente vazia – a não ser pela presença da jovem. O delicado equilíbrio é quebrado. A rápida convivência desperta o amor entre eles.

Onde encontrá-los: no mágico-porém-depressivo Casa Vazia (Bin Jip, 2004), dirigido pelo aclamado diretor sul-coreano Kim Ki-Duk.

• JOEL BARISH & CLEMENTINE KRUCZYNSKI (Jim Carrey & Kate Winslet)

Quem são os ditos cujos? Joel (o autor do parágrafo que inicia esta matéria) e Clementine formam um casal que se conheceu numa praia em Montauk, começou a namorar, morou junto e, assim como muitos romances, dissolveu-se em brigas, tédio e rotina. O que o introspectivo Joel não sabe é que a maluca e imprevisível Clementine adquiriu um asco tão grande por ele que, não contente em apenas botar um ponto final no namoro, submeteu-se a uma inovadora cirurgia capaz de remover qualquer memória do cérebro. Trocando em miúdos, Clementine literalmente apagou Joel de sua mente, a ponto de não mais reconhecê-lo nas ruas, como se o seu passado sequer tivesse existido. Destruído por dentro, Joel resolve contratar os serviços da Lacuna Inc. e passar pelo mesmo processo. Entretanto, no meio da cirurgia, Joel arrepende-se, e empreende uma odisséia dentro de sua própria mente para salvar o que resta das lembranças de Clementine…

Onde encontrá-los: no já clássico Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), de Michel Gondry, uma das mais perfeitas traduções em imagens do que é o termo “o que é o amor”.

FILMES PARA SOFRER NO DIA DOS NAMORADOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 25/05/2006
Complemento do especial para as comemorações do Dia dos Namorados de 2006.


A Noite dos Mortos-Vivos

12/06/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/07/2005.

…ou: ELES ESTÃO VINDO DE NOVO, BARBARA!

Ok, ok, tá certo. A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1990) pode não ser exatamente parte integrante da clássica cinessérie que imortalizou os zumbis na cultura pop. Aliás, o filme sequer foi dirigido por George A. Romero. Bem, quase. A verdade é que, em 1989, Romero soube que perderia os direitos de seu primeiro filme e, temendo que algum espertinho chegasse na frente, correu para desenvolver um remake da fita. O resultado é este ótimo trabalho dirigido pelo protegido de Romero, Tom Savini (também responsável pela maquiagem), e com produção executiva do próprio. Savini optou por utilizar como base o primeiro roteiro da fita de 1968 – para quem não sabe, a versão final do filme original usou um roteiro revisado e com certas mudanças, para não bater violentamente com a censura. O que de nada adiantou, pois bateu do mesmo jeito! :-)

O que vemos aqui, então, é quase o mesmo enredo, com leves mudanças na personalidade de alguns personagens – Barbara (Patricia Tallman), por exemplo, não é mais uma “anta” e sabe se virar muito bem quando o negócio é “auto-defesa” – e no destino de outros, além da ausência das metáforas sobre a política estadunidense. Mais uma vez, sete estranhos encontram-se ilhados em uma pequena casa, à mercê de dezenas de cadáveres reanimados por alguma razão não muito bem esclarecida. E dá-lhe membros decepados, órgãos expostos e uma quantidade satisfatória de sangue! Rodado com o orçamento estimado em quase US$ 5 milhões, este A Noite dos Mortos-Vivos de 1990 conta com excelentes efeitos de maquiagem, um senhor clima de horror e um final bacaníssimo, ainda que de certa forma otimista, o que não é bem a cara de George Romero. Ei, e qualquer fita que seja protagonizada por Tony Todd, mais conhecido como o sujeito que deu vida a um dos vilões mais legais no terrorzaço O Mistério de Candyman, já vale o aluguel do DVD, oras! :-D

O curioso é que a distribuição de A Noite dos Mortos-Vivos foi assinada pela Columbia Pictures, a mesma que recusou o primeiro longa da série sem pensar duas vezes. E um comentário altamente spoilerento: demorou vinte e dois anos até que alguém, no caso Barbara, levasse em consideração a idéia de caminhar entre os zumbis, visto que as criaturas são bastante lentas. E não é que é um caso a se pensar?

NIGHT OF THE LIVING DEAD • EUA • 1990
Direção de Tom Savini • Roteiro de George A. Romero
Baseado no roteiro de Night of the Living Dead (1968), escrito por John A. Russo e George A. Romero
Elenco: Tony Todd, Patricia Tallman, Tom Towles, McKee Anderson, William Butler, Katie Finneran, Bill Moseley, Heather Mazur.
92 min. • Distribuição: Columbia Pictures/21st Century Film Corporation.

 

GEORGE A. ROMERO E A TRILOGIA DOS MORTOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 21/07/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead).


O Grito 2

12/06/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/10/2006.

Seja sincero: quando você pensa em assistir a um filme como O Grito, thriller que põe nossa querida amiga Sarah Michelle Gellar (para quem não sabe, a gloriosa Buffy) enfrentando uma bisonhíssima assombração nipônica, você realmente espera algo profundo e consistente? Claro que não. Resenhar um longa-metragem desta espécie é até relativo, porque produtos como O Grito são fabricados com a única intenção de entreter a platéia com pelo menos uma hora e meia de sustinhos divertidos. Então, é óbvio que, ao ler uma resenha de um filme como O Grito, você não encontrará declarações apaixonadas e/ou adjetivos como ótimo, fantástico, marcante, excepcional e afins – ainda que algumas produções que seguem este estilo consigam ultrapassar esta barreira e resultar em trabalhos ótimos, fantásticos, marcantes, excepcionais e todos estes adjetivos (o sensacional Abismo do Medo é um ótimo exemplo).

Independente disto, cá entre nós, sou um dos poucos mortais espalhados pelo planeta que se divertiram a valer com O Grito (como você pode ler na crítica da película – não leu, clica aqui e seja feliz). Tudo bem, a história é chinfrim, terror não tem nenhum e as pseudo-atuações de Sarah Michelle Gellar e Jason Behr são de doer a medula… mas em contrapartida, a fita é bem climática e traz uma série de sustos bastante competentes, alguns deles até imprevisíveis. Isto obviamente não o torna um clássico, mas como fã de cinema de horror, devo admitir que, para mim, O Grito foi bem-sucedido em sua proposta e ficou à frente de muito filmeco que andou explodindo nas telonas por aí. Meu ponto de vista, claro – isto não é uma imposição. Logo, por favor não me xingue. Por enquanto. :-)

Então… uma perguntinha: o fato de não esperarmos nada além de “um punhado de sustos” da inevitável seqüência do longa, O Grito 2 (The Grudge 2, 2006), o converte automaticamente em um bom filme? Resposta: NÃO. Como eu disse lá em cima, qualquer trabalho sem pretensões pode ser bom, basta que seja feito com competência. O inverso também vale, e é exatamente o que O Grito 2 é. Para resumir em uma linha: é mesmo uma fita feita só para pregar sustos, mas é tão ruim que nem isso consegue fazer direito.

O problema todo da película, novamente comandada por Takashi Shimizu (o mesmo de Ju-On: The Grudge, a versão original), é um só: o fato de ser um confesso caça-níqueis, fabricado apenas para pegar carona na cauda do sucesso do primeiro filme, tirou toda a preocupação do roteirista Stephen Susco em criar uma trama com um mínimo de coerência e respeito com suas origens. Aqui, se vê a todo momento que o roteiro e a direção estão pouco se lixando para qualquer espécie de coesão; só o que eles querem é SEU dinheiro, e dane-se a história. Se tiver uns sustinhos fáceis e o bizarro espectro do Toshiôôôôôôôô no cantinho com seus arrotos e miados (!), o povo vai gostar.

Ah, falô. Vai nessa, seu Shimizu.

O pior de tudo é que O Grito 2 começa muito bem. A introdução, por sinal, segue a cartilha do primeiro filme e apresenta uma seqüência intrigante que só fará algum sentido lá pela metade da projeção – enquanto no primeiro vemos o suicídio do personagem de Bill Pullman, aqui testemunhamos um negócio de louco envolvendo a dona-de-casa Trish (Jennifer Beals), seu marido Bill (Christopher Cousins) e uma frigideira cheia de óleo fervente. Um corte de cena e acompanhamos três colegiais, duas norte-americanas e uma (linda) japonesa, que caem na burrada de fazer o ritual de iniciação de uma delas em um lugar bastante conhecido da negada: os restos da casa habitada pelos espíritos rancorosos, macabrésimos e cheios de gases (!) da senhora Kayako (Takako Fuji) e seu filhinho maldito Toshio (Olga Tanaka), que assombram e aniquilam qualquer ser humano estúpido que se aproxime do local.

Em seguida, somos apresentados à espinha dorsal da película: a relaxada californiana Aubrey Davis (Amber Tamblyn, a feiosinha estrela do seriado Joan of Arcadia) descobre que sua irmã Karen (Gellar), com quem está brigada há anos, está internada em Tokyo e não pode sair de lá pois responde pelo suposto assassinato de seu namorado Doug, que no primeiro filme morreu nas mãos da fantasma – desculpe o spoiler, tá? -, embora a polícia acredite que sua morte é derivada do incêndio que Karen provocou. Comovida, Aubrey passa uma borracha nas pendengas e se manda para a terra do Sol Nascente para tentar entender o que diabos aconteceu. Chegando lá, ela conhece o jornalista Eason (Edison Chen), que entrou na residência do inferno (hehehe) para salvar Karen do incêndio e agora recebe as “visitinhas” de Kayako… Juntos, eles começam a investigar as origens do troço todo.

Não preciso dizer que, em certo momento, Aubrey entrará na casa…

Até aqui, O Grito 2 nada mais é do que um repeteco do primeiro, e um repeteco até que divertido. A cagada toda é quando o péssimo roteiro de Stephen Susco começa a criar moda. Daí somos forçados a engolir uma fraquinha trama paralela envolvendo o pivete Jake (Matthew Knight), enteado de Trish, que descobre que seu apartamento vizinho nos States também está infectado pela maldição da Kayako; e como se não bastasse, ainda há mais enrolação em cima do passado de Kayako. Sério, a história da mãe dela, uma curandeira especializada em espíritos negativos, e a ligação entre as atividades dela e a maldição de Kayako são simplesmente RIDÍCULAS! Aquilo não faz sentido algum! (não vou contar para não estragar a surpresa de quem porventura queira assistir ao longa, ok?).

Antes a questão toda fosse a mediocridade da trama. Antes fosse, viu? Mas daí entra a tal da falta de coerência para com o universo mitificado com a primeira fita e, com meia hora de projeção, O Grito 2 despenca de vez. Depois da primeira meia hora, o roteiro despeja uma série de seqüências mal-explicadas, todas embaralhadas em uma cronologia confusa e até inverossímil, preocupadas somente em viabilizar pretextos para o surgimento misterioso dos espectros furiosos. Ao contrário do primeiro O Grito, que também vai e volta no tempo mas têm todas as cenas conectadas e bem explicadinhas no final, aqui não há explicação para nada: em certos momentos, o espectador fica a ver navios numa boa.

O final, então, chega a ser revoltante! A conclusão entregue pelo roteiro de Susco é tão babaca e tão forçada que a impressão que se tem é a de que o próprio roteirista se perdeu no emaranhado de situações e personagens que criou e simplesmente não sabia como criar uma ponte justificável entre tudo aquilo. Parece que o cara escreveu qualquer coisa às pressas por não saber o que fazer – só isto para justificar o horroroso destino da personagem de Amber Tamblyn, pelo amor de Deus. O que vai ter de gente querendo pedir o dinheiro do ingresso de volta ao final da sessão… :-P

Bem, quanto à atuação… não dá pra esperar interpretações dignas de prêmios aqui, é claro. Entretanto, devo dizer que Amber Tamblyn, que respondeu há pouco pelos pouquíssimos pontos positivos do draminha miguxês Quatro Amigas e um Jeans Viajante, não é uma Meryl Streep da vida mas faz um trabalho bem mais relevante do que Sarah Michelle Gellar. Sozinha, a cena de seu sofrimento quando entra no antigo apartamento da irmã já atropela praticamente toda a filmografia da namoradinha do Freddie Prinze, Jr. – embora não precisa ser um ator ferradão para humilhar a pobre bastarda da Sarah Michelle Gellar, que consegue ser tão genial quanto o Orlando Bloomda “interpretativamente” falando. Hehehe! – De resto, atuações legais aqui são como as namoradas do Fanboy: uma utopia danada. ;-D

O saldo geral é triste, mas necessário: sabemos que Hollywood tem a mania idiota de sugar toda e qualquer gotícula de qualquer fórmula que funcione bem, e sabemos que Hollywood só pára de explorar esta fórmula quando ela apresenta claros sinais de cansaço. Depois do tremendo fiasco na qual resultou este O Grito 2, é bem provável que a meca da indústria cinematográfica ianque dê um tempo nos remakes de filmes de terror orientais. E cá entre nós, já era hora, não? Pois é, qualquer filme, mesmo aquele que não tem pretensão alguma de ser uma obra-prima, precisa de um pouco de talento e de um pouco de coerência e sentido para funcionar.

O pior é que agora fiquei com vontade de ver um filme de terror de verdade. Quando será que sai a nova comédia dos Irmãos Wayans? :-D

CURIOSIDADES:

O Grito 2 ganhou sinal verde de seu estúdio, a Sony, apenas três dias depois que O Grito chegou aos cinemas gringos. A motivação para a criação desta seqüência foram os impressionantes US$ 39 milhões que a fita estrelada por Sarah Michelle Gellar rendeu em seu primeiro final de semana de exibição, uma marca excelente para um longa-metragem de terror.

• Os fantasmas nipônicos devem odiar Amber Tamblyn. Afinal, ela também viveu a adolescente medrosa que, com cinco minutos de projeção, torna-se a primeira vítima da Sadako-cover em O Chamado.

• Quem será pior atuando: Sarah Michelle Gellar ou Freddie Prinze, Jr.? Nossa, eu despacho os dois e nem quero troco.

• Pois é, o negócio é tão ruim que nem curiosidades decentes tem…

THE GRUDGE 2 • EUA • 2006
Direção de Takashi Shimizu • Roteiro de Stephen Susco
Baseado no longa-metragem Ju-On: The Grudge, de Takashi Shimizu
Elenco: Amber Tamblyn, Sarah Michelle Gellar, Arielle Kebbel, Jennifer Beals, Teresa Palmer, Edison Chen, Takako Fuji, Ryo Ishibashi, Misako Uno, Shaun Sipos.
95 min. • Distribuição: Columbia Pictures.


O Futebol no Cinema

09/06/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/06/2006.

Nerd que é nerd odeia futebol. Aliás, nerd que é nerd odeia todo e qualquer espécie de esporte. Utopia? Claro que sim. Quem é nerd de verdade sabe que esta declaração é no mínimo pejorativa – o Fanboy que o diga, já que todos sabem que nosso simpático amigo-e-adorador-de-Disney, embora não espalhe a ninguém, é campeão inter-estadual de bocha (!). Enfim, tudo mundo adora padronizar os exímios nerds nos manjadíssimos estereótipos de “garotos frágeis, branquelos, raquíticos e cheios de espinhas que passam 752 horas por dia (?) na frente do computador”. Na-não. Existem casos e casos: eu mesmo não sou lá muuuito fã de futebol – tanto que nem tenho um time do coração -, ainda que não dispense uma peladinha na praia com os amigos e defenda que assistir a uma partida em um estádio mega-lotado é nada menos que alucinante. :-D

E vamos concordar: em época de Copa do Mundo, todo e qualquer ser humano da face da Terra, gostando ou não do esporte patenteado pelo senhor Charles Müeller, fica contagiado, não é?

Humm… não. Posso dizer tranqüilamente que a última coisa que faço na vida é me render ao hype da Copa do Mundo. Sério mesmo, não tenho o menor saco pra acompanhar os jogos e me contento sem crises em apenas saber o resultado final. O Brasil será mesmo Hexa-campeão? Sei lá, como é que eu vou saber? Então, se você é como eu e procura milhões de motivos para fugir da Alemanha e de qualquer emissora de TV nesta Copa do Mundo… que tal um cineminha? Como já é tradição n’A ARCA, a gente te ajuda com uma listinha maneira de fitas bacanudas! O tema? Sim, sim… futebol! Filmes legais, divertidos e praticamente ignorados pelo grande público em suas passagens pelos cinemas – isto, claro, no caso daqueles que passaram.

Logo, vista a Camisa, pendure a flâmula, empunhe a bandeira, escolha o título de sua preferência e boa Copa pra ti! A não ser, claro, que você prefira passar seu dia de 752 horas na frente do computador… ;-)

• OS 11 CONVOCADOS!

Camisa 01.
GARRINCHA, ALEGRIA DO POVO (1962)

Favor não confundir com a péssima recente cinebiografia (da qual falaremos mais tarde): dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, este documentário que narra a ascensão e a carreira do maior jogador de futebol da história nacional do esporte ganhou importância histórica à medida que o tempo passou e Manoel Francisco dos Santos, vulgo Mané Garrincha, envelheceu e morreu no esquecimento (o que aconteceu em 1983) – além de ostentar o título de primeiro documentário brasileiro sobre um esportista. A fita acompanha a trajetória de Garrincha, conhecido por suas célebres pernas tortas e seus dribles espetaculares, intercalando trechos de cinejornais e cenas reais de sua atuação nas Copas de 1958 e 1962. e retratando pela primeira vez o futebol como ele é: um enorme fenômeno social. Obrigatório para qualquer fã de futebol – e para qualquer fã de cinema. Na escalação do time de filmes d’A ARCA, sem dúvidas é o capitão. ;-)

Camisa 02.
FEBRE DE BOLA (Fever Pitch, 1997)

Este divertidíssimo longa inglês fala sobre futebol, mas foca seu enredo em um ponto de vista não muito habitual no cinema: o do torcedor fanático. Primeiro filme adaptado de uma obra de Nick Hornby (o mesmo autor de Alta Fidelidade e Um Grande Garoto) e com roteiro escrito pelo próprio, a fita dirigida por David Evans narra o martírio de Paul Ashworth (Colin Firth), professor de inglês e simplesmente obcecado pelo Arsenal da Inglaterra, que apaixona-se por Sarah Hughes (Ruth Gemmell) ao mesmo tempo que o Arsenal participa de um campeonato que representa uma grande chance de torná-lo campeão novamente depois de 18 anos na berlinda. O problema é que Sarah e o esporte são meio… incompatíveis. E agora? Curiosidade: Febre de Bola foi refilmado em 2005 nos EUA, com o título Amor em Jogo, onde fizeram a “gentileza” de trocar o futebol pelo baseball e Colin Firth por Jimmy Fallon… ugh!

Camisa 03.
BOLEIROS – ERA UMA VEZ O FUTEBOL (1998)

Indispensável para quem curte cinema nacional, este trabalho comandado pelo ótimo cineasta brazuca Ugo Giorgetti (de Festa e Sábado, dois grandes filmes) traz o esporte preferido do brasileiro como pano de fundo para construir o seu instigante mosaico de personagens bizarros em diversas subtramas a la Short Cuts – Cenas da Vida. Assim, acompanhamos um grupo de amigos e ex-jogadores, ex-juízes e ex-técnicos, interpretados por tipos como Otávio Augusto, Rogério Cardoso, Lima Duarte e Flávio Migliaccio, que reúnem-se num botequinho de São Paulo religiosamente para discutir as histórias de seus passados e relembrar a glória dos dias de ouro. Ganhou uma seqüência recentemente, Boleiros 2: Vencedores e Vencidos, que não chega aos pés de seu antecessor.

Camisa 04.
COM A BOLA TODA (Mad About Mambo, 2000)

Não, não estamos falando daquele filme sobre queimada: trata-se de uma comédia bem gostosinha, co-produzida entre a Inglaterra e a Irlanda e que tem tudo para agradar aos casaizinhos – e de quebra, traz um enredo curioso: Danny Mitchell (William Ash) estuda num colégio católico e pretende tornar-se um grande atacante. Mas antes que entre para o time de futebol da escola, Danny resolve matricular-se num curso de samba (?) para aperfeiçoar um pequeno detalhe em seu desempenho: o “gingado” (?). O causo é que o rapaz, fã dos jogadores brasileiros, sabe que este é o diferencial que torna nossa equipe a melhor do mundo. O problema é que Danny cai de amores por uma dançarina, a bela Lucy (Keri Russell, a nossa amiga Felicity), e é aí que seus problemas começam. Com a Bola Toda não é o tipo de filme que fará alguma diferença nas nossas vidas, mas rende uma ótima sessão-pipoca. :-)

Camisa 05.
KUNG-FU FUTEBOL CLUBE (Siu Lam Juk Kau/Shaolin Soccer, 2001)

Esqueça a horrorosa tradução do título em português: Shaolin Soccer é nada menos que uma das fitas mais engraçadas dos últimos anos! Misturando humor nonsense com uma dose de efeitos visuais bacanésimos, o longa de Stephen Chow (o mesmo que mais tarde comandaria o hilário Kung-Fu Hustle) bateu esportes, melodrama e artes marciais no liquidificador e tornou-se o maior sucesso de bilheteria de Hong Kong em seu próprio país, arrecadando por lá cerca de US$ 8 milhões de dólares. Na história, Sing (vivido pelo próprio Chow) é “adotado” por um time de futebol formado por… mestres do kung-fu (?) para usufruir de seu poderosíssimo chute num campeonato de futebol que dará um generoso prêmio em dinheiro ao vencedor. Não assistiu ainda? Herege! :-D

Camisa 06.
PENALIDADE MÁXIMA (Mean Machine, 2001)
O grande atrativo desta comédia dramática inglesa, refilmagem do bacana longa gringo Golpe Baixo, de 1974, é a presença do grande Vinnie Jones (o Fanático mutante, sabe?) como o astro de futebol britânico Danny ‘Mean Machine’ Meehan, acostumado à fazer bom uso de sua fama e fortuna. O caso é que Meehan caiu em desgraça ao ser expulso de seu time, acusado de ter manipulado o resultado de um jogo; embriagado, agride um policial e é condenado a três anos de prisão. Insultado pelos presos e mal-visto pelos guardas, Meehan aprende a se levantar com a ajuda do governador (David Hemmings), que o incentiva a treinar o time da cadeia para um campeonato interno. Penalidade Máxima tem lá seus clichêzinhos, mas num saldo geral, é bem cativante. E tem o Vinnie Jones atuando com o Jason Statham, pô! Curiosidade: Golpe Baixo ganhou em 2005 mais um remake ianque estrelado por Adam Sandler e Chris Rock.

Camisa 07.
DRIBLANDO O DESTINO (Bend It Like Beckham, 2002)

É um filme de futebol… para meninas. Com uma impressionante divulgação boca-a-boca, Driblando o Destino, rodado na Inglaterra pelo keniano Gurinder Chadha, conquistou uma série de fãs e fez relativo sucesso em nossos cinemas ao tratar da velha questão tradição vs. sonho. Assim, conhecemos a jovem indiana radicada na Grã-Bretanha, Jesminder Bhamra (Parminder K. Nagra). Fã número um de David Beckham, deseja tornar-se uma grande jogadora profissional e descobre em si um gigantesco talento para o esporte, mas esbarra na intolerância de seu tradicionalésimo clã, que quer ver sua caçula casar e constituir família conforme o costume da Índia. A seu favor, a garota tem o apoio de sua melhor amiga (Keira Knightley) e a paixonite que alimenta pelo técnico do time feminino local (Jonathan Rhys-Meyers). Vale a pena.

Camisa 08.
O MILAGRE DE BERNA (Das Wunder Von Bern, 2003)

E o futebol também tem seus exemplares cult! O drama de guerra O Milagre de Berna, dirigido por Sönke Wortmann, reconta um evento marcante para a história da Alemanha pós-2.ª Guerra Mundial. Um deles é o episódio que ficou conhecido mundialmente como “o Milagre de Berna”: a histórica vitória da Seleção Alemã contra a Hungria na Copa do Mundo de 1954, evento que presenteou o país devastado pela guerra com seu primeiro título mundial e representou, ao lado da queda do Muro de Berlim, um sopro de esperança ao povo alemão. A história serve de pano de fundo para uma família que presencia o retorno de seu patriarca, veterano de guerra, depois da distância de 13 anos, e sua difícil adaptação. É um longa pequeno, que não está à altura da importância de seu foco, mas ainda assim rende um bom trabalho.

Camisa 09.
FELIZ NATAL (Joyeux Nöel, 2005)

Este drama, dirigido com sensibilidade e uma leve dose de sacarina pelo francês Christian Carion, certamente é o título mais comovente desta seleção. Cultuado ao redor do mundo, esta co-produção entre França, Inglaterra, Alemanha e Romênia – indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro nesta última edição do evento – narra uma história real que, por si só, já é deveras fascinante e regozijante: durante a 1.ª Guerra Mundial, em 1914, o dia de Natal faz com que soldados franceses, alemães e escoceses, inimigos lutando entre si, decidam estabelecer um cessar-fogo, abandonar suas trincheiras, guardar seus rifles, enterrar seus mortos e passar um dia inteiro unidos em clima de paz e confraternização. E o que isso tem a ver com a Copa do Mundo? Bem, um dos eventos que unem e trazem a paz entre os inimigos é uma animada e sofrida peladinha em plena trincheira. Tente não lacrimejar, se você for capaz!

Camisa 10.
GOL! (Goal: The Dream Begins, 2005)

Já este é o longa mais fraco desta seleção – o que não tira seus méritos de forma alguma. Produzido pelos estúdios Disney e comandado pelo fraco Danny Cannon (Juiz Dredd diz algo a você?), Gol!, que traz um aval oficial da Fifa, fala sobre o jovem Santiago Munez (Kuno Becker), cidadão norte-americano que não é lá muito bem de vida e alimenta o sonho praticamente impossível de, um dia, tornar-se um grande jogador de futebol profissional. Talento ele tem de sobra; o que lhe falta é a oportunidade (leia-se financeira) de investir neste sonho. Até que, por uma série de eventos fantásticos, Santiago se vê… contratado pelo Manchester United da Inglaterra para atuar na primeiríssima divisão! Primeira parte de uma trilogia sobre a fictícia carreira de Santiago Munez – as outras duas partes estão em fase de filmagens e programadas para chegar às telas em 2007 -, Gol! usa e abusa de clichês para emocionar o público, mas resulta num belo drama esportivo, ainda que esquecível.

Camisa 11.
HOOLIGANS (Green Street Hooligans, 2005)

A camisa 11 da nossa seleção de filmes não poderia ser menos importante. Filmaço com “F” maiúsculo e em negrito, Hooligans gerou polêmica e ganhou elogios rasgados da imprensa e do público lá fora – o que não impediu a fantástica película de Lexi Alexander de ser vergonhosamente despejada direto nas prateleiras das videolocadoras aqui no Brasil. O tema é espinhudo: Matt Buckner (Elijah Wood) é expulso injustamente de Harvard por conta de uma falsa acusação de porte de drogas e, precisando espairecer, viaja a Londres para passar uns dias na casa de sua irmã (Claire Forlani). Lá, ele conhece e faz amizade com o cunhado dela, Pete (o ótimo Charlie Hunnam), que rapidamente integra o ianque ao universo dos Hooligans, as violentas e ultra-sanguinárias torcidas organizadas. Hum, será que encontramos a razão? Enfim, Hooligans é cruel, sujo e visceral. Ou seja: obrigatório! Hehehe.

• NA RESERVA

O MEDO DO GOLEIRO DIANTE DO PÊNALTI (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter, 1972)
Bizarro trabalho comandado por Wim Wenders antes de conquistar fama com trabalhos como O Estado das Coisas, O Amigo Americano e Asas do Desejo. É um de seus trabalhos mais fraco – e vamos concordar, quem conhece a filmografia de Wenders sabe que ele tem mais erros do que acertos -, mas não deixa de ser curioso pelo tom macabro de sua história: Joseph Bloch (Arthur Brauss) é um goleiro que perde um pênalti e é substituído durante um jogo. Desorientado, transforma em pesadelo seu encontro com uma funcionária de um cinema ao assassiná-la sem motivo aparente. Recomendado apenas para os fãs fervorosos do diretor, mas estes não terão do que reclamar.

TODOS OS CORAÇÕES DO MUNDO (1995)
Dirigido pelo conceituado cineasta brasileiro Murilo Salles (Como Nascem os Anjos), este belíssimo documentário foi feito por encomenda da Fifa. Escrito por George Vecsey (colunista do New York Times), com trilha sonora original de Lalo Schifrin e narração de Liev Schreiber (atualmente nas telas como o principal nome de A Profecia), é praticamente um resumão da Copa do Mundo de 1994, com sua câmera voltada aos dois times finalistas, Brasil e Itália. Seu diferencial com relação a outros filmes da Fifa é a forma com que Salles constrói seu doc, ressaltando sobretudo a empolgação e a adrenalina que envolve os torcedores rumo ao resultado final. É um fabuloso espetáculo visual – e se visto na tela grande, fica melhor ainda. Por outro lado, pode ser bastante maçante para quem não é fã de futebol.

A COPA (Phörpa, 1999)
Divertida comédia dramática produzida no Butão, A Copa, dirigido por Khyentse Norbu, tem sua importância ao desmistificar vários tabus com relação ao budismo. No enredo do longa, o jovem monge tibetano Orgyen (Jamyang Lodro), apaixonadíssimo por futebol, faz das tripas coração para, junto com um amigo, burlar as normas do monastério ao qual está confinado, para poder acompanhar os jogos das principais seleções da Copa do Mundo de 1998. Bem bacaninha, mas tendencioso ao “estilo Irã” de contar histórias; ou seja, em certos momentos torna-se arrastado e pode ser extremamente cruel para aqueles que não curtem este tipo de cinema.

• BATEU NA TRAVE, FOI PRA FORA, FEZ FALTA, CARTÃO VERMELHO!

FUGA PARA A VITÓRIA (Victory, 1981)
Chatíssimo drama de prisão dirigido pelo mestre John Huston, que conta a história de um grupo de prisioneiros de guerra que disputam um amistoso contra o time de oficiais nazistas alemães e, assim, planejam uma bizarra fuga durante a partida. Estrelado por Max Von Sydow, Michael Caine, Sylvester Stallone (?) e Pelé (???).

UMA AVENTURA DO ZICO (1998)
Medonha tentativa de emplacar o ex-jogador Zico como ícone infantil (!). Na pseudo-história desta coisa, um pivetinho rico, raivoso por não ter sido selecionado para atuar na escolinha de futebol do craque, cria uma série de confusões ao construir um clone do jogador. Só podia ser filme do mesmo Antônio Carlos da Fontoura que “cometeu” aquilo que atende pelo nome de Gatão de Meia Idade. Afe…

GARRINCHA: ESTRELA SOLITÁRIA (2003)
Cinebiografia que romanceia a vida de Mané Garrincha (vivido aqui por André Gonçalves), sua carreira e seu turbulento envolvimento amoroso com a cantora Elza Soares (Taís Araújo). Embora traga nomes respeitosos em seu elenco, como Marília Pêra, Chico Diaz e o Rei dos Cafajestes Jece Valadão, resulta fraco e indigno da memória do brilhante jogador.

O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA (2004)
Ugh! Preciso mesmo falar DISSO? Você, caro leitor, não poderia me poupar das gélidas e pavorosas lembranças deste troço e clicar neste link aqui para descobrir a razão do meu asco por si só? Obrigado pela compreensão.

PELÉ ETERNO (2004)
Instrumento de apologia e bajulação em forma de filme, este documentário serve apenas para apologizar a imagem do tido Rei do Futebol (título que prefiro passar para o Garrincha, na boa). A fita dirigida-via-correspondência por Aníbal Massaini e produzida pelo próprio ex-jogador, faz questão de lembrar o espectador a cada segundo que ele é o “melhor”. Não dá pra saber quem é mais egocêntrico, a figura ou o filme. Pra piorar ainda mais, é péssimo como cinema.

• CURTINHAS PARA VER ENTRE O PRIMEIRO E O SEGUNDO TEMPO

Barbosa (1988), de Jorge Furtado • Rapaz viaja no tempo e volta a 16 de julho de 1950 para tentar evitar a falha do goleiro Barbosa, que tirou a Copa do Mundo do Brasil em plena inauguração do estádio do Maracanã.

Cartão Vermelho (1994), de Laís Bodansky • Engraçadíssimo curta sobre uma menina que adora jogar futebol com os meninos, apenas para ter o prazer de mirar a bola direto em suas “partes baixas” (!). Mal sabe a garota que seus atos gerarão uma impiedosa “vingança” dos garotos…

Uma História de Futebol (1998), de Paulo Machline Indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2001, narra as lembranças de um senhor que, na infância, disputava partidas de futebol com vários garotos em Bauru – entre eles, o pequeno Pelé.

O FUTEBOL NO CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 06/06/2006
Complemento do especial para as comemorações da Copa do Mundo 2006.