O Aviador

26/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/02/2005.

O Aviador (The Aviator)

Vamos direto ao ponto: O Aviador (The Aviator, 2004), o novo longa-metragem dirigido pelo grande Martin Scorsese (do bom Gangues de Nova York), é muito bom. Na verdade, é ótimo. Pra ser sincero, é um pusta dum senhor filme, o melhor de sua carreira desde o fantástico Os Bons Companheiros, de 1990. O único problema é que provavelmente a grande maioria dos mortais brazucas não compartilhará da mesma opinião que eu. Na verdade, a produção soará pra muita gente como “bonzinho e nada mais”. Isso porque tem uma boa parcela do público que vai sair da sessão xingando Deus e o mundo, principalmente as menininhas que pagarão ingressos só pra ver o Leonardo DiCaprio (sim, estas criaturas ainda existem!).

Eu explico: independente de ser louvado pela crítica e de conquistar uma boa fatia desta última temporada de prêmios cinematográficos, O Aviador acaba se tornando, mesmo que sem querer, um trabalho direcionado a um público específico. Dêem só uma olhada: um drama relativamente parado, com duração de quase três horas (sim, isso não tem nada a ver, mas é diferente você assistir três horas de pauleira como O Senhor dos Anéis e três horas só de diálogos, não é?), que retrata um período crucial na vida de uma personalidade que nem todos conhecem, principalmente aqui no Brasil. E detalhe: sem dar muitas referências do passado ou do futuro da personagem: simplesmente começando a história e terminando em um ponto qualquer, sem fornecer à platéia qualquer explicação sobre de onde veio ou como foi o fim daquele cara. Bacana isso, não?

A tal personalidade em questão é um cara multimilionário chamado Howard Hughes, produtor/diretor de cinema e aviador. Questão número um: Howard Hughes é, sim, uma das maiores lendas do cinema norte-americano, além de ter realizado feitos incrivelmente notáveis na aviação e ter uma bizarra história pessoal. Entretanto, é uma personalidade cuja importância é restrita aos americanos. Uma grande parte de nossa platéia com certeza ficará pensando: “Pombas, mas quem diabos é esse tal Howard Hughes?”. Seus feitos não dizem muito respeito a nós. É como se fizéssemos uma cinebiografia do Silvio Santos e despachássemos para exibição lá fora. Os caras ficariam pensando: “E nós com isso?” – o que já não aconteceria com um Pelé Eterno que, mesmo sendo muito ruim como filme, narra a trajetória de uma figura mundialmente conhecida.

Questão número dois: como disse antes, o roteiro de John Logan (Gladiador, A Máquina do Tempo) não se preocupa em explicar à platéia desavisada quem é o tal Howard Hughes. Apenas conta um trecho da vida do cara. Quem não sabe absolutamente nada dele, vai boiar em alguns momentos. O Aviador somente se revela a grande obra que é, quando o espectador é familiarizado com o universo da indústria cinematográfica entre os anos 20 e 50, ou então quando o espectador é um louco psicopata doente por cinema, como este Zarko que vos fala. :-D

O Aviador começa no meio dos anos 20, quando Howard Hughes (interpretado por Leonardo DiCaprio – dãããã…) ainda é apenas um jovem aspirante a produtor recém-chegado à Hollywood. Dono de uma fortuna herdada do pai – que faleceu quando Hughes tinha 18 anos -, o cara está envolvido nas filmagens de seu primeiro (e um dos dois únicos) filme como diretor: o clássico Anjos do Inferno (Hell’s Angels), drama ambientado na 1.ª Guerra Mundial. Logo de cara já temos uma idéia de quão perfeccionista é o homem: para uma tomada aérea, Hughes utilizou nada menos do que 26 câmeras simultaneamente (!); quando a fita ficou pronta, Hughes resolveu refazer tudo, para incluir som (Anjos seria originalmente mudo); o diretor tinha o costume de paralisar as filmagens durante meses, só para esperar “as nuvens perfeitas”; e o orçamento total de Anjos do Inferno chegou a exorbitantes 4 milhões de dólares – algo que não é pitomba nenhuma hoje em dia, mas na época era o cúmulo.

Pois bem, Anjos do Inferno, previsto como um fracasso pela comunidade cinematográfica da época, se tornou um enorme sucesso de bilheteria e de crítica, alçando o nome de Hughes ao estrelato e transformando sua protagonista, Jean Harlow (Gwen Stefani, a vocalista da banda No Doubt), em estrela absoluta. Anjos do Inferno apresentou a Hughes o que viria a ser sua nova paixão: a aeronáutica. Obcecado por aviões, o cara fundou uma companhia aérea, a Hughes Aircraft; construiu um modelo próprio de aeronave; e simplesmente bateu o recorde de velocidade de Charles Lindbergh. Mais tarde, Hughes se envolveu numa confusão dos diabos ao assumir o controle acionário da empresa de navegação aérea Trans World Airlines e rivalizar com o inescrupuloso Juan Trippe (Alec Baldwin, de The Cooler), presidente da Pan Am, cuja força vinha do apoio do influente e escrotíssimo senador Ralph Owen Brewster (Alan Alda, de M*A*S*H, excelente no papel). Isso sem falar no “quase abacaxi” chamado The Hercules, o maior hidroavião do mundo, que Hughes teimou em construir, mesmo não tendo utilidade alguma.

Outros episódios marcantes da vida de Hughes são retratados em O Aviador: seu relacionamento com a maluquinha, independente e indesejável Katharine Hepburn (a maravilhosa Cate Blanchett) – que ficaria conhecida mais tarde pelas comédias que viria a protagonizar com seu futuro marido Spencer Tracy -, e o duradouro romance com Ava Gardner (Kate Beckinsale, a “pagadora de micos” de Underworld- Anjos da Noite e Van Helsing) – duas estrelas que funcionavam para Hughes como “calmantes”; as complicadas filmagens de dois grandes clássicos produzidos por ele, Scarface – a Vergonha de uma Nação (1935) e o hilariante O Proscrito (1943), este último famoso por conta dos enormes “melões” de sua atriz principal, Jane Russell; e sua batalha contra suas complexas neuroses, no caso seu medo absoluto de germes e sua mania de limpeza – o que quase o levou à loucura e causou, finalmente, sua reclusão em seus últimos anos de vida (isso por volta da década de 70, fase não retratada em O Aviador).

Como se vê, não é qualquer mané que se diga diretor que é capaz de retratar a história de Howard Hughes nas telonas com o equilíbrio necessário. Mas o roteiro de John Logan e a direção mais do que competente de Martin Scorsese não só realizaram esta tarefa com louvor como ainda a transformaram numa aula pessoal de como se fazer cinema. É só reparar na excelente montagem de Thelma Schoonmaker e na impressionante fotografia de Robert Richardson (ambos colaboradores habituais de Scorsese), lotadas de referências e feitas exatamente da mesma maneira com que os filmes eram feitos nas décadas retratadas (mais detalhes logo abaixo). E uma ressalva especial para os efeitos visuais, principalmente na cena do acidente em Beverly Hills (não vou contar mais pra não estragar a surpresa).

Quanto ao elenco, lotado de grandes atores, destacam-se numa boa John C. Reilly (As Horas, Chicago), como o braço direito de Hughes, Noah Dietrich, e Ian Holm (o Bilbo Baggins!), como o Professor Fitz, encarregado de “encontrar nuvens” para as filmagens de Anjos do Inferno, além das pontinhas muito bem-humoradas do nosso Duende Verde, Willem Dafoe, como um repórter, e Jude Law (estava demorando pra ele aparecer…), como um abusado que atende pelo nome de Errol Flynn.

Mas o show ainda é de Cate Blanchett. Quem vê as fitas antigas estreladas por Katharine Hepburn, nota numa boa que Blanchett simplesmente saiu de seu corpo e deu lugar à atriz, com sua bizarra dicção e trejeitos tão neuróticos quanto os do próprio Hughes. Seu trabalho é tão assustador quanto a atuação de Jamie Foxx em Ray. E lá vem a pergunta que não quer calar: e Leonardo DiCaprio? Sim, ele está muito bem. Bem, eu sempre achei que o namoradão da Gisele Bündchen tinha muito talento – por mais que teimasse em desperdiçá-lo nos Titanics da vida -, e em O Aviador isto é bem visível. Pode não ser a melhor atuação do ano, e com certeza não é, mas DiCaprio soube dosar os altos e baixos de Hughes com leveza e sem exageros. Putz, nunca pensei que fosse falar assim do Leonardo DiCaprio… :-P

Enfim, O Aviador é um filme grandioso, bonito, bem escrito, bem dirigido e bem interpretado. E um dedicado e emocionado legado que honra numa boa a memória deste sujeito FO-DE-DO que mudou a concepção do que é fazer cinema. Também, é um filme do Scorsese! Só podia ser ÓTIMO! Mas cá entre nós, uma coisa ficou na minha cabeça: quantos aí pagariam ingresso para assistir uma cinebiografia do nosso querido Silvio Santos, o “Homem do Baú”? :-D

CURIOSIDADES:

O Aviador seria originalmente dirigido por Michael Mann (o homem forte por trás de Colateral), que decidiu apenas produzir o longa quando percebeu que este filme seria a terceira biografia de sua carreira. Mann dirigiu Ali, biografia do boxeador Muhammad Ali, e O Informante, que narra um período na vida do executivo da indústria tabagista Jeffrey Wigand.

• Embora Cate Blanchett tenha sido de fato a primeira escolha de Martin Scorsese para viver Katharine Hepburn, os produtores insisitiram que queriam Nicole Kidman para a personagem, mas a atriz não aceitou por motivos não divulgados. O papel de Howard Hughes foi inicialmente oferecido a Jim Carrey. A intérprete de Ava Gardner seria Gwyneth Paltrow, que não pôde aceitar por problemas de agenda. Graças a Deus.

O Aviador é dividido em capítulos, sendo que cada capítulo do filme corresponde a um ano. Esta divisão não é por acaso: Scorsese usou uma técnica diferente de cores a cada capítulo; estas cores correspondem à técnica comum usada no ano retratado. Na cena em que Hughes conhece Errol Flynn, por exemplo, ele pede um prato de ervilhas, e as ervilhas surgem num tom azul-turquesa. Nesta época, a técnica usada nos filmes coloridos (no caso, o “Technicolor de duas faixas”) não reconhecia determinados tons de verde, substituindo-o por azul-turquesa. À medida que os anos avançam, as cores ficam nitidamente mais encorpadas.

• Esta mesma “brincadeira” foi aplicada com relação à montagem: nos primeiros anos retratados em O Aviador, a montagem é idêntica às fitas dos anos 40; montagem, aliás, “re-reproduzida” também em outra produção que homenageia esta década: Capitão Sky e o Mundo de Amanhã.

• A lendária aviadora Amelia Earhart apareceria no filme, interpretada pela atriz Jane Lynch (de Desventuras em Série), mas suas cenas foram cortadas da montagem final.

• É impressão minha ou desta vez eu realmente exagerei no tamanho do texto? :-)

THE AVIATOR • EUA • 2004
Direção de Martin Scorsese • Roteiro de John Logan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, John C. Reilly, Alec Baldwin, Alan Alda, Ian Holm, Gwen Stefani, Brent Spiner, Willem Dafoe, Jude Law.
170 min. • Distribuição: Warner Bros.

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Kinsey – Vamos Falar de Sexo

25/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/03/2005.

Kinsey - Vamos Falar de Sexo

O zoólogo e professor de biologia Alfred Charles Kinsey (1894-1956) não é lendário apenas por suas atividades citadas ao início desta linha. Na verdade, a atividade que o tornou famoso – e polêmico – é bem mais, na falta de uma palavra melhor, bizarra: Kinsey era algo como um “pesquisador sexual”. Suas pesquisas na área de comportamento sexual humano renderam muitas dores de cabeça para o homem e para sua esposa, Clara Bracken McMillen, durante os anos 40 e 50 – a época do auge do conservadorismo americano -, mas também gravou o nome do professor na História. Ok, beleza, este foi um breve resumo de quem foi o tal do Kinsey. Mas… E daí? :-P

Esta é a sensação que parece pegar o espectador ao final da sessão de Kinsey – Vamos Falar de Sexo (Kinsey, 2004). Definitivamente, os méritos do diretor Bill Condon, do magnífico Deuses e Monstros, não devem ser discutidos. O cara é bom mesmo. Mas sinceramente? Não entendi até agora a necessidade de transformar a vida de Alfred Kinsey em filme. A meu ver, não importa se o cara foi importante ou não: o essencial é que a trajetória da personalidade real a ser retratada tenha um quê de narrativa cinematográfica. Por exemplo: Jim Morrisson, o vocalista dos Doors. Pô, o músico não só é uma pusta lenda como sua vida era totalmente pirada e cheia de elementos cinematográficos (como o índio-fantasma que rondava Morrisson o tempo todo). Sem estes elementos, não há alma. Que é exatamente o que acontece com este Kinsey.

Por outro lado, como comentei no início do parágrafo acima, o fator poderiam-ter-usado-os-milhões-de-dólares-gastos-aqui-em-outra-coisa não muda em nada o fato de que Kinsey é um excelente trabalho técnico. Não há nada fora do lugar: a fotografia é adequada, a trilha sonora, idem, as atuações, genuínas e a direção, mais do que coerente. E o roteiro, o único elemento que concentra as poucas falhas do longa (falarei sobre isso mais tarde), tem a oportuna sacada de não tomar partido de ninguém. Logo, Kinsey, a produção, vale centavo por centavo do dinheiro gasto com o ingresso.

Kinsey começa com uma rápida visita à infância e adolescência do personagem central, vivendo à sombra da religiosidade da família e da rigidez quase psicótica do pai, Alfred Aequine Kinsey (John Lithgow – como que não lembraram deste sujeito no Oscar deste ano, pelo amor de Deus?). Kinsey, o filho, rebela-se contra o pai assim que entra em sua fase adulta, e dedica-se então à sua paixão: insetos. Mais tarde, lá pelos 25 anos (e com o corpo de Liam Neeson, ótimo como sempre), torna-se um zoólogo formado em Harvard e especialista em vespas. Contratado pela Universidade de Indiana, é tido como um perdedor pela maioria dos alunos e funcionários da Faculdade (Biologia é uma área de pouco interesse). O que não o impede de conhecer e, mais tarde, se casar com uma de suas alunas, a curiosa Clara – interpretada por Laura Linney, de O Show de Truman, justificando numa boa a indicação ao prêmio de Atriz Coadjuvante.

O interesse de Kinsey pelo “lado técnico” do sexo surge quando descobre ser, ahn, “incompatível” com Clara, e percebe que até os médicos têm receio de falar sobre sexo – a cena em que o casal Kinsey vai a um médico é muito engraçada, por sinal. Quando alguns alunos começam a procurá-lo para esclarecer dúvidas relativas à sexualidade, Kinsey se entrega de vez à idéia de pesquisar as atividades sexuais como algo puramente científico. Para isto, contrata uma equipe de pesquisadores, dentre os quais se destacam Paul Gebhard (Timothy Hutton, de A Metade Negra), Wardell Pomeroy (Chris O’Donnell, aquele que “matou” o Robin, numa “quase ponta”) e o mais chegado ao zoólogo, Clyde Martin (Peter Sarsgaard, de Meninos Não Choram e Hora de Voltar, outro que merecia ter sido lembrado pela Academia) – este último, aliás, protagoniza uma cena bem pesada ao lado de Kinsey. Pois bem, com sua equipe formada, o professor dá início às suas tarefas.

Alfred Kinsey se tornou polêmico por virar a burguesia puritana de ponta-cabeça e falar sobre sexo com uma franqueza sem limites décadas antes da revolução sexual dos anos 60. Sua técnica consistia em deixar a pessoa à vontade, de modo que ela não se sentisse presa ao falar sobre sua vida de “esbórnia” (!). Este mesmo clima liberal reinava entre seus pesquisadores e suas respectivas esposas, que freqüentemente faziam troca de casais (!?). A fama de Kinsey atingiu o ápice em 1948, quando publicou a primeira parte de seu estudo, intitulado Sexual Behavior of the Human Male, que vendeu mais de 200 mil exemplares e, dentre outras coisas, afirmava que metade dos caras casados tinham casos extraconjugais, 92% dos homens admitiam se masturbar e pelo menos 37% dos homens norte-americanos tiveram experiências homossexuais. Se alguns dos tópicos podem chocar ainda hoje, em 2005, imaginem o estrago que não causou nos anos 40… Nuuuuussa! :-D

Se a primeira parte do estudo levou o nome de Kinsey aos céus, o “volume dois” do negócio, Sexual Behavior of the Human Female, publicado em 1953, teve o mesmo efeito de um puxão de tapete: o livro foi visto como um ataque brutal aos valores norte-americanos, em alta por causa da Guerra Fria. Kinsey perdeu seus patrocinadores e, assim, começa sua descida aos infernos.

Como vocês podem ver, a vida de Alfred Kinsey, por mais polêmica que possa ter sido (e foi, com certeza!), não possui nada tão extraordinário que sustente duas horas de longa-metragem. Afinal, ser apenas um homem à frente de seu tempo não é o suficiente. Ainda assim, o roteiro conta com alguns momentos brilhantes e outros pesadíssimos, como a tão comentada cena do beijo de língua entre Peter Sarsgaard e Liam Neeson. Bem, os mais puritanos realmente acharão a cena difícil de digerir – mas não é nada agressiva ou gratuita. Por outro lado, somos obrigados a engolir troços completamente equivocados. Olhem só: num determinado ponto, Kinsey afirma que, de acordo com seus estudos, os brasileiros num todo são adeptos ferrenhos da zoofilia (!?!?). Bem, de onde nós nascemos, então? De ovos? :-P

E por último, um aviso aos distraídos que enxergam coisa onde não há: aqui, não rola nada de SACANAGEM, o que pode causar certa decepção naqueles cujos hormônios andam mais descontrolados. Se alguém aí quer assistir ao longa-metragem esperando qualquer sacanagem, é melhor ficar em casa vendo ao Noite Afora, aquela coisa tosca apresentada pela Monique Evans! Deus, aquilo é um “crássico”! Ah… mas não passa mais? Saco. Enfim, se você quer ver um trabalhinho bacana, bem escrito e com tudo em seu devido lugar, pode ir numa boa! Só toma cuidado pra não se empolgar nas cenas mais… ahn, digamos assim… legais. É, tem quase nada mas tem! Empreguinho bom esse deste tal de Kinsey… :-D

E um adendo: a Monique Evans não está no filme. :-)

CURIOSIDADES:

• O diretor Bill Condon declarou em uma recente entrevista que seu maior desafio em transformar Kinsey em filme foi abranger em apenas 37 dias de filmagem mais de 15 anos de pesquisa do Dr. Kinsey, em que ele entrevistou mais de 18.000 pessoas espalhadas pelos Estados Unidos. Condon também comentou que, antes de escrever o roteiro, durante as entrevistas que fez com vários colegas do pesquisador, ficou estarrecido com alguns pontos da vida de Alfred Kinsey que não conhecia – e preferiu não incluir no longa-metragem.

• Condon e Laura Linney realizaram uma sessão beneficiente na Universidade de Indiana, onde o pesquisador lecionou, com o objetivo de angariar fundos para o Kinsey Institute.

• A tão polêmica cena do strip-tease de Peter Sarsgaard no motel não estava no roteiro. Foi uma improvisação do ator. Tanto que nota-se a expressão de certa forma assustada de Liam Neeson na cena.

KINSEY • EUA/ALE • 2004
Direção de Bill Condon • Roteiro de Bill Condon
Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Chris O’Donnell, Timothy Hutton, John Lithgow, Tim Curry, Oliver Platt, Lyyn Redgrave, Veronica Cartwright.
119 min. • Distribuição: 20th Century Fox.


Celular – Um Grito de Socorro

25/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/10/2004.

Celular - Um Grito de Socorro (Cellular)

Quatro minutos. Quando as luzes da sala de projeção se apagam e os créditos de Celular – Um Grito de Socorro (Cellular, 2004) rolam pela tela, quatro minutos é o tempo que o espectador tem para respirar até que a pancadaria comece a rolar solta – aliás, se o som da sala de cinema estiver no talo, prepare-se para levar um belo de um susto. A partir daí, não há mais descanso: durante os 94 minutos de duração da fita, o diretor David R. Ellis (deixando pra trás os seus dias ruins de Premonição 2) conduz uma trama que, apesar de ter uma linha de início bem simples, reserva algumas surpresas bem legais em seu decorrer. E o que é melhor: o ritmo acelerado do início permanece até o último minuto. O elenco afinado e o roteiro bem construído (cortesia do novato Chris Morgan a partir de uma história de Larry Cohen, do muito bom Por Um Fio) não deixam a peteca cair em momento algum.

Nos quatro tranqüilos minutos iniciais, a professora de biologia Jessica Martin (Kim Basinger, a belíssima atriz oscarizada por Los Angeles: Cidade Proibida) leva o filho até o ônibus escolar e volta para sua casa de classe média-alta. Ao final destes quatro minutos, numa quebra de ritmo surpreendente, Jessica é brutalmente seqüestrada por três homens armados que invadem sua casa e ainda matam a empregada. A atônita Jessica, praticamente em estado de choque, é levada para uma casa em local desconhecido, trancafiada no sótão e ainda vê o único telefone do lugar ser destruído a golpes de marreta pelo líder do grupo, o perigoso Greer (Jason Statham, colaborador de Guy Ritchie em filmes como Snatch e Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes). Jessica, que não faz a menor idéia do porquê de estar naquela situação, toma em suas mãos o que sobrou do telefone e emenda alguns fios.

Um corte de câmera e somos levados a um parque de diversões em um píer. O imaturo e despreocupado Ryan (Chris Evans, que poderá ser visto em breve como o Tocha Humana do duvidoso longa do Quarteto Fantástico) chora no ombro do amigo Chad (Eric Christian Olsen) as agruras de ter sido chutado pela namorada (Jessica Biel). Seu celular toca. Do outro lado da linha, uma mulher com voz assustada se identifica como Jessica Martin e pede ajuda. Sem nunca ter tido contato algum com aquela mulher, o rapaz a início duvida de Jessica, mas logo se convence da verdade depois de testemunhar, via telefone, uma ameaça de morte sofrida por ela. Num acesso de heroísmo e integridade, Ryan percebe que é o único que poderá impedir Jessica e sua família de ser dizimada, e corre numa luta desesperada para descobrir o que está acontecendo. Se a ligação cair, Jessica pode dar adeus à vida.

E é isso. Claro que o roteiro não pára por aí, afinal até aqui se foram apenas 15 minutos de filme. A questão é que se torna praticamente impossível comentar algo mais sobre o enredo sem destruir o prazer que é assistir Celular. Assim como todo filme policial, há uma subtrama que é revelada aos poucos – no caso, a razão de Jessica estar presa no sótão -, há os personagens paralelos aparentemente sem conexão e que se mostram vitais para a conclusão da história, como os policiais Jack Tanner (Noah Emmerich, de O Show de Truman) e Mooney (William H. Macy, de Magnólia, excepcional como sempre), e há todas aquelas cenas eletrizantes que compõem qualquer longa-metragem de ação. A diferença é que aqui, estes clichês tão batidos funcionam que é uma beleza e nem parecem estereótipos. O que se pode dizer sem estragar é que tudo o que é mostrado na telona não está ali por acaso e tem conexão com a conclusão da trama.

Um dos maiores trunfos de Celular é justamente o que poderia ser o seu pior defeito: a trama tem todos os clichês básicos do gênero, mas a mão firme de David R. Ellis na direção faz toda a diferença. Não há situações muito forçadas: só pra citar um exemplo, o celular de Ryan quase fica sem sinal por várias vezes e, numa das cenas mais legais do filme, a bateria quase descarrega, forçando o cara a tomar uma atitude no mínimo inusitada. As atuações são bem firmes e sinceras, em particular Kim Basinger, que dá um belo repeteco nas gritarias de sua personagem no Batman de Tim Burton, e William H. Macy, que cativa a platéia de imediato como o honesto policial Mooney, que só quer se aposentar e montar um salão de beleza com a esposa (“Não é um salão de beleza! É um spa de um dia!”).

Mas o verdadeiro centro das atenções, por incrível que pareça, é Chris Evans. O ator, até então um semi-desconhecido que só obteve destaque na telona na “tentativa de filme” Não é Mais um Besteirol Americano, mostra ter um gás impressionante para cenas de ação e não desaponta quando o assunto é interpretar. Desde já, uma escolha muito boa para o Tocha Humana. Mas neste caso aí, o problema não será ele e sim, o filme! Hehehe…

Ao final, Celular não mudará a vida de ninguém, mas é um excelente passatempo, recheado de ação, atuações convincentes e um roteiro que não ofende a inteligência do espectador, além de lançar no ar uma pergunta bem difícil de responder: até que ponto você iria pra salvar a vida de uma pessoa que você não conhece? O que você seria capaz de fazer para defender o que é certo, independente de isto dizer respeito a você ou não? Pois é, se todos os longas fossem assim, o mundo seria bem mais mundo… Por isso, pode ir assistir sem medo, numa boa. Só vê se desliga o celular na hora do filme, pô! :-D

CURIOSIDADES:

• O roteirista Larry Cohen, que é creditado como autor de enredo, na verdade é o autor também do roteiro final. Ele trabalhou no roteiro de Celular com intenção de rodá-lo logo após a conclusão de seu trabalho anterior, Por Um Fio. Cohen desistiu da idéia e pediu ao diretor David R. Ellis para não creditá-lo como roteirista oficial deste novo filme depois de notar as muitas semelhanças entre Celular e Por Um Fio.

• Durante a projeção de Celular, inúmeras referências ao estúdio New Line, responsável pela produção do filme, surgem na tela. Em determinada cena, por exemplo, uma televisão exibe um trecho de Premonição 2, do mesmo diretor deste. Um dos personagens possui uma mochila de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Além disso, o grandão da New Line, Robert Shave, faz várias pontas aleatórias.

CELLULAR • EUA • 2004
Direção de David R. Ellis • Roteiro de Chris Morgan
Elenco: Kim Basinger, Chris Evans, William H. Macy, Jason Stathan, Eric Christian Olsen, Jessica Biel e Noah Emmerich.
94 min. • Distribuição: New Line Cinema/PlayArte.


Control

25/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 21/05/2008.

Control

Uma das histórias mais mitológicas da evolução do rock diz respeito à primeira passagem dos Sex Pistols por Manchester, Inglaterra, para um concerto que quase se tornou um belo fracasso, visto que o show, aberto ao grande público, foi assistido por apenas 42 pessoas. Um fracasso, mas somente teórico. Na prática, este momento revolucionou os alicerces da música: inspiradas por aquele momento mágico, aquelas 42 cabeças conheceram-se, fizeram contatos, tiveram idéias, formaram bandas. Dali, saiu um obstinado Tony Wilson, jornalista que fundou o selo Factory e a casa de shows Hacienda; o produtor Martin Hannett, responsável pela descoberta de grandes nomes da música; e um movimento chamado Madchester, que lançou bandas como Buzzcocks, The Jam, The Fall, Siouxsie and the Banshees, A Certain Ratio, Happy Mondays…

Control (Idem, 2007), cinebiografia que finalmente chega aos cinemas brazucas nesta sexta-feira, centra suas atenções na mais enigmática e talvez mais importante descoberta deste movimento, o célebre Ian Curtis, líder do Joy Division. Mais que um simples músico, Curtis botou o Joy Division no mapa com sua voz grave e suas letras pra lá de depressivas e, depois de três anos à frente da banda, tornou-se um mito ao cometer suicídio em 1980, com apenas 23 anos de idade e dias antes da primeira turnê do grupo nos Estados Unidos, o que lhe daria fama definitiva e possivelmente o alçaria de vez ao mainstream.

O mais legal é que Control, dirigido com maestria pelo ex-diretor de videoclipes Anton Corbijn, consegue fugir do rótulo “fiz-sucesso-enchi-a-fuça-de-drogas-e-morri-jovem” que assola boa parte das cinebiografias de estrelas do rock. Primeiro, porque Ian Curtis jamais poderia ser classificado como um sujeito problemático (não, ao menos, neste sentido). Segundo, porque o excelente roteiro do quase estreante Matt Greenhalgh, inspirado no romance escrito pela viúva de Ian, Deborah Curtis, retrata o músico não como uma personalidade indomável, mas como um cara que cometeu burradas muito cedo e não teve maturidade suficiente para lidar com estas escolhas, o que refletiu em sua saúde, seu estado emocional e seu trabalho. Terceiro, porque em nenhum momento Corbijn tenta explicar ou defender as decisões de Curtis; só o que o cineasta quer é revelar a história como testemunha ocular, como um observador à distância.

Talvez a mais acertada escolha do roteiro, além da brilhante fotografia em preto e branco, seja nadar contra a corrente e, à exemplo dos sensacionais Johnny & June (aquele do Johnny Cash) e Não Estou Lá (aquele do Bob Dylan dividido por seis, hehehe), centrar o foco em um ponto específico da vida de Ian Curtis — neste caso, seu relacionamento com a esposa Debbie Curtis, do ponto de vista dela –, ao contrário da maioria das cinebiografias do gênero que entregam-se facilmente aos paradigmas já desgastados do gênero. Não espere encontrar aqui algo convencional demais em termos de narrativa, como um La Bamba, um The Doors ou um Ray da vida (não desmerecendo estes bons filmes, tá?).

Então, o que temos em Control é uma rápida passagem pela pós-adolescência de Ian Curtis (Sam Riley) em 1973, onde conhecemos sua paixão por David Bowie e glam rock, sua queda por poesias, e a tendência ao isolamento e à aversão por pessoas (fantasma exorcizado em uma das canções mais populares do Joy Division, Isolation), aversão esta que sofre um abalo quando Curtis conhece Debbie (Samantha Morton, de Minority Report: A Nova Lei), namoradinha de um amigo. O casamento veio rápido e sem pensar, assim como o convite para cantar na banda Warsaw, convite que veio exatamente durante o tal show dos Sex Pistols em Manchester, citado no primeiro parágrafo deste texto.

Com a banda estruturada e rebatizada Joy Division (uma referência clara ao exército de Hitler), chegam também o apadrinhamento de Tony Wilson, na época apresentador de um programa de música na popular TV Granada, a rápida ascensão da banda, a popularidade com as apresentações na extinta Factory, a gravidez de Debbie… a dificuldade em conviver com mais de uma pessoa sob o mesmo teto e a total desestruturação de seu casamento, desestruturação esta representada pela figura da jornalista belga Annik Honoré (a maravilhosa romena Alexandra Maria Lara, uma das protagonistas de A Queda: As Últimas Horas de Hitler e esposa de Sam Riley na vida real), convertida em sua amante. Nas palavras do próprio: “tomei as decisões erradas cedo demais”.

Dividido entre a segurança e a rotina de “cidadezinha do interior” ao lado de Debbie e a paixão avassaladora e o senso de aventura adquiridos com o relacionamento com Annik, sem condições de abrir mão de seu casamento mas sem pensar em cogitar o fim de seu caso com a estrangeira, Ian Curtis sofre uma lenta degradação física e psicológica que só aumenta com a pressão do sucesso do Joy Division. Para piorar o caldo de vez, Curtis descobre sofrer de epilepsia, e as crises surgem sem qualquer aviso, a qualquer momento — inclusive durante as apresentações ao vivo da banda.

Acuado, nada mais resta a Ian Curtis senão a saída mais covarde, através de uma corda no pescoço, em Maio de 1980, apenas dois dias antes de o Joy Division enfrentar seu maior desafio até então: uma turnê milionária pela terra do Tio Sam.

A trajetória de Ian Curtis, por si só, já fornece material suficiente para um filme bem maduro — tanto que a direção de Corbijn (responsável por clipes de bandas como U2, Red Hot Chili Peppers, Depeche Mode, entre outros) não se prende a pormenores, como por exemplo, uma citação qualquer ao New Order, fenômeno pop dos anos 80 cuja formação é o Joy Division sem seu vocalista, ou aos outros marcos do punk-rock que fizeram parte do movimento Madchester ao lado da banda de Curtis. Control começa rápido e termina rápido, mesmo com uma metragem superior a duas horas (exatamente 122 minutos de projeção); a fita é tão dinâmica e pagmática que parece ser bem mais curta do que realmente é.

Os méritos do longa devem-se quase exclusivamente a Sam Riley (que viveu o vocalista do The Fall em outro filme sobre Manchester, A Festa Nunca Termina), sensacional na pele de Ian Curtis. Se você buscar qualquer vídeo das interpretações do Joy Division, notará no ato que Curtis praticamente desceu no corpo do sujeito; como se não bastasse, as canções presentes no filme foram interpretadas MESMO pelo próprio elenco que vive a formação do grupo. Hits como Digital, Transmission, Disorder (na ótima e lendária seqüência do quebra-quebra na Factory), Dead Souls, She’s Lost Control (canção que inspirou o título da fita) e Candidate explodem na tela em interpretações tão vivas e perfeitas que não devem nada a qualquer registro do verdadeiro Curtis em celulóide. A escolha do protagonista é nada menos que PERFEITA.

Curiosamente, as duas canções mais conhecidas da banda, Love Will Tear Us Apart e Atmosphere (que obviamente encerra o longa), dão as caras pelo próprio Joy Division.

No mais, o que sobra é um excelente trabalho de direção e de atuação, que não se preocupa em justificar ações, somente em homenagear com justiça a memória de uma das lendas mais permanentes da história do rock inglês. E se você é fã de carteirinha do gênero, como este que vos fala, vai ser fácil gostar desse negócio aqui! Enquanto isso, no Brasil, a gente agüenta os “créus” da vida… imagine que legal se os nossos queridos executivos de estúdio tupiniquins resolvem filmar a trajetória de “gênios” da nossa música como Armandinho, MC Créu, NX Zero… Ok, alguém por favor me empreste uma CORDA. Pode deixar que o nó eu mesmo faço, só pra garantir.

Em tempo: repare na versão que os caras do The Killers gravaram para Shadowplay, que rola durante os créditos finais. É o Joy Division todo em sua essência. Deu até vontade de chorar.

CONTROL • ING • 2007
Direção de Anton Corbijn • Roteiro de Matt Greenhalf
Baseado no romance “Touching From a Distance”, de Deborah Curtis
Elenco: Sam Riley, Samantha Morton, Alexandra Maria Lara, Joe Anderson, Toby Kebbell, Craig Parkinson, James Anthony Pearson, Ben Naylor.
122 min. • Distribuição: The Weinstein Company.


A Luta Pela Esperança

21/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 08/09/2005.

A Luta pela Esperança (Cinderella Man)

E vamos direto ao que interessa: não, A Luta Pela Esperança (Cinderella Man, 2005), novo trabalho do diretor Ron Howard (o mesmo de Uma Mente Brilhante), não é nem de longe o ótimo, lindo, maravilhoso e perfeito longa-metragem que a crítica ianque anda divulgando por aí. Bem longe disso.

Ok, tudo bem, sei que é difícil aceitar este comentário vindo de alguém como eu. Afinal, o Zarko aqui é o mesmo que já cansou de declarar que não é muito chegado nos filmes de Howard, um cineasta totalmente pau-mandado e “operário-padrão” para o gosto bizarro deste indivíduo que vos escreve; o Zarko aqui é o mesmo que declama a quem quiser ouvir que não suporta filmes-clichê e fitas pretensiosas e programadas nos mínimos detalhes para tentar arrebatar certa estatueta distribuída a cada ano em todo mês de março (e às vezes fevereiro); e o Zarko aqui é o mesmo que não suporta sequer ouvir o nome da chata da Renée Zellweger, aquela Botox ambulante que todo mundo insiste em dizer que é uma grande atriz – o que é, sinceramente, um belo exagero.

O problema é que A Luta Pela Esperança é REALMENTE tudo isto que eu disse aí em cima. E mais um pouco.

Mas vamos todos ter muita calma. Antes de me xingar de todos os nomes possíveis (e os impossíveis também), eu explico de novo: a fita, uma cinebiografia do lendário boxeador James B. Braddock – que, até onde sei, é lendário só lá fora –, fica no meio-termo entre o “legalzinho” e o “ruim”. Sim, ele é totalmente previsível, clichêzento e prepotente, e isto todo mundo já sabia só de conferir o preview. É fácil notar que cada elemento está ali para que Ron Howard tenha a oportunidade de concorrer ao Oscar no ano seguinte (o que não será difícil, visto que o atual vice-presidente da Academia é o caríssimo senhor Tom Hanks, amigo de longa data do cineasta), o que não seria problema algum se o filme fosse realmente BOM. Mas há alguns momentos bacaninhas na produção. Poucos, mas existem.

O enredo (baseado numa história real) retrata o martírio de Braddock (Russell Crowe), pugilista que tinha uma vida invejável e certo renome lá pelos idos dos anos 20, até que uma luta perdida, a chegada da Grande Depressão e um pulso fraturado mudaram radicalmente sua rotina, bem como a de sua esposa Mae (Zellweger) e de seus três filhinhos. Jim dá um vexame em uma luta e é chutado da Federação de Boxe, sendo impedido de competir profissionalmente como conseqüência. Para se ter uma idéia de como o negócio ficou brabo, Mae era forçada a completar o resto da garrafa de leite com água, para poder alimentar seus filhos. Braddock chega a mendigar para poder pagar a luz de casa, numa das raras cenas realmente marcantes da película – aliás, talvez seja de fato a única cena tocante da película.

Para alívio da família (e certo desespero de Mae, que morre de medo de perder o marido), Braddock ganha uma segunda chance na vida quando seu empresário Joe Gould (Paul Giamatti, de Sideways – Entre Umas e Outras) faz das tripas coração para trazê-lo de volta aos ringues. No auge da Depressão, o ressurgimento de Jim Braddock, apelidado de “Homem Cinderela”, serve de inspiração para toda a nação estadunidense. Óóóóóó… :-P

Não parece ser tão mal assim, não? Pois é. Só que A Luta Pela Esperança carrega um ar americanizado demais. Não à toa, como comentei no primeiro parágrafo deste texto, a crítica norte-americana adorou a fita. Para nós, brazucas, é quase impossível tentar se identificar com a trajetória de James Braddock. O tema é bem oportuno para a situação atual da população dos EUA, carente de estímulo para acreditar num futuro melhor. Para eles, um filme sobre a trajetória de Braddock é mais do que bem-vindo – mas não para o resto do mundo. O excesso de clichês dificulta ainda mais: chega a doer na alma quando Mae diz “Jim, volte para casa”, e a trilha sonora edificante é elevada à décima potência e todos se abraçam… Ugh.

A parte legal acaba sobrando mesmo para as inspiradas e movimentadíssimas seqüências de luta – principalmente o embate final entre Braddock e o sacana Max (Craig Bierko, o astro da ficção 13.º Andar) –, embora Ron Howard mostre-se totalmente confuso sobre qual estilo seguir ao deixar os enquadramentos tradicionais das cenas “normais” de lado para se entregar a uma câmera vertiginosa em primeira pessoa. A montagem, aliás, utiliza muitos efeitos visuais roubados descaradamente de longas como Snatch – Porcos e Diamantes e até mesmo Romeu Tem Que Morrer (?). Só conferindo pra ver.

De resto, basta dizer que, à exceção do trabalho sempre competente de Russell Crowe (absurdamente comedido e sutil) e de Paddy Considine (Terra de Sonhos), como Mike, o melhor amigo do boxeador, o que salva a produção, como era de se esperar, é Paul Giamatti. Não ficarei surpreso se Giamatti, que entregou mais um show de interpretação, sair da próxima edição do Oscar com uma estatuetazinha na mão. Ao contrário de Zellweger, fraquinha e desperdiçada em um papel que não exige tanto assim – poderiam ter escalado a maravilhosa Rachel McAdams (de Penetras Bons de Bico e Vôo Noturno), assim teríamos pelo menos um colírio bastante agradável na tela… :-D

Para resumir, A Luta Pela Esperança é um filme de norte-americanos e para norte-americanos, só existe para ganhar prêmios, é lotadíssimo de clichês baratos e sua narrativa é totalmente cansativa. Não chega nem aos pés da obra-prima do ano Menina de Ouro, cujo enredo é BASTANTE similar. Mas não é de todo ruim, sabe… Só não vale o preço do ingresso (!). Se você está tão ansioso assim, vai fundo. Caso contrário, espere pelo DVD mesmo. Mas para adiantar o serviço, alguém por favor dê logo o Oscar para o Ron Howard! Assim a criança pára de encher o saco. :-P

CURIOSIDADES:

A Luta Pela Esperança seria originalmente dirigido pelo sueco Lasse Hallström, elogiadíssimo pela crítica em 1985 com o superestimado Minha Vida de Cachorro e, mais tarde, convertido em mais um laranja da Miramax queridinho da Academia cujos trabalhos como Chocolate, Regras da Vida e Chegadas e Partidas surgiram com o único intuito de tentar arrancar alguns Oscars da cerimônia. Bem, pra mim, substituir Lasse Hallström por Ron Howard foi como trocar seis por meia-dúzia.

• O pior é saber o primeiro nome cogitado para interpretar Jim Braddock: Ben Affleck. Vixe, um filme do Ron Howard com Ben Affleck e Renée Zellweger no elenco, nem Paul Giamatti salva. :-P

• Os oponentes de Jim Braddock foram interpretados por pugilistas profissionais, que tinham como regra principal e absoluta socar o mais próximo de Russell Crowe, sem jamais acertá-lo. Quem não deve ter gostado nada disso foi o próprio Crowe, já que muitas vezes os boxeadores se empolgavam e socavam pra valer. Ah, é bom pra acordar! Eu não senti nada. :-D

• Ao término das filmagens, Crowe contabilizou uma série de contusões, dois dentes quebrados e um pulso fraturado. Ficou banguela, o cara. Tá com peninha dele? Nem eu.

• A atriz Rosemarie DeWitt, que interpreta a vizinha Sara Wilson, é neta do verdadeiro Jim Braddock. Ela é filha de Rosalie Braddock, vivida na fita pela pequena fofurinha Ariel Walker.

• Embora acumule as críticas estadunidenses mais positivas do ano (o que pra mim não deve ser levado em consideração, já que os americanos adoram filmes-clichê), A Luta Pela Esperança amarga outro número extremo: o de pior fracasso do ano. Custou cerca de US$ 88 milhões, sem contar sua divulgação, e arrecadou até o momento apenas US$ 61 milhões.

CINDERELLA MAN • EUA • 2005
Direção de Ron Howard • Roteiro Cliff Hollingsworth e Akiva Goldsman
Elenco: Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, Paddy Considine, Craig Bierko, Bruce McGill, David Huband.
144 min. • Distribuição: Universal Pictures.


Vôo United 93

21/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/08/2006.

Vôo United 93

Que não demoraria muito para que o cinema decidisse “prestar suas homenagens” (ou “explorar impiedosamente”, dependendo do ponto de vista de quem lê) e gerar longas-metragens sobre os trágicos eventos do fatídico 11 de setembro de 2001, ninguém tinha dúvidas. Mas até que o negócio foi bem rápido: apenas cinco anos para que surgissem filmes focados no horror dos ataques terroristas em solo ianque que tiraram a vida de milhares de pessoas e reduziram um dos maiores símbolos do capitalismo norte-americano a pó – isso se contarmos apenas as produções mainstream, deixando de lado os zilhões de documentários, seriados e filmes made for TV que já existem há algum tempo.

O que pessoalmente me preocupa nesta onda de filmes sobre o 11/9 não é nem a idéia de que eles existem apenas para render uns trocados em cima da tragédia; o problema é que não suporto a idéia de alguns cineastas utilizarem o evento como palanque político, como forma de defesa dos ideais republicanos deturpados de George W. Bush e como forma de sugerir que o governo estadunidense é a vítima inocente, pura, casta e representa o lado indiscutivelmente certo da coisa. Devo confessar que, à época dos atentados terroristas que destruíram o World Trade Center, só conseguia me perguntar se o povo tão comovido com aquela situação também sofreu da mesma forma com a morte dos milhares de civis no Iraque. E não somos todos seres humanos, afinal de contas?

É justamente neste ponto que Vôo United 93 (United 93, 2006) acerta em cheio. O longa-metragem não tenta, em momento algum, justificar os atos de ambos os lados ou apontar o certo e o errado. A fita nada mais é do que um retrato despido e racional dos verdadeiros afetados por esta guerra, daqueles únicos que sofreram as conseqüências das atitudes questionáveis do senhor Bush: as pessoas que nada tinham a ver com a história, as pessoas que saíram de suas casas naquela manhã de 11 de setembro, para trabalhar ou para qualquer outra coisa, e encontraram a morte. Simples assim.

Isto, claro, não credencia o longa a qualquer espécie de público. Vôo United 93, dirigido com cuidado e realismo pelo excelente Paul Greengrass (do sensacional Domingo Sangrento), é extremamente difícil de se digerir. Não só por acompanhar um fato doloroso em detalhes meticulosos, mas por optar em contar esta história como uma mera testemunha ocular, sem chegar perto dos potenciais dramas internos de cada personagem. Os fatos estão lá, e Greengrass somente nos apresenta a eles. A ausência de uma estrutura narrativa padrão hollywoodiana certamente incomodará alguns – por outro lado, a verve quase documental e quase jornalística do roteiro insere uma carga de realidade tão grande na projeção que é impossível não sair da sessão abalado com o que viu e com a sensação de ter presenciado um marco na história do cinema.

O resultado: um trabalho que por pouco não leva o título de “clássico”, não fosse por algumas pequenas más escolhas.

O foco aqui, para quem não sabe, não é o ataque direto às Torres Gêmeas (cujos momentos mais dramáticos são mostrados apenas por um telão, em imagens da CNN): o United 93 do título original refere-se ao vôo 93 do Boeing 757 da United Airlines que saiu de Boston com destino a São Francisco. Em meros 90 minutos, o United 93 tornou-se o quarto avião seqüestrado por terroristas suicidas, que tinham por objetivo chocar o Boeing contra Washington; tornou-se, também, o único que não conseguiu concluir seu plano, já que os passageiros, quando conscientes de seu destino, rebelaram-se, renderam os terroristas e sacrificaram suas vidas ao derrubar o avião em um descampado na Pensilvânia – embora alguns pensem que o 93 fora derrubado pelas Forças Aéreas, o que não é verdade.

É neste avião que cerca de 40 passageiros embarcam logo no início do longa, no Aeroporto Internacional de Boston. É nele também que embarcam quatro estrangeiros nervosos e bastante suspeitos. Depois de um pequeno atraso, o United 93 decola. Não há indícios de anormalidade, é uma manhã tranqüila nos Estados Unidos – a não ser por um pequeno problema com uma outra aeronave, a Panamerican 11, que inexplicavelmente saiu de sua rota (e que, mais tarde, entraria para a história como o primeiro dos dois aviões a se chocar com o WTC).

Em pouco tempo, a tranqüilidade do United 93 transforma-se em terror quando o grupo toma o avião, mata os pilotos, fere algumas pessoas e começam a gritar ordens em árabe. Um deles mantém uma bomba presa em sua cintura e outro diz, num inglês enroladíssimo, que não há com o que se desesperar e todos irão para casa sãos e salvos. Sem entender o que está acontecendo, os passageiros do United 93 descobrem, através de ligações para familiares, que dois aviões deixaram o WTC em chamas e um terceiro explodiu no Pentágono. Compreendendo que são reféns em uma missão suicida e que não há a menor possibilidade de escapar dali com vida, a tripulação se une e, dominada por um instinto de defesa, ataca os terroristas com todo e qualquer tipo de arma improvisada que encontra pela frente.

O final desta história todos nós já conhecemos – ainda que não possamos ter a certeza de que tudo aconteceu da forma que está na tela, já que os únicos registros dos acontecimentos no United 93 de sua decolagem até a queda fatal, os registros que Greengrass usou como base para construir seu roteiro, vêm da caixa preta do avião, de depoimentos de familiares que conversaram com os passageiros via fone e de profissionais do Controle de Tráfego Aéreo de Boston e de Nova York, além de militares que participaram ativamente do evento. Bem, na verdade chega até a ser utópico afirmar que há uma história com começo, meio e fim em Vôo United 93, já que as câmeras não fazem nada além de acompanhar os populares até seu terrível desfecho, como se fosse um deles.

E é daí que podemos medir a qualidade do trabalho de Paul Greengrass na direção. Mesmo conhecendo a conclusão desta história, Greengrass consegue fazer com que o público torça por um milagroso final feliz e um destino melhor para aqueles personagens. Não é difícil torcer para que o avião simplesmente não caia, e olhe que não é preciso sequer conhecer a fundo a psiquê de cada um dos passageiros do avião – uma ótima sacada da direção foi escalar apenas atores profissionais desconhecidos ou semi-desconhecidos para a fita (o mais familiar é David Alan Basche, cria de seriados como o finado Three Sisters); ou seja, enxergar o personagem em todas as suas camadas ao invés de enxergar o “ator galã interpretando um personagem” fica muito mais fácil.

À exceção da impressionante seqüência final (prepare-se para este final), os momentos mais tensos não são aqueles passados a bordo da aeronave, e sim os ambientados nos Centros de Controle de Tráfego Aéreo de Boston, Nova York e Cleveland. São nestes ambientes que boa parte da primeira hora de Vôo United 93 acontece, e são nos interiores destes lugares que o espectador acompanha a evolução dos acontecimentos do 11/9 – o choque com o primeiro arranha-céu através de uma ligação, a colisão com o segundo prédio através de um noticiário exibido em um telão. O nervosismo e a indignação dos chefes e de funcionários por estar de mãos atadas (muitos destes personagens vivido por eles mesmos) é aterrador, e fica ainda pior quando sabemos que tudo isto realmente aconteceu.

Para não dizer que a produção é uma obra-prima, porém, devo destacar algo que não gostei: sinceramente, os primeiros dez minutos me incomodaram muito por causa da presença de um clichê tenebroso e altamente manipulativo de filmes trágicos. No ato do embarque no Boeing, por exemplo, um passageiro qualquer comenta que não vê a hora de chegar em casa para ver sua amada esposa; em seguida, uma das aeromoças diz que provavelmente este será seu último dia de trabalho, já que morre de medo de voar; em seguida, o co-piloto comenta com o piloto que é pai de uma criança de apenas 11 meses. Sacou? É muito mais fácil sofrer com a inevitável morte destes personagens, sabendo que estes viviam momentos especiais de suas vidas. Na boa, não era nem um pouco necessário encher o início da película com trilhões destes diálogos para nos fazer ter pena deles, pois o próprio desenvolvimento da narrativa já nos deixa com um belo nó na garganta.

Probleminha, claro, minúsculo. Ao final, Vôo United 93 resulta em um drama tocante, aflitivo, tenso e muito, muito inspirador, daqueles capazes de desestruturar qualquer um. E o mais importante: totalmente despido de posicionamento político ou de apologia ao patriotismo ianque que tanto infesta esta espécie de filmes, ou até mesmo da pretensão em tentar oferecer uma resposta ou uma justificativa para a existência do conflito e o ataque que marcou a história. Se há um questionamento em Vôo United 93, este refere-se à razão pelo qual nos sentamos e nos acomodamos à espera de soluções, quando deveríamos arregaçar as mangas e agir, tal qual fizeram no 11/9 as centenas de bombeiros, policiais, civis… e os passageiros do United 93. Se a intenção é definir um herói para esta guerra, a coroa é indubitavelmente deles e de mais ninguém.

CURIOSIDADES:

Vôo United 93 teve colaboração direta das famílias dos 40 passageiros e tripulantes mortos na queda do United 93, que ofereceram a Paul Greengrass detalhes do cotidiano de seus entes. Através deste contato, o cineasta pôde recriar com exatidão até mesmo as roupas que cada um dos passageiros usavam em 11/9. Por sinal, se você procurar na Internet imagens dos tripulantes e passageiros do verdadeiro United 93, notará uma incrível e sobrenatural semelhança física com os atores que os interpretam no longa.

• Durante as filmagens, os atores que interpretaram os terroristas e os atores que viveram os passageiros foram mantidos em hotéis separados e os dois núcleos só tinham contato nos sets. Esta foi a forma do diretor Greengrass conseguir o efeito de hostilidade e medo entre eles nas seqüências do domínio do avião.

• Se você entende inglês, vá preparado para OUVIR e esqueça as legendas. O causo é que praticamente 100% dos diálogos são embolados, simultâneos; um processo natural considerando o intuito de Paul Greengrass em aproximar-se o máximo possível da realidade dos fatos. Com isto, muito do que é dito perde-se na tradução da legenda, que infelizmente não consegue acompanhar tudo ao mesmo tempo.

• Devido a um acordo entre cavalheiros, não houve exibição de trailers nas sessões gringas de Vôo United 93.

UNITED 93 • EUA/FRA/ING • 2006
Direção de Paul Greengrass • Roteiro de Paul Greengrass
Elenco: J. J. Johnson, Gary Commock, Polly Adams, Opal Alladin, Nancy McDoniel, Starla Benford, Trish Gates, Simon Poland, Khalid Abdalla, David Alan Basche, Lisa Colón-Zayas, Meghan Heffern, Olivia Thirlby, Cheyenne Jackson.
111 min. • Distribuição: Universal Pictures.


Pequena Miss Sunshine

21/09/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/11/2006.

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine)

Só para deixar tudo explicadinho, um esclarecimento importante: muitos usuários enviam e-mails para A ARCA questionando a ocasional ausência de alguns filmes nas resenhas das estréias da semana – filmes que chegam aos cinemas, cujas críticas simplesmente não aparecem aqui. O que acontece é que, infelizmente, é impossível resenhar toda e qualquer estréia em tempo hábil para a publicação dos textos; às vezes os convites para as tais sessões de imprensa (sessões antecipadas para jornalistas de modo que suas matérias fiquem prontas até a estréia) não chegam a tempo, às vezes acontecem três ou quatro sessões em locais diversos, mas em mesma data e horário, o que nos força a montar um “esqueminha” de revezamento ou preferir os longas potencialmente mais interessantes a nosso público, e às vezes, mas beeem raramente, simplesmente não somos convidados (né, Código Da Vinci?).

Este, claro, não é um problema só d’A ARCA. Os pouquíssimos veículos que conseguem a façanha de publicar críticas de todos os filmes que entram em cartaz a cada sexta-feira, o fazem porque dispõem de uma equipe de redatores bastante ampla e/ou porque mantém parcerias com outros veículos, “trocando” textos entre si com seus devidos créditos. E é façanha mesmo, se levarmos em consideração que, somente no eixo Rio-SP, chega às salas de projeção uma média de 10 a 12 fitas por semana. Muita coisa! Uma pena, pois algumas vezes, infelizmente, perdemos a chance de falar sobre ótimos filmes. :'(

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006), comédia dramática independente que chegou ao Brasil carregando o notório rótulo de “um dos 10 melhores filmes do ano” imposto por boa parte da crítica e representando um tremendo sucesso de bilheteria lá fora (em comparação ao seu budget, claro – custou US$ 8 milhões e rendeu mais de US$ 58 milhões), foi uma destas pobres “vítimas” “sacrificadas” por um bem maior. A estréia do longa em terras brazucas aconteceu em 20/10, há exatamente três semanas – e o meliante aqui que atende pela alcunha Zarko fez a gentileza de ficar doente bem no dia da sessão de imprensa… Enfim, finalmente consegui assistir à fita e, mesmo com três semaninhas de atraso, arrumei um tempinho para tecer este artigo. O motivo? Pequena Miss Sunshine REALMENTE é um dos dez melhores longas do ano, uma película capaz de deixar qualquer espectador com um imenso sorriso estampado no rosto. E a presença de sua resenha aqui n’A ARCA é simplesmente OBRIGATÓRIA.

O causo é que Pequena Miss Sunshine é um trabalho muito mais amplo do que aparenta. A fita, que marca a estréia na direção de longas da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris (especialistas em videoclipes), disfarça-se de road movie cômico para esmiuçar e criticar, de maneira muito séria e respeitosa, a mania esdrúxula dos estadunidenses de construir e valorizar vencedores a qualquer custo, de menosprezar os ditos “perdedores” e não hesitar em passar por cima dos sentimentos de qualquer indivíduo em troca da “perfeição”. Mas o que é perfeição, afinal? É chegar à vitória ou aceitar a si mesmo como um perdedor?

Já nos primeiros dez minutos de exibição da película, descobrimos que “perfeição” é uma palavra que não existe no vocabulário da família Hoover. O pai, Richard (Greg Kinnear, O Matador), acha que atingirá este status através de um programa de vendas que ele mesmo criou, mas que não funciona de modo algum… o que causa muitos atritos entre ele e sua esposa, a preocupada Sheryl (Toni Collette, As Horas), que tenta tolerar as manias de seu sogro, o vovô Edwin (Alan Arkin, Edward Mãos de Tesoura), que voltou para casa depois de ter sido expulso do asilo – é que ele curte heroína… Há ainda a revolta acumulada do filho mais velho de Richard e Sheryl, Dwayne (Paul Dano, O Mundo de Jack e Rose), fanático por Nietzsche, que botou na cabeça que quer ser piloto de aeronaves e, para atingir seu objetivo, decidiu fazer voto de silêncio.

E a casa ficará ainda mais turbulenta com a chegada do irmão de Sheryl, Frank (Steve Carell, O Virgem de 40 Anos), professor gay especialista em Proust que tentou suicídio ao ser abandonado pelo namorado mais novo e, agora, precisa ficar em constante observação. Família complicada? Não, claro que não. Imagine, impressão sua. :-)

Em dez minutos de filme, a excêntrica e disfuncional família Hoover esquecerá de todos os problemas para embarcar em uma viagem a Los Angeles, onde tentarão realizar o sonho da caçula do clã, a adorável Olive (Abigail Breslin, a Bo de Sinais): participar do infame concurso Miss Sunshine. É que a menina quer a todo custo ser uma miss, ainda que use um óculos gigantesco e ostente uma indesejável “barriguinha”. Enfim, Olive não é o modelo-padrão deste tipo de concurso, mas para fazer a alegria da menina e experimentar um mínimo de “sucesso”, vale tudo. Assim, todos se enfiam em uma Kombi caindo aos pedaços e pegam a estrada…

O engraçado é que a perfeição que falta na estrutura da família Hoover, sobra na condução do filme. O roteiro de Pequena Miss Sunshine, escrito pelo também estreante Michael Arndt, equilibra a comicidade e o drama da história sem problemas. Não, não estamos falando de uma comédia rasgada, embora a trajetória do clã ao decorrer do filme seja pontuada por momentos muito engraçados e cretinos, no melhor sentido da palavra – a cena na qual a família esquece Olive em um posto de gasolina é boba, mas faz rir (e muito); isto, pra não falar da bizarríssima BUZINA do velho Volkswagen amarelo, além de outras coisas mais.

Em sua essência, porém, Pequena Miss Sunshine é um trabalho absolutamente dramático, que não se rende ao dramalhão e faz emocionar com muita facilidade. Imagino que o roteiro deve ter sido muito bem pensado, visto que não há uma única seqüência que não traga um significado nas entrelinhas – uma prova disto são os excelentes diálogos expostos na película: não há como não sorrir amarelo e não se sentir incomodado quando, por exemplo, Dwayne diz que a vida nada mais é do que um concurso de beleza contínuo. É daí pra baixo.

Somando-se à excelência do enredo, há também o belo climão de anos 70 (embora o filme não seja ambientado nesta época), a simplória mas bem funcional fotografia de Tim Suhrstedt – que já trabalhou nos seriados Ally McBeal e Grey’s Anatomy – e o acertadíssimo elenco, com destaque para um impressionante Steve Carell, ótimo e bastante comedido como o depressivo Frank, e para a participação inspiradíssima de Alan Arkin, sujeito que deve (ou pelo menos merece) papar alguns prêmiozinhos na próxima temporada de premiações de cinema. Pessoalmente, gostei MUITO da atuação de Abigail Breslin, que com apenas 10 anos carrega uma maturidade ausente em muito ator veterano por aí. Uma única cena da menina, a cena na qual ela confessa para o avô o medo de parecer uma fracassada aos olhos de seu pai, é suficiente para provar que Breslin, ao lado do brazuquinha Michel Joelsas, nos faz esquecer automaticamente de uma suposta atriz-mirim-com-cara-de-louca que já foi boa e hoje é só um punhado de gritinhos irritantes… :-P

O que impressiona mais em Pequena Miss Sunshine e o torna por conseqüência um belo candidato a novo clássico é a forma com que o longa mexe com esta questão toda de vencedores e perdedores. Aqui, não há uma pessoa sequer que se encaixe nos padrões ianques de “vitória”. E, ao contrário do que Hollywood adora pregar, não estamos falando de uma história na qual seus personagens lutam pelo sucesso e conseguem. Aqui, todos estão, de uma forma ou de outra, buscando o estigma dos “vencedores” para se sentir um pouco importantes ao mundo mesquinho e superficial na qual vivemos. O importante, entretanto, e o que os Hoover deverão aprender na viagem, é que vitória não significa pilombas quando você deixa de se sentir feliz com o que você é. Ser um vitorioso ou aceitar e assumir sua própria mediocridade e seu próprio rótulo de loser não importa se você não é você mesmo. Tal qual o avô diz em certo trecho: “O verdadeiro perdedor é aquele que tem tanto medo de perder que sequer tenta alcançar a vitória”. E não é mesmo uma grande verdade?

Pois é, é exatamente aquilo que eu disse aqui: Hollywood ainda tem muito o que aprender com o cinema indie, viu? :-D

Só pra finalizar, um recadinho do coração (ui!) para todos os indivíduos e indivíduas que porventura estejam passeando por este website: Pequena Miss Sunshine pode parecer um filminho daqueles que não valem o dinheiro gasto no ingresso, não por sua qualidade, mas por ser uma produção que não exija tanto assim uma visita na tela grande – e também por ser um exemplar de um gênero que possa não agradar a todo mundo. Esqueça isto. Pode até ser difícil encontrar uma sala exibindo este filme hoje, já que a fita estreou há três semanas. Corra atrás, espere pelo DVD, faça o que for. Mas não deixe de assistir Pequena Miss Sunshine – não será difícil entender porque, em um ano de super-heróis azulões, piratas mercenários e mutantes complexados, as pequenas aventuras desta esquisita família de fracassados tem lugar garantido entre os melhores. :-D

Viu só? A gente atrasa, mas a gente chega! Hehehe. ;-)

CURIOSIDADES:

Pequena Miss Sunshine levou cerca de cinco anos para ganhar as telas. O maior problema da produção foi mesmo financeiro: não havia ninguém que estivesse disposto a financiar a produção do filme. O produtor Marc Turtletaub comprou os direitos de produção do roteiro por 250 mil dólares e o ofereceu, em 2004, para a Focus Features, produtora de renome no cinema independente. Por alguma razão não divulgada, a Focus pulou fora, e Turtletaub resolveu assumir o custo do projeto sozinho. Curiosamente, depois de pronto e de sua exibição no Festival de Sundance, a Fox Searchlight não pensou duas vezes em comprar os direitos de distribuição do filme pelo valor de US$ 10 milhões, alto para um filme deste calibre.

• A primeira escolha dos diretores para o papel de Frank era Bill Murray, que não pôde aceitar por problemas de agenda.

• A trilha sonora original do filme é composta pelo ótimo quarteto DeVotchKa; a trilha foi construída integralmente em cima de uma das canções mais populares da banda, a bela How It Ends – música também usada no trailer de outro filmaço independente, Uma Vida Iluminada, de Liev Schreiber.

LITTLE MISS SUNSHINE • EUA • 2006
Direção de Jonathan Dayton e Valerie Faris • Roteiro de Michael Arndt
Elenco: Greg Kinnear, Steve Carell, Toni Collette, Paul Dano, Abigail Breslin e Alan Arkin.
101 min. • Distribuição: Fox Searchlight.