Deixa Ela Entrar

30/12/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 02/10/2009.

O que torna um filme verdadeiramente BOM? No caso deste que vos escreve, há uma paulada de “fatores determinantes”. O roteiro precisa ter um mínimo de coerência, mesmo se tratando de uma história de fantasia; o desenvolvimento do enredo, independente de sua complexidade ou simplicidade, precisa respeitar ao máximo o espectador enquanto “cabeça pensante”, como diria nosso querido amigo Raulzito (hehehe); e acima de tudo, o conjunto da obra precisa ser exatamente aquilo que se propõe, ou seja, se é um filme de comédia precisa fazer rir, se é um suspense precisa deixar tenso, e por aí vai.

E o que torna um filme verdadeiramente SENSACIONAL? Mais fatores determinantes somados aos relacionados acima. Para mim, é aquela fita que apresenta uma história sob uma perspectiva incomum e pouco explorada, deixando aquela sensação de originalidade mesmo quando o tema é batido e clichê; ou então aquela fita que experimenta novas linguagens tanto tecnicamente quanto em termos de enredo (desde que estejam, claro, bem alinhadas com os outros fatores); e acima de tudo, aquela que transcende seus próprios conceitos e, mesmo rotulado em um gênero específico, causa uma série de sentimentos contraditórios no espectador e o deixa pensando naquilo tudo por um bom tempo após o término da sessão. Analisando a atual safra cinematográfica, não preciso dizer que encontrar uma produção digna de se encaixar nesta segunda categoria é como encontrar alguma coisa boa nos filmes da Xuxa, não é mesmo? :-D

Difícil, sim. Mas não impossível. E se você aceitar perder duas preciosas horinhas de seu tempo em uma sessão de um longa-metragem chamado Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In, 2008), que finalmente chega aos nossos cinemas depois de um longo período de incertezas e um invejável currículo de 56 prêmios internacionais, você concordará comigo que raras vezes uma produção conseguiu concentrar TODOS os fatores determinantes relacionados acima como este aqui conseguiu. E olhe que estamos falando de uma fita de terror… vinda da Suécia… e que fala de vampiros…

Ok ok, sei o que você pensou, “vampiros de novo não!”, já que atualmente o mundo do entretenimento vive um “frenesi vampirístico” – de um lado é True Blood, do outro lado é The Vampire Diaries e no centro do furação, aquela coisa medonha chamada Crepúsculo (pausa para a ânsia de vômito), este último, por sinal, com foco parecido até demais com Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In, o livro, foi publicado em 2004, portanto saiu na vantagem, hehehe). Relaxe: Deixa Ela Entrar é tão amplo que, em certos momentos, até esquecemos de que uma das personagens é, afinal, um vampiro. A trama comandada com impressionante leveza pelo cineasta Tomas Alfredson centra seu poder de fogo na afeição entre duas personagens desajustadas e potencialmente rejeitadas pela sociedade, e sobretudo na consequente aceitação destas pessoas por elas mesmas. É um troço muito além do “medinho”.

Pena que os estadunidenses, sempre eles, estão prestes a estragar tudo isso – para quem não sabe, Deixa Ela Entrar já está ganhando sua versão ianque pelas mãos de Matt Reeves (Cloverfield).

Enfim, vamos lá: ao início do longa, somos transportados para Blackeberg, subúrbio de Estocolmo, na década de 80. Oskar (Kåre Hedebrant) tem 12 anos e é constantemente humilhado e agredido por colegas de escola. Tímido, desajeitado, potencialmente violento e muito introvertido, Oskar não tem amigos e nem pretende tê-los, tanto que prefere passar seus dias “ensaiando” o momento (que nunca chega) de enfrentar seus agressores e nem se importa tanto quando descobre que um apartamento vizinho ao seu será ocupado por novos moradores, no caso uma garotinha que mal aparece e esconde-se por trás de uma placa de papelão que cobre sua janela, e o que parece ser seu pai, um sujeito de meia idade que não pára em casa.

Mais tarde, Oskar fará amizade com a tal menina, Eli (Lina Leandersson), que conta que tem “mais ou menos 12 anos há muito tempo”, vive suja, aparentemente não sente frio e só dá as caras no parquinho do prédio à noite. Alguns bizarros assassinatos na região de Blackeberg intensificam as suspeitas de Oskar, suspeitas estas que serão confirmadas em breve pela própria Eli. Ela é uma vampira.

Simples? Não. Pra começar, esqueça os clichês básicos deste plot. Deixa Ela Entrar carrega uma profundidade emocional que basicamente o exime de “apenas um filme de vampiros” e o alça a uma condição muito maior. O fato de Eli ser uma impiedosa sugadora de sangue é mero pretexto para que o brilhante roteiro de John Ajvide Lindqvist, também autor do romance na qual o filme se inspirou, reflita sobre a sensação de deslocamento a qual Oskar e Eli se adequam, cada um a seu modo. Mesmo conhecendo a natureza da menina, Oskar não pensa duas vezes em querê-la a seu lado, como sua melhor amiga, talvez como um “algo mais”. O menino aceita Eli como ela é, e ela idem – aceitação esta com a qual sonharam a vida inteira. Como troca, Eli se sentirá um pouco mais “parte do mundo”, e Oskar encontrará forças para enfrentar de vez seus medos.

Estamos falando, contudo, de um filme de horror. Então, nem pense em encontrar por aqui a mela-cuequice de Crepúsculo e prepare-se para algumas seqüências bastante nervosas – duas delas em especial, a cena decisiva em que Eli é desafiada a entrar na casa de Oskar sem ser convidada (e todo mundo aí sabe o que pode acontecer a um vampiro quando aparece sem convite a algum lugar, não sabe?) e o absurdo clímax na piscina (desde já um dos momentos mais apavorantes do cinema recente de terror), são de perder o sono. Mas nada gratuito: a direção de Alfredson segue uma linha bastante comedida, e grande parte da “ação” propriamente dita é sugerida (embora haja sangue e mutilação a rodo). Os fãs do gênero não terão do que reclamar.

O que torna Deixa Ela Entrar uma experiência fascinante, porém, não é só a excelente atuação do casal central, Kåre Hedebrant e Lina Leandersson (perfeitos no papel), o surpreendente exercício de direção de Tomas Alfredson, que mergulha o espectador em um clima soturno, azulado e cheio de neve, ou sua construção narrativa altamente anti-convencional – é tudo bastante silencioso e poucas perguntas são de fato respondidas, o que nos faz querer sair por aí pesquisando tudo sobre o filme para completar nosso raciocínio. O que torna este pequeno filme sueco tão singular é que, ao melhor estilo Drácula de Bram Stoker, a figura vampiresca presente na história é apenas ponte para uma trama que mexe com os sentimentos do público em vários aspectos. É terror sangrento, mas é também um drama envolvente, um suspense nervoso e uma história de amor e amizade sem limites capaz de emocionar qualquer um. Para resumir tudo numa única palavra: SENSACIONAL. :-D

Ah sim, e o que torna um filme verdadeiramente HORROROSO? Nem quero saber. Assista Crepúsculo, que a resposta está lá. E ninguém enfiou uma estaca no coração daquele mané do Robert Pattinson ainda? :-P

LÅT DEN RÄTTE KOMMA IN • SUE • 2008
Direção de Tomas Alfredson • Roteiro de John Ajvide Lindqvist, baseado em seu romance
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg.
115 min. • Distribuição: Filmes da Mostra.

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Gatão de Meia Idade

30/12/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 15/03/2006.

Em outros tempos, eu declamaria um belo e inflado discurso patriótico só de ouvir qualquer um falar uma vírgula maldosa sobre cinema nacional. Em outros tempos, eu venderia meus parentes para correr àquele cineclube pulguento que ninguém visita só para conferir o último longa brazuca a chegar às telonas. Em outros tempos, falar de festivais de cinema me empolgaria apenas pela oportunidade de assistir uma pá de fita nacional que jamais seria distribuída comercialmente nas nossas salas de projeção.

Hoje em dia, eu peço para ver um filme do Martin Lawrence com o Ashton Kutcher e depois dou um tiro no meu próprio pé, mas não peço para ir ao cinema e torrar dez pila assistindo a um filme brasileiro. Dói dizer, mas é fato (bem, melhor dizendo, eu daria um tiro no pé antes de ver o filme do Martin Lawrence com o Ashton Kutcher).

Ok, eu exagerei DEMAIS nesta última linha. Vamos corrigir: continuo o mesmo louco viciado em qualquer tipo de cinema que sempre fui, e jamais deixaria de assistir a TODOS os longas de um gênero, uma categoria ou um país só por não curtir um ou outro título. Sempre haverá filme bom e filme ruim, não importa de onde venha. Mas ando mesmo muito decepcionado com a nossa capacidade de fazer cinema. Céus, o que está acontecendo? Só tem saído troço RUIM! Cada um pior que o outro! Bastou uma retomada e um punhadinho de películas geniais para que os produtores enxergassem cifrões no lugar de roteiros de qualidade e decidissem investir em troços descartáveis, mal-feitos, grosseiros e totalmente ofensivos à inteligência do espectador. O pior de tudo isso é que o nosso glorioso público médio, lobotomizado pela banalização da TV, caiu direitinho e não pára de fazer o sucesso deste tipo de cinema.

É aí que entra Gatão de Meia Idade (Idem, 2005), adaptação para as telas do conhecido personagem de HQ criado por Miguel Paiva (o mesmo de Radical Chic). O caso é que Gatão de Meia Idade só não consegue ser comparado ao baixíssimo nível da bomba atômica Coisa de Mulher por um único motivo: o primeiro pelo menos não apela nas piadas. Em termos de qualidade, interpretação e roteiro, entretanto, dá no mesmo. Não, não é exagero: Gatão de Meia Idade, dirigido (?) com muita preguiça por Antônio Carlos da Fontoura, tem o poder de deixar o espectador de mau humor pelo resto do dia. Depois ainda dizem que as pessoas são amarguradas sem razão… hunf. :-P

Pra começar, o longa sequer tem uma história – o que já era de se esperar. O personagem, cujas tirinhas pretendem discutir as agruras e as manias do universo dos seres do sexo masculino da faixa dos 40 anos, foi criado apenas para ser a contraparte masculina da Radical Chic e, assim como sua “irmã”, até funciona (mas só de vez em quando) em seu formato original, uma tirinha de jornal de três ou quatro quadrinhos. A Radical Chic já ganhou um programa de TV em forma de vinhetas de cinco minutos, que até divertiam e traziam uma Andréa Beltrão bastante inspirada. Mas daí a querer transformar um personagem de tirinha de jornal que não tem sequer uma “história” definida em estrela de um filme de uma hora e meia já é demais! Um personagem construído para protagonizar pequenas piadinhas numa tirinha não tem estrutura para suportar noventa minutos.

Resultado: ao invés de preocupar-se em construir um mundo ao redor do Gatão, o horroroso roteiro deste filmeco (escrito pelo próprio Miguel Paiva em parceria com Fontoura) apenas reuniu algumas piadinhas curtas e sem conexão entre si, interligando-as de maneira meio “porquinha” e colocando no meio algumas mulheres bonitas para deleite visual dos marmanjões de plantão. Se é pra gastar dinheiro com ingresso apenas para ver mulheres bonitas…

Então, a coisa funciona (quer dizer, “quase” funciona) assim: o espectador acompanha mais um dia na vida de Cláudio, o Gatão (Alexandre Borges), atormentado executivo de design. O cara vive para sua filha adolescente Duda (a novata Renata Nascimento). O problema é que ele também precisa agüentar a chata da mãe dela, sua ex-esposa Betty (Júlia Lemmertz – ÓBVIO!). Uma série de problemas inundam a vida do Gatão. Primeiro, ele se envolve com a ninfetinha Patricinha (Thaís Fersoza), que tem praticamente a mesma idade de sua filha. Ao mesmo tempo, começa a sair com a executiva casada Marisa (Ângela Vieira), que só quer mesmo pular a cerca e pronto. Enquanto isso, o Gatão começa a sentir-se velho, e precisa da ajuda de sua mamãe (Ilka Soares) e de seus amigos para lidar com esta fase e com as zilhões de ex-namoradas, em especial a motoqueira Sandrão (Cristiana Oliveira).

Completam o caldo um insuportável come-quieto que é praticamente o Gatão quando jovem (Márcio Kieling, o glorioso Zezé Di Camargo de Dois Filhos de Francisco), e o novo namorado de Betty, um sujeitinho chamado Aurismar (Antônio Grassi), que pretende levar Duda para morar em Miami. Uau, viram só como a história é interessantíssima? :-P

O problema maior nem chega tanto a ser a falta de enredo. A produção da fita parece ter sido feita nas coxas, de tanta falha visível. É tudo muito mal dirigido, com erros de continuidade gritantes! Em determinada seqüência, por exemplo, o Gatão e uma namorada qualquer acabam de transar e ele levanta-se da cama, revelando estar de cueca – “como” eles transaram é um mistério, visto que eles não dispunham de tempo hábil para se trocar… E dá-lhe cenários falsos, cenas em discotecas com meia-dúzia de gatos pingados dançando fora de ritmo ao fundo (e sorrindo para a câmera)… A péssima qualidade da produção do filme causa mais sorrisos amarelos que a própria película. E olhe que nem cheguei na parte da trilha sonora, que não combina EM NADA com o longa. Deus, alguém pode me explicar o que é aquilo?

As atuações correspondem a outro ponto negativíssimo. À exceção de Alexandre Borges (que carrega uma semelhança física notável com o traço de Miguel Paiva e está razoavelmente bem à vontade no papel), o elenco está perdido, e até atores de indiscutível talento, como Ângela Vieira, parecem estar ali só para pagar as contas. Os casos mais tenebrosos são mesmo o de Thaís Fersoza, até bonitinha mas com total ausência de talentos interpretativos; a sumida Cristiana Oliveira, pagando um mico federal como a masculinizada Sandrão, um personagem chato até não poder mais; e principalmente a novata Renata Nascimento, como a filha do Gatão. Meu, quando a menina aparece em cena, dá vontade de enterrar o crânio na parede initerruptamente. Ela é RUIM DEMAIS – além de ser a protagonista da horrorosa conclusão da fita, uma das seqüências mais desconexas e sem sentido dos últimos tempos! Sério mesmo, não existe SENTIDO naquela cena final! Certamente o orçamento estourou, aí já viu. :-P

Num todo, o grande pecado capital de Gatão de Meia Idade é o mesmo pecado das muitas produções brazucas que infestam nossas salas atualmente: não respeita a capacidade do público de raciocinar. Não apresenta uma história coerente, e sim um punhado de piadas idiotas e sem graça, sem ligação alguma. O que os nossos produtores precisam aprender é que apenas carregar o rótulo de “filme brasileiro” ainda não é o suficiente para levar o público às salas. É necessário ter um enredo interessante, que traga um mínimo de coerência. E nisso, o Gatão passou longe. Se ele consegue sair com uma pá de mulher boa só por conta de seu charme, levar o público ao cinema já exige um pouco mais de lábia e papo consistente. E quem, assim como eu, sabe que o cinema nacional não se resume a estas joças e quer saber do que os verdadeiros profissionais da área, e não estes sujeitos que acham que fazem cinema, realmente são capazes, assista Lavoura Arcaica e seja feliz. :-D

CURIOSIDADES:

• O “cineasta” Antônio Carlos da Fontoura é o mesmo que comandou o trash brazuca Rainha Diaba (com Milton Gonçalves e o jovem Stepan Nercessian recontando a história de Madame Satã) e o trágico infantil Uma Aventura do Zico. Fontoura assinará em breve o longa-metragem Religião Urbana, que contará a história da vida do ex-líder da banda Legião Urbana, Renato Russo. Que me desculpem os fãs, mas se a fita já prometia ser um engodo tão intragável quanto o filme do Cazuza por si só, agora então…

• O Gatão de Meia Idade nasceu em 1994, como lado masculino da Radical Chic, e suas tiras atualmente são publicadas no jornal O Globo. O personagem já protagonizou mais de 4.100 tirinhas.

GATÃO DE MEIA IDADE • BRA • 2005
Direção de Antônio Carlos da Fontoura • Roteiro de Antônio Carlos da Fontoura, Miguel Paiva e Melanie Dimentas
Baseado nos personagens criados por Miguel Paiva
Elenco: Alexandre Borges, Júlia Lemmertz, Renata Nascimento, Ângela Vieira, Thaís Fersoza, Cristiana Oliveira, Paulo César Pereio, Lavínia Vlasak, Rita Guedes, André de Biase, Flávia Monteiro, Bel Kutner, Ernesto Piccolo, Alexia Deschamps, Ilka Soares, Márcio Kieling, Paula Burlamaqui.
93 min. • Distribuição: Globo Filmes.


O Massacre da Serra Elétrica

30/12/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/02/2005.

Boa parte do pessoal que lê A ARCA vai estranhar esta matéria. Afinal, todo mundo sabe que sou um cara absurdamente avesso à remakes, exceto uma ou outra coisa obscura. Enfim, no saldo geral, quero mais é que as refilmagens se explodam. E olhem que eu até tinha motivos de sobra para querer dar cabo de minha existência miserável quando, mais uma vez, a voz do Fanboy surgiu no meu aparelho telefônico, dizendo aquelas palavras tão (ou mais) assustadoras quanto o “seven days” que a Sadako-cover solta em O Chamado: “Zarko, meu filho, tenho trabalho pra você”!

O trabalho em questão era, claro, uma matéria sobre O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 2003). Tá, então vamos começar por aí: 1) Um remake (Entenderam essa parte? Um remake! Quem sou eu? Aquele que odeia remakes!); 2) Um remake de um filme de horror – gênero obrigatório para a minha pessoa; 3) Um remake de um filme de horror trash gore dos anos 70 – sem dúvidas, o subgênero preferido dentro do meu gênero preferido; 4) Um remake de um filme de horror trash gore dos anos 70 que é apenas um dos meus longas definitivos do gênero, no caso O Massacre da Serra Elétrica autêntico de 1974, o longa-mór, o clássico do canibalismo e do “horror realista”. Ah, qual é, vai dizer que você não se arrepiou todo com a loira ensangüentada rindo que nem uma louca na caçamba da caminhonete? :-D

Pra deixar o leite ainda mais azedo, a produção da refilmagem é do Michael Bay, o louco psicopata por trás da terrível cagada chamada Pearl Harbor, e a direção ficou a cargo de um tal de Marcus Nispel, videoclipeiro responsável por vídeos musicais da Amy Grant e da Janet Jackson… SOCORRO! Quando tomei conhecimento do elenco desta releitura, que seria liderado por Jessica Biel (Blade: Trinity), aí surtei de vez. Catzo, os caras queriam transformar a história do maluco Leatherface em mais um porre adolescente do tipo Eu Sei o Que Vocês Fizeram na Segunda-Feira de Carnaval às Dez e Quarenta e Cinco da Manhã… E não tinha ninguém pra proibir este pecado, ô meu Deus.

O que mais me deixou apreensivo, porém, foi o atraso no lançamento aqui no Brasil – impressionantes 15 meses (!). Isso porque na Argentina a fita só chegará às telonas em Junho deste ano, e com relação à nossa querida terrinha, a distribuidora passou um bom tempo decidindo se lançaria este novo Massacre direto em DVD ou nos cinemas mesmo. Entretanto, o lance todo tinha um lado bom: esta refilmagem construiu uma carreira de sucesso nos States, arrecadou praticamente dez vezes mais o que custou (no caso, a fita comeu US$ 9 milhões da Focus Features e gerou quase US$ 90 milhões) e uma parcela da crítica elogiou o trabalho. O que é, diga-se de passagem, um ponto muito positivo, já que os filmecos de horror de hoje em dia são “massacrados” (desculpem o trocadilho) por 100% destes caras. De qualquer forma, fui enfrentar a sessão já me preparando para dizer aqui que a versão em 30 segundos e re-encenada por coelhinhos era bem melhor – se você não sabe do que raios estou falando, visite o site AngryAlien.com, uma das coisas mais engraçadas que já surgiram na Internet, e seja feliz. ;-)

Voltando: então, eu vi o filme. E… tá bom. Eu admito. Gostei desta nova versão. Gostei bastante, até.

Mas tenho um detalhe importantíssimo para apontar: o novo Massacre não pode ser considerado, de forma alguma, uma refilmagem. Nem pensar: é “quase” uma fita totalmente nova, e este é só o primeiro dos acertos do roteiro de Scott Kosar, que assinou o script do magnífico O Operário. Então pode esquecer a possibilidade de rever cenas marcantes como a própria seqüência da garota na caminhonete, o jantar e – a minha preferida – Leatherface dando seus “pulinhos” contra o Sol no meio da estrada. E foi ótimo assim: se O Massacre da Serra Elétrica versão 2003 naufragasse nas bilheterias ou ganhasse a antipatia da crítica, correria o sério risco de queimar grandão a obra-prima B de Tobe Hooper (que mais tarde, viria a comandar Poltergeist para o titio Spielberg).

Os personagens, inocentes demais no primeiro filme – o que é justificável, afinal a produção é de 1974 -, também sofreram metamorfoses muito das bem-vindas. Então não temos mais a mocinha pura e casta Sally Hardesty, seu irmão tetraplégico Franklin e afins. Os novos personagens, bem mais “propícios” à nossa época, digamos assim, são Erin (Biel), seu namorado Kemper (Eric Balfour, de Lições para Toda a Vida), o drogadinho Morgan (Jonathan Tucker, de Até o Fim e 100 Garotas), o safado Andy (Mike Vogel, do seriado Grounded for Life) e a totalmente várzea Pepper (Erica Leerhsen, a nova musa de Woody Allen em longas como Igual a Tudo na Vida e Dirigindo no Escuro). Os cinco amigos viajam numa kombi caindo aos pedaços, mas não mais procuram a casa da avó como no original e sim voltam de uma viagem “de negócios” – leia-se: foram comprar maconha no México.

O terror tem início quando a turma quase atropela uma garota em estado de choque (na outra fita, um rapaz). Resolvem ajudá-la. A garota, que balbucia coisas do tipo “eu quero voltar pra casa”, termina por cometer suicídio na frente deles (numa cena muito, mas muito bacaninha). Mesmo com Morgan, Andy e Pepper defendendo a alternativa de jogar o corpo num cantinho da estrada e se mandar, Erin e Kemper, visivelmente os líderes da turma, pensam que devem avisar a polícia, uma vez que “quem não deve não teme”. A kombi estaciona num bar de beira de estrada, e então… então… Vai ver o filme, ora essa! :-P

Bem, a partir daí, todo mundo sabe o que vai acontecer. Mas este é o ponto que menos importa, já que o trajeto até lá é bem sofrido. Vou explicar: Enquanto a película de Tobe Hooper se apoiou exclusivamente na fotografia crua e numa captação de imagens bem pobre, criada propositadamente para parecer um “falso-documentário”, o filme de Marcus Nispel é assumidamente uma produção de cinema, fazendo bom uso de uma fotografia e uma montagem bem tradicional – mesmo que apele para seqüências “documentais” ao início e ao final da projeção. Ao contrário de Hooper, que metia medo com a intenção de ser “real”, Nispel rodou apenas um filme de horror, mas um belo dum filme de horror, com todos os elementos típicos das boas produções do gênero.

Ou seja: tem susto a dar com o pau, tem sangue jorrando a torto e a direito, dá aquela vontade de xingar quando os caras resolvem ficar parados quando deveriam sair correndo, e tem uma boa fatia de personagens odiosos e aterrorizantes, como o novo Leatherface (que dá de dez a zero no primeiro em matéria de crueldade, desculpa falar isso!) e o escroto xerife Hoyt (R. Lee Ermey, de A Vingança de Willard e Seven – Os Sete Crimes Capitais). Outro grande ponto a favor deste novo O Massacre da Serra Elétrica é a coragem de ser visualmente perturbador, elemento imprescindível que transformou a primeira versão no clássico do cinema gore que é hoje. Então espere numa boa por imagens bizarras e sádicas, com muito sangue, pedaços de carne, pedaços de cérebro…

Mas sem sombra de dúvida, o mérito maior do filme é o respeito que esta “quase refilmagem” tem com relação a seu antecessor: no bom trabalho que fez no roteiro, Scott Kosar não se concentrou em copiar ou refazer cena a cena o trabalho de Hooper e Kim Henkel (os roteiristas do primeiro), mas sim contar a mesma história sob uma nova e atual perspectiva, sem afetar a fita de 1974. O que, decididamente, fez toda a diferença. Pois é, eu gostei mesmo, não importando se é um remake ou não! Porém, se alguém aí me pressionar, ainda falo que prefiro o original. E na verdade, prefiro mesmo. Afinal, preciso manter minha fama. :-P

CURIOSIDADES:

• A história de O Massacre da Serra Elétrica é inspirada em um caso dito verídico, ocorrido nos anos 50. Na ocasião, o FBI finalmente prendeu o criminoso Ed Gein, que confeccionava e vendia objetos de artesanato. Detalhe: os objetos eram feitos com pedaços de suas vítimas, geralmente viajantes perdidos que estacionavam na fazenda de Gein para pedir informações. No quintal de Gein, haviam vários pedaços de corpos espalhados. O que não era vendido, Gein comia no jantar. Sim, é sério.

• O primeiro Massacre foi filmado em 16mm por Tobe Hooper quando este ainda era praticamente um moleque. O filme foi proibido em diversos países por mais de dez anos, inclusive no Brasil. Aqui, só foi lançado oficialmente mesmo depois que cópias piratas começaram a se espalhar, isso lá pelos idos de 1983. A nova versão é proibida na Ucrânia até hoje, por ordem do Ministro da Cultura. Nos cinemas americanos, em 1974, eram distribuídos sacos de vômito antes da sessão. Isso podia ser adotado no Brasil, antes de qualquer sessão de filmes da Xuxa…

• Na nova versão, em uma determinada cena, a personagem Erin manuseia uma faca e, quando questionada sobre a origem do utensílio, ela diz que “ganhou de seu irmão”. Isto é uma referência ao filme original, em que Sally toma emprestado uma faca de seu irmão Franklin, obcecado por canivetes. Ela nunca devolveu a faca…!

• Durante seu teste, Erica Leerhsen gritou tão alto que pessoas de outras partes do prédio acionaram a polícia, pensando que a atriz estivesse sendo atacada!

• A trilha sonora do Massacre versão 2003 seria composta originalmente pelo roqueiro-bizarro-mutante Marilyn Manson, que não pôde aceitar o convite por problemas de agenda. O papel de Erin seria originalmente feito por Katie Holmes.

• Preste bastante atenção nas cenas que se passam no porão de Leatherface: lá, é possível você encontrar o rosto mutilado de ninguém menos que Harry Knowles, do Ain’t It Cool News!

THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE • EUA • 2003
Direção de Marcus Nispel • Roteiro de Scott Kosar
Baseado no filme The Texas Chainsaw Massacre, escrito por Kim Henkel e Tobe Hooper
Elenco: Jessica Biel, Jonathan Tucker, R. Lee Ermey, Erica Leerhsen, Eric Balfour, Mike Vogel.
95 min. • Distribuição: Focus Features/Europa Filmes.


Distrito 9

29/12/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 15/10/2009.

Perguntar a um cinéfilo o que mais o atrai nos filmes é mais ou menos a mesma coisa que tentar entender o sentido da vida, do universo e tudo mais. Difícil de explicar, se é que é possível. Bem, no meu caso, trata-se de um conjunto imenso de pequenos fatores. Um deles, talvez o principal, é a capacidade do cinema de moldar realidade e ficção em um único pacote, discutindo temas complexos através de enredos apoiados em fantasia e inovações gráficas – dois grandes trabalhos recentes, o francês Persépolis e o israelense Valsa Com Bashir, estão aí para provar que assuntos espinhosos podem render trabalhos contundentes… e ao mesmo tempo fascinantes visualmente falando.

Em suma, cinema não só é uma válvula de escape para o povo relaxar e se entreter, como também pode ser um forte instrumento de reflexão e ponderação comportamental, com poder de persuasão maior do que qualquer outra espécie de veículo. (Claro que, para o público médio, acostumado a “não ter que pensar” e a devorar qualquer porcaria comercial que lhe apareça à frente e ainda gostar, enxergar este ponto de vista será bem difícil e isso parecerá papo de “pseudo-descolado”, mas a gente fala mesmo assim, né?)

Talvez este parágrafo de início ajude a compreender o que quero dizer quando falo que QUASE me apaixonei por Distrito 9 (District 9, 2009), um dos trabalhos mais comentados e esperados deste ano. Digo “quase”, porque a primeira meia-hora desta empolgante sci-fi comandada pelo novato sul-africano Neill Blomkamp e produzida por Peter Jackson nos dá a impressão de que estamos diante de um trabalho fodáximo que representa tudo aquilo que disse lá em cima. O negócio começa tão bem que, durante esta primeira meia-hora, pensei comigo mesmo, “putzarella, é o melhor do ano até agora” – até então, eu ainda não tinha visto Bastardos Inglórios que, por enquanto, é o dono do título. :-)

O problema é que o desenrolar da trama, que começa como um retrato bem realista de um conflito sócio-político em uma região cujas feridas causadas pelo apartheid ainda não cicatrizaram, esquece de tudo o que construiu inicialmente para se render a uma trama de ação que, por mais empolgante que seja (e realmente é), é prejudicada pela saraivada de clichês pipocando a cada segundo…

E olha que Distrito 9 tinha um pusta de um senhor potencial: logo no início, uma série de noticiários de televisão, imagens de “cinegrafistas amadores” e depoimentos de populares nos situa no grave problema que assola os sul-africanos residentes em Johannesburgo. Acontece que, um belo dia, uma gigantesca espaçonave apareceu nos céus da cidade e lá permaneceu, parada no ar e sem qualquer sinal de vida. Com a imunidade baixa e a nave avariada, os milhões de alienígenas ali presentes não conseguiram voltar para casa. Resultado: foram forçados a permanecer na Terra. Temerosa com a presença dos monstrengos, apelidados de “camarões” por se parecerem de fato com um, a população pressiona o governo a tomar atitudes. Primeiro, a criação de severas leis de segregação racial; depois, a construção de um “campo de refugiados para não-humanos”, denominado Distrito 9.

Não tarda para que a comunidade alien no Distrito 9, entregue à própria sorte em um planeta estranho e hostil, transforme o campo em uma imensa favela; com ela, surge um avançado estado de marginalidade e violência, impulsionado pelo tráfico de armas extraterrestres e pelo domínio da máfia nigeriana no local. Uma onda de morte e caos atribuída aos ETs força os governantes a dar início a uma operação de desapropriação do Distrito 9. É aí que entra o almofadinha Wikus Van De Merwe (o ótimo Sharlto Copley), agente do governo que trabalha para a MNU, espécie de organização que, pelo menos de fachada, visa garantir os direitos humanos dos não-humanos (?). Arrogante e autoproclamado “superior” à raça alienígena, Wikus supervisionará pessoalmente a ação de despejo dos aliens do Distrito 9.

Os problemas de Distrito 9, o filme, começam a surgir quando Wikus é vítima de um evento ocorrido dentro de uma das palafitas do D9, o que nos leva a outro evento que muda drasticamente os rumos da história (claro que não vou revelar o que acontece – quer saber, vá ao cinema, oras!). É neste momento que o roteiro escrito por Blomkamp em parceria com a também novata Terri Tatchell cai na mesmice: o conflito dá lugar a um joguinho de gato e rato igual a tantos já vistos em filmes de ação, com várias situações que beiram o clichê. Então, temos os militares malvados, o bam-bam-bam do governo que matará até a própria mãe se assim necessário for para garantir o sucesso de seu plano, o babaca que vira exército-de-um-homem-só em questão de horas, o ET amiguinho, os antagonistas que se odeiam e passam a lutar lado a lado em prol de um objetivo comum… aqui há espaço até para o “momento pode-ir-me-deixe-aqui” seguido do “momento não-vou-deixar-você-para-trás-estamos-nesta-juntos“. Afe! :-)

Sabe, tantas possibilidades, tantas alternativas para se desenvolver os rumos do enredo… e uma idéia tão inovadora quase se perde por causa da escolha mais preguiçosa.

Mas calma, eu disse “quase”. Os clichês baratos são compensados pela extrema habilidade do diretor Neill Blomkamp em conduzir seqüências de ação embasbacantes, capazes de deixar qualquer um de queixo caído – a invasão da MNU e a batalha final no D9 são absolutamente sensacionais. Quando a pancadaria começa (não contarei como, quando ou porquê para não estragar a surpresa), Distrito 9 não poupa o espectador de cenas violentíssimas, com sangue, membros mutilados e cabeças explodindo a torto e a direito (!). Os efeitos visuais são uma atração à parte: desafio qualquer um a encontrar um defeito sequer no CGI dos aliens, da nave e também do robô, um aparato usado por Wikus em determinado momento, capaz de causar inveja em qualquer um daqueles montes de metal retorcidos que atendem pela alcunha de Transformers (hehehe). E na melhor tradição O Senhor dos Anéis, os melhores personagens de Distrito 9 são virtuais – no caso, o alienígena Chistopher e seu encantador filhinho crustáceo (?), um pivetinho ET que rouba o filme sempre que aparece.

Mas enfim… Distrito 9 vale a pena ou não? Claro que vale. Vale cada centavo empregado no ingresso. Ainda com falhas, estamos falando de uma sci-fi de ação que, mesmo não correspondendo totalmente à enorme expectativa causada por sua divulgação e seu ponto de partida, não faz feio e está muito acima da média dos próprios longas que condensaram os tais clichês tão exaustivamente utilizados aqui. Pena que o enredo preferiu cair no pega-pra-capá ao invés de fazer história e centrar sua mira no poderoso manifesto sócio-político desenvolvido em seus primeiros momentos. O que poderia ser uma obra-prima como instrumento de reflexão, ficou apenas como um ótimo filme de entretenimento. Mas quem não gosta de um bom quebra-pau na telona só para distrair, não é mesmo? :-)

Ah sim: a resposta para o sentido da vida, do universo e tudo mais é… 42. O Guia do Mochileiro das Galáxias que falou. ;-)

DISTRICT 9 • EUA/ZEL • 2009
Direção de Neill Blomkamp • Roteiro de Neill Blomkamp e Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvanie Strike, Elizabeth Mkandawie, John Sumner, William Allen Young.
112 min. • Distribuição: Tri-Star Pictures.


Cassino Royale

29/12/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/12/2006.

Escolhido para ser o alicerce da 21.ª aventura do espião inglês James Bond nos cinemas, o enredo de 007 Cassino Royale não é apenas uma historinha criada por tabela para servir de veículo ao agente mais famoso da história do cinema – assim como o é, por exemplo, 007 Um Novo Dia Para Morrer e 007 O Amanhã Nunca Morre (dois veículos ótimos enquanto trama, diga-se de passagem). Ok, este último citado é tão imerso no universo do agente secreto que poderia facilmente se passar por um rascunho psicografado por Ian Fleming direto do limbo (!). Voltando, 007 Cassino Royale não é apenas uma traminha desenvolvida a partir da idéia surgida na cabeça de algum executivo de Hollywood sedento por dinheiro. 007 Cassino Royale é nada menos que a primeiríssima história de espionagem protagonizada pelo agente secreto, o romance que apresentou ao mundo aquele que alimenta a imaginação dos leitores até hoje; é neste romance, criado por Fleming no longínquo ano de 1953, que o personagem apareceu pela primeira vez, com todos os seus maneirismos.

Bem, quase. É bem verdade que Cassino Royale, o livro, era um xodózão de Fleming, já que retrata Bond, recém-batizado com sua denominação “00”, como um sujeito meio amador, experimentando no limite toda a excitação e a adrenalina de ser um agente secreto com um arma na mão e uma licença para matar no bolso – logo, é de se esperar que os elementos que hoje estão associados ao personagem ainda estejam, digamos, pré-moldados e até meio crus. Talvez este carinho todo com a obra que deu o ponto de partida em 007 tenha sido o motivo pelo qual Ian Fleming bateu o pé quando negociou a venda dos direitos de todas as suas obras à Eon Productions, que pretendia adaptá-las para as telas dos cinemas. Quer dizer, “todas as suas obras”, não. Cassino Royale não estava no meio.

E de nada adiantou insistir. Fleming recusou-se a ceder seu primeiro livro até não poder mais. E ai de quem começasse a encher o saco do cara! Hunf. :-D

Deixando de lado um curtinha insignificante veiculado em 1954 pela emissora CBS, a obra só chegou às telonas em 1967, quando James Bond já era um cara bastante popular por conta das películas estreladas por Sean Connery. Porém, os direitos de adaptação cinematográfica da história ainda permaneciam “bloqueados”, ou seja, qualquer suposta transposição não poderia fazer parte da série oficial de filmes do espião. E como se não bastasse, a idéia de resetar o mundinho de 007 parecia um tanto absurda; tanto que os produtores responsáveis por esta adaptação, entendendo que uma produção “rival” da série oficial jamais sobreviveria nas bilheterias se apresentasse as mesmas características de sua “concorrente”, decidiram reformulá-la por completo. O resultado é Cassino Royale (Casino Royale, 1967), o primeiro filme de James Bond… no ramo da comédia. Mas hein? Na comédia? :-P

Sim, sim. Na comédia. Um agente secreto ultra-bem-sucedido como personagem central de uma trama absurdamente nonsense que tira sarro justamente dos elementos que, cinco anos depois da estréia de Bond nos cinemas com 007 Contra o Satânico Dr. No, já tinham vida própria. Esta foi a saída dos produtores para atrair o público sem parecer apenas uma fitinha furreca caça-níqueis que queria pegar carona no sucesso do personagem. Este “desvio de personalidade” do enredo de Cassino Royale não foi apenas uma tirada para driblar os direitos autorais: também representou uma resposta do produtor Charles K. Feldman aos seus colegas Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, os “donos” da franquia original – que, traumatizados com todo o siricotico do excelentíssimo senhor Kevin McClory (não sabe do que estou falando? Ah, então leia neste pequeno website a gloriosa matéria sobre o famigerado 007 Nunca Mais Outra Vez!), recusaram-se terminantemente a co-produzir mais um filme com um “estranho”. E como Sean Connery não queria nem saber de estrelar a versão não-autorizada de Cassino Royale para não perder a moral com seus chefões, Feldman resolver tirar um sarrinho e transformar o negócio em uma salada.

E que salada! Senão, veja só. Cassino Royale foi dirigido por CINCO indivíduos! Eis os nomes: Ken Hughes, diretor do musical arroz-de-festa da Sessão da Tarde O Calhambeque Mágico; Joseph McGrath, da comédia qualquer nota Um Marido de Reserva; Robert Parrish, habitual diretor de episódios da série Além da Imaginação; Val Guest, responsável pelo infame trash movie chamado A Abominável Mulher das Neves (?!); e por último, o notório John Huston, aclamadíssimo cineasta que comandou clássicos como O Tesouro de Sierra Madre, Moby Dick e O Falcão Maltês.

Se a direção da fita teve dedos de cinco meliantes, imagine o roteiro: oficialmente creditado a três pessoas, Wolf Mankowitz, John Law e Michael Sayers, sabe-se que o script foi incansavelmente reescrito por sujeitos como Ben Hecht (autor do enredo de Scarface – A Vergonha de uma Nação, versão de 1932), o humorista Peter Sellers, o cineasta Billy Wilder e até uma certa criatura que atende pelo nome de Woody Allen, por – sinal também integrante do elenco. E o que você pensaria de um filme que divide o personagem principal entre nada menos que SETE atores diferentes? Deu para imaginar o grau de insanidade aplicado à produção? :-)

Se não conseguiu imaginar, então conheça o enredo: James Bond (vivido por um impagável David Niven), que recebeu a ordem da rainha e agora é SIR James Bond, curte sua aposentadoria sem qualquer tipo de preocupação… até que é chamado para a labuta novamente. Convencido pelos chefes da agência de espionagem a agir contra um inimigo do passado, a SMERSH, Bond se manda para a Escócia e conhece uma intrigante agente (Deborah Kerr), que o faz enfrentar uma pá de atentados. De volta a Londres, Bond decide assumir o posto de M, que está morto (!). É aí que o ex-agente descobre que vários espiões estão debaixo da terra porque tentaram seguir seus passos de “sujeito galanteador” e se envolveram demais com mulheres fatais (!). Para botar ordem na casa e também localizar Jimmy Bond (Woody Allen), seu sobrinho desaparecido, Bond contrata Cooper (Terence Cooper), agente secreto que carrega uma suspeita fama de “incorruptível às mulheres”… Para confundir seus inimigos, o ex-007 também determina que todos os agentes a serviço de sua majestade, incluindo as criaturinhas do sexo feminino, deverão se chamar… JAMES BOND 007 (?).

Assim, o Bond original segue para sua missão: encontrar e chantagear a bela Vesper Lynd (vivida pela mais famosa Bond-Girl da história, Ursula Andress) e, com seu auxílio, armar um esquema para obter o apoio do dúbio Evelyn Tremble (Peter Sellers), que também se chamará James Bond 007. Tudo gira em torno dos planos de Bond em deter o bandidão mais perigoso da parada, o exímio jogador de bacará Le Chiffre (Orson Welles). As coisas podem sair dos trilhos quando surge na parada a belíssima Mata Bond (Joanna Pettet), filha ilegítima de Bond (?!), fruto de um casinho rápido com ninguém menos que… Mata Hari! Céus, que confusão dos diabos! :-D

Agora me diga: dá pra levar a sério um troço desses?

É aí que reside a graça de Cassino Royale. A criativa direção dos cinco cineastas ganha pontos justamente por assumir o absurdo de sua concepção e entregar-se por completo ao único objetivo de divertir a platéia e apresentar um James Bond fora do convencional. O personagem de David Niven (o lendário “típico inglês” de produções díspares como A Pantera Cor de Rosa e Morte Sobre o Nilo) passa quase o tempo todo tentando consertar as burradas dos sujeitos que levam seu nome – e que não fazem nada, mas nada certo… No meio de sua cruzada para derrotar Le Chiffre e finalmente voltar a descansar, o espectador é brindado com uma série de gags que satirizam todos os conceitos definidos pelos livros e pelos filmes de 007, além de juntar uma gama de astros popularíssimos na época, como os já citados e também outros grandes nomes como Anjelica Huston, William Holden, Charles Boyer, o eterno mafioso George Raft, o excelente Peter O’Toole (mais conhecido como o senhor Lawrence da Arábia), a maravilhosa Jacqueline Bisset e Jean-Paul Belmondo, um dos maiores galãs do cinema francês sessentista. Mais astros que isto, só nos filmes de Steven Soderbergh! :-)

Ah, e não podemos nos esquecer de que Cassino Royale traz uma das mais brilhantes e talvez a mais deliciosa canção-tema de toda a cinessérie: The Look of Love, composta por Burt Bacharach e imortalizada na voz de Dusty Springfield. Melhor que esta, só Shirley Bassey soltando seu gogó no tema de Goldfinger! ;-)

Mas nem tudo são flores. A produção causou uma bela dor de cabeça em todos os envolvidos pelo orçamento meio inflado (US$ 12 milhões, um absurdo para a época) e também pelos inúmeros atritos entre dois importantes astros da película: Peter Sellers e Orson Welles. Sellers, por exemplo, tinha o costume de abandonar os sets de filmagem; às vezes, desaparecia sem aviso prévio por dias. Welles, dono de temperamento difícil e extremamente enciumado com a popularidade de Sellers, sempre fugia do roteiro e inventava alguma coisa para se mostrar, o que ocasionamente atrapalhava o andamento das filmagens. E as cenas que traziam Sellers e Welles juntos precisaram ser rodadas em dias diferentes e com os atores em separado, para que a equipe não fosse surpreendida por algum ocasional quebra-pra-capá (!). Isto tudo, sem contar o iminente lançamento de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, o então longa oficial de James Bond, que naturalmente representava uma ameaça em termos de bilheteria.

Como era de se esperar, o “produto oficial” rendeu mais do que o “genérico” (US$ 43 milhões contra US$ 22 milhões). E os fãs, que não admitiram uma visão cômica do agente inglês – ou não entenderam a piada – torceram o nariz. Hoje, a história é outra. A Eon finalmente conseguiu os direitos de adaptação cinematográfica de Cassino Royale, o livro, e acaba de lançar a história com um James Bond polêmico e o notório rótulo de “um dos melhores filmes da saga”. Enquanto isto, depois de uma longa batalha judicial, a MGM comprou os direitos desta versão não-oficial e hoje o filme é comercializado em DVD como parte da franquia, embora seja comercializado “em separado”, como “um capítulo à parte, específico”.

E quanto ao resultado final de Cassino Royale, a visão cômica da coisa? Bem, é fácil resumir da seguinte forma: num todo, trata-se de uma produção curiosa, atípica e altamente divertida. Se você é fã ferrenho, bem nerdy mesmo (no bom sentido da palavra), daqueles que não admitem qualquer fuga dos elementos definidos pelos textos de Ian Fleming e pelos longas-metragens da série oficial, você corre o risco de se ofender feio com as liberdades artísticas do roteiro, mesmo que uma ou outra característica do universo de Bond se faça presente. Numa boa? Besteira. Cassino Royale foi criado com o único intento de divertir. E isto, apesar de seus altos e baixos, faz com louvor. E não é ótimo saber que James Bond é tão único a ponto de saber tirar sarro de si mesmo? ;-)

CASINO ROYALE • ING/EUA • 1967
Direção de Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath, Robert Parrish e Richard Talmadge • Roteiro de Wolf Mankowitz, John Law e Michael Sayers • Roteiristas não creditados: Woody Allen, Val Guest, Ben Hecht, Joseph Heller, Terry Southern, Billy Wilder e Peter Sellers
Elenco: Peter Sellers, Ursula Andress, David Niven, Orson Welles, Joanna Pettet, Woody Allen, Deborah Kerr, William Holden, Charles Boyer, John Huston, George Raft, Jean-Paul Belmondo, Terence Cooper, Jacqueline Bisset, Geoffrey Bayldon, Geraldine Chaplin, Anjelica Huston, Peter O’Toole, Robert Vaughn
131 min. • Distribuição: United Artists.


Nicotina – Uma Noite de Puro Caos

29/12/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 26/05/2005.

Em matéria de cinema, digo numa boa e sem crises que os argentinos dão um banho violento nos brazucas. Quem assistiu o fenomenal Nove Rainhas (2000), o belíssimo O Filho da Noiva (2001) e o intenso Kamchatka (2002), sabe muito bem do que estou falando. Além de dominar o lado técnico com uma desenvoltura fora do comum, os caras ainda trazem de quebra roteiros bem bacanas, com ótimas tiradas e diálogos divertidíssimos. E cito novamente Nove Rainhas, cuja estrutura dramática e final embasbacante põem tranqüilamente toda a filmografia do M. Night Shyamalan no chinelo. Tanto que os americanos, extremamente invejosos, precisaram até refilmar a fita; o resultado foi o mais-ou-menos 171, estrelado pelo ótimo John C. Reilly e o mexicano Diego Luna.

Aliás, Diego Luna – que integrou o elenco de O Terminal recentemente – é o nome mais conhecido do novo exemplar do cinema argentino a aportar aqui no Brasil, o divertidíssimo Nicotina – Uma Noite de Puro Caos (Nicotina, 2003), segunda incursão na direção do produtor Hugo Rodríguez, que foi co-produzida com o México e chega aqui com exatos dois anos de atraso. O que não dá pra entender: Nicotina, apesar do título incomum, é uma deliciosa fita policial recheada de humor negro (yikes!), que não deve nada aos Guy Ritchies da vida. Se não fosse o idioma espanhol, eu poderia jurar que esta trama maluca saiu da cabeça doente do inglês maridão da Madonna e criador do já clássico Snatch – Porcos e Diamantes: todos os elementos típicos de Ritchie estão lá, desde os personagens perigosos e carismáticos, até os objetos de desejo que os bandidos buscam o tempo todo e ninguém sabe onde está. Pois é, enquanto isto, o Guy Ritchie genuíno perdia tempo dirigindo uma certa fitinha passada numa ilha deserta… ugh! :-P

Se você ainda duvida, dá só uma olhada: Nicotina começa exatamente às 21:17, num canto qualquer da Cidade do México. O hacker Lolo (Luna) está em seu apartamento, concluindo um serviço para dois bandidões de Buenos Aires, o novato Nene (Lucas Crespi) e o veterano Thomson (Jesús Ochoa, do ótimo Vozes Inocentes). Em pouco tempo, os meliantes chegarão ao apê de Lolo para buscar o “serviço pronto”, um CD com dados de uma conta milionária na Suiça. De posse do CD, Nene e Thomson deverão encontrar o gangster russo Svoboda (Norman Sotolongo) para trocar o valioso disquinho por nada menos que 20 diamantes.

Enquanto espera o negócio ficar pronto, Lolo espiona sua bela vizinha, a violoncelista Andrea (Marta Belaustegui). Lolo é apaixonado por Andrea, que também é sua inquilina. Tão apaixonado que tem a mania de observar todos os passos da moça através de câmeras escondidas. Além disso, o rapaz transforma estas imagens em video, gravando tudo em disquinhos; e sempre dá um jeitinho de atrapalhar os flertes da garota, seja com um homem mais velho, seja com o vizinho de cima… Nem um pouco várzea a menina, não? :-) Enfim, o problema é que Andrea desconfia que algo está errado. Quando ela finalmente descobre ser vigiada por Lolo, a maluca invade o apartamento do nerd, destrói seu computador, arremessa a estante de CDs longe e ainda quebra os óculos do rapaz. Na mesma hora, Nene e Thomson chegam, e Lolo, como era de se esperar, entrega o CD errado a eles… e eu paro por aqui!

Acha que contei muito da história? Que nada. Tudo isso aí em cima acontece em no máximo 15 minutos. Este é só o plot de uma salada que envolve ainda um farmacêutico grosseiro chamado Beto (Daniel Giménez Cacho, o padre Manolo de Má Educação); sua esposa, a sofredora Clara (a bela Carmen Madrid); o barbeiro Goyo (Rafael Inclán); sua ambiciosa e diabólica mulher, Carmen (Rosa Maria Bianchi, de Amores Brutos); além de um cachorro folgado, um punhado de policiais, os diamantes – cujo paradeiro ninguém faz idéia – e… uma bonequinha. Sim, é sério! :-D

Com um emaranhado desses, seria muito fácil para o roteirista Martín Salinas (do aclamado longa Gaby: Uma História Verdadeira) se perder no meio de tantas possibilidades e personagens. Felizmente, não é o que acontece. Nicotina é um trabalho bem estruturado, escrito direitinho e com bastante atenção – embora seja meio confuso na primeira meia-hora, pra não dizer “praticamente incompreensível” – e prende a atenção do público com tiradas bacanas e até mesmo surpreendentes. Quando você pensa que a coisa está pegando fogo, a chaleira esquenta ainda mais! Prestem atenção para a idéia “genial” da esposa do barbeiro, Carmen, para encontrar os diamantes. A mulher é louca! Hehehe… Quanto ao restante, está tudo em seu devido lugar: os atores são bons e esbanjam carisma; a trilha sonora é, como diria o El Cid, o “maior bom”; e a direção, bem competente. Perfeito para uma fita de ação descartável, né? :-)

Tudo bem, e o raio do título, catzo? Bem, o nome do filme refere-se ao envolvimento direto de TODOS os personagens com o cigarro. Rapaz, como esse povo fuma! E antes que algum militante anti-tabaco xiita apareça por aqui querendo explodir tudo, já vou avisando que não há nada que incite o espectador a fumar (é, estas coisas a gente tem que avisar, senão já viu!). Ao contrário, o cigarro parece ser até mesmo o precursor de acontecimentos trágicos. Boa parte da galeria de personagens da fita passa por algum aperto por causa do fumo, e a crítica chega a ser ainda mais ácida quando, em certos momentos, alguns se tornam mais brutais e tomam medidas mais violentas à medida que sentem no corpo a ausência de nicotina. É tal qual Nene responde, quando é questionado sobre os males do cigarro: “Fumar mata, mas a vida, por si só, é ainda mais perigosa”.

Discussões anti-tabagistas à parte, nota-se que, apesar de todas as metáforas, Nicotina foi realizado com o único intuito de divertir, e é desta maneira que deve ser visto. Uma produção muito bem-sucedida, que cumpre tudo aquilo que promete e carrega um grande diferencial chamado “roteiro”. Uma fita para se assistir com os amigos, numa sessão de sábado, e depois sair para comer uma pizza e dar boas risadas lembrando das situações do filme. Pena que não deve conquistar nos cinemas metade do público que merecia – o que pode mudar na ocasião de seu lançamento em DVD. Tomara! E se alguém aí torcer o nariz por causa do país de origem de Nicotina, lembre-se sempre que mais vale um argentino nos cinemas do que um Bruno Barreto ou um Sérgio Bianchi espalhados pelo mundo! Onde este país vai parar, desse jeito… :-P

CURIOSIDADES:

• A trama de Nicotina acontece em tempo real: o filme começa às 21:17 e termina exatamente às 22:50, o mesmo tempo de duração da fita (no caso, 93 minutos).

• O ator argentino Lucas Crespi, intérprete do marginal Nene, é popularíssimo em sua terra natal por conta das milhares de novelas que protagonizou na Argentina e no México, dentre elas Amor En Custodia, Sangre Fria, Rincón de Luz, Enamorarte e… Chiquititas. Sim, o rapaz tem um passado negro… :-)

• Passado mais negro ainda é o do ator mexicano Rafael Inclán, que vive o barbeiro Goyo. Inclán era um dos atores centrais da tenebrosa novela mexicana Pequena Travessa, que ganhou uma, ahn, “refilmagem” no SBT. Medo, medo, medo, muito medo! Enquanto isto, a ótima Rosa Maria Bianchi, cujo currículo contém trabalhos de calibre como Amores Brutos, participou do deplorável folhetim infantil Alegrifes e Rabujos, exibida recentemente também pelo SBT, o canal do horror.

• Curiosamente, as três produções argentinas que citei no primeiro parágrafo são protagonizadas pelo mesmo ator, o ótimo Ricardo Darín. O ator, que é para a Argentina o que Javier Bardem é para a Espanha, é o astro de 9 entre 10 fitas do país atualmente. Eu, pra falar a verdade, até fiquei esperando que o cara aparecesse neste filme…

NICOTINA • ARG/MEX/ESP • 2003
Direção de Hugo Rodríguez • Roteiro de Martín Salinas
Elenco: Diego Luna, Lucas Crespi, Jesús Ochoa, Marta Belaustegui, Rafael Inclán, Rosa Maria Bianchi, Daniel Giménez Cacho, Carmen Madrid, José María Yazpik, Norman Sotolongo.
93 min. • Distribuição: Paris Filmes.


Invasores de Corpos

28/12/2009

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/06/2005.

Me lembro até hoje da primeira vez em que assisti Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers, 1978). Foi numa exibição na TV, de madrugada, lá pelos meus 8 ou 9 anos, e foi a primeira vez em que assisti a um filme de horror sozinho. Meus pais nunca ligaram para o fato de ficar na frente da TV até tarde da noite, e queriam mais que eu assistisse a muitos filmes mesmo! Pois é, eles tentaram me dar uma educação nerd, e para vergonha da família, cresci e me tornei este bastardo cult que sou…

Enfim, o enredo até meio trash de Invasores de Corpos não impediu o diretor Philip Kaufman de gerar um exercício assustador de ficção-científica B, bem aos moldes dos maravilhosos longas-tosqueiras dos anos 50. Naquela época, eu realmente acreditei que, um dia, alienígenas poderiam descer na Terra e clonar seres humanos dentro de enormes vagens (!). Bela desculpa para não comer verduras e legumes! :-D

Brincadeiras à parte, por mais que seja mais horror do que sci-fi, não tenho como negar que este filme é um exemplar inesquecível do gênero, com toda aquela artimanha dos aliens para tentar transformar os humanos incrédulos em zumbis e dominar o planeta. E como esquecer Donald Sutherland e Angela Cartwright naquele final de gelar a espinha? Meu gosto pela ficção-científica só começou a se manifestar graças a este filme. E também graças à Mulher Vespa, um troço horroroso dos anos 60 dirigido por Roger Corman, mas isto é uma outra história!

INVASION OF THE BODY SNATCHERS • EUA • 1978
Direção de Philip Kaufman • Roteiro de W. D. Richter
Baseado no romance de Jack Finney
Elenco: Donald Sutherland, Brooke Adams, Jeff Goldblum, Veronica Cartwright, Leonard Nimoy, Art Hindle, Kevin McCarthy, Don Siegel.
115 min. • Distribuição: United Artists.

 

…SOBRE INVASORES DE CORPOS
Trecho da matéria coletiva A PRIMEIRA SCI-FI A GENTE NUNCA ESQUECE

Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 25/06/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem GUERRA DOS MUNDOS (War of the Worlds).