Uma Noite no Museu

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/01/2007.

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Ocasionalmente, pinta na minha caixa de e-mails uma mensagem de algum leitor empolgadíssimo com a ideia de cursar uma faculdade de jornalismo e trabalhar em um veículo qualquer especializado em cultura pop resenhando filmes. O que sempre tento explicar a estes malucos leitores é que, assim como qualquer profissão, ser um crítico de cinema tem seus prós e contras. Se por um lado é deveras empolgante a possibilidade de ver uma série de fitas antes de todo mundo (a pirataria traz esta alternativa ao alcance de todos, mas sabemos que não é a mesma coisa), por outro lado você é literalmente forçado a ver TUDO, inclusive aqueles troços da qual quer distância. Experiência própria, tá? :-D

O problema maior, entretanto, é que é quase inevitável enxergar qualquer filme que se assista, mesmo nas “horas de folga”, com um insuportável olhar crítico – e esta visão centrada no cinema enquanto “técnica” pode destruir aquilo que deveria (ou pelo menos poderia) ser divertido. Este é um detalhe absolutamente empírico que, acredite, nenhuma faculdade te ensinará. :-)

Vejamos, por exemplo, o caso de Uma Noite no Museu (A Night at the Museum, 2006). Se você esteve no planeta Terra nos últimos seis meses, com certeza já viu aquele teaser-trailer em que um atrapalhado vigia vivido por Ben Stiller caminha pelas dependências de um museu e dá de cara com um esqueleto de Tiranossauro Rex, vivinho da silva, bebendo água em um bebedouro. Bem, só este pequeno teaser já denuncia que não estamos falando de nenhum pretenso clássico da sétima arte, e sim de um blockbuster fabricado com o único intento de segurar e entreter a molecada durante uma hora e meia no escurinho do cinema. Filmes desta “categoria” não tem pretensões de ser lembrados por toda a eternidade; eles só querem servir de passatempo fast-food. E encarando desta forma, Uma Noite no Museu até que cumpre um pouco do prometido.

Aí é que está a questão: a película é divertida, traz algumas piadas legais e, se você vai ao cinema acompanhado de um bando de crianças e adolescentes só pra passar o tempo e esquecer do mundo, você sai com uma agradável sensação de dinheiro bem gasto. Isto é fato. Mas se parar para prestar atenção em QUALQUER COISA além dos efeitos visuais corretos e das piadinhas bobinhas… então já era: você perceberá que Uma Noite no Museu é, na verdade, ruinzinho que só. É mal dirigido, mal interpretado, a história é incoerente até mesmo para um filme de fantasia e os mais escolados não precisarão de mais de 10 minutos de projeção para matar a trama inteira. O curioso é que, na sessão de imprensa, fui acompanhado pelos excelentíssimos senhores Machine Boy e Benício, que estavam lá sem a menor obrigação de escrever uma resenha; e durante a projeção, quando eu olhava para os lados e via os dois sujeitos caindo na gargalhada, só conseguia pensar: Céus, quais substâncias químicas ilegais estes caras ingeriram antes de vir pra cá?. Pois é, ver isso aqui como crítico é um trabalho homérico, pode acreditar. :-P

Então, eis uma pergunta cabível: é justo descer o sarrafo em uma produção que, mesmo lotada de erros, é bem-sucedida em sua proposta mais importante, a de ser um passatempo totalmente efêmero e despreocupado? Na dúvida, como esta é a minha função e recebo meu suado punhadinho de moedas ao final do mês justamente para apontar as coisas boas e ruins… desculpe, é justo sim. E não, não vou ficar com o menor peso na consciência.

O que acontece é que não adianta querer fugir de uma realidade incontestável: os tempos são outros. Os filmes infanto-juvenis não são mais bobinhos como antigamente. Hoje, graças a produções como os geniais longas da Pixar, só para citar um exemplo, o nível de inteligência das produções voltadas a este público subiu consideravelmente. Não à toa, muitas destas produções conseguem transcender seus rótulos e agradar a espectadores de quaisquer idades. A exigência do público-mirim também está mais, na falta de uma palavra melhor, “sofisticada”, e ser apenas um blockbuster já não é mais desculpa para que os grandes estúdios tentem fazer o povo engolir qualquer historinha ralé.

É exatamente neste ponto que Uma Noite no Museu peca, e peca feio. O péssimo trabalho de direção de Shawn Levy (o mesmo de A Pantera Cor de Rosa, o que explica tudo) parece não se preocupar em dar um pouco de consistência ao roteiro e deixa tudo tão superficial que grande parte das boas sacadas perdem-se na banalidade da trama. Quando o certo é usar os efeitos visuais como um instrumento para ajudar a contar a história, o que acontece em Uma Noite no Museu é que a história é mera desculpa para o uso dos efeitos visuais. E para não ter muito trabalho na elaboração da estrutura narrativa, as tentativas de roteiristas Robert Ben Garant e Thomas Lennon (os mesmos de Táxi, o que explica tudo) copiaram passo-a-passo a cartilha do subgênero “filmes para a família” – o que inclui todos os pavorosíssimos clichês do gênero.

É aquilo: o pai fracassado quer o amor do filho, daí envolve-se em uma série de eventos extraordinários que lhe causarão muita confusão e, depois, estes mesmos eventos o ajudarão a se tornar o pai bacanudo que o menino sempre quis ter e tudo acaba em festa com todos os personagens, inclusive o núcleo de vilões, brincando de High School Musical e dançando alguma música pop do momento. Dói, né? Raso como um pires.

Digamos, portanto, que Uma Noite no Museu tinha tudo para ser lembrado com carinho pelos nerds de um futuro próximo, assim como nós, nerds de hoje, nos lembramos com carinho de clássicos dos filmes-pipoca dos anos 80, como as excelentes primeiras produções de Steven Spielberg e Robert Zemeckis. Mas é óbvio que, para alcançar este estágio, esta nova fita precisava de um diretor competente, um roteiro mais trabalhadinho…

Então, na trama, temos um tal Larry Daley (Stiller, mais canastrão do que nunca), que não consegue parar em emprego algum e sonha em, um dia, enriquecer com seu “fabuloso” invento: lâmpadas que acendem e apagam com um estalar de dedos (!?). Quando Larry, que é separado, percebe que seu filho Nick (Jake Cherry, mais uma criança sem talento perdida em Hollywood) dá mais atenção ao novo e muito bem-sucedido namorado de sua mãe (Paul Rudd), é dominado pelo ciúme, toma vergonha na cara e arruma um trampo fixo como vigia noturno no Museu de História Natural de Nova York, substituindo os caquéticos vigias anteriores, o carismático Cecil (Dick Van Dyke), o raivoso Gus (Mickey Rooney) e o caladão Reginald (Bill Cobbs), indivíduos que, juntos, devem somar pelo menos 752 anos de vida (!). Enfim, em seu primeiro dia de trabalho, Cecil dá a Larry um valioso conselho: durante a noite, nunca deixe nada entrar no museu… ou sair dele.

Claro que Larry não entende nada a princípio. Mas quando as portas do museu se fecham aos poucos visitantes, tudo fica claro. O caso é que, à noite, todas as estátuas de personalidades, todos os animais de cera e todas as lendárias esculturas ganham vida – graças a uma placa dourada que é uma espécie de “pergaminho mágico” que pertence à múmia do Faraó Ahkmenrah (Rami Malek), trancado em um sarcófago dentro do museu e louquinho para se libertar. E para sobreviver ao fato e chegar inteiro ao final de seu expediente, Larry precisa cumprir uma série de tarefas. Ele precisa brincar de “pega a vareta” com o Tiranossauro (!), servir à Estátua da Ilha de Páscoa, viciada em chicletes (!!), despistar a gangue de Átila, o Huno (Patrick Gallagher), entre outras coisinhas… o mais importante, entretanto, é jamais deixar as “criaturas” serem expostas à luz do Sol – o que pode ser difícil quando a tal placa corre o risco de ser roubada e toda a “vida” dentro do museu é ameaçada.

Bacana a idéia, não? E acredite, há algumas tiradinhas realmente sensacionais aqui. Uma delas é a excelente “guerra” entre as miniaturas de cowboys, lideradas pelo bravo Jedadiah (Owen Wilson, não creditado ao início do filme), e as miniaturas de soldados romanos, encabeçadas pelo general Octavius (Steve Coogan): a rixa entre as duas figuras, que torna-se gradativamente infantiloide à medida que a projeção se desenrola, é engraçadíssima! Aliás, Owen Wilson e Steve Coogan já se tornaram uma potencial dupla cômica que poderia muito bem ser aproveitada em outros filmes. Outras bobeirinhas, como a Estátua da Ilha de Páscoa (“dá chiclé, lelé!”), também arrancam risadas com facilidade. E olhe que nem vou citar o demoníaco macaco Dexter, a citação ao Allman Brothers Band e o mamute rebolando no cantinho da tela em determinada cena. :-)

Maaaaaaassss… em contrapartida aos acertos, há também elementos muito mal aproveitados. Robin Williams, que poderia render muito mais como a estátua de cera de Ted Roosevelt, é um destes elementos – e cá entre nós, sua historinha de amor com a índia Sacajawea (Mizuo Peck) é mela-cueca demais. O batidíssimo desenvolvimento do enredo, tão clichê que qualquer um é capaz de adivinhar o que vai acontecer, e a identidade do(s) vilão(ões) não convencem de modo algum. E como é de praxe em filmes desta natureza, ainda somos obrigados a aturar uma conclusão beeem forçada, com direito a uma tenebrosa lição de moral, todos os personagens confraternizando em uma grande festa e uma trilha hip-hop. Afe! O Sr. eu-amo-o-Ja-Rule vai amar. Noooofa! :-P

E por falar em elementos que não funcionam, o maior chamariz nerd de Uma Noite no Museu, que é a presença de três grandes astros do cinema do passado, os lendários Dick Van Dyke (Mary Poppins), Mickey Rooney (Deu a Louca no Mundo) e Bill Cobbs (Bird), decepciona prá cacete. Os caras estão perdidaços! Só o que salva mesmo é o Mickey Rooney, no alto de seus 86 anos, realizando o sonho de muitos ao espancar o Ben Stiller sem dó. Sério! E eu, que imaginava que o Rooney já estava embalsamado no Kodak Theatre… eu nem sabia que ele ainda conseguia se mexer! Hehehe.

Tá, ok, beleza… mas afinal, qual é a de Uma Noite no Museu? É bom ou ruim, afinal? Bem, tudo depende do SEU ponto de vista, como eu disse lá nos primeiros parágrafos. Trata-se de um autêntico filme de férias, que proporciona momentos de diversão àqueles que entrarem na sala de projeção com o único objetivo de dar umas risadinhas. O filme não quer ser nada além disto – e neste ponto, passou no test-drive sem maiores problemas. Só não espere nada além de diversão rasteira e fast-food: filmes saborosos e consistentes ao mesmo tempo existem, mas a gente deixa este privilégio para cineastas que tenham um mínimo de talento, o que definitivamente não é o caso aqui.

Nunca pensei que poderia dizer algo assim, mas… deu até saudade do Spielberg das antigas, viu? Tenho certeza de que, nas mãos dele, Uma Noite no Museu seria genial… :'(

CURIOSIDADES:

• A estátua da Ilha de Páscoa é dublada por Brad Garrett, de Everybody Loves Raymond.

• Acho que os responsáveis pela seqüência de abertura devem ser fãs de David Fincher. Afinal, os créditos de abertura são descaradamente plagiados de O Quarto do Pânico. Bastardos sem criatividade.

• Nunca se esqueça: MUSEUS SÃO LEGAIS.

• Não, não encontrei curiosidades bacanas sobre este filme. Desculpe por ter nascido.

NIGHT AT THE MUSEUM • EUA • 2006
Direção de Shawn Levy • Roteiro de Robert Ben Garant e Thomas Lennon
Baseado no livro de Milan Trenc
Elenco: Ben Stiller, Steve Coogan, Owen Wilson, Robin Williams, Dick Van Dyke, Mickey Rooney, Bill Cobbs, Carla Gugino, Ricky Gervais, Patrick Gallagher, Rami Malek, Pierfrancesco Favino, Mizuo Peck
108 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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