Not Too Late

04/06/2010

Crítica de Música – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/02/2007.

A esmagadora maioria dos pobres mortais brazucas certamente deve lembrar daquela gracinha chamada Norah Jones apenas por uma de suas canções, a arrasadora Don’t Know Why, que ilustrou há algum tempo uma novela global que, sinceramente, não me lembro e prefiro nem lembrar – esta mesma canção, por sinal, é um dos carros-chefes de seu primeiro álbum, o excelente Come Away With Me, de 2002 (que vendeu nada menos que 20 milhões de cópias em todo o planeta). E digo isso porque Norah Jones é o oposto da maioria das cantoras/bandas da atualidade em dois aspectos: a) ela não precisa mascarar uma suposta falta de talento com decotes, rebolados e letras pornográficas e ofensivas, e b) ao contrário de quase tudo que está nas paradas, Jones REALMENTE é ótima naquilo que faz, e não apenas um par de peitos siliconados, uma bunda gigante e uma dose cavalar de vulgaridade.

E por qual razão Norah Jones é praticamente ignorada por boa parte do público? Simples: aparentemente, não há espaço nas paradas para a mistura de jazz, blues, folk e country que é a marca registrada da menina. Isto diz respeito à qualidade do trabalho de Norah Jones? Claro que não – e no meio de tanto lixo fonográfico que somos obrigados a engolir, do insuportável hip-hop cometido por Beyoncé Knowles ao pseudo-punk de coisas como My Chemical Romance, é praticamente uma bênção divina poder relaxar ao som do piano triste, do violãozinho nada agressivo e da voz rouca de Norah Jones. Na boa, dá para contar nos dedos de uma única mão os artistas de hoje que me fazem querer gastar o dinheiro que for comprando um CD, e esta aqui é um destes poucos artistas sim.

Seu terceiro álbum, Not Too Late (2007), que finalmente chega às lojas com uma invejável reputação – afinal, o disco, produzido por Lee Alexander (namorado de Norah), conseguiu bater até o Confessions Tour de Madonna nas paradas britânicas -, não passa de uma afirmação do enorme talento de Jones como cantora, como instrumentista e como compositora. Se o estilo aplicado em Come Away With Me e no belo Feels Like Home (2004), seu segundo disco, mantém-se quase intacto, é em suas letras que nota-se como Norah Jones vêm amadurecendo a cada álbum que lança. E é de se admirar quando sabemos que todas as 13 faixas que compõem o álbum saíram exclusivamente da cabeça da garota.

É verdade, porém, que é necessário um mínimo de apego ao gênero folk para curtir as músicas da moça e principalmente este Not Too Late. Suas faixas exploram de maneira ainda mais profunda o estilo que Norah Jones delineou em seus trabalhos anteriores – curiosamente, enquanto artistas como Nelly Furtado começaram suas carreiras demonstrando muito talento, perderam-se no meio do caminho e renderam-se gananciosamente ao pop-rapper-dance-bundinha-várzea (!), Norah Jones ousa dar o ponto de partida interpretando o que gosta de interpretar e mergulhando de cabeça neste mesmo estilo. Graças aos céus, jamais precisaremos ver Norah Jones protagonizando um clipe usando roupas mais finas que um fio de nylon (!) ou fazendo duetos com criaturas das profundezas como Jay-Z e Ja Rule. :-P

Os fãs já notarão o sutil amadurecimento na faixa de abertura, a fabulosa Wish I Could, onde o habitual piano de Norah é substituído por um violão e dois violoncelos. A partir daí, é só depressão (hehehe), no melhor sentido da palavra: valendo-se de poucas canções mais alegres, como as bacaninhas Sinkin’ Soon e Little Room, o disco usa e abusa de composições melancólicas, mas nunca chatas, como Wake Me Up e Rosie’s Lullaby. Mas claro que “melancolia” não está obrigatoriamente associada a “amor de juventude”, como a gente imagina logo de cara. Um belo exemplo é a ótima The Sun Doesn’t Like You, composta durante a passagem de Norah pelo Brasil em sua turnê, e também a macabrésima My Dear Country – sério, a letra dessa música é bizarra! Afe maria. :-)

Se há uma pá de faixas bem trabalhadas, porém, confesso que senti falta de alguma canção marcante e destruidora, como o é Sunrise no segundo álbum, e Don’t Know Why e principalmente Nightingale no primeiro. Por outro lado, existem pelo menos três faixas em Not Too Late que merecem (muito) destaque: a própria The Sun Doesn’t Like You, a bela Thinking About You – que já ganhou um clipe bem esperto (exibido constantemente pela Multishow e pela VH1) e provavelmente será usada em alguma maldita novela global num obscuro futuro próximo – e a faixa-título, Not Too Late, que encerra o disco de forma simplesmente genial. Talvez a melhor faixa do CD, e olhe que é difícil escolher uma melhor entre 13 músicas tão bacanas.

Sendo assim, ficou mais do que claro que Not Too Late é um CD essencial para aqueles que são meio chegadinhos em um folk suave e beeem pra baixo. Fanzoquices à parte, até mesmo porque já cansei de comentar por aí o quanto sou fã da mocinha aí, Not Too Late leva com facilidade o título de melhor álbum da carreira de Norah Jones até então, justamente por apresentar o velho estilo adotado pela intérprete aliado a um violento amadurecimento de letras, de arranjos e de idéias. Fora com as várzeas que só sabem rebolar! Viva a voz rouquinha de Norah Jones! E já estou guardando dindim para o próximo disco. ;-)

NOT TOO LATE • NORAH JONES • EUA • 2006
Line-Up: Norah Jones (vocais, piano), Lee Alexander (baixo), Andrew Borger (bateria), Jesse Harris (guitarra).
13 faixas • 46 min. • Distribuição: Blue Note Records/EMI.


Spunk: The Official 1977 Bootleg Album

03/01/2010

Crítica de Música – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 26/12/2006, e no Whiplash.Net, em 12/01/2007.

É bem verdade que o lendário Sex Pistols é um dos alicerces do movimento punk que reinou na Inglaterra – e no resto do planeta – a partir do final dos anos 70 até meados dos 80, e que tem seguidores fiéis até hoje (viva Manchester!). É bem verdade também que a banda é amada e odiada na mesma proporção por muitos dos próprios fãs do punk-rock, que sentiram-se traídos depois que os Pistols simplesmente renegaram os rótulos que ajudaram a criar. Tudo isto colaborou para a aura mitológica que ergueu-se em cima da banda, que ganhou uma série de coletâneas tidas “não-oficiais” (como o essencial Kiss This), além de camisetas, bandanas (eu tenho uma!) e tralalá e trololó.

Para entender, portanto, a importância de Spunk: The Official 1977 Bootleg Album (1977/2006), bootleg do grupo liderado pelo senhor Johnny Rotten que finalmente chega ao formato do disquinho, basta dizer que este é, basicamente, o raro PRIMEIRÍSSIMO disco da banda. Bem, mais ou menos: Spunk é, na verdade, uma compilação dos primeiros demos gravados pelos Sex Pistols e que, poucos meses e algumas modificações depois, formariam a tracklist de seu primeiro álbum de estúdio oficial, o notório Never Mind the Bollocks Here’s The Sex Pistols (1977). Por 30 anos, Spunk rodou o mundo apenas em versão pirata e pouquíssimas cópias. Em seu trigésimo aniversário, nada mais justo e oportuno do que um lançamento digno em CD, com toda a qualidade de áudio que o formato proporciona. :-)

Por outro lado, a importância do bootleg restringe-se somente ao lado histórico da coisa, mesmo.

Não, não me xingue, eu explico: antes que qualquer um saia por aí desesperado atrás do CD, digo logo que, se você é um fã ardoroso dos Pistols e já dispõe de todo o material dos caras lançados até então, este álbum aqui deverá constar em sua estante única e exclusivamente por razões sentimentais. Não há nenhuma faixa inédita, não há nenhuma novidade escondida: Spunk traz todas aquelas velhas, boas e lendárias canções que já figuraram nas zilhões de coletâneas da banda. A diferença é que estamos falando de um material ainda cru, sofrendo mudanças, sendo aprimorado, com os arranjos de algumas faixas bem diferentes das “versões oficiais” que conhecemos. Aliás, é bem evidente aqui a influência dos novaiorquinos do New York Dolls, elemento que a banda sempre tentou encobrir.

O destaque, como era de se esperar, fica para os clássicos, que aparecem aqui com seus nomes originais. Nookie, por exemplo, é somente Anarchy in the U.K. com um título diferente; a clássica God Save The Queen dá as caras como No Future; e por aí vai. O diferencial é mesmo o arranjo mais “calminho” que caracteriza os demos: as músicas são executadas de um forma nitidamente descompromissada, leve até, e em algumas faixas (como na ótima Satellite, um bem-bolado cover de Lou Reed) Rotten não sente culpa em errar a letra ou engasgar disfarçadamente. O curioso é que dá para perceber que, às vezes, uma guitarra executada de modo diferente pode mudar tudo: uma de minhas músicas preferidas, Pretty Vacant, ficou ainda mais legal como Lots of Fun, sua versão demo. Com relação às outras, entretanto, ficou basicamente o mesmo.

Para um fã da banda como este que vos fala, o que mais valeu neste álbum foi mesmo a participação de Glen Matlock, o então baixista oficial da trupe que caiu fora em meados de 77, dando lugar àquele sujeitinho maluco e desconhecido chamado Sid Vicious. Sério, comparando os dois, dá a impressão de que os Pistols simplesmente sofreram uma overdose de adrenalina com a chegada de Vicious. A versão de God Save The Queen apresentada em Spunk é um belo exemplo de como Vicious injetou uma dose de eletricidade na banda que, até então, era até meio “moderadinha” para os padrões do gênero.

Atenção para No Fun, um bem-sacado cover não-editado dos Stooges. Aquilo NÃO PARECE Sex Pistols, meu! A não ser a partir de sua metade, quando aparentemente o baterista Paul Cook enfiou a baqueta na tomada, levou um choque e despirocou na batera. Aí Rotten começou a gritar feito um doido e então já viu. :-D

Num saldo geral, Spunk não foge à regra da discografia da banda. Trocando em miúdos, é um álbum para fãs e ponto. Se você é adepto do som dos Sex Pistols, você se sentirá na pele de um espectador convidado de uma jam session e, vamos lá, a gente sabe como isto é delirante. Não é, contudo, um disco fundamental para qualquer um que curta punk-rock em sua essência. Serve mais como uma espiada curiosa nos bastidores do início de uma era de ouro na música britânica. Ah sim, e o Johnny Rotten é o maior legal! Ele certamente compareceu mamado à gravação destas demos! Novidade, não? ;-)

SPUNK: THE ORIGINAL 1977 BOOTLEG ALBUM • SEX PISTOLS • ING • 1977/2006
Line-Up: Johnny Rotten (vocais), Steve Jones (guitarra), Paul Cook (bateria), Glen Matlock (baixo entre 1975 e 1977), Sid Vicious (baixo entre 1977 e 1978)
15 faixas • 56 min. • Distribuição: Dynamo Records.