Vigaristas

28/02/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 03/11/2009.

Filmes de comédia protagonizados por golpistas carismáticos já se tornaram um subgênero dentro do gênero da comédia, e podemos dizer numa boa que este nicho tem, digamos, “retorno garantido” — estas fitas raramente dão errado, geralmente são bastante inteligentes e cheias de piadas realmente engraçadas (pois é, esqueçam coisas como Espartalhões ou fitas do Martin “ugh” Lawrence) e algumas delas renderam produções absolutamente inesquecíveis. Quem não se lembra, por exemplo, de Steve Martin fingindo ter problemas mentais em Os Safados ou Eddie Murphy tentando atravessar a rodovia em Os Picaretas? E olhe que nem citei os clássicos como Golpe de Mestre, Como Agarrar um Milionário, Um Dia nas Corridas (com os maravilhosos Irmãos Marx), Os Imorais

Vigaristas (The Brothers Bloom, 2008) é um exemplar muito digno da categoria. O filme do promissor Rian Johnson, que comandou o ótimo porém obscuro A Ponta de um Crime, é um primor em história e atmosfera, e à exemplo das produções de Wes Anderson (A Vida Marinha com Steve Zissou, Viagem a Darjeeling), diverte bastante não só pela criatividade do enredo e espirituosidade de seus diálogos, mas também pela galeria mais do que exótica (e apaixonante) de personagens. É cada um pior que o outro… A maior característica deste trabalho de Johnson, contudo, também é um elemento chave no estilo de Anderson: a notável habilidade de se equilibrar entre o drama existencialista e a comédia (ora discreta, ora nonsense, bem ao estilo dos já citados Irmãos Marx), e não desapontar em nenhuma de suas verves.

A excentricidade da história já dá a partida na introdução, que apresenta a infância dos infames irmãos Bloom do título original. Órfãos que já foram expulsos de 38 famílias adotivas (!) por tentar extorquir seus próprios familiares (!!), os meninos Stephen e Bloom enxergam neste “mercado” uma ótima oportunidade de se dar bem sem precisar fazer muito esforço. Stephen, o cabeça, é quem perpetua os “esquemas” em intrincadíssimos organogramas, e Bloom é o brilhante executor, desempenhando papéis paradoxais com extrema versatilidade.

As coisas começam a desandar quando os meninos chegam à idade adulta. É aí que Bloom (Adrien Brody) acorda para a vida, percebe que não conquistou muita coisa com seus próprios méritos e sempre foi um títere nas mãos de Stephen (Mark Ruffalo). Decide, enfim, que é hora de parar e correr atrás de sua própria existência. Embora não queira que a “sociedade” se desfaça, Stephen consente… não sem antes propor um último “trabalho”. Logo, os irmãos Bloom estão em Montenegro, executando o golpe derradeiro em sua mais nova vítima: a psicótica multimilionária Penelope (Rachel Weisz), solitária e sedenta por aventuras, e também dona de hábitos pouco usuais como “dar PT” em um Porsche por dia (!) e ter espasmos em momentos no mínimo “incomuns”…

O problema é que qualquer sujeito com conhecimento mínimo em cinema (até mesmo eu, HÁ!) sabe que, no que diz respeito a este subgênero, a expressão “último golpe antes da aposentadoria” geralmente está acompanhada de uma outra expressão: “vai dar m****”. Será?

Engana-se, contudo, quem pensa que Vigaristas rende-se fácil aos clichês do gênero. A trajetória dos Bloom até a conclusão do seu plano final, se é que o plano chegará a ser concluído, é permeada por situações absolutamente surreais — a primeira abordagem de Bloom à milionária é tão absurda quanto divertida. Soma-se à estrutura narrativa algumas boas reviravoltas, como é de costuma em tramas desta estirpe, e divertidíssimas atuações do elenco central, incluindo aí a ótima Rinko Kikuchi (Babel), como a monossilábica parceira dos Bloom, a japinha Bang Bang.

Todo este conjunto de fatores só é significativo graças ao talento do diretor Rian Johnson. Vigaristas é, sim, um primor em enquadramentos de cena, trilha sonora, dedicação de elenco (ótimo, por sinal) e desenvolvimento de enredo, mas nada disso seria possível se Johnson não demonstrasse total domínio de sua história e um perfeito timing para a comédia. Essa salada de gêneros transforma Vigaristas em uma excelente pedida tanto para quem quer ver uma fitinha descompromissada com pretensão única de divertir, quanto para quem gosta de um pouco de tridimensionalidade mesmo em um filme cômico. Uma prova concreta de que, de fato, não importa se a história já cansou de ser contada, desde que seja BEM contada.

Mais filmes de golpistas, por favor! E que não seja da série “Dez mil homens e milhões de segredos” (!) porque aquilo já deu no saco.

THE BROTHERS BLOOM • EUA • 2008
Direção de Rian Johnson • Roteiro de Rian Johnson
Elenco: Adrien Brody, Mark Ruffalo, Rachel Weisz, Rinko Kikuchi, Robbie Coltrane, Maximilian Schell, Ricky Jay, Max Records, Zachary Gordon.
114 min. • Distribuição: The Weinstein Co./Paris Filmes.


Zombie: O Despertar dos Mortos

28/02/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/07/2005.

…ou: OS ZUMBIS VÃO ÀS COMPRAS

Quando George A. Romero decidiu retornar ao universo dos mortos-vivos em 1978, dez anos depois do infortúnio dos sete personagens de A Noite dos Mortos-Vivos, o estrago já tinha sido feito: a película tornara-se um objeto de adoração cult e inaugurara o subgênero gore, apoiado em muita sanguinolência e órgãos expostos. Além disso, a fita definiu todas as regras básicas para filmes do gênero zombie, como a lentidão com que os seres se movimentam; sangue, carne humana e massa encefálica como alimento; e destruição do crânio como única forma de destruí-los. E se o diretor conseguiu fazer com que o público usasse fraldinhas em cada sessão do primeiro filme, o que poderíamos esperar de uma segunda parte rodada a cores e com um orçamento um pouco mais inflado (cerca de US$ 1.500.000)?

O resultado podemos conferir em Zombie: O Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), que não chega a ser uma seqüência direta dos eventos ocorridos na zona rural de Pennsylvania. Aqui, os zumbis estão em número maior, e já dominaram um pedaço considerável da cidade – e, pelo que dá a entender, boa parte também dos Estados Unidos. E desta vez, o palco para a invasão é um shopping-center no centro de Pittsburgh, lugar onde quatro sobreviventes abrigam-se depois de várias tentativas fracassadas de fuga. O mesmo shopping-center transforma-se num “ponto de encontro” dos mortos-vivos sedentos de sangue, que seguem instintivamente para o local. Talvez pela vaga lembrança dos passeios no local, perdida no subconsciente das criaturas, sei lá.

Mais uma vez, Romero aproveita para destilar toda sua ironia no roteiro, e desta vez seu alvo é o consumismo desenfreado da geração materialista dos anos 70: reparem como os quatro humanos parecem preocupar-se mais em desfrutar da “boa vida” dentro do shopping, fazendo uso das roupas, dos aparelhos eletrônicos e de tudo aquilo que têm direito, ao invés de se preocupar com a chegada dos zumbis… Tema bastante oportuno e, queira ou não, totalmente atual. Zombie: O Despertar dos Mortos, porém, inova nas seqüências ainda mais cruéis e viscerais do que no anterior, como por exemplo o ataque das crianças-zumbis. E como esquecer a bizarríssima cena em que um grupo de saqueadores tenta se defender dos mortos-vivos atacando-lhes tortas na cara? Na humilde opinião deste que vos fala, este é ainda melhor do que o primeiro.

Duas curiosidades: aqui, os figurantes receberam um pouquinho melhor. Cada um levou para casa US$ 20, uma lancheira e a camisa Eu fui um zumbi em “Zombie: O Despertar dos Mortos”. Bacana, não? E uma das faixas inseridas na trilha sonora saíram direto de Monty Python e o Cálice Sagrado. :-)

DAWN OF THE DEAD • EUA/ITA • 1978
Direção de George A. Romero • Roteiro de George A. Romero
Elenco: David Emge, Ken Foree, Scott H. Reiniger, Gaylen Ross, David Crawford, David Early, Richard France.
126 min. • Distribuição: Republic Pictures/20th Century Fox.

 

GEORGE A. ROMERO E A TRILOGIA DOS MORTOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 21/07/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead).


Jogos Mortais 3

28/02/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/10/2006.

Recentemente, o cineasta Darren Lynn Bousman declarou que seu Jogos Mortais 3 (Saw 3, 2006), a iminente segunda seqüência do thriller que fez a cabeça de meio mundo em 2004, agradaria em cheio tanto aos fãs do lado psicológico do universo do Jigsaw (o que predominou no bacanudo primeiro filme) quanto aos fãs da matança desenfreada que marcou presença na projeção do segundo longa-metragem, legal mas não tão bom quanto o primeiro. Bousman queria, na verdade, usar este novo Jogos Mortais para se desculpar com aqueles que esperavam do segundo filme algo mais consistente e de teor psicológico mais avançado do que apenas “um festival de mortes nojentas com uma reviravolta e uma surpresa no final”.

E não é que Darren Lynn Bousman estava certo? Bem… quase.

O que acontece é o seguinte: o primeiro Jogos Mortais conquistou uma fatia considerável de fãs por apresentar uma trama intrincadíssima e quase 100% apoiada na construção de seus personagens – o que o fez assumir o glorioso título de “o filhote mais digno de Seven“, ainda que muitos ousassem mantê-lo pau a pau com a obra-prima de David Fincher, o que já é um tremendo exagero. Enfim, Jogos Mortais 2 lançou um pouco disto tudo por terra ao apresentar zilhões de personagens pouco tridimensionais ao mesmo tempo e favorecer aquilo que, em seu antecessor, ficava apenas na sugestão: as mortes, as mutilações, as torturas. Ou seja: o que antes era bem mais macabro, ficou gratuito. O resultado até agradou, mas não chegou aos pés do primeiro Saw.

Em Jogos Mortais 3, o que se tem é um pouco dos elementos característicos de cada um dos anteriores. O número de personagens importantes em cena diminuiu consideravelmente, e o roteiro – mais uma vez assinado por Leigh Whannel, que viveu o fotógrafo Adam na primeira película – deu bastante atenção a cada um deles. A trama continua rocambolesca e cheia de segredos, além das inevitáveis ligações com as tramas anteriores; desde já, aviso que, se você ainda não assistiu Jogos Mortais ou Jogos Mortais 2 é INÚTIL assistir a este aqui. Veja os outros antes, para não se perder em meio às referências.

Maaaaas… se a produção voltou a detalhar seus personagens como deveria, os erros cometidos em Saw 2 também passeiam livremente por aqui. O resultado final de Jogos Mortais 3 é bem superior ao segundo longa, é verdade, mas ainda está distante do impressionante saldo geral da primeira aparição nas telonas do tal Jigsaw, o assassino que, na verdade, nem chega a ser um assassino… :-)

A história, como eu disse no parágrafo anterior, tem muitas ligações e referências às (des)venturas anteriores do senhor Jigsaw. Seria impossível esmiuçar as nuances do enredo aqui sem entregar qualquer surpresinha. Então, vamos somente ao que dá pra falar sem entregar nada, ok? Se ainda assim você decidir descobrir as coisas por si só – o que, na boa, é beeeem mais legal -, PARE DE LER ESTE TEXTO AGORA! Volte aqui quando chegar do cinema, ok? Adeus, e obrigado pelos peixes. E quando voltar, volte pela sombra. :-D

(Um minuto para esperar o povo sair da sala)

Se você continuou aqui, então tá. Antes de qualquer coisa, uma introdução para quem não está familiarizado com o universo da película: Jigsaw (o esquisitíssimo Tobin Bell), ou O Assassino do Quebra-Cabeça, é uma espécie de serial killer que tem o estranho hábito de seqüestrar pessoas e aprisioná-las em jogos cujo objetivo é sair com vida. Não conseguiu concluir o jogo da forma que deveria, morre. E se concluir, pode contar que sairá com váááários hematomas, váááárias mutilações e váááárias seqüelas físicas e psicológicas… tecnicamente, Jigsaw não pode ser apanhado, pois ele não suja as mãos assassinando suas vítimas: apenas fornece as “armas” para que elas se matem (ou não) sozinhas. O engraçado é que Jigsaw se considera um “salvador”, um homem cujas idéias macabras a respeito da morte servem para “salvar” as pessoas, e não destrui-las. Ah, então ok, né?

Em Jogos Mortais 3, há duas novas “vítimas”, e a novidade é que, mesmo sem qualquer contato, uma depende da outra para concluir seu jogo. A primeira, a médica Lynn (Bahar Soomekh, a filha do comerciante persa em Crash – No Limite), é negligente no casamento por se dedicar demais à sua profissão. Pelo menos, ela é considerada a melhor no ramo… o que a traz até Jigsaw, que está à beira da morte. Raptada pelo maníaco, Lynn é obrigada a manter o já agonizante Jigsaw vivo a qualquer custo. Um colar cheio de bombas preso ao pescoço de Lynn e ligado ao maquinário de reprodução dos batimentos cardíacos do sujeito é a arma e a sentença: quando o coração de Jigsaw parar de bater, o colar de bombas é acionado. Trocando em miúdos, quando Jigsaw morrer, Lynn perde a cabeça! Hehehe (desculpem, não consegui evitar o trocadilho infame). ;-)

Mas há uma esperança. Jigsaw só precisa ficar vivo até o “outro” jogo chegar ao fim. O “outro jogo” é protagonizado por Jeff (Angus MacFadyen, presença constante no seriado Alias), pai de família que viu a esposa botar-lhe um belo par de galhos e agora só vive para matar o indivíduo que, bêbado, atropelou e matou seu filho pequeno. Jeff acorda preso dentro de uma caixa e, quando consegue se libertar, se vê trancado em um casarão-labirinto. Ele precisa seguir as pistas fornecidas por Jigsaw e passar por uma série de provações deveras tortuosas para chegar ao final do jogo, onde finalmente se verá face a face com o sujeito que matou seu rebento. Mas uma surpresinha o aguarda… se conseguir concluir o jogo, Jeff consegue sair vivo. Conseqüentemente, Lynn é libertada.

E ainda há aquela que é uma das coisas mais características da saga: a fulaninha chamada Amanda (Shawnee Smith), que… bem, deixa quieto. :-D

Ok, esta é a linha central do enredo. Há, claro, muito mais nas entrelinhas, e o roteiro de Leigh Whannel é bastante bem-sucedido e criativo neste quesito – infelizmente não dá pra comentar nada além do já dito (a não ser, claro, que você goste de spoilers… hehehe!). Quanto à história, não há mesmo do que reclamar. Já o restante…

Pra começar, a direção de Darren Lynn Bousman exagera e MUITO nos maneirismos técnicos. A montagem é acelerada demais e alguns movimentos de câmera são vertiginosos demais, e em certos momentos tem-se a impressão de que tudo isto não passa mesmo de “enfeite” (na boa, em algumas seqüências o negócio ficaria muito mais cru e visceral sem estes maneirismos altamente desnecessários). Outro problema é o “complexo de Scooby-Doo” que impregna a película: a cada revelação-surpresa, a direção repassa ao espectador flashes de todas as cenas que sugeriram pistas para esta revelação, para mostrar que tudo estava lá o tempo todo. É como se o diretor tivesse medo de o espectador não entender bulhufas, e então ele sentisse a necessidade de explicar tudinho tintim por tintim. Nós não somos burros, pô! Ou pelo menos a maioria de nós. :-D

Das atuações, nem vou falar. Angus MacFadyen é maior legal, mas a Bahar Soomekh é ruinzinha que só ela! A menina atua como uma porta! Mas tudo bem, a beleza da dita cuja já compensa. :-)

Porém, o que me incomodou de verdade é esse lance de alçar Jigsaw àquela categoria de “Deus do crime”. No primeiro filme, o assassino era apenas um louco perigoso que precisava ser capturado a qualquer custo. No segundo longa e também neste aqui, o roteiro tenta colocar o personagem como uma mente “brilhante”, um homem incompreendido e machucado pela sociedade, daqueles que, ao melhor estilo John Doe ou Hannibal Lecter, tem idéias genialmente insanas que serão estudadas por anos e anos e atitudes que podem ser interpretadas como promissoras, excluindo o fato de matar pessoas para apresentá-las. Só o detalhe da citação bíblica no primeiro teaser-trailer do filme já dá a entender que Jigsaw é algo muito além de um simples criminoso. Não, não é assim. Jigsaw é um homicida engenhoso, mas não é Hannibal. E quando Jogos Mortais 3 teima em colocá-lo num patamar acima disto, soa prepotente pra dedéu.

Não que importe muito, de verdade. Jogos Mortais 3 é extremamente bem-sucedido como thriller: é tenso, dá uma aflição do cacete e tem pelo menos três seqüencias de fazer o público se entupir de calmantes – a saber, a cena da cirurgia do Jigsaw, a seqüência do abate dos porcos e o traumático encontro entre Jeff e Timothy, o assassino de seu filho. E caso realmente seja o ponto final na saga do louco Assassino do Quebra-Cabeça, é um ponto final que fecha o universo de Saw com chave de ouro. Só não chega nem perto de ser tão impressionante quanto o primeiro – o que não significa que o ingresso não seja um dinheiro muito bem empregado.

O que eu espero, de coração, é que o produtora da série, a Lionsgate, não comece a inventar moda e não faça mais Saws (!). Até mesmo porque este aqui deixa tudo redondinho e nem dá margem a (mais) uma seqüência. Mas quando um filme dá muito dinheiro, vale tudo, né? E só pra terminar: essa Amanda, viu? Ô mulherzinha doida! Cacetada! Desculpe, essa eu precisei soltar. :-D

CURIOSIDADES:

Jogos Mortais 3 foi tão aguardado pelos fãs da série que o primeiro teaser-trailer da fita, exibido pela primeira vez nos cinemas norte-americanos na primeira sessão de Abismo do Medo, foi gravado e uploadeado para a Internet pouquíssimas horas depois de sua exibição. No mesmo dia, já tinha sido visto por mais de mil computadores.

• Segundo Darren Lynn Bousman, a trama de Jogos Mortais 3, escrita por Leigh Whannel no prazo recorde de seis dias (!), foi altamente influenciada pelas sugestões oferecidas pelos usuários do portal House of Jigsaw.

• Uma edição especial do pôster de Jogos Mortais 3 (aquele com o rosto de Jigsaw) ganhou a limitadíssima tiragem de 1.000 impressões, sendo que cada um deles foi vendido a US$ 20 – à exceção do primeiro impresso, assinado por todo o elenco e jogado a leilão. A renda total foi revertida à Cruz Vermelha. Tobin Bell doou cerca de 2 litros de seu próprio sangue, que foram misturados à tinta usada na impressão dos cartazes. Isso é que é dar sangue por um trabalho! Hóhóhó.

• Os produtores desta película solicitaram permissão à Columbia Pictures para poder usar o cenário do banheiro que serviu de base para o primeiro Jogos Mortais. O que acontece é que o cenário original foi destruído por alguma razão não esclarecida, e a Columbia tinha em seu poder uma réplica exata daquele cenário, réplica esta utilizada nas filmagens da pseudo-comédia Todo Mundo em Pânico 4.

SAW 3 • EUA • 2006
Direção de Darren Lynn Bousman • Roteiro de Leigh Whannel
Elenco: Tobin Bell, Shawnee Smith, Angus MacFadyen, Bahar Soomekh, Dina Meyer, Mpho Koaho, Barry Flatman, Costas Mandylor, Debra Lynne McCabe, Donnie Wahlberg, Leigh Whannel.
107 min. • Distribuição: Lions Gate Pictures


007 Nunca Mais Outra Vez

28/02/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 30/11/2006.

Em 1983, o agente secreto britânico a serviço de sua majestade, o excelentíssimo senhor James Bond, já era dono de uma franquia de 12 filmes muito bem-sucedidos, além de um prestígio incalculável e uma gama de fãs. O “pai” de Bond, o escritor Ian Fleming, não tinha do que reclamar. Afinal, o cara estava literalmente executando sua higiene íntima e pessoal com notinhas de cem (hehehe). Com o sucesso de Bond, veio o dinheiro. E com o dinheiro, vieram os problemas legais… E é aí que entra 007 Nunca Mais Outra Vez (Never Say Never Again, 1983). Ops, é melhor falar apenas Nunca Mais Outra Vez, senão podemos ser processados! Hehehe… :-)

Nunca ouviu falar disso? Tudo bem, você está perdoado – e nada mais lógico, já que Nunca Mais Outra Vez sequer é um “integrante da cinessérie”. Ou quase. O que acontece é que o famigerado Nunca Mais Outra Vez foi a primeira (e talvez a única) grande dor de cabeça interna que os produtores oficiais dos filmes de James Bond tiveram em toda a história do personagem nas telonas – à exceção da versão original de Cassino Royale, que nem foi tão problemático assim. Mas para entender o que aconteceu de fato, vamos voltar um pouco no tempo.

A história toda teve início em 1965, com o lançamento da 4.ª fita da série, 007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball). Embora seja um dos trabalhos mais aclamados da série pelos fãs, um sujeitinho não curtiu muito o resultado final. Este sujeito é o produtor e co-autor do roteiro de Thunderball Kevin McClory, que faleceu recentemente. McClory, adorador confesso do personagem e desta história em particular, ficou insatisfeito com o saldo final de Thunderball. O produtor já tinha sido o pivô de uma pequena confusão envolvendo esta história: quando especulou-se a idéia de levar os livros de Ian Fleming às telonas, Thunderball foi escolhido para ser a trama de estréia, mas foi substituído às pressas por Dr. No, que gerou o bacana 007 Contra o Satânico Dr. No (1962).

E por quê tudo isso? Kevin McClory alegou que foi ele, e não Ian Fleming, o criador de um dos elementos mais mitológicos do universo de Bond: a organização criminosa S.P.E.C.T.R.E., que deu as caras pela primeira vez no universo de Bond em Thunderball. Fleming negou, e o circo estava armado.

Enfim, com o lançamento do quarto filme nos cinemas, McClory não gostou nada do que viu e decidiu desenvolver por sua conta uma nova versão do romance, com o apoio de uma major: a Warner. Para rodar sua visão de Thunderball, entretanto, McClory precisava de um pequenino detalhe: os direitos da adaptação cinematográfica da obra. Os direitos estavam em poder de Albert R. Broccoli, o produtor-cabeça da franquia de 007, e da EON Productions. Se inicialmente já seria difícil conseguir uma liberação por parte dos detentores dos direitos de adaptação, tornou-se impossível considerar qualquer espécie de negociação quando Broccoli soube que McClory espalhou aos quatro ventos que sua real intenção era criar uma segunda franquia protagonizada por James Bond. Competição? Nem pensar.

Irritado, Kevin McClory decidiu lutar pelo direito de produzir sua visão de 007 Contra a Chantagem Atômica no tribunal. O produtores e o estúdio responsável pela franquia original, a MGM, tentaram de todas as formas impedir, mas de nada adiantou. McClory ganhou a causa, com a condição de que só poderia explorar o potencial de Thunderball à sua maneira após o ano de 1975. Então, em 1983, finalmente chegou aos cinemas Nunca Mais Outra Vez, simultaneamente ao lançamento nas telonas de 007 Contra Octopussy, o “autêntico Bond” já estrelado por Roger Moore. Desencantou, o negócio. :-D

Um adendo: as duas produções, que concorreram nas bilheterias, tiveram saldos bastante satisfatórios. A crítica da época chegou até a referir-se à batalha da MGM vs. Warner Bros. pela preferência do público com o termo Bond Vs. Bond. Octopussy, claro, saiu na vantagem, mas Nunca Mais Outra Vez até que agradou também.

Ainda assim, desenvolver o troço todo não foi tão fácil: McClory tinha um material, mas foi proibido por lei de explorar as características criadas pelos filmes. Não poderia usar de forma alguma a abertura com número musical, o logo de 007, a trilha sonora imortalizada por John Barry… O produtor e o cineasta Irwin Kershner (sim, o mesmo de Star Wars – Episódio V: O Império Contra-Ataca) só conseguiram o apoio de Sean Connery no elenco pois o ator recebeu, na época, um sálario absurdo (algo em torno de US$ 5 milhões). O que o dinheiro não faz, já que, depois de 007 Os Diamantes São Eternos, Connery fora incisivo ao afirmar que jamais faria outro longa na pele de Bond – não à toa, o título original de Nunca Mais Outra Vez, que é Never Say Never Again (“Nunca Diga Nunca Novamente”) é uma bela tiração de sarro em cima disso; até mesmo porque a produção não podia, de forma alguma, usar o título original da obra – hoje a história é outra, já que a MGM comprou os direitos de distribuição rental do filme.

Saber que Nunca Mais Outra Vez não faz parte da cinessérie oficial de 007 e saber que foi sumariamente rejeitado pelos fãs durante muito tempo descredencia a película? Hum, chegamos ao ponto.

Bem, a resposta para a pergunta acima é SIM e NÃO. É inegável que a ausência dos elementos tão marcantes da história do personagem nas telonas faz muita falta. Só para se ter uma idéia, aqui não temos oportunidade nem de ouvir o lendário chavão Bond. James Bond – até os nomes de alguns personagens foram trocados por imposição da Justiça norte-americana. É estranho assistir a Nunca Mais Outra Vez, saber que estamos falando de um filme do 007… e simplesmente não reconhecer estes elementos na tela. Por outro lado, Nunca Mais Outra Vez consegue ser tão divertido e tão climático quanto qualquer longa-metragem estrelado pelo agente secreto. Ao final, a falta da atmosfera típica de 007 não chega a incomodar e até deixa a produção com um clima mais maduro, mais realista. E ver Sean Connery reprisando seu mais notório papel após 12 longos anos vale qualquer coisa! ;-D

A trama não deve em nada aos melhores exemplares da série: Bond (Sean Connery, já com certa idade e uma maturidade que coube muito bem ao papel) não é mais um agente secreto, mas decide voltar à ativa, nem que seja por pouco tempo, para tentar deter seu mais notório inimigo, a S.P.E.C.T.R.E. O problema é que a organização do mal enviou dois de seus maiores vilões, Maximilian Largo (Klaus Maria Brandauer) e o amiguinho do 007, Blofeld (Max Von Sydow), para roubar algums mísseis nucleares. O plano da S.P.E.C.T.R.E. é ameaçar detonar duas grandes metrópoles do planeta – mas a atitude pode ser abortada a qualquer momento, basta que os países da OTAN concordem em desembolar uma grana generosa como resgate dos mísseis. 007 precisa infiltrar-se na organização para evitar que algo mais grave aconteça.

Isto, se ele conseguir sair da cama da belíssima Domino Harvey… ops, Domino Petachi (Kim Basinger… UAU!), amante de Largo que ficou caidinha por ele. E isto, se ele conseguir despistar as investidas da maligna Fatima Blush (Barbara Carrera, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz por este papel), sensualésima assassina profissional contratada pela S.P.E.C.T.R.E. especialmente para dar fim ao espião.

Como pode-se ver, não são todos os elementos de 007 que ficaram para trás. E nem poderia ser diferente, já que estamos falando de uma adaptação de um romance, antes de qualquer coisa. Então, pode esperar por zilhões de perseguições alucinantes, vilões bizarros (ainda que levemente alterados), muito amor e carinho distribuídos entre as Bond-Girls – por sinal, Barbara Carrera é simplesmente espetacular… Ao final, tecendo comparações entre este longa e o padrão da franquia do personagem, quase não há mudanças. Nota-se, porém, que Nunca Mais Outra Vez impõe um ar menos caricato ao espião e aos seus inimigos. Talvez esta seja a mudança mais singificativa para Kevin McClory mas, num saldo geral, o cara brigou, brigou e brigou para entregar nada menos que um “filme da franquia”. O que não é ruim de modo algum.

Para resumir: Nunca Mais Outra Vez é 007 Contra a Chantagem Atômica, só que com um título diferente! E com duas Bond-Girls bem melhoradas. Para quem é fã da saga do personagem, é obrigatório e diversão garantida. ;-)

Em tempo: diz-se que o resultado final de Nunca Mais Outra Vez também não agradou Kevin McClory. Tanto que, nos anos 90, o produtor tentou, mais uma vez, refilmar Thunderball. O projeto, que teria o título Warhead 2000, seria oferecido a Pierce Brosnan e, caso este recusasse, a Timothy Dalton. Desta vez, entretanto, a Justiça ianque foi impiedosa: simplesmente disse NÃO. Vixe, acho que a tal segunda franquia que o produtor idealizou só teria variações desta mesma história… :-P

NEVER SAY NEVER AGAIN • EUA/ING/ALE • 1983
Direção de Irwin Kershner • Roteiro de Lorenzo Semple Jr.
Elenco: Sean Connery, Klaus Maria Brandauer, Barbara Carrera, Kim Basinger, Max Von Sydow, Edward Fox, Bernie Casey, Rowan Atkinson.
134 min. • Distribuição: PSO International/Warner Bros.


Cinema Subversivo em 12 Exemplos

28/02/2010

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 29/03/2006.

Então, o controvertido V de Vingança (V For Vendetta, 2006) finalmente chega aos cinemas brasileiros. Como todos aqui já devem estar cansados de saber, trata-se de uma adaptação para os cinemas de uma das mais cultuadas sagas em HQ da história, escrita pelo mestre Alan Moore e ilustrada por David Lloyd. E a palavra controvertido não vem apenas do fato de o longa-metragem ser produzido pelos mesmos Irmãos Wachowski de Matrix (o que nos dá uma dose generosa de MEDO, sejamos sinceros) ou do temor dos fãs da graphic novel em ver sua obra destruída nas telonas. Vem, e muito, do fato de V de Vingança, o gibi, ser uma obra altamente rebelde e subversiva.

Subversiva? Não, não, impressão sua. A história da HQ só fala de um homem mascarado resistindo contra um sistema autoritário e repressor numa Inglaterra “paralela”, pregando a anarquia e inspirando o povo a lutar a favor do que acha certo. Só isso, nada mais adequado e politicamente correto, concorda? :-)

Este lance de usar o cinema como palco para destilar posições socialistas (ou anti-socialistas, dependendo do ponto de vista), claro, não é novidade alguma. Uma série de filmes polêmicos ousaram usar seus enredos para questionar política, sociedade, religião, sexualidade e outros assuntos considerados tabus. Alguns cineastas, como o dinamarquês Lars Von Trier, o italiano Pier Paolo Pasolini, o brasileiro Glauber Rocha e o norte-americano Oliver Stone, usaram os filmes para se posicionar perante a hierarquia e transformaram suas filmografias em manifestos tão inovadores quanto perigosos, deixando censores com os cabelos em pé, a crítica dividida e o público extasiado. Será este o destino de V de Vingança, o filme? Tornar-se um marco do cinema subversivo e mudar opiniões? Ou apenas sumir no limbo cinematográfico com um rótulo de “adaptação chumbrega”? Vai saber… a gente nunca sabe o dia de amanhã, não é mesmo?

De qualquer forma, se você adora ver a telona pegando fogo (como eu… hehehe), o momento é agora. Portanto, eis uma bela seleção com 12 longas explosivos, polêmicos e nada menos que excelentes! Mas não vá ter idéias subversivas… vai que apareça aí uma facção rebelde querendo me sacrificar só porque não curto Harry Potter ou algo do gênero… :-)

• TERRA EM TRANSE, de Glauber Rocha

Cultuado por muitos, odiado por outros tantos (que o acusam de ser intelectualizado e vazio demais) e com uma lista de fãs com nomes impressionantes como Martin Scorsese, o brasileiríssimo Glauber Rocha (1938-1981), criador do chamado Cinema Novo e idealizador da máxima “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, era também um garoto-problema que gerou obras polêmicas até a medula, como O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e Deus e o Diabo na Terra do Sol. Seu longa mais falado, entretanto, é o cruel Terra em Transe (1967), que representa um belíssimo chute nas bolas da nossa “política” em plena época de ditadura militar. Não à toa, bastou um dia em exibição para que o governo proibisse a fita em todo o território nacional… Na história, ambientada na fictícia cidade de Eldorado, o idealista e anarquista poeta e redator Paulo Martins (Jardel Filho) lidera um movimento contra o odioso senador Porfírio Diaz (Paulo Autran). O escroto Diaz não tem problemas em declarar que odeia seu povo e pretende eleger-se imperador de Eldorado apenas para ver seus “súditos” fazendo-lhe suas vontades mais absurdas… Recentemente, Terra em Transe ganhou uma versão restaurada em 35mm nos cinemas.

• TEOREMA, de Pier Paolo Pasolini

Um filme sobre um anjo poderia ser subversivo? Yep. Ao menos quando estamos falando de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), um dos nomes mais trágicos e controversos do cinema italiano. Especialista em realizar trabalhos de forte cunho intelectual, político e sexual, Pasolini era mestre em escandalizar a política fascista, a intocável burguesia e o público de sua época com roteiros pra lá de metafóricos. Cá entre nós, acho a filmografia do indivíduo meio indigesta (para não dizer escatológica demais), já que com Pasolini não tinha meio-termo. Era 8 ou 800.000: ele não queria nem saber e tascava nudez, sexo e profanações a rodo em seus longas. Era amar ou odiar com todas as forças infinitas do universo (!). No magnífico Teorema (1968), entretanto, o papo é outro. O cineasta utiliza uma leveza impressionante para contar a história de um viajante misterioso (Terence Stamp, Elektra), que chega a uma pequena vila em Milão e, aos poucos, envolve-se sexualmente e intelectualmente com cada um dos membros da casa na qual está hospedado: empregada, mãe, filho, filha, e por último, o pai. Quando o hóspede (que, mais tarde, descobre-se ser um anjo) se vai, o caos impera. Se você assiste a Teorema superficialmente, vê nada menos que um drama meio sem sentido. Um olhar mais profundo e enxerga-se uma crítica explosiva à burguesia fria e uma incitação clara à anarquia religiosa. Depois disto, Pasolini escandalizaria o mundo mais uma vez (com Saló, os 120 Dias de Sodoma) e seria brutalmente assassinado em 1975.

• LARANJA MECÂNICA, de Stanley Kubrick

Este aqui ninguém é louco de dizer que é ruim (bem… talvez a Srta.Ni :-D). Comentado à exaustão até hoje, o embasbacante Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971) é nada menos que o mais elogiado e também o mais polêmico longa comandado pelo genial Stanley Kubrick (1928-1999). Laranja Mecânica é também o estado robótico e praticamente vegetativo na qual o marginal, líder de gangue, niilista, estuprador e assassino Alex DeLarge (Malcolm McDowell) é convertido após ser capturado pela polícia depois de mais um de seus atos ultraviolentos. Para ter sua pena reduzida, o homicida fanzoca de Beethoven recebe uma proposta do governo e serve de cobaia a um novo experimento. Submetido a este esperimento, que consiste numa “terapia inovadora” (bem, tratamento de choque e lavagem cerebral seriam termos mais condizentes…), Alex – ou 655321, como é chamado depois da operação – perde seus instintos assassinos e adquire repúdio à qualquer manifestação de violência, por menor que seja – e como conseqüência, torna-se presa fácil para o próprio mundo em que vive. Inspirado num ácido best-seller escrito por Anthony Burgess (que defendia que era “melhor optar pela violência do que não optar por nada”), Laranja Mecânica foi proibido em diversos cantos do planeta e tornou-se cult instantâneo por supostamente romancear a violência e pregá-la como única forma de defesa. Ao contrário: num de muitos significados para sua obra, Stanley Kubrick defende que a violência já está impregnada no sistema e que não há formas de fugir dela.

• ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel

Acostumado a contar enredos cruéis com uma sutileza fora do comum, o espanhol Luis Buñuel (1900-1983), também conhecido como o pai do surrealismo no cinema, possui uma filmografia marcada por violentas pauladas na elite européia – vide os perturbadores A Bela da Tarde, O Discreto Charme da Burguesia (vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1972) e o esquisitão O Anjo Exterminador, na qual retrata um grupo de ricaços que não conseguem sair de um casarão. Seu longa mais subversivo, porém, é também o aparentemente mais sutil e o tido como o melhor de sua carreira: em seu último trabalho, Esse Obscuro Objeto do Desejo (Cet Obscur Objet du Désir, 1977), Buñuel aproveita uma trama simplista para destilar seu derradeiro golpe na sociedade burguesa, acostumada a rotular a parcela humilde como fracassada. Assim, inverte as cartas do jogo e conta o martírio do milionário sessentão Don Mateo (Fernando Rey), obsessivamente apaixonado pela bela e pobretona dançarina Conchita, de apenas 18 anos – e convertido em um títere nas mãos da diabólica garota. Conchita, vivida aleatoriamente por duas atrizes, Carole Bouquet e Angela Molina, faz Don Mateo de gato e sapato. Apenas um drama romântico? Nada disso: o excelente roteiro de Buñuel e seu habitual colaborador Jean-Claude Carrière (de Reencarnação) abrange a política e o eterno conflito de classes sociais, representando um belo de um giro de 180º na submissão do pobre para com o rico, e pregando as vantagens de tomar as atitudes da maquiavélica Conchita como exemplo a ser seguido.

• MAD MAX, de George Miller

Com a única pretensão de ser um longa independente de ação para puro entretenimento do público, o excelente Mad Max (1979), terceiro filme do australiano George Miller (As Bruxas de Eastwick) e primeiro papel central da carreira do excelentíssimo senhor Mel Gibson, foi muito mais que isto. Pra começar, custou apenas US$ 350 mil e rendeu mais de US$ 100 milhões no mundo todo, gerando até duas continuações legais pero no mucho. Como se não bastasse, o enredo de Mad Max, disfarçado de fita de pancadaria, trouxe nas entrelinhas uma ácida visão de um futuro dominado pela anarquia e pela violência descontrolada – há quem diga que esta visão é sugerida como solução, mas enfim… Na história, ambientada numa utópica e perigosíssima Austrália paralela, o policial Max Rockatansky (Gibson), mais conhecido como Mad Max, persegue e elimina um integrante de uma gangue local. Em represália, o líder da gangue mata a esposa, o filho e o melhor amigo de Max. O ato enlouquece o indivíduo, que decide mandar as poucas regras às favas e mergulha numa espiral de sangue para capturar os algozes de sua família. A suposta apologia à violência escondida nas entrelinhas do roteiro certamente passou despercebida pela censura, que preocupou-se apenas com o forte sotaque australiano de Mel Gibson. Melhor para nós: subversivo ou não, ganhamos um filmaço com F maiúsculo! E também uma música bacanésima da Tina Turner no terceiro filme… ;-)

• AKIRA, de Katsuhiro Otomo

Alguém aí acreditaria se eu dissesse que um dos mais impressionantes banhos de sangue no cinema dos anos 80, senão “O” mais impressionante, veio de um desenho animado? Pois é. No final dos anos 80, o já clássico Akira (1988), de Katsuhiro Otomo, chocou o público com uma história pra lá de sanguinária, uma fantástica e inovadora técnica de animação do próprio Otomo e uma visão altamente apocalíptica do futuro devastado pela guerra química. Em resposta à inovação técnica e à ousadia do escritor (que adaptou seu próprio mangá para o cinema), o público lá fora lotou as salas de projeção. O roteiro de Akira ambienta a ação em Neo-Tóquio (na verdade, Tóquio reerguida depois de devastada pela 3.ª Guerra Mundial), uma metrópole dominada pelo caos. O jovem Tetsuo envolve-se em um acidente e é seqüestrado pelo governo para ser submetido a um experimento militar. Seu melhor amigo, Kaneda, integrante de uma gangue de motociclistas, decide unir-se a facções terroristas para peitar o Poder Militar e resgatá-lo. O que Kaneda não sabe é que os tais experimentos revelaram um enorme e tenebroso poder psíquico em Tetsuo – poder este que, uma vez libertado, domina Tetsuo e transforma-o numa ameaça ao futuro da humanidade. É subversivo simplesmente por ousar colocar marginais e terroristas como heróis e o governo e o exército como os vilões. Assista usando um babador! :-D

• ELES VIVEM, de John Carpenter

Sim, eu sei. John Carpenter sabe ser bem tosquinho quando quer. Mas também sabe ser divertido, genial e também politizado quando acorda de bem com a vida. Falo de Eles Vivem (They Live, 1988), uma descarada homenagem aos bizarros filmes B de ficção-científica dos anos 40/50. Embora seja um título obscuro na irregular carreira do cineasta, os entusiastas de Carpenter (eu incluso, hohoho) não titubeiam em afirmar que este é seu trabalho mais importante até hoje, já que, ao melhor estilo George A. Romero, Carpenter usa um enredo qualquer nota para tratar de questões bem mais profundas. Eles Vivem bombardeia um alvo delicado: a mídia. Então, conhecemos o trabalhador braçal John Nada (o ex-campeão mundial de luta livre Roddy Piper), homem humilde que, durante uma operação de choque entre manifestantes e a polícia de Los Angeles, encontra uma caixa com óculos especiais que permitem enxergar uma pavorosa verdade: o planeta JÁ FOI invadido por seres alienígenas que, disfarçados de humanos, controlam nossa existência através de mensagens subliminares escondidas em jornais, TV, outdoors, propagandas, placas… Assim, John Nada funda um movimento de resistência para desmascarar os ETs. De um filme engraçadíssimo (sim, isso mesmo) e criativo, Eles Vivem passou a representar uma metáfora explosiva para a alienação do povo pela mídia e pela televisão. Obrigatório!

• SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, de Peter Weir

E aqui é o momento em que você certamente me xingará. :-) Digo isto pois não sou mesmo muito fã de Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989), uma produção cultuada ao extremo. Bem, o fato é que até curti o filme, mas do jeito “assisti-uma-vez-na-vida-e-chega”. Ainda assim, não há como negar a importância deste belíssimo e lacrimejante trabalho do cineasta Peter Weir (Mestre dos Mares), acostumado a retratar personagens comuns em situações-limite – e Robin Williams que o diga, já que este foi um de seus primeiros (elogiados) passos no drama. E o que há de subversivo aqui? Ah, nada não. Só a história de um grupo de estudantes reprimidos do ultra-hiper-mega-rígido internato Welton, em Vermont, que sofrem o diabo depois de conhecer e cultuar o novo professor de inglês, John Keating (Williams), recém-chegado da Inglaterra. Keating, de espírito libertário, desafia o Welton ao “animar” suas aulas, despertando nos alunos a paixão pela poesia e pela liberdade, além do senso de rebeldia para com a rigidez dos pais e das absurdas normas do colégio. Dizer mais é um pecado; se você ainda não assistiu a este surpreendente sucesso de bilheteria, faça a gentileza de correr até a locadora mais próxima – mas leia a matéria inteira primeiro, tá? ;-)

• O ÓDIO, de Mathieu Kassovitz

Não dá nem pra acreditar que o simpático Nino Quincampoix, o namorado da Amélie Poulain, seria capaz de comandar este barril de pólvora ambulante num passado não muito distante. Aliás, é correto dizer que o ator e diretor francês Mathieu Kassovitz deve muito de seu prestígio internacional à dona Jodie Foster, que fez a gentileza de descobrir e distribuir em terras gringas o aterrorizante O Ódio (La Haine, 1995), uma das gratas surpresas do cinema dos anos 90. Narrado em P&B e sem nenhum pudor, o enredo de O Ódio utiliza a odisséia de três camaradas e imagens reais para traçar um painel da intolerância étnica em Paris – e para dizer indiretamente que vivemos num mundo onde a violência parece ser o único meio de sobrevivência. Mais subversivo que isto, impossível! A história: um garoto árabe, Abdel (Abdel Ghili), é baleado por policiais durante uma manifestação num bairro de periferia e está em coma. Um amigo seu, o judeu Vinz (Vincent Cassel, Fora de Rumo), encontra a arma usada pelo detetive. Durante uma noite, Vinz e seus amigos, o negro Hubert (Hubert Koundé, O Jardineiro Fiel) e o árabe Said (Said Taghmaoui, I Heart Huckabees), três categorias marginalizadas pela sociedade, seguem cometendo pequenos delitos. Mas Vinz jura que, se Abdel morrer, ele usará o revólver encontrado para matar o primeiro tira que atravessar seu caminho… O Ódio não é para qualquer um, definitivamente. Mas quem arriscar descobri-lo, encontrará um pequeno grande filme. Se a Srta.Ni assiste isto, desiste de casar com o Nino no ato! :-D

• AS BRUXAS DE SALEM, de Nicholas Hytner

Como “resposta artística” para o inferno astral que foi o macarthismo e para seu então colega Elia Kazan (dedo-duro e mentiroso assumido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu a peça teatral The Crucible, que comparou a caça aos comunistas promovida pelo senador-e-psicopata-nas-horas-vagas Joseph McCarthy à Inquisição. Uma brilhante tacada de mestre que, no final dos anos 90, foi adaptado para as telonas com uma importância ainda maior. O ótimo As Bruxas de Salem (The Crucible, 1996), dirigido por Nicholas Hytner, pode ser visto como um tapa na cara das instituições religiosas acostumadas a alienar seus fiéis. No enredo, ambientado em Massachussets no ano de 1692, um grupo de garotas praticam alguns “feitiços de amor”. Uma delas, Abigail Williams (Winona Ryder), apaixonada e rejeitada pelo fazendeiro John Proctor (Daniel Day-Lewis), quer prejudicar a inocente Elizabeth Proctor (Joan Allen), esposa dele. Ao serem flagradas num pequeno ritual e acusadas de bruxaria, a vingativa Abigail corrompe suas amigas e faz uma série de acusações contra os habitantes do vilarejo de Salem, dando o pontapé inicial numa bola de neve que pode destruir a tudo e a todos. Histérico, tenso, injusto e devastador, As Bruxas de Salem passou meio em branco por nossos cinemas, mas foi merecidamente descoberto no VHS.

• CLUBE DA LUTA, de David Fincher

Um dos marcos do cinema da década de 90 foi ignorado pelo público médio – que não entendeu bulhufas do recado – e considerado um fracasso em termos de bilheteria. Por outro lado, conquistou fãs devotadíssimos, apresentou um personagem que já é um ícone pop e constatou o talento sem limites de seu diretor. Inspirado no fabuloso livro do mecânico Chuck Palahniuk, o maravilhoso Clube da Luta (Fight Club, 1999), do master David Fincher (Seven – Os Sete Crimes Capitais), é a própria subversão em pessoa! Senão vejam só: o maluco Tyler Durden (Brad Pitt) e seu glorioso amigo Jack (Edward Norton) fundam o tal Clube da Luta, onde homens extravasam a tensão do dia-a-dia na base dos sopapos. Embora uma de suas regras seja “não fale sobre o Clube da Luta”, o grupo ganha cada vez mais adeptos. O que Jack não sabe é que Tyler Durden tem um plano: converter os integrantes de seu clube em seus soldados (ou “macacos espaciais”) e botar em prática o Projeto Caos, cujo objetivo é destruir todas as corporações e recomeçar tudo do zero. Segundo Tyler Durden, “o homem precisa voltar às origens para se sentir humano”. E olhem que isto não é nem uma linha do complicadíssimo e amedrontador enredo da película! Como o espaço é curto aqui – e eu, como fã n.º 1 do filme, poderia falar horas e horas e horas -, só o que digo é: assista. Mas prepare-se para o soco no estômago, o chute nas partes baixas e o peteleco na orelha.

• DOGVILLE, de Lars Von Trier

Não se deixe influenciar negativamente pela tão comentada “falta de cenários” aqui, pois nem faz falta: não apenas um fascinante exercício cinematográfico, Dogville (2001), do polêmico dinamarquês Lars Von Trier, é também um trunfo de roteiro e representa o primeiro ato de três chutes nas balls da problemática estrutura governamental dos Estados Unidos – para quem não sabe, trata-se de uma trilogia. Filmado em um enorme galpão e usando em cena apenas alguns elementos cênicos e desenhos no chão para delimitar o espaço das casas, Von Trier inicia aqui a saga de Grace (Nicole Kidman), que chega à pequena cidade de Dogville na tentativa de fugir de um bando de gangsteres. Estamos nos anos 30. Grace é acolhida pelos habitantes do lugar, em especial pelo sonhador Tom Edison (Paul Bettany), que apaixona-se pela graciosa moça. Mas eis que, aos poucos, o povo de Dogville mostra suas garras. E… não, não dá pra contar mais. E se eu ousar explicar por qual razão Dogville é subversivo, entregaria de sopetão a grande charada do longa. Basta saber que Lars Von Trier tem idéias bastante semelhantes às dos nossos amigos superheróis do Authority. Hehehe! Dogville, considerado pela crítica um dos melhores filmes dos últimos anos, ganhou uma seqüência igualmente ácida, Manderlay (2004), e em 2007 ganhará sua terceira e última parte, Wasington (isto mesmo, escrito sem o H).

Então, beleza! Eis aí 12 títulos bem bacaninhas, que provam que o cinema definitivamente não foi feito apenas para entreter e pode muito bem servir de arma, pavio, detonador… Claro que não são os melhores, ou mais importantes: há uma série de fitas tão boas (e tão perigosas) quanto estas, mas como não é possível citar tudo aqui… Enfim, aí está! Mas se você sentir ganas de sair por aí quebrando tudo ou destruindo megacorporações ao ler esta matéria, faça o favor de se controlar e tomar um copo de suco de maracujá. Depois vão dizer que a culpa é minha, aí já viu… ;-)

CINEMA SUBVERSIVO EM 12 EXEMPLOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 29/03/2006
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem V DE VINGANÇA (V For Vendetta).


Quatro Amigas e um Jeans Viajante

26/02/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/09/2005.

Difícil entender o que fez os caríssimos cabeças d’A ARCA decidirem me despachar para assistir a Quatro Amigas e um Jeans Viajante (The Sisterhood of the Traveling Pants, 2005), comédia dramática juvenil que chega aos nossos cinemas nesta sexta-feira, quando esta tarefa caberia melhor à nossa digníssima representante nerd do sexo feminino, Srta.Ni. Afinal, esta fita é uma típica produção “para meninas”. Os caras enviam a nossa querida colunista para assistir a um suspense totalmente escuro como O Operário (que ela milagrosamente adorou) e despacham o Zarko aqui para ver esta fitinha “de garotas”. Vai entender. Por outro lado, melhor assim. Para a Srta.Ni, claro. Ela escapou dessa.

U kI xI PaXa Na KbXa DeXxXeX MiGuXuX? =]~*

Voltando, não que o fato de ser “filme de meninas” seja um problema, pra ser bem sincero. Até mesmo porque o ótimo Eleição e o “ainda-não-tive-coragem-de-ver-mas-todos-dizem-que-é-bacana” Meninas Malvadas (com a Rachel McAdams… ai, ai, ai) estão aí para provar que filmes juvenis podem, sim, ser bastante inteligentes. Infelizmente, não é o caso deste aqui. Quatro Amigas, dirigido por Ken Kwapis (diretor de muitos episódios de Malcolm In The Middle), até tem uma idéia interessante, daquelas que, se bem desenvolvidas, rendem uma produção no mínimo muito boa.

Entretanto, o roteiro de Delia Ephron (Mensagem para Você) e Elizabeth Chandler (Alguém como Você), inspirado no popular romance de Ann Brashares, não consegue (e aparentemente não quer) fugir do lugar comum e, falando sobre os ritos de passagem da adolescência à vida adulta e sobre laços de amizade, nos mostra tudo aquilo que já cansamos de ver, e melhor, em outras fitas espalhadas por aí. O que não o torna necessariamente ruim. É apenas… regular.

IxI ExE XaRkU Eh XaTu Pa DeDeU !!!! =]~*

Assim, conhecemos as tais quatro amigas do título: Tibby (Amber Tamblyn, a primeira vítima d’O Chamado), Bridget (Blake Lively), Carmen (America Ferrera, Os Reis de Dogtown) e Lena (Alexis Bledel). Elas nasceram praticamente ao mesmo tempo, e são companheiras inseparáveis desde sempre. Porém, aos 16 anos, elas decidem seguir rumos diferentes nas férias: enquanto a tímida e reservada Lena viaja à Grécia para visitar parentes distantes, Carmen, que carrega alguns complexos por ser gordinha e ter raízes latinas, passará alguns dias na casa de seu pai, em outra cidade; e enquanto a hiperativa Bridget se manda para o México para jogar futebol (?), a aspirante a documentarista Tibby decide ficar na cidade mesmo, fazendo alguns bicos para juntar dinheiro e comprar equipamentos para rodar seus filmes.

A grande novidade desta trama é que, num passeio às vesperas da iminente “separação”, as meninas entram em uma loja de roupas e descobrem uma calça jeans que, por incrível que pareça, cabe perfeitamente em cada uma delas, por mais que seus corpos sejam totalmente diferentes. Encarando aquilo como um sinal, a trupe faz um pacto: já que estarão separadas fisicamente, as quatro dividirão o jeans durante as férias. Cada uma delas usa a peça por uma semana e depois envia via FedEx (hey, Wilson!) para a próxima da lista, detalhando em carta os momentos bons e/ou ruins que passou utilizando a jeans. Que idéia!

XeNtI, eLaXx NuM LaVa RoPa NaUmXx ??? =]~*

A partir daí, Quatro Amigas divide-se em quatro segmentos, acompanhando a rotina das férias e os martírios de cada uma das garotas. E é exatamente aí que a coisa pega: com uma bela oportunidade de dissecar o comportamento e os problemas da fase adolescente em mãos, o roteiro desperdiça as milhares de alternativas para entregar-se às soluções mais fáceis.

Se você duvida, olha só a história de cada uma delas: na Grécia, a artista Lena apaixona-se por um jovem pescador chamado Kostos (o estreante Michael Rady), só para descobrir mais tarde que, ao melhor estilo “Romeu e Julieta”, seu namoro é proibido pois suas famílias são inimigas. Já Bridget, um ás da bola, usa de todo seu charme para tentar disfarçar seu sofrimento pela morte da mãe e conquistar o cara mais desejado do lugar, o jovem técnico Eric (Mike Vogel, O Massacre da Serra Elétrica). E o caso de Carmen é o mais fraquinho de todos: ela sente-se rejeitada pelo pai, que vai casar de novo e só tem olhos para sua noiva loira e aguada e os filhos desta. Em compensação, o segmento de Tibby – que nem comentarei aqui para não estragar a surpresa – é o menos fantasioso e mais realista de todos, e chega a ser moderadamente cativante, além de contar com o enorme talento da atriz-mirim Jenna Boyd, de Desaparecidas. Enfim, o grupo de meninas enfrenta todo tipo de pepinos, mas mantém-se erguido por conta da união entre todas, simbolizada pela calça viajante do título…

Ti NiNdOw IxXuUu !!! \o/ o// AxU k Vo XoLaAaA !! \\o ~

Ok, Quatro Amigas mescla uma pá de assuntos interessantíssimos e bem oportunos para a juventude de hoje em dia. Tibby, Lena, Bridget e Carmen lidam com situações sérias, algumas extremas até, e tentam não deixar a peteca cair. Isto é uma bela lição de moral para a garotada, embora ache que não adianta muito mesmo. Mas a boa idéia da história não diminui seus erros, como os diálogos que poderiam ser escritos até por uma criança – quando uma personagem soltou “A magia não está na calça e sim em nós mesmas”, senti o almoço voltar na garganta! – e as atuações regulares – até Alexis Bledel, de Sin City e a eterna Rory do ótimo seriado Gilmore Girls, está meio fraquinha. E meu, ressuscitaram a Nancy Travis! Eu tenho medo dela, pois quando penso na atriz, me lembro daquele Gasparzinho na cortina em Três Solteirões e um Bebê. Credo!

Como um ponto negativo extra, pelo menos para este que vos fala, que não suporta as coisas do gênero que surgem por aí, ainda podemos somar a irritante trilha sonora pop, lotada de canções “de rock” a la Avril Lavigne. Na real, Quatro Amigas e um Jeans Viajante não passa de um “capítulo de seriado juvenil de duas horas de duração”.

~ Eu GoXtU d AvRiL LaViGnI !! eLa Eh RoKeRa ViUuM !!! .vium ! ^^

Mas tudo bem. Isto, no fundo, é o que menos importa. Pois, como disse no início deste artigo, dá a impressão de que Quatro Amigas resultou propositadamente num mero produto voltado apenas à molecadinha que está descobrindo a adolescência agora. Não é uma produção ruim, não mesmo. Possui uma série de qualidades indiscutíveis e, por mais que a primeira hora seja meio maçante, ganha um pique violento em sua hora final. Mas não é recomendável aos usuários nerds deste recinto de modo algum. A fita é ótima e você vai adorar… se você é um(a) adolescente compulsivo(a) por shopping, apaixonado(a) por garotas(os) no estilo da moda e adepto(a) do tenebroso e asqueroso dialeto “miguxo”. Ah, whatever. O filme foi feito pra esta categoria mesmo. Se você se enquadra neste grupo, veja o filme, depois vá ao fast-food mais próximo, troca uns malhos com o menino ou a menina da mesa do lado e a vida continua. :-P

ExXxXTi CiTe Eh MuItU XaTu, KeRu Ir Pa CaXa AgOiAaAaH ~~ eXtI XaRkU FaLa MaUm Du FiLMi K Eh MuItU LiNdUxImMm I Eh Pa ToDu MuNdU Ve eLi !! \o/ ~~

Ah, desculpem as intervenções “miguxas” no texto. Aindo sinto fortes dores de cabeça depois daquela tortura mórbida chamada Coisa de Mulher, e às vezes fica tudo preto e eu acordo de pijamas no outro lado da cidade. Não sei porquê, acho que há alguma ligação aí… :-D

BjAuMmM !!!! BjUxXxXxX !!! =]~*

CURIOSIDADES:

• A calça jeans usada nas filmagens é da Levi’s.

• Se a maravilhosa Gilmore Mãe, a Lorelai… ops, a Lauren Graham, estivesse no filme, não importa o quão ruim fosse: eu assistia de novo!

• Desta vez, tomei cuidado para não falar mal da atuação de nenhum dos atores do sexo masculino do filme (até mesmo porque eles aparecem pouco tempo e sequer fazem qualquer coisa além de servir de estátua), pois, na última vez em que isto aconteceu, uma quadrilha de miguxas perigosas lotaram minha caixa de mails me xingando, só porque desci o sarrafo no Justin Chatwin em Guerra dos Mundos!

• Sou apenas eu ou mais alguém aí acha que a semi-desconhecida Blake Lively é a cara da Chlöe Sevigny? Só espero que ela não faça o que a loirinha topa-tudo preferida do Vincent Gallo fez em Brown Bunny! Ou melhor, espero que ela FAÇA. :-P

• Como vocês podem notar, não tinha muitas curiosidades disponíveis sobre este filme…

THE SISTERHOOD OF THE TRAVELLING PANTS • EUA • 2005
Direção de Ken Kwapis • Roteiro de Delia Ephron e Elizabeth Chandler
Baseado no romance de Ann Brashares
Elenco: Alexis Bledel, Amber Tamblyn, America Ferrera, Blake Lively, Jenna Boyd, Bradley Whitford, Nancy Travis, Rachel Ticotin, Mike Vogel, Michael Rady, Leonardo Nam.
119 min. • Distribuição: Warner Bros.


O Filho de Chucky

26/02/2010

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 04/01/2005.

Em meados de 1988, eu era um pivete maluco e meu nerd-pai resolveu antecipar o meu rito-nerd de passagem à vida adulta: me levou para assistir meu primeiro filme de terror no cinema. O nome da fita era Brinquedo Assassino, dirigido por Tom Holland (do clássico do “terrir” A Hora do Espanto) e que fez enorme sucesso à época. Se eu gostei? Bem, eu só tinha 8 anos e era uma criança, então estava muito mais preocupado em tapar os olhos e os ouvidos de tanto medo que eu tinha daquele boneco deformado com cara de Fofão. Cheguei em casa, me enfiei no quarto e expulsei do mesmo todos os bonequinhos do Comandos em Ação, expostos em uma mini-trincheira que eu tinha montado num cantinho qualquer. Os coitados ficaram desabrigados! :-)

Quando assisti ao filme novamente, depois de alguns anos, já mais maduro e não ligando muito em levar sustos e coisas do gênero, descobri que Brinquedo Assassino era o maior filmaço, terrorzão muito do bacana que mexe mesmo com os nervos da platéia com uma situação insólita e tratada com bastante realismo. Além disso, a fita alçou à condição de astro o feioso boneco Chucky, “protagonista” da fita. Em 1990, chegou às telas Brinquedo Assassino 2 e, em 1991, Brinquedo Assassino 3, e eu, já um fã do brinquedo sádico, fui correndo assistir – mas não passaram nem perto do primeiro em questão de “meeeedo”. Ao contrário: recheou o carismático assassino com diálogos cômicos e bem irônicos, mas não se decidiu entre seguir a linha de comédia ou a linha de terror. O resultado foi o fracasso retumbante e merecido destas duas continuações e, como conseqüência, o envio de Chucky ao limbo cinematográfico. Tadinho dele…

Em 1998, porém, o diretor Ronny Yu (da tosqueira-mór Freddy Vs. Jason) se juntou ao criador do personagem, Don Mancini, e deu uma renovada muito bacana no personagem ao criar o primeiro longa da série com Chucky assumidamente cômico (e muito cômico, por sinal): A Noiva de Chucky, em que o brinquedo malévolo ganha uma “parceira” tão maluca quanto ele, interpretada por Jennifer Tilly (aquela que fez par com Gina Gershon em Ligadas pelo Desejo). Bom, já que o cara ganhou uma esposa, nada mais natural que ganhasse também um filho, num futuro próximo. Tudo era questão de tempo.

E eis que estamos em 2005, e chega aos cinemas o hilário quinto filme da franquia, O Filho de Chucky (Seed of Chucky, 2004), dirigido pelo criador da série em pessoa, o tal Don Mancini. E quando todos pensavam que seria mais uma bomba como outra qualquer, ou mais uma fitinha com pretensões de tirar uns trocados dos desavisados… Surpresa! O longa é divertidíssimo, daqueles de fazer rir de cinco em cinco minutos. Claro, Chucky deixou de ser um cara macabro há muito tempo, e está mais palhação do que nunca. O insano passa o tempo todo matando e fazendo piada com isso. Se você espera tremer na poltrona, é melhor nem passar perto do cinema. Se você quer levar susto, a fita tem um ou dois, e ainda assim o som da sala precisa estar no talo – então é preferível procurar outra produção de horror (como Eliana e o Segredo dos Golfinhos). Agora, se você procura piadas, está no lugar certo! Aqui tem aos montes! E, por incrível que pareça, algumas são até bem inteligentes, não apenas jogadas ao vento… Mas vamos e venhamos: quem vai assistir a um troço desses esperando sentir calafrios na espinha?

Para começar a contar um pouco da história de O Filho de Chucky (calma, não vou entregar nada importante), vamos voltar um pouco ao final do filme anterior, A Noiva de Chucky. – ATENÇÃO, OLHA O SPOILER! – Primeiro, para que todos entendam o lance, Chucky foi revivido por sua namorada Tiffany, que acabou virando também uma boneca e depois os dois ensacaram. Antes disso, porém, Tiffany apareceu grávida (!). Só não me perguntem como bonecos de plástico fazem para gerar rebentos! Enfim, como sempre, Chucky morre de todas as maneiras, e Tiffany também. Mas não sem antes dar a luz (!) numa cena esdrúxula mas perfeita… – OBS.: Pausa no texto, pois acabei de me lembrar da ridícula piada sobre “látex” que Chucky dispara no quarto filme da série.

Neste novo filme, o tal bebê está crescido (a seqüência de abertura, imitando Olha Quem Está Falando, é ótima) e supostamente órfão. O garoto-boneco (dublado pelo impagável Billy Boyd, o Pippin da trilogia sagrada O Senhor dos Anéis) é encontrado por um popular e apelidado de “Chacota”, vivendo preso num circo de ventríloquos (!). Como se jã não fosse o suficiente, o bonequinho ainda passa o sofrimento de não ter o mesmo instinto assassino dos lendários papai e mamãe (pois é, o garoto literalmente urina nas calças sempre que tem pesadelos com morte!). Enquanto isso, os “corpos” de Chucky e Tiffany foram reconstruídos e despachados para Hollywood, onde são usados nas filmagens de um filmeco B que conta a “lenda urbana” dos brinquedos. O filme dentro do filme é estrelado por Jennifer Tilly (interpretando ela mesma além de dublar Tiffany novamente), que não agüenta mais fazer papéis deste tipo.

O negócio começa a esquentar quando Chacota vê uma reportagem na TV falando sobre o tal filme e descobre (num momento ridiculamente engraçado) que aqueles dois bonecos feiosos são… seus pais. Então, o bonequinho – uma das coisas mais horrorosas criadas por Hollywood nos últimos anos, devo dizer – foge do circo e dá um jeito de chegar até Hollywood, onde revive papai e mamãe (não vou contar como) e lhes confidencia que é… seu filho! A partir daí, a palhaçada começa pra valer: Chucky acha que o boneco é homem, então lhe dá o nome de Glen. Já Tiffany acredita que Glen é uma menina e lhe dá o nome de… Glenda (numa referência impágavel ao grande Ed Wood). Só que Glen (ou Glenda) acaba se tornando uma vergonha aos pais justamente por não gostar de matar (!) e também por sua indefinida sexualidade (!?!?!). Pois é, nem o garoto sabe se é mocinho ou mocinha. Enquanto eles tentam se tornar uma… bem… “família de verdade”, mais corpos ensangüentados se amontoam, como nos melhores exemplares de filmes B.

Só para se ter uma idéia de quão bizarro é o negócio, imagine um diretor de cinema interpretado pelo rapper Redman, que quer rodar uma produção bíblica sobre as “aventuras da Virgem Maria” (oi?). E pensem na idéia de Tiffany ligar para um centro de auto-ajuda pedindo conselhos para parar de matar (oi?). Além disso, também há uma série de citações às tosqueiras produções B dos anos 50 e também a trabalhos conceituadíssimos como Psicose e O Iluminado (esta cena, aliás, é uma das melhores). E sem contar, também, a já clássica seqüência envolvendo a popstar Britney Spears (se você não viu o trailer, nem vou falar pra não estragar a surpresa). O grande trunfo da fita, porém, é o fato de O Filho de Chucky não se levar a sério em momento algum. Uma decisão acertadíssima de Don Mancini, que assumiu a veia cômica do personagem de vez e transformou o que poderia ser uma tremenda bomba num dos trabalhos mais descompromissados e alegres deste verão. Se você não leva a vida muito a sério, assim como nós aqui deste glorioso website, vai ser moleza gostar de O Filho de Chucky.

Mas atenção: como já disse antes, para que você se divirta aos montes com esta “família bizarra”, deixe o mau humor e a crítica fora da sala, e entre na sessão apenas com a vontade de rir. Um conselho: deixa de ser cri-cri, meu! Vá, dê muitas risadas e esqueça logo depois! Bom, uma coisa é garantida: a cena em que Tiffany mostra os seios vai te fazer gargalhar, com certeza. E pelo amor de Deus, se você quer realmente se borrar nas calças, vá até a locadora e alugue O Bebê de Rosemary. Ou então qualquer bomba da Xuxa. Porque aquilo sim dá muito medo! :-)

CURIOSIDADES:

• O roteiro de O Filho de Chucky foi originalmente oferecido à Universal Pictures em 1998, mas a empresa recusou. Assim, o projeto foi comprado pela Focus Features, uma divisão da Universal. O problema é que a Focus Features não queria associar sua imagem, geralmente ligada a longas independentes e premiados, ao esculacho que é este filme. Então, os caras da Focus criaram mais uma subdivisão, chamada Rogue Pictures, para fazer o longa sem perder a imagem cult.

• O filme conta com uma série de participações muito especiais, desde o “rei do trashJohn Waters (diretor de Hairspray, Éramos Todos Jovens e do ainda inédito por aqui A Dirty Shame), como um atrevido fotógrafo, até Jason Flemyng (colaborador habitual do inglês Guy Ritchie), que interpreta a primeira “vítima” do casal Chucky e Tiffany.

• Ao contrário do que andaram dizendo por aí, a cena da Britney Spears não foi rodada com participação da própria. Era uma sósia mesmo. Mas pelo sarro e pela sua conclusão, até poderia ter sido…

• A idéia original de Don Mancini era fazer Jennifer Tilly emagrecer para viver o papel, por ter uma série de piadas ligadas à anorexia que domina Hollywood. Mas como a atriz é meio “fofinha”, Mancini alterou vários pontos do enredo para não deixar passar este detalhe em branco.

• O Chucky e aquela velha lenda urbana me fizeram incinerar escondido meu boneco do Fofão em 1988. Acho que era o que eu precisava pra virar gente!

SEED OF CHUCKY • EUA • 2004
Direção de Don Mancini • Roteiro de Don Mancini
Elenco: Jennifer Tilly, Brad Dourif, Billy Boyd, Redman, John Waters, Hannah Spearritt.
87 min. • Distribuição: Paris Filmes.