Lovelace

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no JUDÃO, em 13/09/2013.

obdz-lovelace

Se você está aqui, lendo o Judão, você CERTAMENTE sabe quem foi Linda Lovelace. E se você não sabe, vai saber agora. Linda Lovelace era uma aspirante a atriz que deu a sorte (ou o azar, dependendo do ponto de vista) de protagonizar um dos maiores fenômenos da história do cinema: o famigerado Garganta Profunda. Rodado em 1972, este pequeno filminho pornô que narra as desventuras de uma pobre garota que luta para chegar ao orgasmo – ela não consegue porque seu clitóris está localizado na garganta (!?) – tornou-se um divisor de águas na indústria pornográfica e, porque não, do cinema em geral: rendeu cerca de 600 milhões de dólares em todo o mundo, virou símbolo da liberdade sexual e alçou a pornografia, até então restrita à marginalidade, a um status social de entretenimento legítimo para sempre. Hoje, com o apelo da pornografia gratuita na Internet, fica meio difícil entender como uma produção pornô causou tanto furor, mas precisamos considerar que estávamos nos anos 70, onde a liberdade sexual ainda era um “direito” recém-conquistado.

Se hoje nomes como Marilyn Chambers, John Holmes, Cicciolina, Ginger Lynn, Ron Jeremy e Sasha Grey estão vinculados à cultura pop, estas personalidades devem agradecer exclusivamente à Garganta Profunda. E se você conhece todos os nomes que citei, lave bem suas mãos antes de me cumprimentar em qualquer ocasião (!). Não que eu saiba quem são estes caboclinhos aí ou tenha visto algum filme deles, um amigo meu que me contou. :-D

Voltando, o mérito não é exclusivo de Linda Lovelace, verdade seja dita. Garganta Profunda tornou-se cult não por causa da “atuação” da garota, mas sim por ser pioneiro na arte do “pornô com historinha”, por focar na prática do sexo oral, o que não era lá tão comum nas produções da época – para obter prazer, a personagem precisa priorizar a “boca na botija” (hehehe) à transa propriamente dita – e também por evitar o chauvinismo da “mulher objeto”, contando sua trama pela ótica feminina. As personagens da fita são dotadas de personalidade, e não apenas meros corpinhos gostosos, o que casou perfeitamente com a explosão da liberação sexual na década de 70. Hoje, mesmo bastante envelhecido, Garganta Profunda mostra a cada fotograma porque escandalizou – e arrebatou – multidões no mundo todo, e a falta de pudores de Linda Lovelace em protagonizar cenas até então tidas como “inimagináveis” é só a cereja do bolo. Naquela época, mesmo para um pornô, não era qualquer uma que se atrevia a “pôr a boca no trombone”, hehehe.

O que nos leva a Lovelace (Idem, 2013), aguardada cinebiografia da atriz que estreia em circuito nacional nesta sexta-feira. Aguardada, porque como é possível perceber nos parágrafos acima, a história desta donzela angelical precisava ser contada. Certo?

Errado.

Sejamos justos: Linda, que jamais conheceu a fama e a fortuna que Garganta Profunda lhe prometera e morreu em 2002, por consequência de ferimentos causados por um acidente de carro, estrelou uma fita que fez história. Mas a história da própria atriz não é tão espetacular assim para se justificar um filme seu. A vida de Linda é tão genérica e tão parecida com a de outras personalidades já retratadas em celuloide (como Tina Turner, por exemplo) que assistir a Lovelace dá um gostinho salgado de “eu já vi este filme antes”. Na verdade, a trama de Lovelace – uma mulher submissa ao marido come o pão que o cabrunco amassou até virar o jogo e mandar o cara catar coquinho na esquina – já foi tão explorada por aí que é quase um subgênero no cinema dos States (a saudosa Farrah Fawcett que o diga, já que os últimos filmes made for TV de sua carreira eram quase todos variações deste tema).

Senão, olha só: a primeira parte da fita nos apresenta a Linda Boreman (Amanda Seyfried), uma “aborrescente” que vive sob a repressão da mãe religiosa (Sharon Stone) e a indiferença do pai (Robert Patrick). Influenciada por uma amiguinha bem vida loka (!), Linda decide dar um basta e sair das asas da família ao conhecer um sujeito chamado Chuck Traynor (Peter Sarsgaard), que a princípio se mostra charmoso e liberal – tanto que é dele a ideia de, mais tarde, por causa de um probleminha que não vou contar aqui (vá ver o filme, ué!), lançar a garota no mercado cinematográfico “alternativo”; sob a tutela do diretor Gerard Damiano (Hank Azaria), Linda Boreman transforma-se em Linda Lovelace e o pequeno filme que estrela torna-se um marco, alçando a menina à posição de “retrato da mulher liberal” e “representante da emancipação feminina”.

Vidinha perfeita? Nem um pouco. Na segunda metade da projeção, Lovelace volta no tempo para cobrir alguns buracos da narrativa e contar a mesma história de um ponto de vista diferente: o da própria Linda. É aí que descobrimos que de moderna e independente a garota não tinha nada. Na verdade, ela sempre foi um saco de pancadas nas mãos do sádico Traynor, que a molestava para sanar dívidas de drogas e não tinha pudores em encher sua fuça de bolacha a qualquer momento, em qualquer lugar – uma cena em especial, quando Traynor usa os dotes de Linda para organizar uma orgia com um grupo de agiotas como pagamento, incomoda bastante. Descobrimos também que sua participação em Garganta Profunda foi forçada, tanto que mais tarde Linda, já ao lado do segundo marido e com o sobrenome Marchiano, assume a faceta de mãe de família e converte-se em uma dedicada ativista anti-pornografia.

E é isso, esta é a trajetória de Linda Lovelace. E nada mais que isso: embora a atriz tenha vivido em uma época que presenciou grandes acontecimentos mundiais e até tenha influenciado indiretamente alguns deles, o único diferencial entre sua vida e a de outras estrelas (como a própria Tina Turner, já citada aqui) é o foco na indústria do pornô – também ele retratado de forma muito mais competente no espetacular Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, de quem Lovelace tenta emular o estilo e o clima o tempo todo (sem sucesso). Para piorar, o roteiro dá um mínimo de atenção à mitologia e a importância de Garganta Profunda, transformando-o em mero coadjuvante. Maior barato, aliás, como algumas raras releituras de cenas de Garganta exibidas em Lovelace são bem diferentes do filme original – não que eu tenha visto, um amigo meu que me contou. :-)

Mas não dá pra dizer também que esta fita, comandada com respeito por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, é de todo ruim. Lovelace é igual a muita coisa já lançada por aí, mas tem alguns acertos, e o principal deles é a atuação de Amanda Seyfried – a atriz, que até então não assumiu nenhum papel expressivo em sua carreira e resumia-se apenas em um par de olhos gigantes perdido em Hollywood (!), mostra que tem talento e defende sua Linda com uma sinceridade impressionante. Já Peter Sarsgaard, que sabe ser um excelente ator quando quer, aqui está praticamente a encarnação do Capiroto, de tão maquiavélico e exagerado. Em alguns momentos, parece que o sujeito vai virar para a câmera e soltar uma gargalhada maligna tipo Mum-Rá (!!). Os exageros da atuação de Sarsgaard prejudicam um pouco a narrativa, embora fique muito claro que este é um problema de direção.

Então, Lovelace vale a pena? Bem, é tudo uma questão de ponto de vista. Trata-se de um filme competente e nada mais que isso, que não vai mudar a vida de ninguém e será esquecido três dias depois da sessão, mas para chegar a esta conclusão você precisa assistir com a ideia de que verá apenas um drama sobre um relacionamento conflituoso como muitos por aí. Não espere um tratado definitivo sobre a história da indústria pornográfica, ou mesmo a história da construção do pequeno filminho safado que provocou todo esse auê, porque você vai se frustrar feio – e vamos lá, desculpe por ter nascido, a ideia de conhecer os bastidores dos processos que alçaram Linda Lovelace ao status de mito merecia muito mais um filme do que a vida da própria. Uma pena que não tenha sido assim. Nesse caso, melhor ficar com o Garganta Profunda original, que é muito mais divertido!

Não que eu tenha assistido ou tenha o DVD em casa ou seja presidente do fã-clube, tá? Um amigo meu que me contou. :-D

LOVELACE • EUA • 2013
Direção de Rob Epstein e Jeffrey Friedman • Roteiro de Andy Bellin
Elenco: Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard, Sharon Stone, Robert Patrick, Juno Temple, Chris Noth, Bobby Cannavale, Hank Azaria, Adam Brody, Chloë Sevigny, James Franco, Debi Mazar, Wes Bentley.
93 min. • Distribuição: Millennium Films.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: