R.I.P.D. – Agentes do Além

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no JUDÃO, em 26/09/2013.

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Um belo dia, um sujeito comum passa por um evento extraordinário e toma conhecimento de algo escondido de todos os mortais: entidades não humanas vivem entre nós. Por conta deste evento, este sujeito será forçado a integrar uma equipe secreta especializada em fiscalizar as ações destas entidades, de modo que ninguém “saia da linha”. Daí o cara precisa firmar uma parceria com um veterano arrogante e sem amigos para dar conta do recado, já que algumas destas criaturas teimam em burlar o sistema…

Sim, você já viu este filme antes. Ele se chama MIB – Homens de Preto. Portanto, não estranhe se você decidir enfrentar uma sessão de R.I.P.D. – Agentes do Além (R.I.P.D. – Rest In Peace Department, 2013), comédia de ação inspirada em uma obscura HQ que chega aos nossos cinemas nesta sexta-feira, e sair da sessão com a leve sensação de que usaram o mesmo roteiro e apenas trocaram Will Smith por Ryan Reynolds e Tommy Lee Jones por Jeff Bridges. Porque é mais ou menos isso mesmo. Com um adendo: MIB vale uma visita. Já este R.I.P.D… Bem, digamos que extrair um dente ou tomar uma injeção intraóssea são opções mais divertidas e prazerosas do que este troço. :-(

Tá, mas o que há de tão errado aqui? Bem… TUDO. Não há absolutamente nada no lugar em R.I.P.D., como o trailer já denunciava. É mal escrito, mal interpretado, carrega mais clichês que novela das oito, transforma bons atores em canastrões e traz os piores efeitos visuais dos últimos tempos. Em uma escala de vergonha alheia considerando 1 a 5, sendo 1 “o cara do meu lado contou uma piada e ninguém riu” e 5 “o cara do meu lado deixou escapar um arroto no meio do restaurante lotado” (!), esta fita encosta no 5 com muita facilidade. Não é à toa que, depois do enorme fiasco de R.I.P.D. nas bilheterias gringas (custou US$ 130 milhões e rendeu apenas US$ 33 milhões), Jeff Bridges, nosso eterno Dude Lebowski, saiu falando a qualquer veículo de imprensa que apareceu à sua frente que “as escolhas feitas pela edição definitivamente não eram as escolhas que ele faria”…

Olha, acho que não seria uma mudança na montagem que salvaria o filme, viu? Porque a história é ruim de qualquer jeito: o tira boa-praça Nick Walker (Ryan Reynolds, no piloto automático como sempre) vive com sua namoradinha-porta e é tão íntegro e coração mole que mal consegue dormir à noite depois de se envolver em um esqueminha “por debaixo dos panos” arranjado por seu parceiro obscuro Bobby Hayes (Kevin Bacon), esqueminha este que não revelarei para não estragar a surpresa de quem quiser cometer autoflagelo assistindo a isso. Enfim, o cara só quer dar uma vida melhor para a namorada e mostrar que pode ser bem-sucedido, mas nem dá tempo de o sujeito aproveitar os benefícios que o tal lance lhe proporcionaria, já que ele é assassinado durante uma operação da polícia no dia seguinte. Fiquei com tanta pena que estou até chorando enquanto escrevo esta matéria. :-P

É aqui que o péssimo roteiro de Phil Hay e Matt Manfredi (os mesmos que escreveram os horrorosos Fúria de Titãs e O Terno de Dois Bilhões de Dólares, o que explica muita coisa, hehehe) começa a viajar na maionese: ao morrer, Nick vai parar em uma espécie de limbo, onde descobre que existe uma divisão de investigação secreta chamada Departamento Descanse em Paz, dirigida com mão-de-ferro por uma sujeita linha-dura (Mary-Louise Parker) e habitada por policiais mortos de várias gerações – um saguão, por sinal, parecido ATÉ DEMAIS com o QG de MIB. O fato é que algumas almas hostis enviadas ao purgatório, onde deveriam aguardar julgamento, conseguiram escapar e agora habitam a Terra, disfarçados de seres humanos comuns. Como se tratam de almas sem nenhum escrúpulo, entende-se que sua permanência em nosso plano terrestre pode causar problemas.

Como a maracutaia na qual se envolveu em vida o credenciou a passar a eternidade na companhia do Cabrunco (!), Nick pode ter seus pecados perdoados se consentir em assinar um contrato de 100 anos para trabalhar no Departamento Descanse em Paz, onde será obrigado a se unir a um policial mal-humorado chamado Roy Pulsipher (Jeff Bridges), um xerife que viveu e morreu no Velho Oeste pouco acostumado às maravilhas do mundo moderno, e terá a função de capturar estas almas e trazê-las de volta.

A partir daí, o roteiro, que já não era lá estas coisas, resolve apelar para uma traminha de mistério bem chula ao colocar os dois antagonistas, que a princípio se odeiam (UAU, JURO QUE NÃO IMAGINEI QUE SERIA ASSIM…), investigando as ações dos defuntos “desertores” e descobrindo no meio do caminho que eles estão atrás de peças de um artefato que pode destruir de vez os limites entre o mundo dos vivos e dos mortos. Então acontece toda aquela saraivada de clichês horrorosos que você já conhece: Nick e Roy fazem um estrago na cidade, perdem seus distintivos… passam a agir na surdina e por conta própria para evitar o pior… viram best friends forever… descobrem que o esquema do artefato está diretamente ligado ao assassino de Nick, que se revela praticamente um enviado do Tinhoso na Terra… a viúva de Nick vira alvo em potencial… ele quer proteger a moçoila, mas não pode revelar sua identidade… afe, sério mesmo?

Bem, não conheço o gibi na qual R.I.P.D. se inspira (criada por Peter M. Lenkov em 2001 e publicada lá fora pela Dark Horse), mas as críticas que li por aí indicam que o negócio é barra-pesada mesmo, algo bem no nível de um Authority da vida. Logo, é de se imaginar que não vai sair uma coisa boa quando sabemos que o foco do filme é a comédia; tudo aqui parece construído para repetir o estilinho de MIB. Algumas cenas são praticamente cópias – temos então o parceiro velho carrancudo, o novato que só sabe fazer piadinhas, o confronto de gerações, a lojinha com o balconista bizarro que serve de portal para o QG dos mocinhos, o informante disfarçado, o personagem legal que se revela o “cabeça” do grupo de vilões… até a cena final de R.I.P.D. é uma cópia carbono da última cena de MIB!

Antes fosse esse o único problema de R.I.P.D. A fita é muito mal dirigida pelo alemão Robert Schwentke (o mesmo de Red: Aposentados e Perigosos), que abusa DEMAIS de efeitos e maneirismos de câmera para dar uma disfarçada nas fracas sequências de ação. As atuações são sofríveis, e olha que tem gente gabaritada trabalhando aqui, como o próprio Jeff Bridges (dá vontade de cometer suicídio nas 752 vezes em que ele solta aquele irritante YEE-HAA!), Mary-Louise Parker (do seriado Weeds) e Kevin Bacon. Tudo bem que o roteiro, cheio de contradições, não ajuda mesmo – só para citar um exemplo, como o xerife Roy não consegue entender a tecnologia de nossa época, mas faz piadas sobre pornografia na Internet? Ah, e um recado para os executivos de Hollywood que porventura estejam lendo esta matéria (hehehe): por favor, não deem mais papéis de vilão para o Kevin Bacon! Ninguém mais aguenta! O planeta agradece. :-)

Sobre Ryan Reynolds, nem adianta falar muito. Dizer que ele é um ator ruim é redundância. :-P

Já os efeitos visuais, que até poderiam compensar o resto do filme já que sua projeção é em 3D, são de doer de tão malfeitos, especialmente o CGI dos mortos malvados. Aliás, uma pergunta que aflige meu coração: por que raios as almas fugitivas viram criaturas horrendas quando voltam à Terra? Eles viram praticamente Orcs, não tem uma explicação plausível para isso. Sério, o CGI daqui consegue ser pior do que os tenebrosos efeitos visuais de Jack, o Caçador de Gigantes, aquele engodo dirigido pelo Bryan Singer. E olha que não vou nem comentar sobre o final ao melhor estilo Ghost – Do Outro Lado da Vida. Só faltou a Demi Moore fazendo cerâmica e se lambuzando toda no cantinho da cena.

Pô, mas não tem nada que se aproveite em R.I.P.D., então? Deixa eu pensar, hum… NÃO. Não funciona como filme de ação, não funciona como comédia, não diverte e só causa vergonha alheia em quem assiste. Concorrente fortíssimo para a próxima edição do Framboesa de Ouro! Bem, pelo menos não senti vontade de atentar contra minha própria vida, até mesmo porque não quero me arriscar a morrer, chegar lá em cima e dar de cara com uma louca dizendo “assista e resenhe filmes ruins por 100 anos ou vá para o inferno!”. Embora não tenha sido necessário nem clamar por piedade: acho que já paguei uns 48 pecados só de ter que escrever esta crítica!

Ah, se eu não tivesse tanta conta pra pagar… ;-)

R.I.P.D. – REST IN PEACE DEPARTMENT • EUA • 2013
Direção de Robert Schwentke • Roteiro de Phil Hay e Matt Manfredi
Inspirado na HQ “R.I.P.D.”, de Peter M. Lenkov
Elenco: Jeff Bridges, Ryan Reynolds, Mary-Louise Parker, Kevin Bacon, Stephanie Szostak, James Hong, Marisa Miller.
96 min. • Distribuição: Universal Pictures.

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