A Marcha dos Pingüins

23/11/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/01/2006.

Bem, na humilde opinião deste que vos fala, resenhar um documentário é algo bastante relativo, conforme eu comentei na resenha do hilário Trekkies 2 (desculpe, mas não pude evitar usar o mesmo “parágrafo de início”). O fato é que gostar ou não de um doc não depende só da qualidade da fita, mas sim da familiaridade e do pendor do espectador com o tema tratado – tanto que nem pretendo me prolongar muito nesta crítica. Um exemplo: se você não curte música cubana, obviamente não curtirá assistir um Buena Vista Social Club da vida, por mais que este seja um filmaço indiscutivelmente belo.

Embora os docs de hoje tentem fugir um pouco deste estigma para atrair público, como os gloriosos e controversos trabalhos do titio Michael Moore, devo dizer que A Marcha dos Pingüins (La Marche de L’Empereur, 2005), que finalmente estréia em solo brazuca, não foge muito à regra. Veja meu caso: tenho uma simpatia confessa pelos programas do Discovery Channel e do Animal Planet; adoro filmes com bichinhos (*), desde que os cachorrinhos não morram no final, claro (matem qualquer um, menos eles e os bebês!); e afirmo que uma das experiências mais líricas que já tive nos cinemas corresponde ao magistral Microcosmos – Fantástica Aventura da Natureza (aquele dos insetos, cujos trechos eram exibidos esporadicamente no Fantástico, lembra?), que tive o prazer de conferir na tela grande e encheu meus olhos de lágrimas. Chorão, eu? :-D

Pois é. Visto que simpatizo com bichinhos fofuchinhos em filmes, não preciso dizer que vibrei com cada seqüência de A Marcha dos Pingüins. Mas esqueçamos esta parte. O fato é que, gostando ou não, é impossível negar que este pequeno doc francês, dirigido com maestria pelo renomado biólogo Luc Jacquet, é simplesmente arrebatador. Não à toa, a fita transformou-se em um fenomenal sucesso de bilheteria, arrecadando nada menos que US$ 80 milhões só nos Estados Unidos (marca impressionante para um longa-metragem do gênero): o diretor consegue fugir totalmente do rótulo de documentário e, em apenas 80 minutos, entrega uma aventura viva, belíssima em termos visuais, comovente e, dadas as devidas proporções, eletrizante. Sim, eletrizante! Por que não?

Ok, calma lá que eu explico: A Marcha dos Pingüins não é apenas uma fita maçante “sobre pingüins”, em que uma tediosa narração acompanha os animaizinhos em seu habitat natural, comendo, dormindo e brincando de papai-e-mamãe para botar seus ovinhos (!). Na verdade, está bem longe disto. A câmera de Jacquet retrata um período claustrofóbico e aterrorizante da vida da raça dos pingüins-imperadores, uma história carregada de heroísmo e perseverança. E tem mais: os animaizinhos são muito bonitinhos! :-)

O enredo justifica tudo isto por si só: a história tem início quando um batalhão de pingüins-imperadores, entre machos e fêmeas, abandonam o oceano e sobem para a superfície congelada da Antártica, dando partida em uma caminhada em fila indiana rumo ao interior, em direção ao terreno onde realizam seus rituais de acasalamento. O objetivo da maratona: gerar os novos filhotes. Não seria algo tão extraordinário se não estivesse falando de MESES de caminhada debaixo de gelo, gelo e mais gelo (!). Ao chegar ao local, as fêmeas permanecem lá apenas o tempo suficiente para gerar os ovos, retornando ao mar em seguida para buscar comida. Encarregados de guardar os ovos e chocá-los, os machos passam até quatro meses sem se alimentar… Vixe!

É neste momento que a fita torna-se mais tensa: a partir do nascimento dos filhotes, as fêmeas precisam retornar ao habitat de nascimento com comida, enfrentando 200 quilômetros de gelo e frio no prazo máximo de 48 horas. Caso contrário, os bebês-imperadores não sobrevivem. Esta última parte dá um nervoso dos diabos: não há como não torcer para que as fêmeas cheguem logo para que aquelas bolinhas de pêlo com olhos e bicos não partam desta para melhor… :-)

Enfim… Este é o enredo do longa. Como disse lá em cima, fica tudo mais fácil quando o espectador curte o tema. Ainda assim, o roteiro de Luc Jacquet traz alguns atrativos para agradar as massas. Uma das saídas para tornar A Marcha dos Pingüins menos didático e mais ficcional foi utilizar a narração para dar voz aos “pensamentos” dos imperadores – recurso este que não fui muito com a cara, para falar o português claro (como diria o Fanboy, ficou “Disney demais” para o meu gosto), mas não chega a comprometer o resultado final. Sim, dói muito ver o pingüinzinho andando e pensando “veja só, estou dando meus primeiros passinhos”, bem ao estilo Olha Quem Está Falando, mas fazer o quê?

Outra saída foi “musicar” a trajetória dos animais com a intimista trilha sonora de Emilie Simon, simplesmente linda. Sério, dá vontade de comprar o CD na saída do cinema! :-)

Sinceramente? Nem precisava romancear a coisa deste jeito. A batalha dos pingüins pela sobrevivência comove com uma facilidade tremenda, e os “diálogos”, embora ajudem o público a se situar, não são necessários para a total compreensão da rotina dos animais. As grandiosas paisagens frias da Antártica e as impressionantes e emocionantes atitudes quase humanas dos “personagens” centrais encantam qualquer um, não importa se o espectador é simpatizante ou não de documentários e/ou dos programas de TV do National Geographic. São bichinhos, pô! Qualquer um gosta de bichinhos bonitinhos! E é justamente aí que reside o grande charme de A Marcha dos Pingüins: provar que a vida real pode ser tão cruel e cativante quanto qualquer trabalho de ficção espalhado por aí. Para ver de novo, e de novo, e de novo… E sentir uma vontade tremenda de viajar até a casa do chapéu só pra roubar aquele filhotinho de pingüim e levar pra casa! Ô meu Deus, que coisinha mais bilu-bilu… :-D

CURIOSIDADES:

A Marcha dos Pingüins é o segundo documentário mais rentável da história do cinema. Rendeu mais de US$ 80 milhões só nos Estados Unidos, ficando atrás apenas de Fahrenheit 11 de Setembro, o libelo anti-Bush de Michael Moore.

• A produção foi premiada como o melhor documentário de 2005 pelo National Board of Review.

• O longa-metragem possui duas versões: a original francesa, narrada pelos atores Charles Berling, Romane Bohringer e Jules Sitruk (que fazem as “vozes” do casal central e seu filhote, respectivamente), e a versão norte-americana, que dispensa os comentários dos pingüins e é narrada por Morgan Freeman. Freeman gravou sua narração em apenas um dia.

• A versão dublada em português conta com as vozes de Patrícia Pilar, Antônio Fagundes e Matheus Perissé.

• (*) Sim, eu tenho uma quedinha por fitas bobinhas estreladas por animais. Morro de rir. E o Fanboy, quando soube desta, explodiu num revoltadíssimo “COMO ASSIM? VOCÊ É O ZARKO! VOCÊ ODEIA TUDO!”. Pois é, minha fama me precede… :-P

LA MARCHE DE L’EMPEREUR • FRA • 2005
Direção de Luc Jacquet • Roteiro de Luc Jacquet e Michel Fessler
Narração: Charles Berling, Romane Bohringer, Jules Sitruk (original em francês), Morgan Freeman (versão norte-americana).
88 min. • Distribuição: Versátil Filmes.


Babel

22/11/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 18/01/2007.

Se você já teve a oportunidade de conferir qualquer longa-metragem dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñarritú, sabe que estamos falando de um indivíduo sem concessões, que não pensa duas vezes em mergulhar o espectador em uma espiral de acontecimentos trágicos e deixá-lo no fundo do poço só para expôr seus ideais – curiosamente bastante otimistas e denunciadores. Se você viu qualquer filme do cara, também sabe que seus roteiros usam como base um evento extremamente dramático para acompanhar a vida e os infortúnios de alguns dos envolvidos direta ou indiretamente ao ocorrido. Tendo como base estas informações, você já tem uma idéia do que esperar de Babel (Idem, 2006), novo trabalho do cineasta.

Sim, Babel, que é a terceira e última parte da “trilogia da vida” iniciada com Amores Brutos e continuada com 21 Gramas, traz uma estrutura dramática quase similar aos dois longas anteriores de Iñarritú. Há um acontecimento catastrófico – um acidente de carro no primeiro, um atropelamento no segundo e uma bala perdida aqui – e há algumas pessoas em conflito consigo mesmas cujos destinos sofrem uma virada de 180º (para pior, claro) depois do tal acontecimento.

Não pense, porém, que o diretor está apenas se repetindo: a única semelhança entre Babel e seus antecessores é usar um ponto de partida violento e chocante para o desenvolvimento das personalidades de suas personagens. Enquanto Amores Brutos usa o fervor da Cidade do México para falar da selvageria e da irracionalidade do ser humano e 21 Gramas se aproveita das diferentes classes presentes na sociedade norte-americana para criticar o excesso de egoísmo e a ausência de piedade, Babel é muito mais abrangente e ousado: aqui, o roteiro de Guillermo Arriaga, habitual colaborador do diretor, acompanha quatro histórias em quatro diferentes partes do mundo para esfregar na nossa fuça o quanto sofremos com nossa terrível incapacidade de comunicação, uma paradoxa barreira que ainda não conseguimos burlar, mesmo vivendo em uma era onde o avanço da tecnologia nos permite ter acesso ao mundo de forma tão fácil.

Iñarritú só quer nos dizer, na verdade, é que deveríamos começar a OUVIR, ao invés de apenas esperar nossa vez de falar.

A trajetória de Babel começa no Marrocos, onde dois garotos muçulmanos, os irmãos Yussef (Boubker Ait El Caid) e Ahmed (Said Tarchani), não se batem muito e vivem brigando. Ironicamente, são designados pelo pai para passar o dia inteiro sós, somente na companhia um do outro, tomando conta de um rebanho de cabras. O pai comprou um rifle, para proteger suas crias dos predadores naturais. Sozinhos, entediados, com os hormônios explodindo, os meninos começam a brincar com o rifle. O mais novo, que é um exímio atirador, acha que o pai comprou gato por lebre e decide testar o alcance da arma. Ele mira em um ônibus.

Ainda na África, o casal de ianques Richard (Brad Pitt, excelente) e Susan (Cate Blanchett) estão em férias. Na verdade, aquilo é uma frustrada tentativa de reaproximação, já que o casamento está em frangalhos. Susan, um poço de preconceito, não aceita sequer beber a água do lugar. Viajando em um ônibus lotado de turistas, o casal sequer consegue iniciar um diálogo. Um tiro. Susan é atingida no ombro. Basta para que Richard perceba que a falta de comunicação está presente até mesmo entre seus compatriotas: os outros passageiros do ônibus, também estadunidenses, parecem pouco se importar com a mulher à beira da morte e, julgando estar no meio de um “ataque terrorista”, só querem sair dali, o mais rápido possível. Para complicar ainda mais a questão, há a suposta indiferença da embaixada norte-americana em resolver o caso. E Susan precisa de um hospital. Por ironia, o único realmente disposto a ajudar é um marroquino local que não entende bulhufas de inglês.

Já nos Estados Unidos, temos Amelia (Adriana Barraza), mexicana que vive ilegalmente na Terra do Tio Sam há 16 anos. A mulher, que trabalha como babá de uma família endinheirada, está sozinha com as duas crianças loirinhas e de olhos claros do casal, que está viajando. Os planos de Amelia, que pretende voltar ao México para o casamento do filho, são destruídos quando os pais das crianças telefonam e informam que a viagem se prolongará. Incapaz de questionar e se opôr às ordens abusivas de seus patrões, a senhora consente. Com medo de perder o momento mais importante da vida de seu filho, Amelia pega carona com seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) e cruza a fronteira… levando as crianças consigo clandestinamente, sem aviso prévio e sem autorização da família. Claro que o negócio vai acabar mal.

Babel conclui seu ciclo no Japão. É lá que conhecemos a adolescente Chieko (Rinko Kikuchi), jovem surda-muda de classe média-alta que não consegue se entender com seu pai, o bem-sucedido empresário Yasujiro (Kôji Yakusho). Indignada com o tratamento dado pelos seus colegas e também por qualquer um à sua volta, já que não consegue levar uma “vida normal” por ser constantemente excluída por conta de sua deficiência, Chieko passa a explorar seu próprio corpo como instrumento de comunicação, como forma de se adequar ao mundo e finalmente ser aceita por ele.

Sim, há uma ligação entre todas estas histórias. Mas é claro que não vou entregar o jogo aqui, né? :-D

Bem, de qualquer maneira, não faria muita diferença comentar ou não o elo entre as realidades dos garotos muçulmanos, o casal de turistas ianques, a babá mexicana e a adolescente japonesa. O que importa de verdade em Babel é a oportuna mensagem nas entrelinhas de que, independente do mundo dito “globalizado” na qual vivemos, estamos mesmo é nos distanciando cada vez mais. Para defender sua idiossincrasia, o diretor entrega um punhado de seqüências desoladoras e muito comoventes, como aquela em que Amelia, vivida com garra pela ótima Adriana Barraza, se vê perdida no meio do nada e em plena escuridão. Tão desolador quanto é a história de Chieko: incrível perceber que, mesmo com toda a angústia e solidão que dominam a garota, ela parece ser a única que realmente entende o mundo na qual vive. Barraza e Rinko Kikuchi, que dá vida a Chieko, merecem uma estante de prêmios por este filme.

No mais, deixando de lado toda a metáfora de Babel, o que sobra é um excelente trabalho no aspecto técnico da coisa. A primorosa fotografia de Rodrigo Prieto consegue equilibrar a aridez da África com o colorido de Tóquio em tomadas belíssimas, sem glamourizar o longa e, conseqüentemente, fazê-lo tirar os pés do chão. Muito ajuda também a inspirada trilha sonora de Gustavo Santaolalla, que finalmente parece ter perdido a velha mania de querer ser épica e grandiosa, como em O Segredo de Brokeback Mountain. Das atuações, então, não há o que dizer: é fantástico como atores não-profissionais e estrelas de primeira grandeza conseguem competir pau a pau em termos de talento. Pessoalmente, curti MUITO a interpretação de Adriana Barraza – se o Oscar ainda possui um mínimo de justiça, a atriz merece pelo menos uma indicação.

Não sei se é exagero apontar Babel como um dos melhores longas do ano, até mesmo porque ainda estamos em janeiro – ou seja, ainda temos uma cacetada de filmes para assistir. O que posso dizer com conhecimento de causa é que Alejandro González Iñarritú entregou com este último capítulo de sua trilogia o melhor e mais denso trabalho de toda sua carreira. Babel não é apenas uma destruidora crítica ao individualismo e à solidão que domina a espécie humana, mas também representa uma tentativa de alerta para um erro que não cansamos de cometer, que é não enxergar que a solução está ao nosso alcance. Como a tagline estampada no cartaz diz sabiamente, se você quer ser compreendido, escute.

CURIOSIDADES:

• Para quem não sabe, o título do longa é uma referência à história presente no livro Genesis da Bíblia. A história fala de uma humanidade unida em um único idioma que, na ânsia de querer chegar à altura de Deus, constrói uma imensa torre (a Torre de Babel) que teoricamente alcançará o céu. Quando os humanos se aproximam, Deus fica furioso com a atitude dos coitados e dá a cada uma das criaturas da torre uma língua totalmente diferente; impossibilitados de interagir, já que um não entende o que o outro fala, os humanos desistem da idéia e espalham-se pelo mundo. Esta seria a explicação da Bíblia para a existência de diversas culturas existentes no planeta.

• A atriz Rinko Kikuchi, intérprete de Chieko, quase não conseguiu o papel. O caso é que ela não é surda-muda, e Iñarritú queria alguém com estas particularidades para o personagem. Kikuchi só foi contratada depois que o diretor testou dezenas de atrizes surdas-mudas e concluiu que nenhuma delas era tão talentosa quanto Kikuchi.

BABEL • EUA/MEX • 2006
Direção de Alejandro González Iñarritú • Roteiro de Guillermo Arriaga
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Adriana Barraza, Gael García Bernal, Rinko Kikuchi, Kôji Yakusho, Boubker Ait El Caid, Said Tarchani, Elle Fanning, Clifton Collins Jr., Michael Peña, Mohamed Akhzam.
142 min. • Distribuição: Paramount Pictures.


Um Cara Quase Perfeito

22/11/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 19/10/2006.

Vamos a uma realidade incontestável em nossas vidas: Ben Affleck é um dos piores atores, senão o pior, em atividade na história da indústria cinematográfica ianque atual. Ponto. O problema é que o carisma desta canastríssima criatura é tão grande que o cara não precisa sequer aprender a atuar (o que é impossível, diga-se de passagem) para manter intacto – ou quase intacto – seu lugar de prestígio no esquemão hollywoodiano. E pensar que Ben Affleck já tem até um (desmerecido) Oscar em sua estante… bem, a Gwyneth Paltrow também tem, então o troféuzinho da Academia não é prova de talento algum. Do contrário, como o nosso querido amigo El Cid costuma dizer, Titanic seria um dos dez maiores clássicos de toda a história da sétima arte. Creda! :-P

Se Ben Affleck como ator é um ótimo pintor de paredes (ele é alto pra cacete, pô!), até que sua presença em certos trabalhos não chega a incomodar – desde que, claro, haja um belo contrapeso para seu péssimo desempenho. Nos últimos anos, Affleck teve a sorte de dividir fitas bacaninhas com gente de calibre, como Morgan Freeman (A Soma de Todos os Medos), Jason Lee e Joey Lauren Adams (Procura-se Amy) e Samuel L. Jackson (Fora de Controle); nestes três longas citados, a crítica foi unânime em racionalmente apontar Ben Affleck como um dos “elementos negativos”.

É justamente aí que entra Um Cara Quase Perfeito (Man About Town, 2006). Aqui, não há nenhum grande ator – à exceção do eterno Monty Python John Cleese, totalmente desperdiçado – que possa representar uma ameaça para Ben Affleck. Tampouco há uma história que exija demais dos limitadíssimos dotes interpretativos do pobre coitado. Na verdade, esta comédia dramática dirigida por Mike Binder, cineasta independente que assinou o divertido A Outra Face da Raiva, não é nada além de um mero pretexto para Affleck exercitar sem obstáculos sua (falta de) técnica de atuação – o que muito me lembrou o prepotente Jerry Maguire – A Grande Virada de Tom Cruise. Este detalhe torna a fita uma boa pedida? SIM e NÃO. Mas depois falamos sobre isso. ;-)

Antes de qualquer coisa, então, eis o enredo: Affleck vive o executivo Jack Giamoro, sujeito que leva a vida que pediu a Deus; é um bem-sucedido agente de roteiristas, tem fama, dinheiro a rodo e uma maravilhosa esposinha, Nina (Rebecca Romijn, mais linda do que nunca). Só que algo falta em sua vida, ele sente um vazio dentro de si, coitado… Para tentar entender o que está acontecendo, Jack decide freqüentar uma espécie de curso de criação literária, onde aprende a escrever um diário para extravasar suas frescuras frustrações, seu medos e afins. Jack pega gosto pela coisa e não pensa duas vezes em passar para o papel TUDO o que já aconteceu em sua vida.

Mal sabe Jack que o que deveria ser a solução transforma-se em um belo de um pepino. Pra começar, ele descobre que sua mulher lhe bota diariamente um belo par de chifres, e o “vizinho dentro do armário” é ninguém menos que o roteirista mais talentoso de sua carteira, Phil (Adam Goldberg). Quando o agente acha que nada pior poderia lhe acontecer… o pior acontece: seu diário é roubado pela gananciosa jornalista Barbi Ling (Bai Ling), que pretende ganhar um cascalho publicando seu conteúdo. E o conteúdo do livrinho revela um segredo hiper-ultra-mega-escabroso de Jack, um segredo capaz de enterrar sua carreira e mantê-la debaixo da terra pelos próximos 752 anos… :-P

E… prontinho! Este é o enredo. A trama é até interessante e permite uma série de alfinetadas na indústria do entretenimento ianque – se fosse tratada da maneira certa. Aqui, o foco é extremamente superficial; afinal de contas, não dá pra usar uma história que exija tanto assim do astro central. Eis o grande problema da película: Um Cara Quase Perfeito transparece em cada fotograma suas verdadeiras intenções. Tudo aqui gira em torno da proposta de apresentar Ben Affleck como um grande ator. Assim, ótimos personagens são desperdiçados, a estrutura da narração é enfraquecida, personagens secundários com potencial para engolir o protagonista em cena são diminuídos e respondem pelos piores diálogos da fita – é de dar pena ver o que fizeram com o pobre John Cleese, viu?

Portanto, se você ler em alguma resenha por aí que o trabalho de Ben Affleck como ator aqui é bem-sucedido, não se engane. Não é Affleck que é bom, e sim todo o resto que é fraco (!). Digamos que trata-se de uma, er, “posição privilegiada”. Heheheh! :-D

Entretanto, é interessante apontar que Um Cara Quase Perfeito não converte-se em um lixo tenebroso só por centrar toda sua atenção em Affleck; não que haja algum problema com filmes pré-fabricados apenas para massagear o ego de suas estrelas. Se há algum cuidado com a produção, até sai coisa boa – que o diga Naomi Watts e seu estranho Ellie Parker, só pra citar um exemplo. Se o espectador enfrentar uma sessão de Um Cara Quase Perfeito consciente de que verá apenas um filme programado para fazer Ben Affleck brilhar, até poderá curtir. Desde que não preste muita atenção em TODOS os elementos da fita além do próprio ator.

Ainda assim, há alguns pontos positivos na produção. Durante sua projeção, há uma meia dúzia de momentos razoavelmente divertidos, como a seqüência do teste da pseudo-atriz vivida por Amber Valetta, uma reprodução inspirada da cena que tornou Sharon Stone lendária em Instinto Selvagem (embora esta seqüência pudesse render muito mais, verdade seja dita). E também é inspirada a atuação do veterano Howard Hesseman como o pai de Jack Giamoro, além da câmera de Mike Binder, cheia de maneirismos e efeitos bacanas, como os travellings pela cidade (ainda que estes efeitos soem, às vezes, demasiadamente exagerados, visto que uma produção deste porte não justifica tanto exercício de estilo).

Assim, voltemos alguns parágrafos para finalizar. Estamos falando aqui de uma boa pedida? Sim e não. Sim, se você procura uma comédiazinha rápida para se degustar em um daqueles dias na qual não se tem NADA para fazer. Sim, se você é fã inveterado(a) de Ben Affleck – afinal, cada fotograma é pretexto para o ator mostrar suas milhares e milhares de três expressões (!). Não, se você perder tempo com isto em um sábado à noite no cinema, quando o ingresso é caro e não dá pra gastar com qualquer troço. E não, se você parar um instante e notar como Um Cara Quase Perfeito poderia render um trabalho no mínimo contundente e até subversivo se cada minuto de projeção não parecesse implorar para que o público ADORE Ben Affleck. Egocentrismo pouco é bobagem.

Vejamos se em Hollywoodland ele se sai melhor, já que aqui ele continua tão ruim como sempre. Não foi desta vez, tio! :-P

MAN ABOUT TOWN • EUA • 2006
Direção de Mike Binder • Roteiro de Mike Binder
Elenco: Ben Affleck, Rebecca Romijn, Bai Ling, John Cleese, Kal Penn, Adam Goldberg, Amber Valetta, Jerry O’Connell, Howard Hesseman, Mike Binder, Gina Gershon.
96 min. • Distribuição: Imagem Filmes.


Cinco Longas Essenciais de Clint Eastwood

22/11/2009

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/02/2005.

Ator, diretor, produtor, compositor… Ninguém mais duvida que Clinton Eastwood Jr., ou Clint Eastwood, seja um dos caras mais poderosos do cinema americano. Não digo “poderoso” em termos “salariais”, se é que vocês me entendem, mas a real é que pouquíssimos conseguiram chegar aos setenta e tantos (no caso, 74 aninhos) na posição que Clint desfruta na indústria cinematográfica. Não à toa, Clint ocupou recentemente o segundo lugar da lista dos 100 maiores astros do cinema de todos os tempos, segundo a revista Empire. E sem contar que o cara é o Dirty Harry, pelo amor de Deus! Go ahead, punk, make my day! :-D

Nascido em 31 de Maio de 1930, Clint passou um bom período de sua vida trabalhando em bicos, como por exemplo em postos de gasolina. E quem olha para este senhor hoje em dia, nem imagina que Clint Eastwood já passou pelas mais bizarras situações: foi dado como morto na Guerra da Coréia, sobreviveu a um bizarro acidente de avião, trabalhou como bombeiro florestal, casou três vezes e passou dois anos como prefeito de uma pequena cidade litorânea na Califórnia (no caso, a cidade de Carmel, entre 1986 e 1988). Eu, hein! Vai ser versátil assim na casa do chapéu…

Mas não adianta. O lugar de Clint é mesmo o cinema. Só pra se ter uma idéia, neste ano o ator completa 50 anos de carreira (sua estréia no cinema se deu em 1955 com o filme Tarantula, e em seguida, com Revenge of the Creature). Neste meio-tempo, Eastwood atuou em nada menos do que 58 produções, além de dirigir 28 filmes, produzir 22, compor a trilha sonora de 10 e ainda escrever um, sempre oscilando entre trabalhos excelentes e outros fraquíssimos, pra não dizer terríveis!

Bem, como não dá pra falar detalhadamente de cinquenta e tantos filmes aqui, nóis aqui d’A ARCA demos uma fuçada legal em sua filmografia e trouxemos aqui os cinco longas essenciais da carreira de Clint Eastwood, aqueles necessários mesmo. Ideal para quem ainda não sabe muito e quer conhecer um pouco mais da história do indivíduo que anda emocionando meio-mundo com o já clássico Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. Confira logo abaixo os nossos escolhidos!

1966 • TRÊS HOMENS EM CONFLITO (The Good, The Bad And The Ugly) • O enredo é simples: três homens – um bom, um mau e um feio, como sugere o título original – tentam, de qualquer maneira, se apoderar de US$ 200.000 dólares, roubados por soldados em plena Guerra Civil. o dinheiro, enterrado em um cemitério, trará a discórdia entre os três. Três Homens Em Conflito é o último filme de uma trilogia de westerns-spaghetti protagonizados por Clint e dirigidos pelo master Sergio Leone (os primeiro filmes são Por Um Punhado de Dólares, de 66, e Por Uns Dólares a Mais, de 67). É aclamado pela crítica mundial como um dos melhores, senão o melhor faroeste já realizado. Só para se ter uma idéia, o longa lançou, além do próprio Clint, a clássica trilha de Ennio Morricone e serviu de referência a praticamente TODOS os faroestes lançados desde então. O mais incrível, contudo, é que a espetacular narrativa desta fita é justamente o que afasta grande parte do “povão”: lenta, arrastada, apoiada em imagens e quase sem diálogos.
É essencial na carreira de Clint porque… é um excelente tabalho de direção e interpretação. Só para se ter uma idéia de como Três Homens em Conflito é cultuado, um certo Quentin Tarantino não se cansa de afirmar que seu desejo em fazer cinema surgiu depois que assistiu esta fita. Obrigado, Clint. Sem você, Kill Bill não teria existido!

1971 • PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL (Dirty Harry) • O clássico policial Perseguidor Implacável foi um dos cinco longas-metragens protagonizados por Clint e dirigidos por seu camarada Don Siegel. É um marco na história por apresentar o mais famoso personagem de Eastwood, o ambíguo e durão policial ‘Dirty’ Harry Calahan, que simplesmente “não tem paciência para lidar com bandidos” (!). Só pra lembrar: Dirty Harry apareceu em outros quatro longas: Magnum 44 (73), Sem Medo da Morte (76), Impacto Fulminante (83) e Dirty Harry na Lista Negra (88). No enredo deste eletrizante filme de ação, Dirty Harry é o detetive encarregado de capturar um maníaco que assassina uma pessoa por dia. O tal assassino em questão avisa: só interromperá a onda de crimes caso receba uma quantia de 100 mil dólares. Quando Scorpion, o matador, é preso e libertado em seguida – por falta de provas -, Harry resolve burlar a lei e utilizar “seus próprios métodos”. Durante as filmagens, ninguém imaginou que o personagem faria tanto sucesso – o longa marcou de uma tal maneira que Andrew Robinson, intérprete de Scorpion, sofreu várias ameaças de morte por conta de seu papel. E pensar que o Harry Calahan seria interpretado inicialmente por Frank Sinatra…
É essencial na carreira de Clint porque… é simplesmente ducacete! Perseguidor Implacável, junto com os clássicos Bullitt e Os Implacáveis, redefiniu o conceito de cinema de ação nos anos 60 e 70.

1971 • PERVERSA PAIXÃO (Play Misty For Me) • Ainda em 1971, pouco antes do sucesso com o longa citado acima, Clint aproveitou e decidiu se lançar na carreira de diretor. Até então acostumado a trabalhar em policiais e westerns, sempre com aquela fama inabalável de “troglodita”, Clint surpreendeu ao comandar um… suspense romântico. Perversa Paixão arrancou elogios rasgados da crítica não somente por ser o intrincadíssimo suspense que é, mas também por revelar uma faceta de Eastwood que até então ninguém conhecia. Clint, como diretor, conduz uma belíssima e cruel trama sobre um radialista (o próprio) perseguido por uma fã maluca (Jessica Walter) que, noite após noite, pede a mesma música (no caso, a baladinha Misty, famosa na voz de Johnny Mathis). Aos poucos, a psicopata invade a vida do homem até ser rejeitada e, finalmente, revelar seu lado homicida. Pode-se dizer que é o “pai” de fitas como Mulher Solteira Procura e Louca Obsessão.
É essencial na carreira de Clint porque… é um senhor filme de suspense que ainda hoje, mais de trinta anos depois de sua estréia, passa a rasteira em muito “filmeco com surpresas no final”. E por falar em final, a conclusão da trama, mesmo sendo batida hoje em dia, é de arrepiar os fios do… ah, deixa pra lá.

1992 • OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven) • Tudo bem, falar de Os Imperdoáveis é mesmo chover no molhado. Mas por favor, é só um dos grandes trabalhos da década de 90! O enredo narra a via-crúcis de Bill Munny (Clint), um pistoleiro aposentado que resolve voltar à ativa para um último serviço. O trato: Munny precisa encontrar e dar cabo dos bandidões que fizeram miséria no rosto de uma prostituta. Para isto, receberá 1.000 dólares. Para concluir o serviço, Munny contará com a ajuda de seu melhor amigo, Ned (Morgan Freeman, que mais tarde repetiria a parceria com Clint em Menina de Ouro) e do jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvet). Entretanto, a barreira surgirá na forma de um inglês canalha que quer tomar a recompensa para si (Richard Harris) e de um xerife pacifista (Gene Hackman). Bem, como se não bastasse o fato de a história ser fenomenal, Os Imperdoáveis ainda trouxe um conjunto de excelentes atuações do quarteto central, em especial Gene Hackman – que nem queria fazer parte do projeto e acabou levando um Oscar pra casa, dos quatro que a fita recebeu. E diga-se de passagem, com muita justiça.
É essencial na carreira de Clint porque… Clint foi extremamente feliz na direção deste trabalho, que renovou o gênero faroeste e ainda levantou a carreira de todos os envolvidos, particularmente de Morgan Freeman que, com sua atuação aqui, se consolidou como um dos maiores atores americanos em atividade atualmente. E vá se danar, olha só os caras que o Clint Eastwood reuniu aqui!

1995 • AS PONTES DE MADISON (The Bridges of Madison County) • Muita gente adora chamar As Pontes de Madison de “o filme de meninas da carreira de Clint Eastwood”. Nada disso. Na verdade, este aclamadíssimo longa-metragem ganhou esta fama justamente por Clint, mais uma vez na direção (e também atuando), revelar um impressionante domínio também do gênero romance. Mas nada de draminhas do tipo “estrelados pela Farrah Fawcett sobre mulher que apanha do marido e que são exibidos no Supercine”. Muito pelo contrário, aqui o buraco é beeem mais embaixo. Inspirado num livro cultuadíssimo nos States (que, por sua vez, é inspirado numa suposta história real), As Pontes de Madison narra um breve e arrasador relacionamento entre um fotógrafo da National Geographic (Clint) e uma dona-de-casa (Meryl Streep, num de seus melhores momentos), cujos marido e filhos estão viajando. O romance, que durou quatro dias, é contado através de cartas escritas por Francesca, a dona-de-casa, descobertas pelos filhos já adultos após sua morte. Sensível, poético e de cortar o coração, As Pontes de Madison é um daqueles filmes capazes de amolecer até o mais duro dos corações. E quem dirigiu? Pombas, meu, olha lá! É o Dirty Harry! Aquele que enche de porrada primeiro e pergunta depois! :-D
É essencial na carreira de Clint porque… provou que romance não é “coisa de mulher”. Afinal, se até o Harry Calahan se rendeu a esta história, por que nós não poderíamos? E o filme é bom MESMO!

Pois bem, estas sãs as fitas que, na nossa humilde opinião, definem bem a versatilidade de Clint Eastwood. Sim, eu sei que alguns podem não concordar com alguma coisa, podem achar que faltou algum título e que alguns destes aí não merecem estar na listinha. Nada mais natural, afinal cada um tem uma opinião, né! Por isso, logo abaixo, relacionamos TODOS os trabalhos deste cara que é, simplesmente… O CARA!

OS PONTOS ALTOS

Tarantula (1955) • Por Um Punhado de Dólares (1964) • Por Uns Dólares a Mais (1965) • Meu Nome é Coogan (1968) • Os Abutres Têm Fome (1969) • O Desafia das Águias (1969) • O Estranho que Nós Amamos (1971) • O Estranho Sem Nome (1972) • Magnum 44 (1973) • Josey Wales, o fora-da-lei (1976) • Sem Medo da Morte (1976) • Alcatraz, Fuga Impossível (1979) • Bronco Billy (1980) • Honkytonk Man (1982) • Impacto Fulminante (1983) • Um Agente na Corda Bamba (1984) • O Cavaleiro Solitário (1985) • O Destemido Senhor da Guerra (1986) • Dirty Harry na Lista Negra (1988) • Bird (1988) • Coração de Caçador (1990) • Na Linha de Fogo (1993) • Um Mundo Perfeito (1993) • Gasparzinho (1995) • Cowboys do Espaço (2000) • Sobre Meninos e Lobos (2003) • Menina de Ouro (2004).

OS PONTOS BAIXOS

As Bruxas (1967) • A Marca da Forca (1967) • Os Aventureiros do Ouro (1969) • Os Guerreiros Pilantras (1970) • Joe Kidd (1972) • Rota Suicida (1976) • Doido Para Brigar, Louco Para Amar (1978) • Punhos de Aço (1980) • Firefox, Raposa de Fogo (1982) • Cidade Ardente (1984) • Cadillac Cor-de-Rosa (1989) • Rookie, um Profissional do Perigo (1990) • Poder Absoluto (1997) • Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (1997) • Crime Verdadeiro (1999) • Dívida de Sangue (2002).

OS DESCONHECIDOS

Revenge of the Creature (1955) • Francis in the Navy (1955) • Lady Godiva (1955) • Never Say Goodbye (1956) • Star in the Dust (1956) • Away All Boats (1956) • The First Traveling Saleslady (1956) • Escapade in Japan (1957) • Lafayette Escadrille (1958) • Ambush at Cimarron Pass (1958) • Thunderbolt and Lightfoot (1974) • The Eiger Sanction (1975).

Aí está, eis a filmografia completa de Clint Eastwood. Atualmente, o diretor está rodando o drama de guerra Flags of Our Fathers, ambientado na 2.ª Guerra Mundial, com estréia prevista para 2006. então é só aguardar pra ver se Clint nos prova, mais uma vez, que ainda se mantém digno de honrar sua segunda posição como um dos maiores astros do cinema. Ah, quer saber? O que vier dele, eu assisto! Até fita com a Eliana! :-)

CINCO LONGAS ESSENCIAIS DE CLINT EASTWOOD
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 11/02/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem MENINA DE OURO (Million Dollar Baby).


A Intérprete

22/11/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/04/2005.

Mesmo com elogiadíssimos exemplares para defender sua categoria – como, por exemplo, os ótimos Três Dias do Condor (1975), Rede de Intrigas (1976), Todos os Homens do Presidente (1976) e O Informante (1999) –, a verdade é que o thriller político, subgênero do suspense aclamado pela crítica em geral, ainda é ignorado pelo público. Muitas vezes injustamente, falando o português claro. Não tanto pela complexidade dos enredos, embora saibamos que boa parte da massa que freqüenta os cinemas está acostumada a receber tudo mastigado. O problema maior é que geralmente a expressão thriller político vem acompanhada de outra expressão: ausência de ação. Sim, a maioria é centrada em diálogos e pancadaria braba, que é bom, nada. Alguns fogem a esta regra, como é o caso do recente Sob o Domínio do Mal (2004). Outros fazem questão de assumir o lado verborrágico da coisa, mas os diálogos são tão bem construídos que conseguem ser mais tensos e nervosos do que qualquer Exterminador do Futuro da vida. Um exemplo? O próprio O Informante. Três horas de fazer o espectador roer as unhas dos pés, das mãos e, como se não bastasse, até as unhas de quem estiver sentado ao lado! :-D

O mais recente trabalho do diretor Sydney Pollack, especializado em filmes do gênero – vide o próprio Três Dias do Condor e também A Firma, com Tom Cruise –, está no meio termo. O suspense A Intérprete (The Interpreter, 2005) pode ser visto tanto como uma fita policial bem movimentada quanto como uma ácida e coerente crítica à paranóia com relação à segurança nacional pós-11/9, e ainda conta com a vantagem de trazer um enredo atual, importante e muito oportuno. Ainda mais numa época em que tanto se discute a importância da diplomacia, a necessidade de uma guerra tão estúpida e a injusta hierarquia que anda favorecendo um pessoal que nada faz pelo mundo, mas deveria estar fazendo por obrigação. Parece chato, não? Ao contrário: A Intérprete, apesar de algumas falhas, é um filmaço muito dos bão! :-D

A personagem central é Silvia Broome (Nicole Kidman, muito mais linda do que em seu último trabalho, Reencarnação). Silvia é tradutora e intérprete e trabalha no prédio das Nações Unidas, a ONU, em Manhattan. Uma particularidade faz com que os serviços da garota sejam freqüentemente requeridos: ela é uma das poucas pessoas no mundo que falam fluentemente Khu, um raro dialeto característico da minúscula e fictícia República de Matobo, na África. Descobre-se, mais tarde, que Matobo é o lugar onde Silvia passou praticamente toda sua infância e parte da adolescência – assim como também sabemos que o Presidente de Matobo, o ditador Edmund Zuwanie (o veterano ator Earl Cameron), anuncia que visitará a sede da ONU. A polêmica ronda Zuwanie, uma vez que ele é acusado mundialmente de se esconder por trás de uma imagem pacífica e preocupada com seu povo para instaurar o caos e causar um genocídio no país. Logo, vê-se que o cara não é nem um pouco desejado em solo ianque. Se alguém questionar Silvia sobre sua opinião com relação ao presidente de sua terra natal, ela dirá que não concorda com seu ponto de vista, por acreditar muito na força das palavras. E declarará que não sentiria falta alguma se o escroto presidente “batesse as botas”… Ainda assim, ela fica na dela.

A coisa pega fogo quando, ao entrar no prédio à noite para buscar alguns pertences pessoais, Silvia acidentalmente escuta um plano para assassinar Zuwanie em plena Assembléia Geral da ONU. O plano é sussurrado, o que dificulta a identificação da voz, e dito no mesmo dialeto Khu que apenas Silvia e alguns poucos ali dentro conhecem. Os suspeitos são os poderosos e perigosos nativos de Matobo, Kuman-Kuman (o bizarro George Harris, de Falcão Negro em Perigo) e Ajene Xola (Curtis Cook), inimigos declarados de Zuwanie e loucos para tomar o poder no lugar. A questão: se Zuwanie for executado em terras gringas, a culpa recairá ao governo estadunidense, o que pode causar uma crise internacional. Enfim, Silvia aciona a polícia e logo a paranóia se instala; em paralelo, são destacados dois agentes do Serviço Secreto para investigar o caso: a centrada Dot Woods (Catherine Keener, a inesquecível Maxine de Quero Ser John Malkovich, ótima como sempre) e o ríspido Tobin Keller (Sean Penn, oscarizado recentemente por Sobre Meninos e Lobos).

Pra piorar ainda mais as coisas, no primeiro encontro de Silvia e Keller, este último – que perdeu a esposa em um acidente há menos de duas semanas – é categórico ao declarar que, em sua opinião, há um terceiro suspeito e provável culpado, ainda mais perigoso que os outros dois: a própria Silvia Broome. Pois é, vocês acharam que surgiu um nó aí? Pois saibam que a resposta de Silvia a esta acusação é mais bizarra ainda! E até aqui, rolaram apenas 20 minutos de um filme com pouco mais de duas horas… Putz! :-D

Claro que a trama não estaciona aí. O roteiro de A Intérprete, escrito por três roteiristas em alta hoje em Hollywood – Charles Randolph (A Vida de David Gale), Steven Zaillian (A Lista de Schindler) e Scott Frank (Voltar a Morrer) –, abre um leque de possibilidades, e todas elas são bem exploradas e amarradinhas. Silvia diz a verdade? O que ela tem a esconder? E Keller, pode estar blefando para defender um bem maior? E quais os interesses do grudento chefe de segurança de Matobo, Nils Lud (o ótimo dinamarquês Jesper Christensen)? Qual a ligação de Silvia com o misterioso fotógrafo francês Phillipe (Yvan Attal, de Ghost World)? Nossa, e isso não é nem a metade…

Os atores representam outro trunfo da produção. Enquanto Nicole Kidman, bela como nunca, entrega uma boa atuação e prova que pode ser uma grande atriz quando é bem dirigida, Catherine Keener dá mais um indício, mesmo aparecendo pouco em cena, de que é uma das atrizes mais competentes e injustiçadas da atual safra hollywoodiana. Mas ninguém, eu digo, ninguém é páreo para um certo camarada chamado Sean Penn. O ator simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, e não só engole sua freqüente parceira de cena, Kidman, como cospe e mastiga e engole de novo (!). Brincadeiras à parte, a atuação de Sean Penn, composta basicamente de expressões leves e olhares, é de assustar, e transmite numa boa todos os (turbulentos) sentimentos de seu personagem, que oscila entre manter o profissionalismo mergulhando no trabalho e escancarar suas emoções. E o cara faz tudo isso sem abrir mão de sutilezas! Como comentou o Fanboy: “Quem diria que o ex-espancador-de-Madonnas poderia se tornar um grande ator um dia?”.

Maaaas… Como disse lá em cima, há algumas falhas. E o ponto negativo vem justamente do fato de ficar em cima do muro e não tomar partido do lado político ou do lado pessoal. Se por um lado o roteiro acerta em cheio na crítica à forma com que boa parte dos dirigentes anda levando seus mandatos e também no retrato até fiel da política externa estadunidense pós-ataques terroristas, há uma leve queda quando o foco é centrado na esquisita relação de amor e ódio entre Tobin Keller e Silvia Broome. Independente de mandar bem em seus respectivos papéis, a química entre Sean Penn e Nicole Kidman não chega a ser tão marcante quanto a química do próprio Penn com sua outra parceira de cena, Catherine Keener. Bem que o montador William Steinkamp poderia ter deixado quinze ou vinte minutos de projeção na sala de montagem… E o final romanceado e burocrático demais faz com que o longa perca definitivamente a chance de fazer história e ser lembrado por algum tempo no cinema de suspense político.

Estes pequenos erros, no entanto, não estragam o prazer de assistir ao filme. Um bom trabalho como diversão-pipoca e ainda melhor quando se levado a sério. Aliás, é fundamental que A Intérprete seja visto, já que, mesmo discutindo pontos importantes da política mundial, tem apenas uma única e simples mensagem: é preciso, acima de tudo, paz. Ou seja: muito barulho para, no final de tudo, se tornar apenas um suspense bacana, divertido e bem simples, mas cheio de qualidades. Vamos ver se desta vez o subgênero consegue chamar a atenção do público em geral, e quem sabe assim o povo larga de engordar a bilheteria de alguns filmecos que andam por aí… Não adianta, não consigo deixar de ser amargo! ;-)

CURIOSIDADES:

A Intérprete é o primeiro longa-metragem da história a ter cenas rodadas dentro da sede das Nações Unidas, a ONU. As locações incluem a Assembléia Geral e o Conselho de Segurança, além de corredores e outros ambientes do complexo. As filmagens aconteceram entre Abril e Agosto de 2004. A equipe rodou as cenas aos finais de semana, para não atrapalhar as atividades regulares da organização. Nas seqüências mais importantes do filme, elenco e equipe chegaram a passar mais de 60 horas dentro do edifício, sem poder sair.

• As filmagens aconteceriam originalmente num galpão em Toronto, Canadá. O problema foi o orçamento astronômico; só para reconstruir a Assembléia Geral da ONU, o orçamento de US$ 80 milhões ganharia mais 1/3 de seu valor.

• Funcionários da sede da ONU serviram de figurantes para boa parte das cenas. Imagine esse pessoal xingando por ter que voltar ao seu local de trabalho e “representar” seus próprios papéis em pleno Sábado e Domingo, quando poderiam tirar uma pestana… :-D

• Durante uma cena em que tiros são disparados dentro do prédio, não foi permitido sequer o uso de balas de festim, para não causar um caos generalizado dentro do edifício. Os efeitos de tiros foram inseridos posteriormente, através de CGI.

• O ator Earl Cameron, que vive o ditador matobano Edmund Zuwanie, é nativo de Pembroke, Bermuda, e é mais conhecido no cinema americano pelo papel que viveu em 007 Contra a Chantagem Atômica (1965). Faz tempo, hein?

• O excelente dinamarquês Jasper Christensen, que dá vida ao ambíguo Nils Lud, conquistou os EUA com sua performance no divertidíssimo Italiano Para Principiantes (2000), 12.º longa do polêmico Manifesto Dogma 95 e um sucesso no circuitinho Rio-SP. Para quem nunca ouviu falar no termo, o Dogma 95, já extinto, pregou uma nova forma de fazer cinema; foi criado pelos cineastas Lars Von Trier (Os Idiotas) e Thomas Vintenberg (Festa de Família), e dispõe de pelo menos 39 produções conhecidas mundialmente. Os principais tópicos do manifesto pregavam filmagem apenas com câmera de ombro, sem uso de luz artificial, sem trilha sonora, temas polêmicos e inaceitáveis pela sociedade, entre outras coisas.

• Poucos repararão neste fato curioso, mas ele está lá: a cada mudança de seqüência, o som da cena a seguir entra segundos antes da cena em si. A justificativa deste estilo, segundo os produtores, é o fato de A Intérprete valorizar muito o trabalho de som e de vozes dos protagonistas.

• As filmagens de A Intérprete foram paralisadas durante dias. O motivo: Nicole Kidman foi convocada para refazer cenas de Mulheres Perfeitas (2004), depois que a produção foi vaiada numa exibição-teste. Eu, hein? Se ainda fosse um teste de Reencarnação… :-P

• Pra encerrar, um troço altamente inútil: o sobrenome do personagem de Sean Penn, Keller, é o mesmo sobrenome da maravilhosa Naomi Watts em O Chamado (o nome dela no filme é Rachel Keller). E os dois já trabalharam juntos, interpretando amantes, no aclamado 21 Gramas, de Alejandro González Iñarritú, e estão escalados para viver em breve marido e mulher no drama The Assassination of Richard Nixon. É, eu sei, é uma bobeirinha. Mas uma daquelas bobeirinhas que todos adoram saber, não é não? :-D

THE INTERPRETER • EUA/ING • 2005
Direção de Sydney Pollack • Roteiro de Charles Randolph, Steven Zaillian e Scott Frank
Elenco: Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener, Jesper Christensen, Yvan Attal, Earl Cameron, George Harris.
128 min. • Distribuição: Paramount Pictures.


Quase Dois Irmãos

22/11/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/03/2005.

Se alguém me pedir para resumir o cinema nacional de 2004 em uma única palavra, esta palavra seria SOCORRO. Porque as produções brazucas que chegaram às telonas neste último ano foram de doer a alma. Bem, tenho consciência de que posso ser apedrejado em praça pública por causa deste comentário, já que me refiro claramente a Olga, Cazuza – O Tempo Não Pára, Viva Voz e Sexo, Amor e Traição, fitas que até construíram uma carreira respeitosa no cinema, embora sejam bem ruinzinhas. E mesmo correndo o risco de ser acusado do contrário, já digo logo que não tenho preconceito algum com películas da nossa terra (dois dos meus longas preferidos, aliás, são os “100% tupiniquim” Lavoura Arcaica e Uma Vida em Segredo, dois clássicos), mas também não sou daqueles que proclamam que um trabalho é bom só porque é daqui. Qualquer um está propenso a fazer filme ruim, oras!

Continuando, a safra de 2004 doeu mesmo. Parece, contudo, que 2005 promete ser um ano generoso para nossas produções – excluindo-se, claro, as tragédias que normalmente se abatem em período de férias (Xuxa, Eliana e aquilo tudo que todos já conhecem). Tudo isso pra falar de Quase Dois Irmãos (Idem, 2004), o novo trabalho da cineasta carioca Lúcia Murat – mais conhecida pela direção do conceituado Que Bom Te Ver Viva (1986), que trata basicamente do mesmo tema. Não que Quase Dois Irmãos seja tão espetacular assim. Entretanto, é o mais bem escrito, dirigido e interpretado dos últimos nacionais. E de quebra, traz uma visão muito particular, mesmo que meio superficial, de um tema de importância histórica: a situação dos presos políticos na era da ditadura militar e o surgimento de uma das facções criminosas mais temidas do Brasil.

Mas não se engane: isto é apenas o pano de fundo de uma história sobre a amizade de duas pessoas distintas e ao mesmo tempo semelhantes, e sua sobrevivência através do tempo e a resistência da união contra a própria vida (falei difícil agora, né?). :-D

O roteiro de Murat e Paulo Lins – roteirista também de Cidade de Deus e da sitcom brazuca Cidade dos Homens – usa o manjadíssimo artifício de “ir e voltar no tempo” para explorar a relação entre dois amigos e antagonistas, Miguel e Jorginho – o primeiro, branco e de família rica e o segundo, negro, pobre e favelado -, em três épocas diferentes de suas vidas. Ao fundo, as transformações políticas e sociais do Rio de Janeiro em cerca de 50 anos. A amizade inicia-se em 1957, quando o pai de Miguel, um intelectual aristocrata, encanta-se com a malandragem dos sambistas do morro e faz amizade com o pai de Jorginho, o que desestrutura a família de ambos.

Os caminhos de Miguel (Caco Ciocler, quase um “Jude Law tupiniquim”, de tanto que aparece em filmes!) e Jorginho (o ótimo Flávio Bauraqui, de Madame Satã) se cruzam novamente em 1970, no auge da ditadura. Miguel, militante político, e Jorginho, assaltante de bancos, cumprem pena na mesma galeria da Penitenciária de Ilha Grande. Nesta época, os opositores do regime militar e os bandidos comuns tinham como destino o mesmo lugar, esta mesma prisão, sem direito à separação por nível social. Uma vez na cadeia, os guerrilheiros se organizavam baseados no princípio do direito coletivo, ou seja, era proibido fumar maconha e praticar pederastia e roubo. E qualquer conflito interno, por menor que fosse, jamais era resolvido com violência.

A metódica organização da classe média bate de frente com as transgressões e a marginalidade da classe baixa, e a convivência entre a elite (representada por Miguel) e a plebe (defendida por Jorginho), a princípio amistosa e até afetiva, se torna acirrada e de certa forma perigosa com o passar dos meses. O ápice deste conflito gera o distanciamento definitivo das classes e o nascimento de um grupo separatista que, mais tarde, seria chamado de Comando Vermelho.

A história sempre paralela de Miguel e Jorginho encontra um último capítulo em 2004, quando o primeiro, agora um respeitado deputado (interpretado por Werner Schünemann, de Olga), procura o segundo (agora vivido por Antônio Pompêo, veterano das novelas da Globo), o perigoso líder do CV – atuante através de um telefone celular -, para sugerir a implantação de um projeto social nos morros do Rio. Mas Miguel tem outros motivos pra se preocupar com a violência da favela: sua filha adolescente, Juliana, assim como o próprio pai em sua juventude, é fascinada pelas semelhanças dos dois mundos e namora um conhecido traficante, protegido de Jorginho. Mais uma vez, os dois mundos se chocam e testam a amizade entre os dois homens, que deveria estar acima de tudo.

Como qualquer um pode notar, o enredo de Quase Dois Irmãos é ótimo e bem oportuno. Alguns pontos negativos, porém, atrapalham bastante o resultado final: os diálogos são falsos e carregados de discursos moralistas – culpa de Paulo Lins que, na minha visão, carrega este problema em todos os roteiros que escreve. É tudo muito certinho, muito bem acentuado (chega a ser bizarro ver os bandidões usando um linguajar tão cheio de acentuações e pontos finais) e formuladinhas demais. Ninguém na vida real usa diálogos daquele jeito!

Os únicos que conseguem imprimir um pouco de naturalidade a seus personagens são Maria Flor, como Juliana, e Renato Souza, que interpreta Deley, o traficante protegido de Jorginho. Quanto ao restante, ninguém se salva – à exceção do cantor Luiz Melodia, dando as caras pela primeira vez no cinema com uma pontinha bem bacana (mas sem falas, portanto não conta) e Marieta Severo, competente como sempre no papel da mãe de Miguel, na segunda fase do filme – mas que aparece muito pouco em cena, ou melhor, na tela.

As interpretações também compõem outro ponto negativo, em particular no caso de Werner Schünemann e Antônio Pompêo, cuja “química” em cena só é comparável ao “entrosamento” entre Jennifer Lopez e Ben Affleck em Contato de Risco (ugh!). Por outro lado, é interessante notar que, ao melhor estilo Traffic, a fotografia do bom Jacob Solitrenick (de Durval Discos) e até mesmo a direção de Murat muda a cada época. É como se estivéssemos assistindo a três filmes sem ligação. E a trilha sonora de Naná Vasconcelos é um espetáculo à parte.

Porém, todos os pecados da fita poderiam ser perdoados, se Lúcia Murat não optasse por dar um tratamento tão vago ao excelente enredo do longa. O que é de se estranhar, já que a cineasta viveu na pele o que revisita em cena: ex-militante do MR-8, ela foi torturada e passou três anos na prisão de Bangu. Parece que Murat sentiu medo de se aprofundar nas questões e, com isto, tomar partido. O que vemos, então, é um longa-metragem que, ao final, assim como seus próprios personagens, encantou-se com dois mundos – no caso, o cinema para o povo e o cinema para os intelectuais – e não conseguiu decidir-se entre um e outro. O que não tira totalmente o brilho da produção.

Sim, eu sei que muitos veículos deverão exaltar Quase Dois Irmãos como um excelente filme. Sabe como é: alguns veículos adoram encher lingüiça com palavras difíceis. Se isto acontecer, não se engane: no início deste artigo, falei sobre os péssimos trabalhos de 2004. Não é que esse aqui é ótimo. É só o melhorzinho deles! :-P

CURIOSIDADES:

Quase Dois Irmãos fez parte da Seleção Oficial dos visados Festivais Internacionais de Toronto, Montreal e Biarritz.

• O longa recebeu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator (Flávio Bauraqui) no Festival do Rio 2004, além do prêmio da Federação Internacional de Críticos (Melhor Filme Latino-Americano). Foi eleito o Melhor Filme do Festival do Amazonas e abocanhou dois troféus no conceituadíssimo Festival de Havana: Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

• O músico Naná Vasconcelos é muito conhecido lá fora e já tocou com caras como B. B. King e Paul Simon. E não é de se estranhar: Vasconcelos realmente é ótimo.

QUASE DOIS IRMÃOS • BRA • 2004
Direção de Lúcia Murat • Roteiro de Lúcia Murat e Paulo Lins
Elenco: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner Shünemann, Antônio Pompêo, Maria Flor, Marieta Severo, Luiz Melodia.
102 min. • Distribuição: Imovision.


Flores Partidas

22/11/2009

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/11/2005.

Ao assistir ao excepcional Feitiço do Tempo, saí por aí alardeando que o notório senhor Bill Murray daria um excelente ator dramático. Ok, a fita era comédia, aliás uma pusta duma senhora comédia, mas alguns maneirismos de Murray me fizeram notar que, por trás daquela máscara de comediante, havia um talento nato para dramas intimistas. Pode ter sido a cara de triste do cara, sei lá. Mas tive esta sensação.

Então vieram películas como Ed Wood, Rushmore, Os Excêntricos Tenenbaums, Encontros e Desencontros e A Vida Marinha com Steve Zissou. Todos, por sinal, considerados grandes trabalhos por boa parte da crítica – e também do público. Bill Murray finalmente se descobriu e papou um Globo de Ouro e até uma indicação ao Oscar por isto. Mais do que merecido, não preciso nem dizer. :-)

Flores Partidas (Broken Flowers, 2005), o novo filme do megacultuado cineasta indie Jim Jarmusch – o mesmo diretor dos excelentes Uma Noite Sobre a Terra, Ghost Dog e Sobre Café e Cigarros -, chega às telas para provar que Murray não só tem um dom natural para interpretar personagens complexos e profundos emocionalmente como também está se especializando em tipos calados, misteriosos e depressivos. Não seria exagero afirmar que Flores Partidas é até o momento o melhor trabalho de Bill Murray enquanto ator dramático. Afinal, devo dizer, ele é a alma e o coração do filme.

Murray é Don Johnston – favor não confundir com o bizarríssimo astro do seriado Miami Vice (!) -, aposentado do ramo da informática, rico e solteirão por opção que tem o hábito de usar mulheres e jogar fora sem nenhum pudor. Mal começa a história e Don leva um belo de um chute de sua namorada Sherry (Julie Delpy, Antes do Pôr do Sol). Detalhe este que, pra falar a verdade, não chega a incomodar tanto, uma vez que a palavra monogamia e a expressão relacionamento duradouro não constam no dicionário de Don. O que o incomoda é a carta anônima que recebe no mesmo instante em que é abandonado: seu conteúdo, datilografado por uma velha máquina de escrever, revela que Don tem um filho de 19 anos que fugiu de casa e está perdido por aí.

É a partir daí que vemos a maestria com que Murray conduz seu personagem. Don Johnston é um homem sem uma gota de expressividade, incapaz de sentir emoção – ou pelo menos tão controlado a ponto de conseguir escondê-las lá no fundo, sem externá-las em momento algum. Sua frieza reflete em sua casa, suas roupas, em suas relações, e chega ao ponto de fazer com que Don esconda até seus sentimentos com relação a esta descoberta.

É preciso um empurrãozinho de seu hiperativo vizinho etíope Winston (Jeffrey Wright, de Ali, fabuloso), viciado em romances policiais e obcecado por “pistas”, para que Don embarque numa intimista viagem à procura do filho e das mulheres com a qual se relacionou, para descobrir qual delas é a misteriosa mãe do garoto. E é a partir deste ponto que, sozinho e sem o equilíbrio que sua vidinha medíocre ao lado da adorável família do vizinho lhe proporcionava, Don reavalia sua existência e aprende que esse lance de sentimento é mesmo um troço de doido que ninguém será capaz de explicar, muito menos domar.

Boa parte da metragem de Flores Partidas é centrada na odisséia de Don e no reencontro do personagem com suas ex-namoradas, que permanecem pouquíssimo tempo em cena. Atrizes como Frances Conroy (O Aviador), Jessica Lange (Peixe Grande), Tilda Swinton (Constantine) e Chloë Sevigny (Melinda e Melinda) passeiam pelo passado do indivíduo – destaque para o ótimo trabalho de Sharon Stone, bela como há muito não se via. Acho um pouco demais afirmar que as atrizes, assim como Jeffrey Wright, roubam a cena de Bill Murray: eu diria que todos fazem excelentes trabalhos e atuam de igual para igual. Ainda assim, não dá pra negar que, sem Murray, Flores Partidas não existiria com a mesma intensidade.

O mérito, claro, vem da genialidade de Jim Jarmusch como diretor. Deixando os maneirismos visuais de lado e tendo a seu favor apenas um bom roteiro, uma fantástica trilha sonora, personagens tridimensionais e o básico de técnica, Jarmusch consegue injetar ânimo e sutileza numa história simples, parada e que tinha tudo para se transformar num filme monótono, arrastado e melancólico. Ao final, Flores Partidas resulta num road-movie tocante, divertido (sim, divertido!) e bem singelo que converte Bill Murray ao status de melhor ator em atividade no cinema estadunidense. Emocionalmente falando, Flores Partidas pode deixar o espectador com um baita sorrisão de orelha a orelha, e com aquela vontadezinha de encontrar aquela pessoa que você mais gosta só pra dar-lhe um abraço e dizer o quanto gosta dela. :-)

Na verdade, pessoalmente fiquei com muita, mas muita vontade de cruzar com o Bill Murray por aí, para sentar numa mesa de bar e conversar durante horas sobre os mais variados assuntos. Então, eu aproveitaria e pediria o telefone da Scarlett Johansson. Hehehe… ;-D

CURIOSIDADES:

Flores Partidas levou o Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes. Foi indicado à Palma de Ouro, mas perdeu para o elogiadíssimo belga L’Enfant, de Jean-Pierre e Luc Dardenne.

• Jim Jarmusch declarou recentemente que escreveu Flores Partidas com o único objetivo de trabalhar com Bill Murray, de quem é fã absoluto e com a qual fez um dos segmentos de Sobre Café e Cigarros. O cineasta planejara outro roteiro como desculpa para dirigir Murray, mas descartou-o por acreditar que o texto anterior não era bom o suficiente para explorar a veia dramática do ator. Isso é que é moral!

• O roteiro de Flores Partidas foi escrito em duas semanas e meia.

• O nome da personagem Sun Green é uma referência a uma garota citada numa das canções do álbum Greendale, de Neil Young, cantor que é um dos preferidos de Jim Jarmusch. A desconhecida Pell James, intérprete de Sun Green, prepara-se para entrar para o primeiro time de Hollywood com um papel de destaque no futuro Zodiac, novo suspense de David Fincher.

BROKEN FLOWERS • EUA/FRA • 2005
Direção de Jim Jarmusch • Roteiro de Jim Jarmusch
Elenco: Bill Murray, Jeffrey Wright, Frances Conroy, Sharon Stone, Julie Delpy, Tilda Swinton, Mark Webber, Chlöe Sevigny, Jessica Lange, Christopher McDonald.
106 min. • Distribuição: Europa Filmes.