Educação

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no JUDÃO, em 18/02/2010.

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Educação (An Education, 2009) é um daqueles filmes que parecem muito pequenos e muito comuns à primeira vista. Educação é tão pequeno que você se pergunta como diabos alguém pode perder tempo com ele quando se pode passar quase três horas de sua vida delirando com coisas visualmente encantadoras e mágicas como Avatar, aquele filme que ninguém nunca ouviu falar e ninguém assistiu (!). Educação é tão comum que, se você já assistiu Avatar (mais conhecido como “alegoria 10, enredo 0”) e decide enfrentar uma sessão só por não ter mais nada sendo exibido no circuito, você passa metade da projeção tentando adivinhar os próximos passos da trama – e conseguindo.

Pior ainda quando sabemos que trata-se do primeiro roteiro oficial escrito por um dos mais renomados escritores contemporâneos, o britânico Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade e Um Grande Garoto) – que já escreveu o roteiro da primeira versão de Febre de Bola, que não conta por ser uma variável de um livro de sua autoria. Enfim, quem já botou as mãos em qualquer um dos livros de Hornby, sabe que estamos falando de um sujeito que transforma qualquer história batida em fábulas absurdamente engraçadas e apaixonantes, o que de fato não chega a ser o caso de Educação (cujo roteiro foi desenvolvido a partir das memórias da novelista Lynn Barber).

Basta uma análise mais contundente, entretanto, para notar o quanto Educação é muito mais do que “apenas uma fitinha como tantas”. O longa-metragem muito bem conduzido pela dinamarquesa Lone Scherfig (diretora dos elogiados Italiano Para Principiantes e Meu Irmão Quer Se Matar) conta mesmo uma história que provavelmente já vimos antes em várias outras produções, mas não da forma como ela se apresenta aqui e certamente nunca com tanta profundidade emocional nas entrelinhas. E considerando o bom e velho ditado “não importa se a história é velha, o que importa é como ela é contada”, temos aqui um filminho que cresce bastante por conta de todos os seus acertos.

Vamos, então, ao primeiro deles: Carey Mulligan. Mas antes de falar da sujeita, a história: logo nos primeiros minutos, conhecemos a rotina da adolescente Jenny (Mulligan), de 16 anos. A menina mora no subúrbio de Londres, em 1961, e estuda em um colégio para moças, controlado com certa rigidez por uma diretora (Emma Thompson) tão ou mais apagada que a própria professora (Olivia Williams), as amigas de colégio e a mãe de Jenny. Já o pai (Alfred Molina, excepcional) só quer saber das aulas de Latim da filha – é que o indivíduo vive para ver Jenny ingressar em Oxford, o que não parece ser o maior sonho da vida da garota.

Na verdade, embora seja dona das melhores notas no colégio, esteja acostumada a devorar livro após livro, conheça artes plásticas como ninguém e represente o cúmulo da filha exemplar, Jenny não deseja este tipo de vida. Pra começar, Jenny é notadamente muito mais avançada e intelectual do que qualquer garota que esteja à sua volta. E estamos no início dos anos 60, época em que as mulheres começaram a lutar por igualdade e pelo fim da repressão sexual, e Jenny crê que será mais feliz se puder usar calças, ouvir qualquer música que não seja clássica e passear pela Europa ocasionalmente. E esta possibilidade surge à sua frente na forma do bon vivant trintão David (Peter Sarsgaard). O estilo de vida de David e seus amigos Danny (Dominic Cooper) e Helen (Rosamund Pike, hilária), que passam dias e noites em leilões e museus, adoram obras de arte e corridas de cães e viajam pela França como se fosse uma visitinha rotineira à casa da vovó (!), atinge Jenny como uma bala de canhão.

A partir daí, a menina se vê em uma sinuca de bico: com David, com a qual engatará um romancezinho (que obviamente tem tudo para dar errado – ou não), Jenny aprende que a melhor educação é, nas palavras do próprio cara, “aquela que nenhuma instituição a não ser a vida lhe ensinará”. Para isto, porém, ela precisará abdicar de tudo o que uma formação em Oxford pode lhe proporcionar e pode acabar como mais uma dona-de-casa que fará as vontades de um futuro marido e não terá conhecimento para conquistar o mundo por suas próprias mãos. O que fazer? Atropelar sua juventude e enfrentar o mundo com as armas que tem? Abraçar sua rotina e deixar que o tempo se encarregue do resto?

Simples? Pois é, não é? Nem tanto. A burocracia do enredo esconde diálogos bem espirituosos – cortesia, claro, da escrita bem imaginativa de Nick Hornby – e metáforas atemporais e universais. O que temos aqui é basicamente um filme teen escondido atrás de um rótulo maduro e conciso, sobre desejos e angústias reais de uma adolescente que, ainda retratada em uma época específica, reflete aspectos de qualquer adolescente a qualquer tempo. Algo como Meninas Malvadas, aquela aparente comediazinha boba da Lindsay Lohan que, graças aos miraculosos dedinhos da senhora Tina Fey no roteiro, revela-se uma senhora apologia aos problemas de juventude.

Mas é claro que um bom filme não é feito só de uma boa história. Educação acerta bonito na belíssima reconstituição de época, na obscura fotografia, na excelente trilha sonora (composta pelo músico teatral Paul Englishby, responsável pela execução técnica de som do recente O Lobisomem, com Benicio Del Toro)…

E na escolha de Carey Mulligan, indicada ao Oscar por este papel, que torna-se peça fundamental do bom resultado de Educação. Sua interpretação da insegura Jenny é de encantar qualquer um – a atriz consegue transitar numa boa da inexperiência para a maturidade à medida que a projeção se desenrola, e olhe que a menina nem precisa de muito esforço para isso. E o time de coadjuvantes escalados pela direção dedicada e carinhosa da cineasta Lone Scherfig é inspirador – o destaque vai para os hilários desempenhos de Alfred Molina (como o pai tagarela de Jenny) e da belíssima Rosamund Pike (como a loira burra que não se conforma com o fato de a menina gostar de ler livros – “revistas são melhores, elas não vão te deixar com olheiras e tudo caindo!”). Sério, alguém podia ter se lembrado destes dois nesta última temporada de prêmios! :-D

Resuminho da obra? Educação é um filme bem pequeno, bem comum, quase banal e até previsível, que transcende estes rótulos e tem muito a dizer quando visto de forma mais analítica. Talvez não seja mesmo tão merecedor assim de metade dos prêmios ao qual está indicado, mas certamente está muito além de “apenas mais uma fitinha menor”. Se não rolar mais nada nas salas de cinema, vai fundo! E depois da sessão, aproveite e corra até a livraria mais próxima, carregue o máximo de livros assinados pelo Nick Hornby que você puder, e entenda por qual razão todo mundo deveria botar esse meliante para escrever roteiros de filmes! O bom gosto dos espectadores agradece. ;-)

AN EDUCATION • ING/EUA • 2009
Direção de Lone Scherfig • Roteiro de Nick Hornby • Baseado nas memórias de Lynn Barber
Elenco: Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Dominic Cooper, Alfred Molina, Rosamund Pike, Olivia Williams, Emma Thompson.
100 min. • Distribuição: Sony Pictures Classics.

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