O Pequenino

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A-ARCA, em 20/09/2006.

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N. do E.: O texto a seguir é uma reprodução fiel de uma carta escrita de próprio punho pelo colunista Zarko, que sofreu uma espécie de estafa e encontra-se internado por tempo indeterminado em uma clínica de repouso em uma cidade do interior paulista, que preferimos não citar para preservar sua privacidade. Alguns trechos foram omitidos por causa de rasuras que impediram uma melhor compreensão do conteúdo da carta.

Caros El Cid, Fanboy e R.Pichuebas:

Antes de mais nada, espero que esteja tudo muito, mas muito bem com vocês. Porque comigo não está. Nem um pouco. Depois de mais ou menos quatro ou cinco dias desacordado (ao menos acho que foi isso), finalmente consigo levantar um pouco desta cama e ver a luz do dia. Não sei exatamente onde estou, já que ninguém quer me dizer. Mas sei que é um lugar bastante agradável, cheio de pessoas simpáticas e prestativas vestidas de branco e com um jardim florido a perder de vista. Acho que é uma fazenda ou uma chácara, pelo menos é o que consigo ver da janela deste cômodo, já que as pessoas simpáticas e prestativas vestidas de branco, quando se aproximam (não sei porquê, mas tenho a sensação de que elas têm medo de mim), dizem que por enquanto não posso sair do quarto. É tudo para o meu próprio bem, falam o tempo todo.

Como não ouço barulho de carros, acho que devo estar muito afastado da cidade. E pra falar a verdade, mesmo imaginando o que é este lugar, não entendo a razão de tanta cautela, como as grades na janela, a porta do meu quarto sempre trancada e os vários remédios diários que a menina simpática e prestativa vestida de branco traz (mal sabe ela que finjo que tomo tudo e escondo todos os comprimidos… hóhóhó). Sou praticamente um Alex DeLarge aqui dentro! Daqui a pouco vão trocar meu nome por um número.

Enfim, digo que espero que esteja tudo bem com vocês agora porque, quando eu conseguir sair daqui, NADA ficará bem para os seus respectivos lados. Afinal, quando eu consigo me convencer de que As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl em 3D foi o máximo de crueldade ao qual vocês me expuseram, vocês chegam e se superam em seus desejos mórbidos de tortura para com a minha pessoa. Sim, estou falando de O Pequenino (Little Man, 2006), aquela coisa horrorosa dirigida pelos infames Irmãos Wayans após seu grande sucesso As Branquelas. Sim, sim, todo mundo sabia que aquilo ali seria, na melhor das hipóteses, uma fitinha chulé e equivocada. Mas ninguém poderia imaginar que eu surtaria com tanta violência e tanta intensidade como surtei desta vez…

Bem, pra falar a verdade, nem eu sei o que exatamente aconteceu, pois lembro que fui enviado à sessão de imprensa e, quando o filme acabou, eu apaguei junto (!). O que sei (pelo menos é o que contou o bondoso homem bigodudo que dá ordens às pessoas simpáticas e prestativas vestidas de branco) é que, aparentemente, tive convulsões e tentei me atirar à frente de alguns ônibus que transitavam numa grande avenida de São Paulo – acho que o lance foi pior, do contrário não haveriam justificativas para estas ataduras enroladas em meus pulsos. Pelo visto, o troço todo foi bem brabo!

Então, vamos logo ao que interessa: esta carta é apenas para declarar minhas opiniões a respeito de O Pequenino. Embora vocês definitivamente não mereçam minha consideração, decidi não deixá-los na mão com esta crítica. Logo, vou redigir aqui rapidamente minhas impressões e então façam o que quiser. Mas falo de imediato que só faço isto em respeito aos leitores daquele emprego tortuoso website chamado A ARCA, da qual vocês são os cabeças. E também faço isto por conselho da simpática senhora que vem conversar comigo uma vez por dia, que acredita que eu devo “enfrentar meus fantasmas”, em suas próprias palavras.

A história, acho que todo mundo já sabe: temos um bandidão chamado Calvin, vivido por Marlon Wayans (na verdade, só o seu rosto inserido em um corpo de criança através de uma montagem bem porquinha), que acabou de sair da prisão. Ele é temidíssimo, ainda que seja menor do que um anão (!). E o cara está decidido a largar a vida de crimes, mas antes almeja roubar uma joalheria, mais exatamente um diamante, a mando de um mafioso (o que raios o Chazz Palminteri está fazendo aqui?). Por sinal, a execução do roubo é incrivelmente absurda e rende uma (das muitas) piada ruinzinha e sem sentido, envolvendo uma vendedora que se “adapta” a seus clientes… Ugh! Voltando, o plano dá errado por causa do cachorrinho de uma dondoca e, durante o roubo, o anão-de-jardim e seu comparsa boboca (sempre há um comparsa boboca…) são perseguidos pela polícia. Óbvio que isto aconteceria, mas tudo bem!

Em paralelo a esta historinha, conhecemos um mané fracassado chamado Darryl, “interpretado” (cof cof) por Shawn Wayans, que quer ter um filho com sua esposa, que por sua vez não quer nem saber de crianças e prefere investir em sua promissora carreira de… bem, ela tem uma carreira, ainda que o filme nunca diga qual é (segundo a sinopse da distribuidora, é algo relacionado a publicidade). Pois bem, o figura insiste em querer ser pai, mas esbarra na resistência da moçoila e nos problemas com o pai dela (John Witherspoon, que NÃO É PARENTE da Reese, tá?), que parece estar caducando. Bem, uma prova concreta de que o indivíduo está ficando lelé é ter topado participar desta coisa, e um exemplo disso encontra-se em seus primeiros, terríveis e inexplicáveis diálogos–

(N. do E.: em seguida a este parágrafo, há um trecho composto de palavras de baixo calão impronunciáveis, que preferimos não reproduzir aqui).

As duas historinhas se encontram quando, encurralado em uma loja de conveniência, o bandidinho disfarçadamente joga o diamante dentro da bolsa da mulher. Ao descobrir onde o casalzinho mora e ao tomar ciência da vontade de Darryl em ser papai, Calvin disfarça-se de bebê abandonado para entrar na casa dos pombinhos e reaver sua pedrinha preciosa antes que o mafiosão mande cortar sua cabeça. E a partir daí, todo mundo já sabe o que vai acontecer. Nossa, que original este roteiro! Céus! Alguém por favor cancele o próximo Oscar e mande entregar a estatueta na mansão dos Wayans, pelo amor de Deus!

Bom, só mesmo alguém com “pobrema” (quem tem um “pobrema” tem dois, já dizia o ditado) para não perceber que aquela criatura bizarra que mais parece um parente próximo do Chucky não é uma criança, já começa por aí. E se este bebê parasse na porta da minha casa, minha primeira reação seria jogá-la na porta do vizinho! Hehehe. Mas se analisarmos todas as incoerências do enredo, esta carta precisaria de mais oito folhas, no mínimo, então deixa pra lá.

Ok, ainda que o enredo não seja um primor, até que arriscaria virar um filminho daqueles bem descartáveis, que você assiste, dá risada e esquece depois de cinco minutos. Mas este, infelizmente, não é o caso. Assim como o resto da notória filmografia dos Wayans (nunca a palavra “resto” soou tão verdadeira…), O Pequenino deixa de ser uma comédia rasteira para transformar-se num interminável desfile de piadas sujas, gratuitas, desnecessárias, sem graça e, no caso de algumas, até ofensivas. O nível aqui é de um Coisa de Mulher, vai vendo bem.

Ou vocês realmente conseguem rir de um marmanjão esmurrando criancinhas de no máximo cinco anos durante uma partidinha de futebol americano? Ou de um policial que captura um suposto marginal só por ser negro e é advertido por outro que diz “Ei, não é nosso homem, estamos procurando alguém de cor café com leite e este aí está mais para descafeinado”? E o bebêzão esfregando um biscoito em suas partes baixas antes de oferecê-lo ao seu “vovô”? E de um cara dizendo ao seu sogro, “para sua informação, eu coloco a vara na sua filha toda noite”? E da “mamãe” que começa a brincar de assoprar a barriga do “bebê” para, em seguida, se ver sendo quase forçada a aplicar-lhe sexo oral? Isso é MUITO pra minha cabeça. Nem mesmo o Zorra Total apela tanto.

Isto, para não comentar as piadinhas fáceis de praxe, como aquela em que Calvin aproveita-se de sua condição de “bebê” para “tomar leite” de uma boazuda… ou aquela em que Darryl e Vanessa vão trocar a fralda dele e dão de cara com algo bem “anormal”… ou aquela na qual os “pais” da criança tentam tirar sua temperatura com um termômetro no esfíncter… ou aquela do “banho com o papai”… e por aí vai. E o mais bizarro é que o filme esquece de todas as podreiras despejadas na cara do público durante a projeção para entregar um final tão carregado na melação quanto as fitas juvenis da Disney… cruzes!!!

Ou seja: quando não são situações extremamente grotescas, são tiradinhas que até poderiam ser engraçadinhas se a direção soubesse o que é TIMING.

Deixando esse lance das piadinhas imbecis de lado, sobra… o resto da película, que não acrescenta nada às nossas existências miseráveis. Só o que aprendemos é que Keenen Ivory Wayans é indubitavelmente um PÉSSIMO diretor e traz consigo um time de PÉSSIMOS roteiristas (jura que eles precisaram de TRÊS roteiristas para escrever isso???) e um time de atores PIOR ainda! Não dá nem pra acreditar, por exemplo, que a tal da Vanessa, a esposa de Darryl, é vivida por Kerry Washington, atriz que recentemente defendeu com muita competência um dos personagens mais importantes de Ray.

No caso dos outros… perda total na certa, principalmente quando estamos falando do tenebroso John Witherspoon e das duas pontinhas de dois dos piores comediantes em atividade nos EUA, Molly Shannon (como uma motorista maluca) e… Rob Schneider, como um dinossauro de animação de festa infantil. Sim, o Schneider está no filme.

Bem, o problema todo de O Pequenino não está nas piadas em si – ou pelo menos em algumas delas, já que a maioria é fraca mesmo. O caso é aquela velha mania de achar que o público só gosta de humor de baixo calão. E aqui, o nível é tão baixo que dá vontade de caçar os executivos de Hollywood que liberaram esta coisa só para dizer pessoalmente que as pessoas que freqüentam as salas de cinema não são tão tebas quanto pensam. Provavelmente é o que eles devem achar, para viabilizar uma fitinha tão medonha quanto esta. Afinal, até pra fazer “humor de banheiro” é necessário um mínimo de talento e inspiração. Se vocês não se importam em ver um filmeco duvidar de sua inteligência, vão fundo e arquem com as devastadoras conseqüências!

Antes de finalizar esta carta, peço desculpas pela letra meio tremida e quero deixá-los despreocupados com relação a meu destino. Sabe lá quando conseguirei sair deste lugar, mas o bondoso homem bigodudo que vez por outra aparece aqui para tirar minha pressão disse que, se eu me comportar e não mais tentar furar meus olhos com minhas chaves ou morder minha língua até sangrar, estarei a caminho de casa em no máximo algumas semanas. Por outro lado, não pretendo abandonar este glorioso website nerd, até mesmo porque preciso do meu salário para poder me alimentar. Portanto, respirem aliviados. Mas tenham a mais absoluta certeza de que a conta irá para as suas mesas, afinal, já que vocês me puseram nesta posição, nada mais justo, não é mesmo?

Ah sim. E por favor, sequer pensem em me visitar. O bondoso homem bigodudo diz que não estou preparado para tanta emoção, logo, pode ser que minha reação ao vê-los seja meio… “empolgante”, por assim dizer. Mas quero que vocês saibam que em breve nos encontraremos e então poderei xingar dizer tudo o que tenho a dizer pessoalmente. E garanto: eu estou ANSIOSO por isto.

Sem mais, Zarko.

N. do E.: Segundo estimativas do médico responsável por seu quadro clínico, o colunista Zarko poderá retornar às suas atividades normais no prazo de três a quatro semanas a partir desta data, de acordo com a evolução de seu tratamento. Ansiamos por sua recuperação e, com seu retorno, prometemos “pegar leve” com nosso querido amigo. Pelo menos em seus primeiros dias.

LITTLE MAN • EUA • 2006
Direção de Keenen Ivory Wayans • Roteiro de Keenen Ivory Wayans, Marlon Wayans e Shawn Wayans
Elenco: Shawn Wayans, Marlon Wayans, Kerry Washington, John Witherspoon, Tracy Morgan, Chazz Palminteri, Lochlyn Munro, Molly Shannon, Rob Schneider.
89 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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