Parker Posey, a Rainha do Cinema Indie

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 02/06/2006.

Se você não é um cinéfilo doente e inveterado, daqueles que garimpam tudo quanto é beco escuro atrás de cinema, cinema e mais cinema, provavelmente nunca terá ouvido falar de Parker Posey, aquela dita cuja que aparece em Superman: O Retorno (Superman Returns, 2006) como a desajeitada e ingênua Kitty Kowalsky, capanga de Lex Luthor mas com bom coração. Até pode conhecer, saber de quem se trata, mas para estes, a atriz será apenas uma mera coadjuvante ali no cantinho. Ela, por sinal, deverá passar até meio apagada por muitos que assistirão ao longa do Homem de Aço.

Mas se você é exatamente tudo aquilo descrito acima, se você é mais do que um simples espectador, se você é praticamente um banco de dados cinematográfico humano (hehehe), Parker Posey provavelmente será um dos grandes motivos para se pagar ingresso nesta nova aventura do Azulão. Na verdade, Posey é muito mais do que uma simples atriz: ela é uma lenda, um mito, uma entidade. Parker Posey é nada menos que a absoluta e soberana rainha do cinema indie! Uau! Eu sou um cult maldito! Wow! :-D

ANTES DE MAIS NADA…

…Uma breve explicação se faz necessária – assim, todo mundo fica informado e eu não preciso querer cometer suicídio lendo comentários dispensáveis envolvendo bandas de rock e marcas de tênis (sim, isto aconteceu, mas é uma outra história…): O indie movie, ou cinema independente, é um movimento que surgiu no final dos anos 80/início dos 90. Na ocasião, o público ianque perdeu um pouco o interesse nas grandes produções hollywoodianas, que vinham sofrendo um desgaste de criatividade, e passou a se interessar por pequenas fitas exibidas no restritíssimo circuito alternativo de lá; filmes sem distribuidora, produzidos, dirigidos e estrelados por desconhecidos (e muitas vezes amadores), com o mínimo de recursos e o máximo de originalidade.

Com o interesse do público, veio também o surgimento de novas distribuidoras, que decidiram investir neste filão e lançar estes filmes no circuito comercial, ainda que em cópias bem reduzidas – o que também abriu um enorme espaço para várias produções de outros países, que chegaram aos cinemas do resto do mundo com maior facilidade, e construiu uma espécie de “vitrine” para qualquer ser humano que quisesse trilhar carreira dirigindo filmes. Isto refletiu no resto do mundo. O estouro do cinema indie veio mesmo no comecinho dos anos 90; deste núcleo, saíram grandes diretores – como Gus Van Sant, Todd Solondz, Richard Linklater, Terry Zwigoff, Michael Winterbottom, Kevin Smith, entre outros – e atores que hoje ostentam prestígio – como Stanley Tucci, Hope Davis, Liev Schreiber, entre outros.

E o que Parker Posey tem a ver com isto? Bem, ela carrega o título de rainha do cinema indie (título dado pela revista Time) por ter estrelado a maioria esmagadora – e por sinal, as mais populares – das produções independentes dos EUA na época do boom desta categoria. Sem exagero, Posey costumava ser disputada a tapas pelos diretores desta safra, e também por novos talentos que almejavam um lugar ao Sol. E se hoje a Srta.Ni me acha extremamente “esquisito” por falar até mesmo de filmes vindos do Butão (!), isto se deve exclusivamente à popularidade de Posey e à intensidade deste movimento, que ajudou a “unificar” o cinema do mundo inteiro.

Então, vamos lá: Parker Christian Posey nasceu em Baltimore, Maryland (a terra da Bruxa de Blair!), em 8 de novembro de 1968, e desde cedo demonstrou interesse em adotar o cinema como profissão. Seu primeiro trabalho só veio em 1991, quando ela tinha 23 anos: o drameco televisivo First Love, Fatal Love – filmeco mesmo, mas o suficiente para catapultar Posey para novos e mais interessantes projetos. De 1991 até hoje, Posey deu as caras em aproximadamente 60 películas (!). Conheça alguns:

INDIES IMPORTANTES E OBRIGATÓRIOS (em ordem cronológica)

1993 • JOVENS, LOUCOS E REBELDES (Dazed and Confused) • ótima comédia setentista que revelou o então semi-desconhecido Richard Linklater. Foi a primeira aparição de Posey nas telonas (anteriormente, ela participou de alguns filmes made for TV e absolutamente desconhecidos), mas deveria ser a segunda: antes disso, a atriz fez um pequeno papel em Sintonia de Amor, gigantesco sucesso de bilheteria com Tom Hanks e Meg Ryan, mas sua participação acabou no chão da sala de montagem. Jovens, Loucos e Rebeldes também revelou alguns indivíduos que atendem pelos nomes de Joey Lauren Adams (a Alyssa Jones de Procura-se Amy), Milla Jovovich, Matthew McConaughey e Ben Affleck (ugh).

1994 • VEM DORMIR COMIGO (Sleep With Me) • dirigido por Rory Kelly, esta comédia romântica encabeçada por Eric Stoltz é mais conhecida pela hilária participação de Quentin Tarantino, como um cara numa festa que defende a teoria de que Top Gun é um longa calcado em diversas metáforas sobre homossexualismo (!).

1994 • AMATEUR (Idem) • excelente drama cômico que marcou a segunda de sete colaborações de Posey com um dos principais nomes do cinema independente, o cineasta Hal Hartley (de Confiança e Simples Desejo) – o primeiro trabalho com Hartley foi um curta-metragem rodado em 1993 que, dois anos depois, transformou-se em um dos três capítulos do não menos importante Flerte (1995). Além destes dois, destaca-se na parceria dos dois o bacanudo As Confissões de Henry Fool (1997); neste, por sinal, a personagem de Posey, a misteriosa Fay Grim, se destacou tanto que ganhará em breve um spin-off. Três títulos obrigatórios!

1995 • BALADAS EM NY (Party Girl) • rodado com o baixíssimo orçamento de US$ 150 mil (!), esta comédiazinha marcou o primeiro papel de Parker Posey como protagonista e também traz uma bela curiosidade: foi o primeiro longa-metragem da história do cinema a ganhar uma exibição na íntegra pela Internet antes de sua chegada às salas de projeção. Embora seja de 1995, foi lançado recentemente em DVD aqui na nossa terrinha.

1995 • GERAÇÃO MALDITA (The Doom Generation) • primeiro longa de destaque do bizarro cineasta Gregg Araki (de Splendor e Mistérios da Carne), que narra o intrigante triângulo amoroso entre três desajustados vividos por Johnathon Schaech, James Duval e Rose McGowan – e onde ninguém é de ninguém e todo mundo é de todo mundo… Posey faz aqui uma participação pequena, mas bastante funcional.

1996 • UM DIA EM NOVA YORK (The Daytrippers) • neste drama cômico dirigido por Greg Mottola, que retrata a odisséia de uma estranha família na Cidade Maçã atrás do marido de uma das filhas (que pode estar traindo a moça), Posey divide a tela com outras lendas do cinema indie, como Stanley Tucci, Hope Davis, Liev Schreiber e Campbell Scott. Divertidíssimo.

1996 • BASQUIAT: TRAÇOS DE UMA VIDA (Basquiat) • lírica cinebiografia do artista plástico Jean-Michel Basquiat, figurinha fácil na cena underground novaiorquina dos anos 80 e grande amigo de ninguém menos que Andy Warhol, dirigida por maestria pelo mesmo Julian Schnabel que depois comandou o também excelente Antes do Anoitecer. Aqui, foi descoberto um indivíduo que atende pelo nome de Jeffrey Wright e que, hoje, é um dos grandes atores em atividade nos States.

1996 • SUBURBIA (subUrbi@) • mais um trabalho de Posey sob a tutela de Richard Linklater. Um dos títulos obrigatórios desta listagem, e também um dos trabalhos mais legais da atriz, que interpreta a empresária de um astro do rock (Jayce Bartok), que volta para casa e confronta os amigos fracassados que deixou para trás – entre eles, os novatos Giovanni Ribisi e Steve Zahn. Uma espécie de Hora de Voltar, só que mais verborrágico.

1997 • THE HOUSE OF YES • drama não-lançado comercialmente no Brasil, mas que vale a pena pela simples presença de Posey como a maluca protagonista que acredita fielmente ser a própria Jacqueline Kennedy Onassis (?) e que se envolve em um esquisito assassinato. Divertido e ponto, mas vale pela atuação inspiradíssima de Posey e pelo mico da senhora Tori Spelling, que ganhou até uma indicação ao Framboesa de Ouro por sua péssima interpretação aqui. :-D

1998 • NEM TODAS AS MULHERES SÃO IGUAIS (The Misadventures of Margaret) • drama inglês muito mal lançado aqui em nosso país, que retrata a história de uma escritora de livros eróticos (Posey) que entra em parafuso ao se ver no meio de uma crise conjugal. Aqui, a atriz divide a cena com ninguém menos que Brooke Shields, a eterna piveta pelada de A Lagoa Azul.

2001 • ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO (The Anniversary Party) • curiosa comédia dramática escrita e dirigida por Alan Cumming e Jennifer Jason Leigh, que também vivem o casal central, marido e mulher que dão uma festa para comemorar seis anos de casamento… e acabam lavando roupa suja na frente de todos.

2002 • O TEMPO DE CADA UM (Personal Velocity) • bacana dramalhão intimista, dirigido por Rebecca Miller (de O Mundo de Jack e Rose), sobre três mulheres em busca de uma vida melhor e de sua liberdade pessoal. Posey divide a tela com Kyra Sedgewick e Fairuza Balk.

2003 • A MIGHTY WIND • simplesmente um dos filmes mais engraçados e bacanudos de 2001 (e que permaneceria inédito na nossa terra se não fosse a boa vontade da HBO, que exibiu esta pérola em sua grade de programação). Não tem como ficar inteiro com esta hilária história de várias personalidades folk dos anos 60 que resolve se reunir para celebrar uma data especial – no caso, a morte do sujeito que descobriu e empresariou todos eles. Esta é a terceira de quatro películas dirigidas por Christopher Guest e estreladas por Posey: os outros são o inédito Waiting for Guffman (1996), o bacana O Melhor do Show (2000) e o futuro For Your Consideration (2006).

PARKER POSEY NO CINEMÃO-PIPOCA

Sim, claro que ela está lá! Posey fez carreira e ganhou prestígio no circuitinho alternativo, mas entre um indie e outro, participou de vários longas-metragens made in Hollywood, USA: viveu a chatíssima namorada de Tom Hanks em Mensagem Pra Você (1998); teve uma hilária participação em Pânico 3 (2000), como a atriz Jennifer Jolie, intérprete da jornalista Gale Weathers (Courteney Cox) no “filme dentro do filme”; fez a vilãzaça do horrível Josie e as Gatinhas (2001); pagou mico nos tenebrosos Tudo para Ficar com Ele (2002), ao lado de Cameron Diaz e Selma Blair, e Blade: Trinity (2005); e agora está em Superman: O Retorno. Versátil, a moça! Isto, porque ela está envolvida em pelo menos 6 novos trabalhos até 2007. ;-)

Conferindo esta gigantesca gama de longas-metragens, não é difícil entender as razões que levaram a revista Time a apontar Parker Posey como uma das figuras mais importantes e influentes deste radical movimento chamado “cinema independente”. E não é à toa que tantos cineastas adotaram a garota como uma de suas atrizes prediletas. Só falta agora um reconhecimento do grande público, desacostumado a produções pequenas, e que só conhece esta fofurinha como “a coadjuvante do cantinho”… Tudo bem, tempo a tempo. Eu já fiz minha parte! E viva Kitty Kowalsky! :-D

CURIOSIDADES:

A atriz ganhou este bizarro nome em homenagem à modelo Suzy Parker • Além de atriz, é também poetisa, mímica, cantora nata e sabe tocar bandolim • Chegou a excursionar pelos EUA com a fictícia banda criada para A Mighty Wind • Dublou um episódio de Futurama e um de Os Simpsons, além de participar de um capítulo do hilário seriado Will & Grace • Tem um irmão gêmeo, Chris Posey, que é advogado em Atlanta • É fã absoluta de bandinhas cult como Belle & Sebastian e Sigur Rós (eu também, eu também!) • Neste ano, ganhou uma canção com seu nome no álbum do músico folk Stuart Davis • E pra finalizar, é uma tampinha: mede 1m65! É das baixinhas que eu gosto mais. ;-)

PARKER POSEY, A RAINHA DO CINEMA INDIE
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 02/06/2006
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem SUPERMAN: O RETORNO (Superman Retuns).

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