Batman & Robin

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 14/05/2005.

Batman & Robin

…ou: É POR ISSO QUE O SUPER-HOMEM TRABALHA SOZINHO

O sucesso de Batman Eternamente não permitiu que a Warner mantivesse a decisão de interromper a carreira do vigilante mascarado no cinema na terceira película. Sabe como é: deu dinheiro, esgota-se a fórmula até a última gota! E como a “fórmula” de Joel Schumacher – personagens saltitantes, trama chula e cenários cheios de cores e ultra-bizarros – até que funcionou em termos de biheteria, a mesma equipe voltou para realizar o quarto longa da cinessérie, o assustador Batman & Robin (Idem, 1997).

Bem, quando digo “mesma equipe”, me refiro somente à equipe técnica. Do elenco, só sobrou mesmo o insosso Chris O’Donnell, além de Michael Gough (o Alfred) e Pat Hingle (o Comissário Gordon); estes dois últimos atuaram em todos os filmes da franquia. Enquanto isso, o roteiro continuou nas mãos do tenebroso Akiva Goldsman, e a direção continuou nas mãos do manipulado Joel Schumacher… E o resto é história! O mais aterrador, contudo, é saber que Schumacher pareceu até se divertir bastante em fechar a câmera na bunda do Batman de Val Kilmer, como explica nesta frase: “Ele (Batman) é rico, lindo, agarra as mais belas mulheres, possui os brinquedos mais legais, é dono de um uniforme cheio de trecos e sempre se dá bem no final!”. Er, será que o cara estava realmente falando do herói atormentado, complexado, brutal e quase psicopata criado por Bob Kane?

O problema é que esta “liberdade” do estúdio para com o personagem perdeu o controle em Batman & Robin. Os cenários estão bem mais coloridos (ganhando o acréscimo de horripilantes cores fluorescentes), as armaduras de Batman e Robin estão mais detalhadas e também coloridas – até o uniforme ganhou tons de contraste! -, as proezas dos heróis estão absurdamente sobrehumanas (adiantando um pouco do estilo que dominaria as telonas dois anos depois, com o primeiro longa da cinessérie Matrix), e os diálogos são, além de ofensivos à nossa inteligência, totalmente ridículos. Só pra se ter uma idéia de como o negócio está preto, Robin reclama a falta de um Bat-Carro, “para ganhar as gatinhas”. E Batman, irritado, responde na bucha: “É por isso que o Super-Homem trabalha sozinho!”. Sim, vamos todos ajoelhar e pedir perdão pelos nossos pecados! E se alguém tinha dúvidas sobre quem realmente comandou o projeto, é só olhar para o cartaz e ver que o nome do ator que interpreta o vilão tem mais destaque do que o ator que veste o uniforme do mocinho. Isso porque o intérprete do bandido recebe um salário maior. Deus, eu odeio os executivos de Hollywood. :-P

E como se não bastasse tanta tortura psicológica, os malditos mamilos ainda estão lá…

Os atores que defendem Batman & Robin são literalmente de gelar a alma (desculpem o trocadilho com o vilão da vez!). Quer conhecer o enredo? Aí vai: A carnavalesca Gotham City torna-se alvo do ódio de três novos vilões. Eis os vilões: a) O cientista Victor Fries, A.K.A. Mr. Freeze, vivido por Arnold Schwarzenegger (quem foi o gênio que teve esta idéia?), cujo maior desejo é congelar a cidade; b) A botânica Pamela Isley, A.K.A. Hera Venenosa, interpretada por Uma Thurman (recém-saída do sucesso de Pulp Fiction – Tempo de Violência), que quer inaugurar uma nova era no planeta, controlada pelas plantas; e c) o grandalhão Bane (o lutador Jeep Swenson), perdendo de vez a importância que tem nas HQs (para quem não sabe, ele é o responsável pelo estado tetraplégico de Batman, fato ocorrido no arco A Queda do Morcego) e sendo reduzido a um mero capanga descerebrado de Hera, quase um parente distante do Agronopoulos, personagem vivido por Guilherme Karan no folhetim Fogo no Rabo, da TV Pirata.

Enfim, Batman – desta vez, interpretado por um George Clooney (ER) estreante nas telonas, sem pique e com biquinho – e Robin se unem à desnecessária Batgirl/Barbara Wilson (Alicia Silverstone? Socorro!), não mais enteada do Comissário Gordon e sim sobrinha de Alfred, para conter a fúria dos bandidões.

A impressão que se tem ao assistir Batman & Robin é a de que o diretor desistiu de lutar contra o estúdio e avacalhou de vez. Afinal, como justificar cenas como aquela em que Robin consegue escapar do beijo mortal de Hera Venenosa usando plástico nos lábios? E os malditos closes nas partes íntimas dos três heróis, como explicar aquilo? E por que Batman troca de uniforme tantas e tantas vezes? E uma pergunta sincera: por que o Homem-Morcego não deu cabo daquele mala sem alça do Robin? Todos os pontos negativos não foram em vão, e Batman & Robin, cuja estréia se deu em 20 de Junho de 1997 em solo ianque, fracassou nas bilheterias, rendendo “apenas” US$ 240 milhões no mundo todo – a fita custou aproximadamente US$ 140 milhões, sem contar os gastos com publicidade. Como se não bastasse, a fama negativa do filme espalhou-se rapidamente e não só enterrou merecidamente a carreira de Chris O’Donnell e Alicia Silverstone no cinema como deu ao filme 11 indicações (!) ao Framboesa de Ouro edição 1998, que premia os piores filmes do ano. Pequenos detalhes que só auxiliaram a Warner a finalmente encerrar de vez a era Schumacher na vida do Homem-Morcego. Ainda bem!

Bem, é de se estranhar quando a única coisa bacaninha num projeto de quase US$ 200 milhões é uma canção – no caso, a divertida The End Is The Beginning Is The End, do já agonizante Smashing Pumpkins. Eu já disse que gosto de rock? Aliás, para quem curte boa música, o CD da trilha sonora também traz duas músicas legaizinhas, mas que sequer rolam no filme: Fun For Me, da Moloko (aquela que rolava no clássico comercial dos cigarros Lucky Strike), e Foolish Games, da Jewel.

Enfim, estes são os quatro longas-metragens que fizeram a (mal-falada) carreira do nosso glorioso vigilante noturno nos cinemas. Certamente já é possível entender o motivo da tremedeira em qualquer fã de HQs quando a palavra Batman é pronunciada na mesma frase que a palavra cinema. Esperamos de coração que Batman Begins cumpra e ultrapasse todas as expectativas que está gerando entre nós, nerds. O que não será difícil, tendo em vista tudo o que já foi divulgado por aí. Uma coisa é certa: pior que um certo quarteto, não deve ser! :-P

CURIOSIDADES:

• O papel de Mr. Freeze foi oferecido inicialmente a Patrick Stewart (o eterno Professor Xavier), que num ato totalmente coerente, recusou assim que leu o roteiro. Não se sabe o que se passou pela cabeça dos executivos da Warner (sempre eles!) ao oferecerem o papel para Arnold Schwarzenegger em seguida. Bem, poderia ter sido pior: Joel Schumacher declarou que, se Schwarzenegger recusasse, a terceira escolha da equipe era Sylvester Stallone. Medo, muito medo!

• Joel Schumacher também comentou que soube que George Clooney seria um bom Batman ao desenhar o capuz do Homem-Morcego sobre seu rosto numa imagem de divulgação do estúpido Um Drink no Inferno (1996). Nossa, todos repararam no eficiente método de seleção de atores do cara? Mandarei um desenho da máscara do Batman em cima do meu rosto para o Christopher Nolan, pra ver se ele me contrata para substituir o Christian Bale num próximo filme, talvez… :-P

• A fantasia de carnav… Digo, o uniforme original da Batgirl foi recusado pois, como o capuz cobria praticamente toda a cabeça de Alicia Silverstone, ela não poderia exibir seu lindo cabelo. Ugh…

• O ator e lutador de vale-tudo Jeep Swenson, intérprete do pau-mandado Bane, faleceu de ataque cardíaco dois meses depois da estréia de Batman & Robin. Espaço para a piada de humor-negro do dia: vergonha ou desgosto?

• O ator John Glover, que interpreta o dr. Jason Woodrue, também trabalhou como dublador em Batman: The Animated Series, assim como Mark Hammil. Seu personagem era o Charada. Atualmente, Glover está envolvido com outro super-herói: ele responde pelo papel de Lionel Luthor no seriado Smallville (2001).

MOMENTO SPOILER: O maior furo de Batman & Robin envolve a personagem Julie Madison, namoradinha de Bruce Wayne e defendida pela “porta ambulante” que atende pelo nome de Elle Macpherson (modelos no cinema… argh!). No roteiro, há uma cena de briga de faca entre Madison e Hera Venenosa. Hera supostamente teria assassinado a garota nesta briga, o que geraria uma subtrama em que Bruce buscaria vingança. A cena foi cortada da montagem final. Até aí, tudo bem. O problema é que não cortaram as conseqüências: a personagem desaparece de repente, sem explicação alguma. E ainda há uma seqüência em que Batgirl paralisa ao ver Hera enpunhando a faca que matou Madison. E ninguém sabe o porquê. Bem, não que alguém tenha reparado. Pois a esta altura, o cinema inteiro já tinha ido embora ou caído no sono. :-D

BATMAN & ROBIN • EUA/ING • 1997
Direção de Joel Schumacher • Roteiro de Akiva Goldsman
Baseado nos personagens criado por Bob Kane
Elenco: Arnold Schwarzenegger, George Clooney, Chris O’Donnell, Uma Thurman, Alicia Silverstone, Elle Macpherson, Michael Gough, Pat Hingle, John Glover, Vivica A. Fox, Jeep Swenson.
125 min. • Distribuição: Warner Bros.

 

BATMAN: O MORCEGO NO CINEMA – FASE SCHUMACHER
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 14/05/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem BATMAN BEGINS.

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