O Artista

Crítica de Cinema

O Artista (The Artist, 2011) é, sem exageros, um caso singular no cinema atual. Senão, veja só: em uma época em que o cinema ainda sofre a supremacia das superproduções hollywoodianas recheadas de tramas mirabolantes, CGIs surpreendentes e muitos deles em terceira dimensão, uma pequena fitinha independente co-produzida entre França e Bélgica tornou-se um estrondosso sucesso de público e crítica – rendeu no mundo todo quase US$ 120 milhões, oito vezes mais o que custou (US$ 15 milhões) – e ainda abocanhou um número invejável de 110 prêmios internacionais, incluindo 5 importantes Oscars, dentre eles o prêmio de Melhor Filme, Melhor Diretor para o trabalho do desconhecido francês Michel Hazanavicius e Melhor Ator para a espetacular interpretação do também desconhecido (e também francês) Jean Dujardin.

Até aí, nada de mais. Só que ainda não mencionei que O Artista é uma comédia dramática rodada inteiramente em preto-e-branco… e sem diálogos. Sim, é um filme mudo. MUDO. Para conseguir arrastar o público médio ao cinema e não oferecer nada além de imagens sem cores e um ou outro momento de som, de fato a fita precisa ser no mínimo excelente, não?

E todo este frenesi justifica-se? Bem, é uma pergunta difícil de responder. O Artista é um filme correto, com uma trama tão simples que quase beira o burocrático e que não possui milhões de atrativos quando analisado enquanto enredo. Mas é dotado de um charme tão irresistível, de uma nostalgia tão intensa, que cresce violentamente se visto com “sentimento”, no sentido mais babaquinha da palavra. Ajuda muito se você é um cinéfilo inveterado familiarizado com as clássicas produções que brotavam em Hollywood nos anos 20 e 30. Ao final, O Artista revela-se uma apaixonadíssima declaração de amor à arte de fazer cinema, e seus astros há muito esquecidos, como Tyrone Power, Rudolph Valentino e Douglas Fairbanks – este último, por sinal, referenciado nesta fita com uma seqüência de sua maior obra-prima, A Máscara do Zorro (1920).

O Artista acompanha, assim, a dramática trajetória da fictícia estrela da Kinograph Pictures, George Valentin (Dujardin). No auge de sua carreira, em 1927, Valentin é venerado pelos fãs e seus popularíssimos filmes de aventura atraem multidões. Claro que a enorme simpatia do astro (evidenciada sobretudo pelo sorriso de 360 dentes de Jean Dujardin, hehehe) não esconde certo encantamento pelo sucesso, tanto que nem dá muita bola para seu casamento que já está com um pé no buraco. Não que isso importe muito, já que Valentin anda sentindo um negocinho pela dançarina e aspirante a atriz Peppy Miller (a encantadora Bérénice Bejo, esposa do diretor Michel Hazanavicius), que está tentando um lugar ao Sol e anda meio “saltitante” só de ficar perto de seu ídolo…

A ascensão de Peppy Miller ao estrelato coincide com a chegada do cinema falado. Valentin, declaradamente descrédulo e resistente à nova técnica, declara a seu chefe, o cineasta e produtor Al Zimmer (John Goodman): “As pessoas querem me ver, nunca precisaram me ouvir falar”. Infelizmente, estava errado: perde o emprego, vê seu primeiro filme como diretor transformar-se em um fiasco total e, com a crise financeira do final dos anos 20, decreta falência. E assim, enquanto as comédias água-com-açúcar estreladas por Peppy Miller popularizam-se cada vez mais, George Valentin mergulha paralelamente em uma espiral de decadência e ostracismo.

O enredo, percebe-se, é simples. E até meio previsível. O que faz toda a diferença em O Artista é a forma com que a produção é estruturada e desenvolvida – rodada carinhosamente no velho formatinho standard – para quem não sabe, aquele formato mais quadrado quase extinto com o advento do widescreen -, O Artista carrega referências em toda sua narrativa – seja nos enquadramentos de cena, com algumas tomadas descaradamente roubadas de clássicos do expressionismo alemão, seja na magistral trilha sonora incidental de autoria de Ludovic Bource (merecidamente premiada com o Oscar), seja na cuidadosa edição que reverencia o estilo de sobreposição tão usado no cinema dos anos 20, seja no formato dos intertítulos que aparecem vez por outra para ajudar a contar a história, seja em alguns diálogos que os amantes de cinema reconhecerão no ato – Bérénice Bejo sussurrando “Eu quero ficar sozinha” lembrou alguém a você? ;-)

Mesmo com tantos elementos para conquistar os fãs da sétima arte, O Artista ainda tem como seu maior trunfo a maravilhosa interpretação de Jean Dujardin. O francês, bastante popular em seu país natal em virtude de uma série de fitas de espionagem que satirizam James Bond, não só incorporou um astro do cinema mudo como também atua como se estivesse, de fato, naquela época: o ator transita tão perfeitamente da simpatia de seus tempos áureos para a amargura e o desespero da queda do personagem, que em alguns momentos não é possível aceitar que trata-se, afinal, do mesmo ator. E como não citar o sensacional cãozinho Uggie, um autêntico ladrão de cenas? Alguém por favor crie logo uma categoria de Melhor Animal no Oscar! :-D

Como se pode perceber, O Artista nada mais é do que uma singela homenagem não só ao cinema, mas também à aqueles que ajudaram a construir o cinema. Afinal, se é merecedor de todo este bafafá, de todo este sucesso e de todos estes prêmios… bem, a resposta está nos olhos de quem vê: pode ser apenas um filme, e pode ser também uma experiência mágica e, por algum tempo, inesquecível. Assim como o próprio cinema.

THE ARTIST • FRA/BEL • 2011
Direção de Michel Hazanavicius • Roteiro de Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, Penelope Ann Miller, James Cromwell, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Malcolm McDowell.
100 min. • Distribuição: The Weinstein Co./Paris Filmes.

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