Os Insanos Longas de Pedro Almodóvar

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/11/2004.

Há um tempo atrás, a palavra “cinema” significava Estados Unidos da América. Sim, os filmes da terrinha do Tio Sam não eram só os melhores, mas também os únicos. Não que não houvesse qualquer outro país disposto a mandar ver na arte de fazer cinema, mas os americanos dominavam e o restante era fadado à obscuridade. Pela metade do século XX, cineastas europeus como François Truffaut e Luis Buñuel quebraram algumas barreiras e conseguiram invadir o território norte-americano, mas seus filmes, geralmente com temas pesados e de difícil digestão entre as massas, restringiam-se ao círculo underground.

O nome responsável por tornar o cinema estrangeiro mais popular e aceitável nos States (e também no resto do mundo) nasceu no pequeno vilarejo de Calzada de Calatrava, na região de La Mancha, na Espanha, em 24 de Setembro de 1949 (ou 1951, ninguém sabe ao certo). Pedro Almodóvar Caballero, ou apenas Pedro Almodóvar, passou a infância e a adolescência vendendo objetos usados e trabalhando em companhias telefônicas. Em 1970, comprou uma câmera Super 8, e rodou vários curtas-metragens entre 1972 e 1978. Dois anos depois, ficou conhecido em toda Espanha por conta de seu primeiro longa, e exatamente 24 anos, 15 filmes e 59 prêmios internacionais depois, é tido como o maior cineasta espanhol vivo e um dos maiores europeus da atualidade. Além disso, abriu as portas do mundo para as fitas de outras nacionalidades além da terra do senhor Bush, e lançou o nome de muitos grandes atores e atrizes espanhóis – que hoje correspondem a uma fatia considerável e bem requisitada pelos gringos.

Todo o falatório em cima da filmografia de Almodóvar não é à toa. O diretor/ator/roteirista/compositor soube como ninguém transformar tragédias gregas em comédias sutis, hilariantes e de grande apelo popular. Além disso, chamou a atenção para Madri – uma das mais belas cidades do mundo – e o visual colorido e bem particular de seus trabalhos combinam perfeitamente com as desgraças de seus personagens. E que personagens… cada um mais bizarro que o outro! Bem, ao invés de dissecar a biografia do cineasta ateu e fanzoca do Caetano Veloso, nada melhor do que dar uma passeadinha rápida em cada um de seus trabalhos, para entender melhor o fascínio que Pedro Almodóvar exerce nas platéias de todo o planeta – e também esquentar as turbinas para Má Educação (La Mála Educación, 2004), seu novo (e polêmico) trabalho, que chega às telonas nesta sexta-feira cercado de expectativas e com ninguém menos que Gael García Bernal no elenco:

PEPI, LUCI, BOM (Pepi Luci Bom y Otras Chicas Del Montón, 1980)

História: Três mulheres: a maluquinha Pepi (Carmen Maura) é vizinha da submissa Luci (Eva Siva – que nominho, hein?), casada com um policial, e de Bom (Olvido “Alaska” Gara), vocalista de uma banda de rock e lésbica. A vida das três moças se cruzam depois de um acontecimento insólito: o policial marido de Luci estupra Pepi em troca de seu silêncio – Pepi tem uma plantação de maconha em casa – e Luci, que é sado-masoquista (!), se envolve amorosamente com Bom. Eita!
Notas: O primeiro longa de Almodóvar lançou seu nome na Espanha por conta das características que viriam a marcar toda sua filmografia: personagens caricatos, situações absurdas tratadas com naturalidade e um visual berrante (a cor das roupas das atrizes devem até brilhar no escuro!). A trilha sonora é uma atração à parte (rock misturado com tango), e o próprio Almodóvar faz um ponta, como o mestre-de-cerimônias de uma competição entre homens para ver quem tem o maior… bem… aquilo. Pepi, Luci, Bom também marcou o fim da ditadura do General Franco na Espanha, e é o primeiro trabalho do diretor com sua eterna musa Carmen Maura.

LABIRINTO DE PAIXÕES (Laberinto de Pasiones, 1982)

História: A violenta e ninfomaníaca Sexília (Cecilia Roth – olha o nome da personagem!!) e o filho de um imperador árabe chamado Riza Niro (Imanol Arias) iniciam um relacionamento amoroso. Ela acabou de montar uma banda de punk rock e ele está fugindo dos capangas de seu pai, liderados por Sadec (Antonio Banderas), um terrorista gay – e ex-namorado de Riza Niro. O casalzinho normal (normal!?!?) enfrenta as barras do primeiro relacionamento hétero de ambos com a ajuda de Queti, “fã n.º 1” de Sexília.
Notas: O segundo trabalho do diretor, pouco visto por aqui (mesmo tendo sido lançado há pouco tempo em DVD), segue pelo mesmo caminho de Pepi, Luci, Bom, com a diferença de que, aqui, Almodóvar centra sua câmera exclusivamente nas figuras exóticas que se concentram no cenário underground da Madri dos anos 80, retratando como pano de fundo a ascensão artística do rock da época. Em Labirinto de Paixões, também fica claro a obsessão quase doentia do cara por sexo, e é a primeira vez em que ele trabalha com Cecilia Roth, que mais tarde protagonizaria o clássico Tudo Sobre Minha Mãe.

MAUS HÁBITOS (Entre Tinieblas, 1983)

História: A cantora de bar Yolanda (Cristina Sánchez Pascual) sofre um baque quando presencia a morte do noivo por overdose. Perseguida pela polícia, que acredita fielmente que o incidente encobre um assassinato, Yolanda se esconde num convento lotado de freiras lésbicas e viciadas em heroína! Pra piorar, passa a ser assediada pela Madre Superiora (Julieta Serrano), que está doida pra… bem… tirar o atraso!
Notas: Maus Hábitos é confuso e extremamente bizarro, e ainda assim é considerado o melhor longa desta primeira fase de Almodóvar. Aqui, o diretor exercita seu ateísmo numa boa, e o que tinha tudo pra se tornar um fracasso (freiras homossexuais e drogadas não devem atrair muito público…) rendeu muito bem na Espanha.

O QUE EU FIZ PRA MERECER ISTO? (¿Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto?!!, 1984)

História: O caos se instaura numa família de classe-média em Madri: a mãe (Carmen Maura, mais uma vez) é faxineira e viciada em produtos de limpeza; o pai (Ángel de Andrés López) é um aborrecido chofer apaixonado por uma cantora alemã – ele também trabalha como falsificador de documentos; um dos dois filhos adolescentes do casal vende heroína e o outro dorme com todos os homens que encontra pela frente; a sogra dela tranca todos os doces da casa e vende-os para a própria família. A família ficará mais doentia ainda quando dois escritores escrevem as memórias de Hitler e contratam o pai para reescrevê-lo com a caligrafia do ditador alemão…
Notas: Estranho é pouco! Não à toa, este é um dos poucos filmes de Almodóvar (talvez o único) que ainda é proibido em alguns países. Apesar da temática um tanto quanto… excêntrica, este longa fez muito sucesso na Espanha, mas ficou restrito à salinhas bem escondidas e obscuras no Brasil.

MATADOR (Matador, 1986)

História: Um toureiro (Nacho Martínez) não consegue abandonar o hábito de matar. Quando as touradas não conseguem mais saciar suas necessidades de sangue, o homem passa a se relacionar sexualmente com qualquer mulher que cruze seu caminho para, durante o ato sexual, matá-la. Diego, o toureiro, encontrará em Maria (Assumpta Serna) e Angel (Antonio Banderas) dois fortes obstáculos.
Notas: Matador foi oficialmente o primeiro longa do cineasta a ser lançado no Brasil. O destaque fica por conta da mudança de gênero: pela primeira vez, Almodóvar deixa a comédia rasgada de lado para se aventurar no suspense – que, na verdade, não chega a ser totalmente sério. Também chamou a atenção para um jovem ator espanhol que costuma atender pelo nome de Antonio Banderas.

A LEI DO DESEJO (La Ley Del Deseo, 1987)

História: Pablo (Eusebio Poncela) e Tina (Carmen Maura) são irmãos. Ele é um escritor e diretor de cinema gay e acaba de romper um bizarro relacionamento com Juan (Miguel Molina). Ela nasceu homem, e depois de uma experiência traumatizante com um padre (!), resolveu mudar de sexo, e agora tem uma filha adotiva e tenta a carreira de atriz. Pablo tem uma aventura com Antonio (Antonio Banderas), que enlouquece de ciúmes quando descobre que Pablo ainda sente algo por Juan. Sua vingança será maligna! Hehehe…
Notas: O pesadíssimo sexto filme de Pedro Almodóvar só foi lançado oficialmente no nosso país em 1996, quase dez anos depois de sua estréia na Espanha. A história não chega a ser tão bizarra quanto as de seus trabalhos antecessores, mas é tão polêmico quanto qualquer um deles, ou até pior, por conta das quase explícitas cenas de sexo entre Antonio Banderas e Eusebio Poncela, e das milhões de sugestões sexuais nas cenas “limpas” – reparem na cena em que Carmen Maura se “esfrega” toda diante do jato de uma mangueira… Vixe!

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, 1988)

História: A dubladora de TV Pepa (adivinha quem?) é abandonada pelo seu amante, Ivan (Fernando Guillén). Desesperada e à espera de explicações, ela caça o cara por todos os cantos de Madri até se encontrar trancada num apartamento ultra-colorido com um grupo de pessoas que até então desconhecia: o filho de Ivan, Carlos (Antonio Banderas), e a noiva virgem dele, Marisa (Rossy de Palma); Lucia (Julieta Serrano), a mãe de Carlos, que tem sérios distúrbios e comportamento psicopata; e Candela (Maria Barranco), mulher burrinha que sofre pelo ex-namorado terrorista.
Notas: Inspirado em partes num conto de Jean Cocteau, Mulheres à beira… é o primeiro grande sucesso de Almodóvar em terras gringas. O longa, que custou 700.000 dólares, rendeu aproximadamente US$ 8 milhões só nas telonas ianques, e em uma semana de exibição na Espanha atraiu mais de 42 mil pessoas. Foi também o primeiro longa do cineasta a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e o primeiro a ser produzido por sua recém-fundada produtora, a El Deseo S/A. Uma curiosidade: o fantástico Javier Bardem, de Antes do Anoitecer, faz uma pontinha bem minúscula.

ATA-ME! (¡Átame!, 1990)

História: Recém-saído de um hospital psiquiátrico, o marginal Ricky (Antonio Banderas… de novo) resolve seqüestrar a ex-atriz pornô e atual atriz de filmes B Marina (Victoria Abril), com quem teve uma tórrida noitada dentro de um banheiro público no passado. Seu objetivo: fazer com que ela se apaixone por ele.
Notas: Apesar de ser um longa muito divertido, a indecisão entre o clima soturno e o “kitsch” prejudicou um pouco a carreira de Ata-me! nos cinemas espanhóis (e também no mundo). Bem, pelo menos serviu para apresentar Victoria Abril, a nova diva do diretor, ao planeta. Foi indicado a 15 prêmios Goya, o Oscar da Espanha, e a trilha sonora é do excelente Ennio Morricone, homenageado recentemente por Quentin Tarantino em seu ótimo Kill Bill: Vol. 2.

DE SALTO ALTO (Tacones Lejanos, 1991)

História: Becky (Marisa Paredes), cantora de sucesso nos anos 60, retorna a Madri depois de passar alguns anos no México, e reencontra sua filha Rebeca (Victoria Abril), locutora de telejornal, que está casada com Manuel (Feodor Atkine). O problema: Manuel foi amante de Becky no passado. A relação entre mãe e filha, que já era tensa, explode ainda mais com a descoberta de que Manuel tem outra amante, a também locutora Isabel (Miriam Diaz Aroca). As três mulheres se metem numa enrascada quando Manuel aparece morto.
Notas: O estranho De Salto Alto – bem, qual trabalho de Pedro Almodóvar não é estranho? :-) – representa um salto considerável na carreira do diretor, por se tratar de seu primeiro longa financiado por outro país, no caso a França. Uma prova concreta de que seus filmes são bem populares em vários cantos… aqui, Almodóvar trabalha pela segunda vez com um nome de responsa na sua técnica (no caso, o lendário compositor Ryuichi Sakamoto, autor da trilha de O Último Imperador), e dedica boa parte das cenas à ótima Marisa Paredes. Há uma lenda urbana que diz que este filme, através do personagem de Miguel Bosé, ajudou a popularizar os clubes noturnos e as drag queens (para quem não sabe, aqueles caras que se vestem de mulher por diversão). Bem Almodóvar mesmo.

KIKA (Kika, 1993)

História: Kika (Verónica Forqué) é uma maquiadora casada com o fotógrafo Ramón (Alex Casanovas). Ela mantém um caso ardente com Nicholas (o americano Peter Coyote), escritor americano. Detalhe: Nicholas é padrasto de Ramón. Kika vê seu mundinho cair quando é ameaçada por duas figuraças: Juana (Rossy de Palma), sua empregada lésbica, e uma tal de Andrea Caracortada (Victoria Abril – ué, cadê a Carmen Maura?), ex-namorada de Ramón e atual apresentadora de um reality show.
Notas: Inspirado de leve no romance policial Carne Viva, da escritora Ruth Rendell, este é o trabalho que finaliza a fase mais rasgada e colorida do cineasta, que já não se limita tanto à sua terra natal. O elenco é encabeçado por Peter Coyote (de E.T., O Extraterrestre) e os figurinos (inclusive a “roupa-câmera” utilizada por Victoria Abril) são assinados pelo francês Jean Paul Gaultier. Não chegou a fazer muito sucesso fora da Espanha – rendendo “somente” US$ 2 milhões.

A FLOR DO MEU SEGREDO (La Flor de Mi Secreto, 1995)

História: A solitária Leo (Marisa Paredes) escreve romances bem ao estilo Sabrina sob o pseudônimo de Amanda Gris. Enfrentando uma grave crise no casamento com um oficial da OTAN, Leo afunda ainda mais quando é procurada por Angel (Juan Echanove), editor do jornal El Pais. Angel, sem conhecer a identidade secreta de Leo, pede a ela que escreva um artigo falando mal da obra de Amanda Gris.
Notas: O excelente A Flor do Meu Segredo é o primeiro da atual safra de longas “sérios” de Almodóvar. A partir daqui, o diretor deixou um pouco de lado a atmosfera kitsch que envolveu todos os seus filmes anteriores a passou a se dedicar mais aos sentimentos de seus personagens, centrando sua câmera na atuação excepcional de Marisa Paredes. As tramas continuam tão malucas quanto sempre, porém com os pés mais fincados na realidade. Para nós, brasileiros, a maluquice fica por conta de uma cena em que podemos ouvir Caetano Veloso cantando Tonada de Luna Llena ao fundo…

CARNE TRÊMULA (Carne Trémula, 1997)

História: O destino de três pessoas se cruzam depois de quatro anos. A junkie Elena (Francesca Neri) é surpreendida pelo entregador de pizzas Victor (Liberto Rabal), apaixonado por ela. Arma-se uma confusão, entram em cena os policiais David (Javier Bardem) e Sancho (Jose Sancho), e um tiro disparado por Victor acaba por deixar David paralítico. Quatro anos depois, Victor sai da prisão e reencontra Elena, agora sóbria e casada com David, que se tornou jogador de basquete em cadeira de rodas. Ao mesmo tempo, Victor tem um caso com Clara (Angela Molina), esposa de Sancho – o real responsável pelo disparo que vitimou David.
Notas: Carne Trêmula simbolizou o retorno triunfal de Almodóvar ao esquemão norte-americano: o filme foi muito bem recebido por lá (e também aqui no Brasil). Com um roteiro bem amarrado, que mescla boas doses de erotismo a uma trama policial bem interessante, e vários grandes atores no elenco – sem contar, claro, a aparição ao início da fraquinha Penélope Cruz em uma pontinha -, é tido como a primeira obra-prima do espanhol, segundo a crítica.

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo Sobre Mi Madre, 1999)

História: Manuela (Cecilia Roth) leva seu filho Esteban (Eloy Azorin), de 17 anos, para assistir à montagem de Um Bonde Chamado Desejo no dia de seu aniversário. A atriz principal da peça é Huma Rojo (Marisa Paredes), a preferida do adolescente. Num lapso de nostalgia, Manuela confessa a Esteban que interpretou este mesmo papel há 20 anos, onde atuou com o pai do garoto, de quem este nunca ouviu falar. Antes que Manuela possa falar mais sobre o pai de Esteban, este morre atropelado. Atordoada, Manuela decide procurar o pai do menino falecido, que é travesti, para amarrar algumas pontas em aberto.
Notas: Sem dúvidas, o melhor trabalho de toda a carreira de Pedro Almodóvar. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de mais 41 prêmios de todas as espécies, Tudo Sobre Minha Mãe conquistou crítica e público com uma história comovente e personagens muito carismáticos, dentre os quais se destacam Cecilia Roth como Manuela, a atriz interpretada por Marisa Paredes e principalmente a hilária travesti Agrado (Antonia San Juan), dona dos diálogos mais legais do filme e injustamente ignorada pelo Oscar. A fotografia desta produção é do brasileiro Affonso Beato.

FALE COM ELA (Hable Con Ella, 2002)

História: Marco (Dario Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara, um ator simplesmente bárbaro) estão sentados lado a lado na platéia de um teatro. Assistem ao famosíssimo espetáculo de dança Café Müller. Eles não se conhecem. Marco está chorando, emocionado. Benigno sente-se comovido com aquela cena, e também gostaria de demonstrar que está tocado, mas não consegue. Tempos depois, Marco e Benigno se reencontram numa ocasião insólita: o segundo é enfermeiro de um hospital onde a noiva do primeiro, a toureira Lydia (Rosario Flores… ou seria a Maria Bethânia?), está em coma. O núcleo completa-se com a bailarina Alicia (Leonor Waitling), também em coma, por quem Benigno é apaixonado. Os dois homens desenvolverão uma forte amizade.
Notas: Fechando com chave de ouro o ciclo dos aclamadíssimos trabalhos cujo início se deu com A Flor do Meu Segredo, Fale Com Ela rendeu o primeiro Oscar (e único, por enquanto) de Melhor Roteiro da carreira de Pedro Almodóvar – o prêmio conquistado com Tudo Sobre Minha Mãe, por ser da categoria “melhor filme”, vai para o produtor do filme, e não para o diretor. Além de ser um espetáculo visual no que diz respeito a enquadramentos de cena e montagem, as atuações dos atores centrais estão ótimas, com destaque para Javier Cámara. Duas curiosidades: este é o tão comentado longa que contém uma cena com Caetano Veloso (particularmente, não sou tão fã assim do cantor, mas a cena é de uma poesia tremenda), e em uma cena de tourada, podemos ouvir Elis Regina interpretando a clássica Por Toda a Minha Vida, de Tom Jobim.

Observando a versátil – e muito bizarra – filmografia deste tranqüilo espanhol, dá pra perceber que o sucesso, os prêmios e o prestígio de Pedro Almodóvar são mais do que merecidos. Dá pra entender, também, o motivo pelo qual Almódovar é chamado de “o homem que amava as mulheres” – não houve nenhum outro diretor que soubesse retratar o complexo universo feminino com tamanha fidelidade e devoção. Acima de tudo, é importante salientar que Pedro Almodóvar é, sem dúvidas, o homem que ama o cinema. O público agradece.

CURIOSIDADES:

• Antes de se tornar cineasta pra valer, Pedro Almodóvar escreveu contos eróticos. Um destes contos se transformou em seu único romance publicado: Fogo nas Entranhas é um hilário texto que narra a desventuras de um chinês, Chu Ming Ho, dono de uma fábrica de absorventes que, irado com as mulheres (por ter sido abandonado por quatro em seguida), resolve se vingar criando um “tampax” que faz a mulherada transar até a morte! Obrigatório. O livro já foi publicado aqui no Brasil.

• Os filmes de Almodóvar são geralmente produzidos por Augustín Almodóvar, irmão de Pedro. Tanto Augustín quanto Francisca Caballero, mãe de Pedro, sempre fazem pontinhas em seus trabalhos.

• Pedro Almodóvar se recusa a filmar nos Estados Unidos. Sensato.

• O monólogo de Agrado, uma das melhores cenas de Tudo Sobre Minha Mãe, é na verdade inspirada em um fato verídico. Quando o sistema eletrônico de um teatro argentino falhou, o diretor do espetáculo a ser apresentado cancelou a sessão. A atriz Lola Membrives, sem jeito de dispensar a platéia lotada, chegou ao centro do palco, explicou o problema e lançou um convite: para não perder a viagem (e precisar pegar o dinheiro de volta), ela narrou detalhes picantes de sua vida para quem se dispôs a continuar na platéia.

OS INSANOS LONGAS DE PEDRO ALMODÓVAR
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 11/11/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem MÁ EDUCAÇÃO (La Mala Educación).

Uma resposta para Os Insanos Longas de Pedro Almodóvar

  1. Lívia Maria disse:

    gostei muito do seu blog tem coisas muito interesantes aqui muito obrigado hoje e sempre :))

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: