Miami Vice

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/08/2006.

Incrível como uma única peça fora do lugar (ou em seu devido lugar) pode definir se uma história qualquer, quando convertida para as telonas, transformar-se-á em uma bomba homérica… ou em um clássico do cinema. Depois de finalmente conferir Miami Vice (Miami Vice, 2006), declaradamente um dos filmes que mais espero este ano (depois de Serpentes a Bordo, claro!), pode-se dizer que estamos diante de um perfeito exemplo disto. Seu enredo poderia render uma produção bastante nhé, ou na melhor e mais otimistas das hipóteses, apenas uma fitinha de ação descartável com zilhões de seqüências mirabolantes, câmeras com mal de Parkinson e desenvolvimento de trama nulo. E se Miami Vice driblou esta má expectativa e virou o sensacional longa-metragem policial que é, devemos agradecer a um único elemento chamado Michael Mann.

Então, vamos às considerações. Pra começar, Miami Vice, o seriado cult oitentista que originou este quase-remake (depois explico melhor o porquê do “quase”), já não tinha lá um plot tão fenomenal a ponto de justificar uma revisita, sejamos francos. E ainda assim, o enredo criado para esta nova versão não traz nenhuma novidade ao gênero policial. Trocando em miúdos, seria fácil demais ver a película cair na armadilha da cartilha dos filmes de ação/policial/pancadaria hollywoodianos e, com isto, ser apenas mais um longa como tantos outros espalhados por aí.

Fique sossegado: este não é o caso do novo Miami Vice. A narrativa da busca dos detetives undercover James “Sonny” Crocket (Colin Farrell) e Ricardo “Rico” Tubbs (Jamie Foxx) em desmascarar uma gigantesca transação de drogas é conduzida da forma mais crua possível, com uma fotografia seca e granulada (captada em HD, técnica já utilizada por Mann em seu longa anterior, o angustiante Colateral), pouquíssimo uso de trilha sonora e de cenas de pancadaria absoluta, e com total ausência de todos os clichês impostos por filmes como os das cinesséries Duro de Matar e Máquina Mortífera. Assistir a Miami Vice é como assistir a um eletrizante episódio do Most Amazing Police Videos, só que sem aquela narração bisonha e com um roteiro com começo, meio e fim. E que fim, diga-se de passagem! :-D

Uma pena que poucas pessoas entenderão o recado.

Na verdade, este Miami Vice é nada menos que uma releitura fiel do seriado, só que sem estereótipos e com uma carga generosa de maturidade – e daí que vem a expressão quase-remake. O clima bem humorado da série estrelada por Don Johnson e Philip Michael Thomas não existe aqui; o que existe é o mesmo universo do Miami Vice original, mas sem piadinhas-clichê e com um pezão na realidade. As referências resumem-se ao visual de Sonny (sim, os blazers com ombreiras e os tenebrosos mullets estão lá!), aos fantásticos carrões, lanchas e jatinhos pilotados pela dupla, e principalmente ao retrato glamouroso de Miami, tão carinhosamente retratado que quase torna-se um personagem da trama. O que é normal na filmografia do cineasta.

Ah, a trama. Bem, Rico e Sonny são designados pelas autoridades locais a colaborar na investigação de um engenhoso esquema de tráfico de drogas (que não vale a pena detalhar para não estragar o charme do enredo). O que eles querem, entretanto, é tentar descobrir quem eliminou os detetives encarregados do caso – por sinal, amigos seus. Assim, Sonny e Rico assumem nova identidade e, junto com sua dedicada equipe, embrenham-se numa transação com o perigosíssimo Jesus Montoya (Luis Tosar). Obviamente, tudo pode feder quando Sonny cai de amores pela maravilhosa sino-cubana Isabella (Gong Li), braço-direito de Montoya e espécie de “contadora” do traficante, e compromete seu disfarce.

E é isso. Achou simples? Bem, é quase. Miami Vice traz seus segredinhos, mas não é nada tão espetacular, tão surpreendente, tão M. Night Shyamalan (leia-se: uma história legal no começo e um KinderOvo no final). Por outro lado, não espere adivinhar os rumos da história por sua sinopse. Como eu disse lá em cima, estamos falando de um trabalho bem anti-clichê, portanto não espere por soluções fáceis. Também não espere por trocentas seqüências de ação de tirar o fôlego; o que acontece é que Miami Vice, do ponto de vista da ação propriamente dita, demora a pegar no tranco. As (poucas) seqüências-pauleira demoram a aparecer e, ao contrário dos típicos longas policiais de hoje em dia, são bem simples e diretas, mas não menos surpreendentes. Os últimos vinte minutos, por sinal, grudam o espectador na poltrona tranqüilamente – e o desfecho do filme é, pra mim, nada menos que brilhante; não me refiro à conclusão do plot, e sim às últimas cenas mesmo.

Infelizmente, este pequeno fator torna Miami Vice um filme para poucos. Porque, afinal, é um filme cuja ação, cuja tensão vem dos diálogos, assim como a obra máxima do diretor, O Informante. Ou seja: uma cacetada de gente vai odiar e, não à toa, Miami Vice rendeu quase nada nos States. Então, não fique surpreso se, ao final da sessão na qual você porventura esteja presente, boa parte dos presentes sair reclamando… :-P

São vários os méritos da produção. Um saldo muito positivo é a ausência de estereótipos. O personagem de Colin Farrell, só para citar um exemplo, tem todo o jeitão de gozador e palhaço a la Martin Riggs que acomete 99,99% das duplas policiais do cinema atual. Mas só o jeito, pois seu Sonny Crockett não é assim de forma alguma – ainda que seja adepto daquele visual extremamente, ahn, “exótico” (!). Os vilõezões da história também são tratados e defendidos por seus atores da forma mais realista e minimalista possível; um deles, o arrepiante traficante Jose Yero (o ótimo John Ortiz), dá MUITO medo e é vivido de forma tão centrada e sóbria que noz faz imaginar que, se todos os bandidões reais são assim, o mundo está mesmo é com a vida ilhada… :-)

Um exemplo bem bacanudo da sobriedade aplicada a cada fotograma da película é a seqüência na qual a equipe de Sonny e Rico devem estourar o cativeiro de um importante refém (que não vou dizer quem é e porquê pois não sou estraga-prazeres): a seqüência é quase totalmente rodada sem trilha sonora e sem iluminação de estúdio. Apenas sons noturnos, câmera no ombro e uma franquíssima iluminação que forja sensores de visão noturna. Mais real e mais nervoso, impossível!

E pelo amor de Deus, quem é mais linda? Gong Li (Lanternas Vermelhas), uma das mais cultuadas atrizes asiáticas dos anos 90, ou Naomie Harris (Ladrão de Diamantes), que vive Trudy Joplin, a namorada de Rico e integrante de sua equipe? Céus, por favor, que ninguém me faça escolher uma das duas para salvar a humanidade. ;-D

O grande quê de Miami Vice, entretanto, não reside na ótima química entre a dupla central, Farrell e o excelente Foxx (simplesmente não dá pra saber quem está melhor em cena – detratores de Colin Farrell, engulam a seco!), ou na soberba fotografia, ou na trama em si. O grande mojo, como diria nosso querido amigo e irmão Austin Powers, é mesmo a incrível habilidade técnica de Michael Mann no comando. Como eu disse aqui, Mann é um dos pouquíssimos diretores em atividade no cinema de hoje capazes de arrancar leite de pedra – Colateral, estrelado por Foxx e Tom Cruise, é uma prova disto.

Sinceramente? À exceção de grandes cineastas do passado, como John Frankenheimer e Francis Coppola, não imagino ninguém além de Michael Mann capacitado para dirigir este filme da maneira como deve ser feito (bem, talvez Joe Carnahan, de Narc).

Pra resumir bem a questão, Miami Vice é um filmaço. É sim. Mas embora não seja mesmo o melhor filme do ano, com certeza traz o MELHOR TRABALHO DE DIREÇÃO do ano, isto é inegável. Só que poucos entenderão, mas isto é um problema de cada um. E algumas pequenas informações: a) não, Sonny Crockett não está acompanhado de nenhum jacaré, b) sim, os fãs do seriado devem gostar bastante, c) não, o fato de sua história não ser ambientada nos anos 80 não estraga NADA, e d) sim, a maldita música do Linkin Park com o Jay-Z que está no trailer também toca no filme. Droga. :-D

MIAMI VICE • EUA • 2006
Direção de Michael Mann • Roteiro de Michael Mann
Baseado na série de TV “Miami Vice”, criada por Anthony Yerkovich
Elenco: Jamie Foxx, Colin Farrell, Gong Li, Naomie Harris, Ciáran Hinds, Justin Theroux, Luis Tosar, Barry Shabaka Henley, John Ortiz, Elizabeth Rodriguez, Isaak De Bankolé, Eddie Marsan.
137 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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