Terra dos Mortos

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/07/2005.

Pois é, todo sofrimento pelo qual passamos não foi em vão. Como diria aquele velho ditado brega, “depois da tempestade, sempre chega a bonança”. E eis que, depois de um período negro na história do cinema de horror, há pouco tempo atrás dominado por equivocadas releituras de clássicos (Exorcista: O Início), refilmagens de produções nipônicas (O Grito, O Chamado 2) e até uma recém-tentativa de renovação dos terríveis suspenses teen (Amaldiçoados), o verdadeiro dono do pedaço chegou para botar ordem no barraco e mostrar, afinal, quem é que manda no gênero. Só pra citar mais uma frase bacanuda, e desta vez de autoria do matemático Ian Malcolm, personagem de Jeff Goldblum em Jurassic Park: “Previsões não funcionam. A natureza encontra seus meios”. Não sei se era bem assim, mas acho que todo mundo entendeu o que eu quis dizer, né! :-)

Estou falando, óbvio, do cineasta master George A. Romero (todos fazendo reverência, por favor!). O homem que fundou o subgênero gore em 1968 com o ultra-clássico A Noite dos Mortos-Vivos e revolucionou o cinema de horror com suas continuações, Zombie: O Despertar dos Mortos (1978) e Dia dos Mortos (1985) retorna triunfal às telonas com o esperadíssimo Terra dos Mortos (Land of the Dead, 2005), depois de um intervalo de 12 anos entre este e seu último trabalho para o cinema, o subestimado A Metade Negra (1993). Bom para Romero, que anda em alta. Bom para os executivos de Hollywood, que estão lucrando bem distribuindo seus trabalhos através dos grandes estúdios (no caso, a Universal). E bom para nós, que finalmente podemos assistir a um filmaço de qualidade no gênero! Já não era sem tempo.

Como todos devem saber, Terra dos Mortos é o quarto longa-metragem do ciclo zombie inaugurado por Romero há 37 anos atrás. Aqui, Romero descarta algumas mudanças apresentadas em fitas similares, como o lance dos “zumbis-maratonistas” do excelente Madrugada dos Mortos, e renova as origens das criaturas comedoras de massa encefálica. Logo, quem procura muito sangue, tripas, órgãos internos expostos, membros amputados e mortos-vivos lerdos e rastejantes, está no lugar certo! Entretanto, verdade seja dita: como era de se esperar, este não é o melhor exemplar da saga. Eu mesmo prefiro O Despertar dos Mortos sem pensar duas vezes. Isto não significa, contudo, que não seja bom. Ao contrário: Terra dos Mortos deixa todos os outros longas de terror do ano comendo poeira – salvo o ótimo Jogos Mortais, que não é exatamente de terror, mas chega perto.

Neste novo filme, que visivelmente dá continuidade aos eventos de Dia dos Mortos, não presenciamos uma casa no campo, um shopping center ou uma cidade sendo invadida pelos zumbis. Aqui, os mortos-vivos já invadiram o planeta há tempos. Sim, o PLANETA. Não há lugar qualquer no mundo que não esteja lotado destes seres nefastos. Mas ainda há um ou outro foco de resistência humana espalhado por aí. Um destes focos fica em Pittsburgh, cidade que atualmente divide-se em quatro partes: a) um gigantesco centro empresarial e residencial chamado Fiddler’s Green, governado pelo escroto empresário Kaufman (Dennis Hopper, Sem Destino) e povoado por ricaços metidos, b) a própria cidade de Pittsburgh, praticamente morta, que rodeia o edifício e é onde encontra-se o submundo da jogatina e a parcela pobre que não tem condições de bancar um apartamento no Fiddler’s Green, c) um enorme rio que circunda a cidade, e d) o resto do mundo, habitado pelos zumbis. Medo! :-)

A coisa funciona basicamente assim: os presuntos não têm como atravessar o rio e, mesmo que consigam, ainda deverão enfrentar um núcleo de “soldados” armados até os dentes antes que consigam chegar ao Fiddler’s Green. Portanto, a coisa está sob controle. Tudo certo, até aqui, não é?

Dentro deste grupo de soldados, existe um outro núcleo, cuja missão é buscar suprimentos em cidades tomadas pelos monstros para saciar a sede de consumo dos entediados burgueses do arranha-céu. Este núcleo é liderado pelo mercenário Riley (Simon Baker, o repórter de O Chamado 2). O indivíduo está em seu último dia de trabalho e só pensa em ir embora para o Canadá, onde não há mais vivos e supostamente nem mortos. Pois é, o sujeito é daqueles que gostam de sossego, sabe? Seu segundo comandante é o ambicioso Cholo (John Leguizamo, Assalto à 13.ª DP), mexicano que contrabandeia futilidades que rouba na cidade para vendê-las ao dono do prédio, Kaufman, de modo que consiga garantir um lugarzinho lá dentro. Cholo só quer um cantinho para se encostar, onde possa dormir em paz e de preferência nunca mais olhar na cara de um morto-vivo novamente.

Quando Kaufman recusa-se a vender um espaço a Cholo – afinal, não importa se o cara tem dinheiro, o problema é que ele é latino -, este decide chantagear o poderoso empresário, sob pena de reduzir o Fiddler’s Green a um punhado de pó com seu arsenal de bombas. Assim, Riley é convocado para (tentar) deter Cholo. E para isto, conta com a ajuda de seu fiel escudeiro Charlie (Robert Joy, Possuídos) e da revoltada prostituta Slack (Asia Argento, Triplo X).

Tá, e os zumbis com esta história toda? Bem, como eu disse (ou melhor, escrevi) lá em cima, “a natureza encontra seus meios”. O que acontece é que uma legião de seres reanimados, liderados pelo defuntão Big Daddy, também chamado de Grandão (Eugene Clark), está sofrendo uma espécie de “evolução”. Aparentemente, seus cérebros apresentam um mínimo sinal de funcionamento, ou os caras são guiados pelo instinto mesmo, mas de qualquer forma eles estão aprendendo a dominar determinadas situações e também movimentos seqüenciais, como golpear com um machado ou usar armas. Sim, agora os zumbis PENSAM, por menor que esta expressão possa parecer. Logo, é apenas uma questão de tempo até que os caras consigam arrumar uma forma qualquer de atravessar o rio e chegar ao Fiddler’s Green…

Simples, não? Pois é, Terra dos Mortos não é uma película complicada. Falando o português claro, ela é tudo aquilo que o espectador espera ao ver o trailer. Portanto, digo desde já que você deve evitar Terra dos Mortos caso seu estômago embrulhe fácil. Embora a primeira hora seja de fácil digestão – com a apresentação dos personagens, o foco voltado à construção do enredo e poucas aparições dos zumbis -, o negócio estoura mesmo depois de seus quase 50 minutos de projeção. Os zumbis estão muito bem caracterizados, e as cenas dos ataques são divertidíssimas e totalmente nojentas! E o titio George, para fazer jus à sua alcunha de rei do gore, trata de fechar closes em cenas repugnantes, toscas e lotadas de sangue! A rápida “seqüência do piercing”, que não detalharei para não estragar a surpresa, é de fazer vomitar. Isto, se você não fechar os olhos e/ou virar o rosto a tempo. Bom saber que o cineasta não deixou de ser escatológico para agradar ao estúdio. :-P

Mais legal ainda é saber que George A. Romero ainda é um excelente contador de histórias. Terra dos Mortos é um trabalho bastante interessante, com atuações propícias ao enredo – Simon Baker até que daria um bom herói de produções de pancadaria – e roteiro muito bem escrito. Uma fita de horror que cumpre o que promete com boas doses de sustos, nojeiras, e medo! E o final mais do que aberto (eu diria “arregaçado”, aliás) só me dá esperanças de ver, e de preferência o mais rápido possível, mais um trabalho que misture Romero e seus zumbis maravilhosos. Bom, já que agora sabemos quem é que manda, que tal se os queridos executivos de Hollywood parassem de investir neste lance já desgastados de refilmagens de longas japoneses ou terror com adolescentes chatos e inexpressivos?

E pra finalizar, uma pergunta: como se faz para matar um zumbi SEM CABEÇA??? :-D

CURIOSIDADES:

• Como forma de agradecimento por ter sido homenageado com o hilariante Shaun of the Dead, George A. Romero convidou os criadores do longa inglês, Simon Pegg e Edgar Wright, a fazer uma pontinha em Terra dos Mortos como dois zumbis. Bem, eles toparam. E sinceramente, nem reparei na hora; só ficou aquela sensação de “conheço estes caras de algum lugar”… Não vou contar qual a participação dos caras, descubra por si mesmo!

• O título original do filme seria Dead Reckoning (traduzindo literalmente, ajuste de contas com a morte), mas a produção decidiu mudar quando teve conhecimento de um longa do mesmo nome, protagonizado por Humphrey Bogart em 1947 e batizado por aqui como Confissão. Dead Reckoning também é o nome do ultra-veículo que os personagens chamam de “O Destruidor”, por ser praticamente impenetrável.

• Embora sua ação seja ambientada em Pittsburgh, assim como todos os outros exemplares da Trilogia dos Mortos, as filmagens de Terra dos Mortos foram realizadas em Toronto, no Canadá. Era uma forma de evitar gastos excessivos, já que as taxas de impostos do Canadá são muito mais baratas.

• Asia Argento é filha de ninguém menos que o cineasta italiano Dario Argento, um dos grandes nomes do cinema de terror europeu e grande amigo pessoal de George A. Romero. Dario Argento co-produziu Zombie: O Despertar dos Mortos e dirigiu o controverso Dois Olhos Satânicos (1990) em parceria com o amigo.

• O logo de abertura da Universal usado em Terra dos Mortos é o mesmo usado nas produções dos anos 20 e 30. :-)

• Comentário pessoal: se antes eu já tinha medo de palhaços (cortesia daquele canalha chamado Stephen King), agora eu tenho ainda mais, pois Terra dos Mortos apresenta talvez o primeiro PALHAÇO-ZUMBI da história do cinema… Sai fora!

GEORGE A. ROMERO’S LAND OF THE DEAD • CAN/FRA/EUA • 2005
Direção de George A. Romero • Roteiro de George A. Romero
Elenco: Simon Baker, John Leguizamo, Dennis Hopper, Asia Argento, Robert Joy, Eugene Clark.
93 min. • Distribuição: Universal Pictures.

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