Minha Super Ex-Namorada

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/08/2006.

Um dos assuntos mais abordados nos e-mails que recebo referem-se ao descontentamento de alguns com relação a esta onda de filmes inspirados em super-heróis de HQs. Bem, obviamente Hollywood só vai parar de produzir live-actions de heróis dos gibis quando este filão não render mais nada. De qualquer forma, devo dizer que isso não me incomoda nem um pouco: ainda que eu seja um quase-leigo quando o assunto é quadrinhos, me diverti adoidado com muitos destes longas – e ainda sonho com um filme do Authority. O meu problema mesmo é com as variações do gênero, mais exatamente com as comédiazinhas idiotas estreladas por super-heróis, como por exemplo os asquerosos family movies produzidos pela Disney – entre eles, SuperEscola de Heróis e a futura gororoba Zoom, estrelada por Tim Allen, mais conhecido como “mamãe-é-a-única-criatura-da-face-do-planeta-que-me-acha-engraçado”.

De todos os trabalhos lançados e/ou divulgados até então, Minha Super Ex-Namorada (My Super Ex-Girlfriend, 2006) é o que tem a idéia mais criativa e engraçada. Ou melhor, a idéia mais criativa e potencialmente engraçada. Afinal, comédias sobre a batidíssima guerra dos sexos são, em suma, bem divertidas; quando sabemos que uma das partes é dotada de poderes extraordinários (como voar e ter superforça), abre-se um leque de possibilidades. Eu mesmo, embora não acreditasse nas virtudes deste projeto desde o início, pensei em pelo menos cinco piadas prontas dentro deste contexto que adoraria ver executadas na telona.

E vejam só: ironicamente, este que tinha tudo para ser o único exemplar realmente digno deste subgênero, acabou como o exemplar mais vergonhoso! Quer dizer, salvo Zoom, que ainda não vi (e provavelmente cometerei suicídio antes de ver). :-P

O grande problema reside exatamente naquilo que o senhor El Cid já comentou nas gloriosas páginas d’A ARCA: a idéia de Minha Super Ex-Namorada é boa, mas estraga-se em seu desenvolvimento. O que poderia render uma pá de piadas divertidíssimas, transforma-se em um equívoco tremendo do início ao fim, e a culpa é toda do roteiro indeciso de Don Payne e da direção insossa de Ivan Reitman. Não dá nem pra acreditar que estamos falando, respectivamente, do roteirista de vários episódios de Os Simpsons e do cineasta que nos entregou uma das películas mais batutinhas dos anos 80, Os Caça-Fantasmas. :-(

Então, vamos à história: seguindo um conselho de seu melhor amigo, o desajeitado arquiteto Matt Saunders (Luke Wilson, de Tudo em Família, novamente no piloto automático) decide cantar uma bela garota que conhece no metrô de Nova York. Para sua surpresa, a garota, a tímida Jenny Johnson (Uma Thurman, provando que só se sai bem mesmo sob a tutela de Quentin Tarantino), corresponde às suas investidas. A coisa fica ainda mais legal quando Matt descobre que Jenny é apenas o disfarce da imbatível G-Girl, super-heroína que zela pela paz e pela justiça da Grande Maçã – aliás, que nominho babaca para um herói, não? Afe.

Enfim, a surpresa e o orgulho em ser apenas um cara comum namorando uma super-heroína dá lugar ao incômodo quando Jenny/G-Girl começa a comportar-se de maneira, digamos, “excêntrica”. Fica nervosa, grudenta, possessiva, extremamente ciumenta e muito, mas muito dependente. Sentindo que é hora de sair pela tangente, Matt decide dar o fora nela e investir em um relacionamento mais “normalzinho” e menos estressante com sua colega de trabalho, a moderninha Hannah (Anna Faris, Todo Mundo em Pânico). E o alívio dá lugar ao desespero quando Jenny, chutada-magoada-estraçalhada, mostra ser uma bela pedra no sapato do zézinho ao comunicá-lo: “você vai se arrepender de ter nascido”. Cruzes! Realmente, ganhar a antipatia de uma pessoa dotada de superpoderes e absolutamente vingativa não é a melhor das opções…

Aí é que está: a idéia não é ruim. O grande erro de Minha Super Ex-Namorada reside na estrutura desta história. O que temos aqui é um desfile de personagens clichê ultra-sem graça, como o patético melhor amigo de Matt, Vaughn (Rainn Wilson, péssimo), que representa o cúmulo do estereótipo do amigo feioso e boboca que se acha o tal com as mulheres. Pra piorar ainda mais a situação dos personagens, o roteiro de Don Payne não titubeia em apelar para diálogos tão vulgares quanto embaraçantes: numa certa cena, por exemplo, Matt pergunta a Vaughn, “Se você pudesse ter um superpoder, qual seria?”, e o cara responde, “Poder fazer sexo oral em mim mesmo” (?). Afe! Pra quê um diálogo desse? E se ele acha que isso é um grande mistério da vida, alguém dá logo o telefone do Ron Jeremy e do Marilyn Manson para este sujeito! :-D

Acredite. Há frases de efeito muuuito piores durante a projeção. E o que dizer da G-Girl prometendo a Matt enfiar uma serra elétrica em sua traseira (!) caso ele revele sua identidade secreta a alguém? ¬¬ Sentiu, né? Enfim, é aquela velha mania que Hollywood tem de acreditar que o público ainda acha graça em piadinhas chulas.

Claro que os pontos negativos da fita não param por aí. É muito incômoda, só pra citar um exemplo, a inevitável e mega-desnecessária presença de um super-vilão na história, o tal Professor Bedlam (Eddie Izzard, dublador daquele maldito coala do cacete, daquele outro lixo chamado Selvagem), que quer neutralizar a heroína custe o que custar: seu plano para derrotar a G-Girl é tão idiota quanto a origem da garota e a razão do ódio do elemento por ela. Céus, um enredo destes nem precisava de vilão! Era só centrar a história na briga entre Jenny e Matt e pronto! Na boa, não dá pra saber qual personagem é pior, este Professor Bedlam ou o tal do melhor amigo de Matt. Ah, sim: vamos somar aí a bizarra chefe de Matt, vivida por Wanda Sykes (A Sogra), obcecada por assédios sexuais. Alguém me explica o sentido DAQUILO, pelo amor de Deus! :-P

Estes desacertos até poderiam passar em branco caso Minha Super Ex-Namorada fosse bem-sucedido em sua proposta central: o barraco entre Jenny e Matt. Sério, a idéia de ver uma super-maluca perseguindo um cara medrosão rende umas piadinhas bacanas! Infelizmente, não há nenhuma delas aqui. Os “ataques” da enlouquecida G-Girl são esporádicos e deixam de ser criativos e engraçados para se render a um punhado de efeitos especiais – a tal seqüência do tubarão (na qual a moçoila arremesa um tubarão branco dentro do apartamento de Hannah) é perfeita em termos técnicos, mas constrangedora em seu resultado final, pois não há sentido algum nela. Parece até que o diretor Ivan Reitman se preocupou mais em criar bons efeitos visuais a desenvolver uma trama coerente e divertida. Bem, isto já acontecera com o terrível Evolução, então acho que é hora de pendurar as chuteiras.

E olhe que nem me atrevo a comentar… o FINAL DESTE FILME! Afe, que final HORROROSO! Totalmente forçado, totalmente melado, totalmente ilógico! Parece que foi filmado às pressas! Olha, se Minha Super Ex-Namorada possuísse algum ponto a seu favor, certamente ficaria queimado só por causa da conclusão da história!

Num saldo geral, dá pra concluir que não basta ter somente um plot interessante em mãos, tem que saber estruturar este plot. Ou seja: o que poderia render uma comédia descartável de qualidade, rendeu apenas mais um filmeco para fazer jus à má fama das comédias tosquinhas estreladas por super-heróis… Se eu soubesse que enfrentaria um troço destes, teria mantido meu pedido de demissão sem medo de ser feliz. Embora ainda dê pra considerar esta possibilidade, afinal, até onde sei, não há nenhum super-herói escondido entre os gloriosos colunistas deste website. Meu medo é ver um iradíssimo Fanboy me caçar até no inferno para voltar a escrever! Se bem que o inferno não deve ser pior do que sofrer com estas bombas que andam me passando… :-P

E mês que vem… Zoom, com Tim Allen! Se alguém me procurar, diga que eu morri, por favor.

CURIOSIDADES:

• Se você for louco o suficiente para gastar dinheiro conferindo este filme, fique até o final dos créditos para uma cena surpresa. Não é lá estas coisas, mas se você perdeu 90 minutos vendo a fita inteira, não morrerá se ficar mais alguns minutos a mais. Como diz um amigo, “o que é uma flatulência para quem já evacuou em suas roupas de baixo”, não é mesmo? :-D

• Como todos podem perceber, não consegui encontrar muitas curiosidades a respeito deste filme…

MY SUPER EX-GIRLFRIEND • EUA • 2006
Direção de Ivan Reitman • Roteiro de Don Payne
Elenco: Luke Wilson, Uma Thurman, Anna Faris, Rainn Wilson, Eddie Izzard, Wanda Sykes, Margaret Anne Florence.
95 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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