Hollywoodland – Bastidores da Fama

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/03/2007.

E com seis meses de diferença para sua estréia gringa, finalmente chega às telonas brasileiras Hollywoodland – Bastidores da Fama (Hollywoodland, 2006), aquele longa que um dia foi chamado de Truth, Justice and the American Way – por sinal, um título legal pra dedéu e que faz todo o sentido do mundo, como explicarei mais tarde – e é popularmente conhecido como “o outro filme do Superman” por ter entre seus personagens principais ninguém menos que George Reeves, o sujeito que viveu o Homem-de-Aço no seriado de TV dos anos 50.

Não estamos falando, entretanto, de uma produção centralizada no super-herói que faz a alegria de zilhões de nerds do mundo inteiro. Mesmo com infinitas referências ao personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, Hollywoodland aproxima-se muito mais de um Dália Negra da vida do que de qualquer história de fantasia protagonizada pelo Superman. Aliás, muita gente por aí refere-se a Hollywoodland como uma cinebiografia de George Reeves. Não, não, não. Esqueça este papo que o buraco é bem mais embaixo.

O que acontece é que Superman e o próprio George Reeves são apenas pequenas peças de um quebra-cabeças que aparentemente tenta desvendar um dos casos mais bizarros e polêmicos da história do mundinho do entretenimento estadunidense dos anos 40/50, mas que ao final, revela-se um instrumento de objetivo bem maior e mais, digamos, subversivo. O trailer indica que o filme é sobre a vida de Reeves, quando você assiste ao filme descobre que é sobre a investigação de um acontecimento verídico que botou um ponto final na vida do ator, e ao sair do cinema, nota-se que o verdadeiro objetivo da produção comandada pelo veterano da telinha Allen Coulter (de Sex And The City e Família Soprano) é alfinetar a frieza da indústria cinematográfica norte-americana, acostumada a tratar suas estrelas como simples números e a fazer de tudo para encobrir qualquer desvio, única e exclusivamente para ver seu bolso cheio e longe de ameaças.

E estes objetivos foram cumpridos? Hummmm… mais ou menos, vá. Não estamos falando de um ótimo exemplar de cinema, como vários já comentaram por aí, mas também não é um lixo da pior qualidade, como também já ouvi. Resumindo o lance todo, é um trabalho bacaninha que poderia ter um resultado muito além do satisfatório caso a direção de Allen Coulter e o roteiro de Paul Bernbaum não optasse por alguns rumos meio equivocados e não tivesse a pretensão de criticar a meca do cinema, ao invés de simplesmente contar sua história. Esse pessoal adora inventar, não é possível! :-P

O pior é que a história é mesmo muito boa. Temos um plot verídico, que é a bizarra morte de George Reeves – encontrado morto em sua casa, nu e com um tirombaço na cabeça -, registrada como suicídio, e temos a parte ficcional, que é a investigação conduzida pelo detetive particular Louis Simo (Adrien Brody) e a descoberta de alguns detalhes “debaixo do tapete” que podem indicar que a morte de Reeves foi, na verdade, um assassinato. Uma trama que, como pode-se ver, abre um leque de possibilidades, que precisam, claro, de um roteirista e um diretor no mínimo experientes, como Brian De Palma, por exemplo, que tirou leite de pedra com seu Dália Negra.

Não é o caso aqui. A falta de experiência do roteirista Bernbaum e do diretor Coulter não consegue impedir Hollywoodland de mergulhar em alguns clichês enjoadíssimos dos thrillers ambientados nesta época, como a mulher fatal (e aqui, nem precisava tanto, sejamos sinceros), o detetive obstinado e cafajeste, e blá blá blá blá. Não são defeitos que prejudicam o filme por completo, não é o que quero dizer. Mas que dá uma decaída… ah, isso dá – e o estrago só não é maior porque Hollywoodland conta com uma excelente reconstituição de época e um climão noir tão competente quanto o de Dália Negra e Los Angeles – Cidade Proibida, outra obra que inevitavelmente nos vêm à mente durante a exibição deste.

Então, George Reeves (Ben Affleck) foi encontrado morto de 16 de junho de 1959, nu, em um quarto de sua casa, com várias pistas espalhadas pelo quarto que indicam fortemente que trata-se de suicídio. E olhe que Reeves até tinha seus motivos para querer conhecer Jesus mais rápido (!): com o cancelamento do seriado do Azulão (por sinal, personagem que não era do agrado de Reeves por ser “superficial e infantil” demais), o ator jamais conseguiu reaver o pouco sucesso que tinha com a série e chegou ao ponto de amargar uma obscura carreira como competidor em torneios de luta-livre.

Voltando, uma série de evidências apontam que George Reeves realmente suicidou-se, e o caso é encerrado. Mas a mãe de Reeves, Helen Bessolo (Lois Smith), jura de pé junto que o filho jamais seria capaz de atentar contra sua própria vida. Com o troço todo arquivo, a senhora não vê outra saída a não ser apelar para o detetive particular Louis Simo. Aos poucos, Simo, um sujeitinho sedento por status, obcecado por dinheiro e louco para se tornar um queridinho da mídia, encontra diversas contradições nas pistas espalhadas no local do crime. Não demora muito para que ele também se convença de que há alguma conspiração para acabar com a existência do ex-Superman, e dois fatores só ajudam a alimentar esta desconfiança: o primeiro é o aparente descaso da noiva de Reeves, Leonore Lemmon (Robin Tunney), uma das primeiras pessoas a encontrá-lo sem vida.

O segundo fator é a descoberta de um segredinho perigoso: Reeves mantinha um caso com a senhora Toni Mannix (Diane Lane, cada vez mais linda), esposa de ninguém menos que Eddie Mannix (Bob Hoskins), executivo da MGM cuja função é encobrir escândalos do porte de drogas e homossexualismo entre os astros e estrelas da TV e do cinema. E… CHEGA! Agora eu não falo mais nada, que é para não estragar o resto da fita. ;-)

Tá, então temos uma trama ducacete que poderia ter rendido um filmaço com F maiúsculo. Infelizmente, Hollywoodland perde-se no meio dos clichês, do certo amadorismo do roteiro e também da narrativa fragmentada demais, o que deve espantar a parcela do público médio que prefere uma trama contada de forma linear. O problema maior, pra mim, ainda é a mania dos caras de querer enxertar críticas ao governo ianque, à obsessão quase cega de Hollywood por dinheiro e fama, à busca de pessoas comuns pela felicidade de plástico que uma carreira como astro/estrela de cinema proporciona, e principalmente à forma com que os Estados Unidos lida com o conceito de verdade e justiça que tanto prega – o tal “American Way” do primeiro título. Cá entre nós, o filme exagerou na dose com relação a estas metáforas.

E a pergunta que não quer calar: o Ben Affleck está bom mesmo? Olha… sim, ele se sai muito bem no papel de George Reeves. Mas é algo extremamente relativo, visto que Reeves era em sua época exatamente aquilo que Affleck é hoje, ou seja, um cara sem talento algum – tanto que, nas cenas em que Reeves está caracterizado como Clark Kent/Superman, nota-se o grau de canastrice de Ben Affleck (e imagina-se que ele não fez muito esforço para chegar àquele estágio, hehehe!). Nas seqüências mais dramáticas, até que Affleck não decepciona, mas não vi aqui NADA que justifique o prêmio dado ao ator no Festival de Veneza do ano passado.

Por sinal, se há realmente uma grande atuação em Hollywoodland, estamos falando exclusivamente de Adrien Brody. É engraçadíssimo vê-lo tão à vontade no papel de anti-herói, um detetive tão sacana quanto cafajeste. Embora o ator não tenha feito nenhuma declaração a respeito, tenho certeza de que ele se inspirou em Humphrey Bogart para compôr seu personagem – quem conhece os filmes de Bogart, enxergará o saudoso Sam Spade em cada milímetro do personagem de Adrien Brody aqui. Acho que o prêmio em Veneza deveria ter sido dado a ele, não é por nada não. :-D

Então… Hollywoodland compensa o ingresso? Ah, compensa sim, principalmente porque é bastante bem-sucedido em um dos itens primordiais em um longa policial: segurar a atenção do público. Embora seja excessivamente fragmentado, Hollywoodland sustenta-se pela curiosidade em saber como esta história terminará. E até que termina bem, viu? Mas se você quer um clássico, é melhor procurar a sessão de noir na videolocadora mais próxima. Bem, olhando a metade cheia do copo, até dá pra dizer que George Reeves ganhou uma “quase-cinebiografia” à altura de seu talento… :-P

CURIOSIDADES:

Hollywoodland é uma referência a um dos maiores símbolos de Los Angeles: o letreiro de Hollywood, que tinha o “land” no final até meados de 1949. Embora a ação da fita se passe dez anos depois da remoção das quatro últimas letras do letreiro, o título justifica-se por conta de uma metáfora cuja explicação aqui não é cabível para não estragar o clima da produção.

• O outro título original, Truth, Justice and the American Way, traz uma série de metáforas mas é também uma expressão muito utilizada pelo Superman do seriado. O título foi trocado pois a DC Comics, detentora dos direitos do personagem, não autorizou o uso. A editora também proibiu qualquer referência ao Homem-de-Aço no cartaz promocional e nos trailers da película. Curiosamente, permitiu que o Super desse as caras em quase todo o filme. Vai entender…

• George Reeves seria vivido originalmente por Hugh Jackman, que não pôde assinar por estar envolvido com as filmagens de Fonte da Vida. Kyle MacLachlan, o eterno Agente Dale Cooper de Twin Peaks, também foi considerado para o papel.

• O papel de Louis Simo foi oferecido primeiro a Benicio Del Toro, que pulou fora por outros compromissos. Joaquin Phoenix chegou a fazer um teste para o papel. Por sinal, este é o segundo papel disputado por Phoenix e Adrien Brody: o primeiro foi Lucius Hunt, o herói de A Vila.

HOLLYWOODLAND • EUA • 2006
Direção de Allen Coulter • Roteiro de Paul Bernbaum
Elenco: Adrien Brody, Diane Lane, Ben Affleck, Bob Hoskins, Lois Smith, Robin Tunney, Larry Cedar, Jeffrey DeMunn, Dash Mihok, Molly Parker.
126 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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