Filmes para Sofrer no Dia dos Namorados

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/05/2006.

Um velho conhecido da galerinha nerd-cinéfila, um tal de Joel Barish, costumava dizer que o Dia dos Namorados – evento que, por sinal, comemora-se no dia 12 de junho aqui por nossas bandas – não passa de uma data comemorativa inventada pelos fabricantes de cartões para fazer as pessoas se sentirem como lixo. Há algum sentido nisto? De certa forma sim. :-) Enquanto o sr. El Cid, cheio de amor pra dar, diz que é uma oportunidade de ouro para se dedicar ainda mais à pessoa amada com muito carinho, muita paixão, muito mel e muitas canções sensuais de Sidney Magal (?), eu prefiro acreditar que é apenas mais uma data para nos fazer gastar dinheiro. Hehehe!

E se você está na pindaíba (como eu) e não faz a menor idéia do que fazer para não desapontar a patroa (ou o patrão, hehe), nada melhor do que um sofá camarada, um edredon convidativo, um suculento balde de pipocas e… filmes, muito filmes! Logo, como nós d’A ARCA somos extremamente simpáticos e complacentes com a sua situação miserável, eis mais uma seleção de fitas bacanas, engraçadas, depressivas e sofredoras para alegrar qualquer casalzinho cinéfilo – ou para fazer todo mundo mergulhar na fossa de vez!

Só um adendo: não espere neste artigo obviedades como clássicos universais (Casablanca), fenômenos pop (Titanic, Ghost – Do Outro Lado da Vida e Moulin Rouge – Amor em Vermelho) ou fitinhas adolescentes com as Hilary Duffs e Lindsay Lohans da vida. Coisas mela-cueca ao melhor estilo Julia Roberts, Meg Ryan e Freddie Prinze Jr., menos ainda. O foco desta matéria são as produções menores, fora do circuitão comercial, geralmente restritas a circuitos reduzidos e fadadas injustamente ao limbo nas videolocadoras… ou seja, sem muito apelo ao público médio. Esta matéria é pra fazer todo mundo sair por aí cavucando os cantinhos escuros das locadoras! :-D

Sendo assim, curta o seu 12 de junho (ou qualquer outra data, não importa) na companhia de:

• PETER WARNE & ELLIE ANDREWS (Clark Gable & Claudette Colbert)

Quem são os ditos cujos? Ellie Andrews, a única herdeira da milionária família Andrews, é insuportável, arrogante e mimada até não poder mais. Para irritar seu pai, é capaz até mesmo de casar-se com um nojento playboy. E ela o faz! Para conter a figura, o pai anula o tal casamento e prende a moçoila em um iate. O senhor Andrews só não contava com a indomável rebeldia de Ellie, que pula do iate e tenta, de todas as formas, fugir de Miami para Nova York – o que a transforma em objeto de procura nacional… Peter Warne é um repórter desempregado e absolutamente oportunista que quer a história de Ellie com exclusividade para reaver seu emprego (pois é, naquela época provavelmente não existiam notícias mais urgentes). O que pode acontecer quando estas figuras totalmente odiosas – e que detestam-se mutuamente com a delicadeza de uma bigorna – são forçadas a seguir viagem lado a lado?

Onde encontrá-los: na divertida comédia ianque Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934), de Frank Capra, um dos três únicos longas-metragens da história a papar os cinco Oscars principais – filme, ator, atriz, diretor e roteiro.

• T. R. DEVLIN & ALICIA HUBERMAN (Cary Grant & Ingrid Bergman)

Quem são os ditos cujos? Alicia Huberman é uma graciosa jovem que, em 1946, mergulha em um inferno astral ao ver seu pai ser preso e condenado por espionagem à favor do governo alemão. Para se livrar da imagem negativa ocasionada pelo incidente, Alicia concorda em servir de espiã disfarçada na caça a supostos agentes nazistas escondidos no Brasil (sim, aqui mesmo). Forçada a casar-se com um provável espião inimigo por conta das investigações, Alicia se vê numa enrascada. O problema, ninguém sabe, é que ela e o agente americano T. R. Devlin, seu superior, são apaixonados e mantém um tórrido romance em segredo… Detalhezinho que pode detonar uma crise de proporções catastróficas, destruir a missão e também provocar a ira do alemão Alexander Sebastian, o tal marido de Alicia.

Onde encontrá-los: no aterrador suspense Interlúdio (Notorious, 1946), um dos mais elogiados trabalhos de Alfred Hitchcock em sua gloriosíssima fase p&b.

• BO DECKER & CHÉRIE (Don Murray & Marilyn Monroe)

Quem são os ditos cujos? O cowboy de rodeios Beauregard Decker, mais conhecido como Bo, é um grandalhão inocente, burro, totalmente tapado, que chega em Phoenix, Arizona. Lá, apaixona-se perdidamente pela sensual e delicada cantora de saloon Chérie. Sem pensar duas vezes, Bo, bronco que só ele, pede Chérie em casamento, sem ao menos questionar seu passado ou dar um tempinho para conhecê-la melhor. Obviamente, a meiga Chérie, que já não queria nada com o sujeito, recusa o pedido. Mal sabia a garota que o seu sonoro “não” daria a partida em uma série de confusões inocentemente causadas por Bo, que não pretende sossegar enquanto não conseguir conquistar a cantora – nem que, para este fim, faça Chérie passar pelas mais absurdas, estúpidas e constrangedoras situações…

Onde encontrá-los: na deliciosa comédia Nunca Fui Santa (Bus Stop, 1956), de Joshua Logan, considerado um dos melhores filmes da curta carreira da diva Marilyn Monroe.

• FREDERICK CLEGG & MIRANDA GREY (Terence Stamp & Samantha Eggar)

Quem são os ditos cujos? O introvertido, tímido e silencioso Frederick Clegg, funcionário público londrino, tem dois estranhos hábitos: colecionar borboletas (o que lhe é motivo de freqüente gozação) e observar a jovem Miranda Grey à distância, a quem ama de longa data. Miranda, endinheirada, linda e habituada a ser o centro das atenções, sequer sabe da existência de Frederick; este, por sua vez, é consciente de que uma garota como Miranda, com o mundo a seus pés, jamais dirigiria o olhar a um exímio representante da plebe, como ele. Ao ganhar uma bolada na loteria, porém, Frederick vê uma luz no fim do túnel. Afasta-se de todos, pede demissão, compra uma casa no meio do nada e… seqüestra Miranda, mantendo-a em cativeiro até que ela se apaixone por ele à força. E é melhor que isto aconteça, e rápido. Senão…

Onde encontrá-los: em O Colecionador (The Collector, 1965), uma trágica história de amor e morte dirigida por William Wyler.

• ETIENNE NAVARRE & ISABEAU D’ANJOU (Rutger Hauer & Michelle Pfeiffer)

Quem são os ditos cujos? No século XIII, em plena época medieval, Isabeau D’Anjou e o capitão da guarda Etienne Navarre são extremamente apaixonados um pelo outro. A afeição do casal é tão intensa que desperta a cólera do tenebroso Bispo de Áquila. O cara, que deseja Isabeau como escrava sexual, é rejeitado por ela a favor do capitão Navarre. O Bispo, furioso, decide vingar-se dos amantes, rogando-lhes uma terrível maldição: durante o dia, a moça transforma-se em um falcão; e durante a noite, Navarre vira um lobo. Assim, jamais poderão encontrar-se em sua forma humana e consumar seu amor. Para quebrar o feitiço e acabar com a vida do ardiloso Bispo de Áquila, o casal conta com a ajuda de um padre meio pancada, Imperius, e de Phillipe Gaston, um hilário saltimbanco foragido das masmorras da cidade.

Onde encontrá-los: em O Feitiço de Áquila (Ladyhawke, 1985), de Richard Donner, um clássico do cinema oitentista que nunca mais foi reprisado na gloriosa Sessão da Tarde – e, diga-se de passagem, anda fazendo falta.

• DAMIEL & MARION (Bruno Ganz & Solveig Dommartin)

Quem são os ditos cujos? Damiel não é um ser humano. Damiel é um anjo. Invisível aos humanos, Damiel é uma entidade que vive há milênios na superfície da Terra e atualmente percorre as ruas de Berlim, auxiliando e confortando toda e qualquer alma solitária e depressiva que encontra em seu caminho. Damiel, entretanto, não é como os milhões de anjos espalhados pelo planeta. O que o difere de outras entidades é o fato de ser absurdamente infeliz. Damiel está cansado de enxergar em preto e branco, de não poder sentir em sua pele o que os humanos podem sentir: medo, angústia, dor, desejo, amor… Tudo o que Damiel mais deseja em sua existência é, um dia, tornar-se mortal e poder ter o privilégio dos sentidos. Ele não quer confortar: ele quer sentir e ser confortado. Sua vontade torna-se obstinação quando Damiel conhece uma mortal, a sublime trapezista Marion, e apaixona-se por ela.

Onde encontrá-los: no maravilhoso Asas do Desejo (Les Ailes Du Désir/Der Himmel über Berlin, 1987), de Wim Wenders, indiscutivelmente um dos longas mais belos que o cinema contemporâneo já viu; não confundir com sua refilmagem, Cidade dos Anjos, que não honra seu antecessor mas também tem muito charme.

• TOMEK & MAGDA (Olaf Lubaszenko & Grazyna Szapolowska)

Quem são os ditos cujos? Tomek é um jovem de 19 anos, órfão, ermitão e problemático, que mantém uma arrasadora paixão platônica por Magda, sua vizinha, mulher bem mais velha que ele. Noite após noite, Tomek dedica-se a observar Magda da janela de seu quarto, do apartamento onde mora com a mãe de um amigo ausente. Não contente em apenas contemplá-la, o rapaz faz de tudo para atrapalhar os encontros de Magda com outros homens e até forja situações estapafúrdias apenas com o intuito de estar próximo a ela. Depois de um incidente, Tomek não vê outra saída a não ser revelar-se a Magda. Esta, fascinada com a inocência e a humildade de Tomek, decide investir em um relacionamento com o garoto. O que pode não ser exatamente uma boa coisa…

Onde encontrá-los: no intrigante drama romântico polonês Não Amarás (Krótki Film o Milosci, 1988), o trabalho que apresentou o saudoso cineasta Krzysztof Kieslowski ao mundo.

• SAILOR RIPLEY & LULA PACE FORTUNE (Nicolas Cage & Laura Dern)

Quem são os ditos cujos? Sailor Ripley é um sedutor indivíduo que acabou de sair da prisão, onde passou quase dois anos enclausurado por matar um homem que o atacara com uma faca. Lula Pace Fortune é uma turbulenta garota que gosta de se autodenominar “mais quente que o asfalto da Georgia”. Lula e Sailor mantém um romance tão tórrido que quase chega a ser incendiário. Sufocada por sua rotina e tarada por novas aventuras, Lula decide fugir com Sailor pelos EUA afora; Marietta, mãe de Lula, já não batia muito bem da cabeça e, quando descobre que sua filha fugiu com o meliante, enlouquece de vez e jura por Deus que Sailor e Lula jamais ficarão juntos, nem que um deles, ou os dois, tenham que morrer por isto – o que ninguém sabe é que Marietta tem lá suas taras por Sailor… Assim, a doida contrata o detetive particular Johnnie Farragut com o objetivo de caçar os dois amantes. Mas Lula Pace Fortune e Sailor Ripley, praticamente duas bombas-relógio ambulantes, não serão detidos tão facilmente.

Onde encontrá-los: no bacanésimo Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990), mais uma impressionante sandice do senhor David Lynch.

• JESSE & CELINE (Ethan Hawke & Julie Delpy)

Quem são os ditos cujos? O norte-americano Jesse e a francesinha Celine encontram-se casualmente em um trem que segue de Budapeste para Viena. Ela segue para a França, onde deverá estar até o dia seguinte, enquanto ele prepara-se para voltar aos Estados Unidos. Começam a conversar e descobrem pequenas afinidades. A chegada à Viena desperta um senso aventureiro em Jesse, que sugere uma loucurinha à Celine: descer do trem e aproveitar a noite para conhecer e explorar a cidade. A noite, regada a drinques, conversas e passeios a lugares históricos, desperta gradativamente a paixão entre eles. Há, entretanto, uma iminente verdade: dentro de algumas horas, Celine voltará à França e Jesse, aos States. Cabe ao casal, então, degustar o pouco tempo que lhes resta para alimentar este sentimento.

Onde encontrá-los: no cativante e inteligente cult movie Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995), e em sua impressionante seqüência, Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004), ambos dirigidos com maestria por Richard Linklater. Ah, e também em Waking Life (2001), do mesmo diretor, onde o casal tem uma minúscula participação em forma de desenho animado…

• BEN SANDERSON & SERA (Nicolas Cage & Elisabeth Shue)

Quem são os ditos cujos? Ben Sanderson e Sera conhecem-se depois de um acidente em Las Vegas. Ben, ex-roteirista hollywoodiano, perdeu tudo o que tinha por conta de seu alcoolismo, e se mandou para Vegas com o objetivo de instalar-se em um hotel, comprar o máximo de bebidas que seu dinheiro permitir… e beber até morrer. Sera, doce e sofrida prostituta, passa os dias a sofrer toda e qualquer espécie de humilhação por conta de sua atividade, e ainda é obrigada a agüentar os maus-tratos de seu cafetão Yuri. Ben e Sera, duas pessoas rejeitadas pela sociedade, apóiam-se um no outro e apaixonam-se de imediato: enquanto a prostituta acredita em Ben como uma última oportunidade de escapar de sua tenebrosa existência, Ben quer apenas a agradável e angelical companhia de Sera enquanto realiza sua “transição”.

Onde encontrá-los: em Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995), de Mike Figgis, talvez o romance mais assustadoramente trágico e depressivo já visto no cinema.

• OTTO & ANA (Fele Martínez & Najwa Nimri)

Quem são os ditos cujos? Otto e Ana são dois jovens que se amam desde o momento em que se conheceram, quando ainda eram crianças. Otto bate os olhos em Ana e descobre de imediato que ela é predestinada a ser a mulher de sua vida; Ana bate os olhos em Otto e entende instantaneamente que a alma de seu pai, falecido recentemente, está no garoto. Otto e Ana conviveram pacificamente e silenciosamente todos os dias, da infância até a juventude, visto que o pai de Otto abandonou a mãe do menino (que cometeu suicídio em seguida) para viver com a mãe de Ana. Juntos, descobriram o amor, o sexo e também a dor. Otto sabe que ele e Ana estão ligados de alguma forma cósmica pelo resto de suas vidas, e o rapaz tem provas disso; uma destas provas é o fato de seus nomes representarem palíndromos. A crença no destino e na força de seu amor faz com que Otto rebele-se contra a autoridade paterna e, numa atitude desesperada, fuja de casa e parta numa perigosa jornada rumo ao final do Círculo Polar Ártico. Ana irá atrás dele.

Onde encontrá-los: em Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes del Círculo Polar, 1998), do espanhol Julio Medem, considerado por muitos não somente um filme, mas uma experiência de sentidos. De fato, sua narrativa inovadora e suas cenas-quase-pinturas representa um grande desafio às formas convencionais de se fazer cinema.

• O HOMEM & A MULHER (Sergi Lopez & Nathalie Baye)

Quem são os ditos cujos? O homem e a mulher, ambos na faixa dos 40 anos, dois personagens sem nome, encontram-se casualmente em um café parisiense. Ela publicou um anúncio em uma revista, à procura de um homem com a qual pudesse realizar uma fantasia sexual sem compromisso. Ele respondeu ao anúncio. Ela é categórica ao afirmar que não quer nenhum envolvimento além daquele dia, daquela transa. Ele consente. Depois do ato, entretanto, combinam um novo encontro, para a próxima semana. Seguem-se vários outros encontros. Sem entrar em detalhes de suas vidas, o homem e a mulher conversam, trocam confidências, realizam fantasias. Até que um dia, a mulher sugere ao homem que não realizem a fantasia, e sim apenas… façam amor. Com este detalhe, enfrentam um problema: além do desejo carnal, agora existe a paixão. E com a paixão, chega também as crises, as brigas e as dúvidas…

Onde encontrá-los: no lírico Uma Relação Pornográfica (Une Liaison Pornographique, 1999), de Frédéric Fonteyne, que de pornográfico não tem nada. É, sim, um drama curto (pouco mais de uma hora de projeção), tocante e muito criativo.

• MAURICE BENDRIX & SARAH MILES (Ralph Fiennes & Julianne Moore)

Quem são os ditos cujos? Maurice Bendrix é escritor e vive na Inglaterra de 1939, às vésperas da guerra. Certa noite, encontra ocasionalmente um amigo de longa data. Este amigo, chamado Henry Miles, lhe confidencia um segredo; ele suspeita da fidelidade de sua esposa, e pede a Maurice que investigue a jovem senhora. Mas Maurice tem outros motivos para aceitar o pedido: num passado bem próximo, ele e a esposa de Henry, Sarah Miles, foram amantes; em um acontecimento ultra-bizarro, horas depois de lhe jurar amor eterno, ela simplesmente desapareceu de sua vida. O que aconteceu? É o Maurice quer descobrir. Só há duas certezas: a chama entre Maurice e Sarah ainda não se apagou. E há muito, muito mais, muito mais MESMO, do que esta história mal-explicada aparenta.

Onde encontrá-los: em um dos longas-metragens mais arrepiantes da década de 90, Fim de Caso (The End of the Affair, 1999), de Neil Jordan. Assista com o mínimo de informação possível – e preparado(a) para o baque no final.

• BODO RIEMER & SISSI SCHMIDT (Benno Fürmann & Franka Potente)

Quem são os ditos cujos? A caladona Simone Schmidt, mais conhecida como Sissi, é uma tímida enfermeira que trabalha e mora em um decadente hospital psiquiátrico. Sissi não tem outra vida a não ser dedicar-se integralmente ao trabalho. Bodo Riemer é um ex-soldado e agora marginal, não é muito bem-sucedido neste novo ramo, pra não dizer “totalmente idiota” (!). O primeiro encontro entre os dois é antológico: Bodo provoca um acidente que quase tira a vida de Sissi; ele a salva da morte certa e desaparece em seguida. Sissi apaixona-se de imediato, e Bodo também sente o mesmo, mas as circunstâncias exigem um sumiço. O segundo encontro entre eles, algumas semanas depois, será mais estranho ainda: ao entrar em um banco, ela testemunha um audacioso assalto prepetuado por ele. Como forma de retribuir o favor do encontro passado, Sissi decide auxiliar Bodo em sua fuga. Enquanto fogem, iniciam um relacionamento esquisito, quase platônico… e que pode ser interrompido a qualquer momento, com a chegada da polícia.

Onde encontrá-los: em A Princesa e o Guerreiro (Der Krieger und die Kaiserin, 2000), romance menor, barra-pesada e muito divertido, dirigido pelo mesmo alemão chamado Tom Tykwer que nos presenteou com o hilário Corra Lola, Corra.

• CHOW & LI-SHUN (Tony Leung & Maggie Cheung)

Quem são os ditos cujos? Chow é jornalista e precisa de um lugar pra morar, em plena Hong Kong de 1962. Ele e sua esposa, mulher de negócios que costuma praticamente viver no escritório, mudam-se para um pequeno prédio habitado por nativos de Xangai. Assim como Chow, a belíssima secretária Li-Shun é nova no prédio e também é casada, mas mal vê seu marido – como representante comercial de uma conceituada empresa japonesa, o esposo de Li-Shun viaja mais do que fica em casa. Chow e Li-Shun, que são vizinhos, não conseguem habituar-se ao fato de passar grande parte do tempo sozinhos. Por conta de suas situações semelhantes, iniciam uma amizade ora fria, ora gratificante, regada a noitadas em jantares e carteado na companhia dos vizinhos ao som dos boleros de Nat King Cole… até que descobrem, aterrorizados, que seus respectivos companheiros são também amantes. A traição de seus cônjuges desencadeia outra situação delicada: Chow e Li-Shun sabem que a dor não é pelo “galho”, e sim por também sentirem algo um pelo outro. O que fazer?

Onde encontrá-los: no metafórico Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa/In The Mood For Love, 2000), de Wong Kar-Wai, um difícil, porém brilhante exercício de sentidos.

• PIG & RUNT (Cillian Murphy & Elaine Cassidy)

Quem são os ditos cujos? Pig (apelido de Darin) e Runt (apelido de Sinéad) são dois adolescentes cujos caminhos seguem paralelo desde a maternidade, já que nasceram no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo hospital. Unidos por uma forte amizade (e algo mais) até então, o mundo de Pig começa a ruir com a chegada do 17.º aniversário de ambos: Runt começa a sair com um colega de classe, Marky, o que o deixa doente de ciúmes – embora nada possa fazer, uma vez que não há um envolvimento amoroso entre eles. A relação entre os jovens começa a preocupar os pais e os professores. Aconselhados pela direção da escola, os pais de Runt tomam uma atitude drástica e despacham a garota a um colégio interno distante, ao norte da Irlanda. Mas ficar com Runt é só o que Pig quer na vida, e não será a distância que irá impedi-lo.

Onde encontrá-los: no bacana-porém-obscuro Disco Pigs (2001), estréia da cineasta irlandesa Kirsten Sheridan na direção de longas.

• NINO QUINCAMPOIX & AMÉLIE POULAIN (Mathieu Kassovitz & Audrey Tautou)

Quem são os ditos cujos? Amélie Poulain é uma adorável, inocente e singela jovem francesa que vive sozinha em um apartamento simples e dedica-se às deliciosas coisas simples da vida. A vida de Amélie é tão simples que chega a ser tediosa – até que um dia, ao assistir horrorizada o noticiário que divulga a trágica morte de Lady Di, Amélie descobre um pequeno tesouro escondido em seu apê: uma caixinha cheia de brinquedos e lembranças. A garota descobre que aquela caixa pertenceu a um antigo morador do apartamente, agora um senhor de idade, e dedica-se a encontrá-lo para devolver seus pertences. Objetivo alcançado, Amélie entende sua vocação: trazer felicidade às pessoas. Amélie só fica abalada quando a questão é a SUA felicidade, representada em forma humana na figura do também simplório, sonhador e cheio de manias Nino Quincampoix.

Onde encontrá-los: no adorável O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001), a obra máxima do francês Jean-Pierre Jeunet que nós aqui d’A ARCA não cansamos de assistir! :-)

• BOB HARRIS & CHARLOTTE (Bill Murray & Scarlett Johansson)

Quem são os ditos cujos? Bob Harris é um conhecido e respeitado ator norte-americano que passará alguns dias em Tokyo, Japão, para rodar um comercial. Charlotte também é norte-americana e também está em Tokyo, acompanhando seu marido John, fotógrafo contratado para registrar a turnê de uma banda de rock. Bob, homem em plena crise de meia-idade, sofre por não ter diálogo algum com sua esposa; Charlotte até que tenta, mas não consegue fazer John entender que ela precisa de um pouco de atenção de vez em quando. Bob e Charlotte são estranhos em um mundo visivelmente diferente do seu. Não conseguem dormir e passam madrugadas solitárias no bar do hotel onde estão hospedados, bebendo e fumando. Conhecem-se. Fazem amizade. Conversam. Apóiam-se um no outro para superar a dor silenciosa. Os próximos dias no Japão reservarão algumas surpresas…

Onde encontrá-los: no singelo Encontros e Desencontros (Lost In Translation, 2003), segundo e doloroso trabalho comandado pela excelentíssima senhorita Sofia Coppola.

• CAHIT & SIBEL (Birol Ünel & Sibel Kekilli)

Quem são os ditos cujos? Cahit e Sibel são duas pessoas de origem turca que vivem na Alemanha. Ele é alcóolatra, vive de recolher garrafas em um inferninho sujo e, depois da morte de sua esposa, tudo o que mais deseja na vida é morrer, e o mais depressa possível; ela precisa desesperadamente se livrar das amarras da família que parece odiá-la, e tudo o que faz só serve para denegrir ainda mais sua própria imagem. Quando se conhecem, num situação no mínimo insólita (ambos tentaram suicídio e recuperam-se na mesma clínica), Sibel vê em Cahit uma bela chance de dar adeus a seus entes não-tão-queridos. Assim, propõe-lhe casamento, mesmo não sentindo nada por ele. O caso é que Cahit, por ser turco, será facilmente aprovado pela tradicional família de Sibel. Então, Sibel e Cahit tornam-se marido e mulher. A convivência faz com que o amor surja, mais cedo ou mais tarde… mas com o amor, surge também um corpo de um homem assassinado por Cahit… então…

Onde encontrá-los: no apavorante Contra a Parede (Gegen Die Wand, 2003), co-produção turca-alemã de Fatih Akin, uma das grandes surpresas do Festival de Berlim de 2004. Acredite, é realmente perturbador.

• ANDREW & SAM (Zach Braff & Natalie Portman)

Quem são os ditos cujos? Andrew Largeman, ou simplesmente Large, vive de subempregos e da esperança de conseguir um lugar ao Sol como ator em Los Angeles. Só o que conseguiu foi a fama passageira de um papel de quarterback com problemas mentais em um filme feito para a TV. Forçado a voltar à sua cidade natal, Nova Jersey, por conta do súbito falecimento de sua mãe, Large aproveita a ocasião para “tirar férias” do lítio e dos antidepressivos receitados pelo próprio pai, o psiquiatra Gideon Largeman. Andrew e seu pai não se falam direito, por conta de um trauma do passado. Mas Large está disposto a tentar reverter este quadro e dar um trato definitivo em sua medíocre existência. Não será fácil. Não, pelo menos até Large conhecer e previsivelmente se apaixonar pela doce e carismática Sam, que é mentirosa compulsiva.

Onde encontrá-los: em Hora de Voltar (Garden State, 2004), a surpreendente estréia na direção de Zach Braff, o J.D. de Scrubs.

• TAE-SUK & SUN-HWA (Hee Jae & Seung-Yeon Lee)

Quem são os ditos cujos? Tae-Suk é um estranho andarilho com uma mania mais estranha ainda: ele costuma invadir casas quando seus donos não estão, não com o intuito de roubar, mas para passar a noite e sentir um mínimo de conforto que jamais sentirá em outras circunstâncias. Como forma de agradecimento pela “hospitalidade”, Tae-Suk faz faxina e pequenos consertos nas residências que invade. Sun-Hwa é uma jovem que tem tudo o que quer, mas deseja escapar do casamento infeliz ao qual está imersa. Ela poderia não ter nada, desde que tivesse liberdade. Tae-Suk conhece Sun-Hwa quando invade uma mansão aparentemente vazia – a não ser pela presença da jovem. O delicado equilíbrio é quebrado. A rápida convivência desperta o amor entre eles.

Onde encontrá-los: no mágico-porém-depressivo Casa Vazia (Bin Jip, 2004), dirigido pelo aclamado diretor sul-coreano Kim Ki-Duk.

• JOEL BARISH & CLEMENTINE KRUCZYNSKI (Jim Carrey & Kate Winslet)

Quem são os ditos cujos? Joel (o autor do parágrafo que inicia esta matéria) e Clementine formam um casal que se conheceu numa praia em Montauk, começou a namorar, morou junto e, assim como muitos romances, dissolveu-se em brigas, tédio e rotina. O que o introspectivo Joel não sabe é que a maluca e imprevisível Clementine adquiriu um asco tão grande por ele que, não contente em apenas botar um ponto final no namoro, submeteu-se a uma inovadora cirurgia capaz de remover qualquer memória do cérebro. Trocando em miúdos, Clementine literalmente apagou Joel de sua mente, a ponto de não mais reconhecê-lo nas ruas, como se o seu passado sequer tivesse existido. Destruído por dentro, Joel resolve contratar os serviços da Lacuna Inc. e passar pelo mesmo processo. Entretanto, no meio da cirurgia, Joel arrepende-se, e empreende uma odisséia dentro de sua própria mente para salvar o que resta das lembranças de Clementine…

Onde encontrá-los: no já clássico Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), de Michel Gondry, uma das mais perfeitas traduções em imagens do que é o termo “o que é o amor”.

FILMES PARA SOFRER NO DIA DOS NAMORADOS
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 25/05/2006
Complemento do especial para as comemorações do Dia dos Namorados de 2006.

Uma resposta para Filmes para Sofrer no Dia dos Namorados

  1. Cássia Alves disse:

    Adorei…. Filmes para sofrer não somente no dia dos namorados.

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