King Kong

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/12/2005.

Desde a primeira notícia sobre King Kong (Idem, 2005), declarei a quem quisesse ouvir que ninguém além de mim neste glorioso website poderia assumir a invejada tarefa de assistir antes de todo mundo (hehehe) e assinar a resenha da esperadíssima versão de Peter Jackson para a clássica e trágica história do gorilão gigante. Tenho meus motivos para tal desespero: sou fanzaço dos filmes de Jackson, dos trabalhos da Naomi Watts, protagonista do filme (se ela fizer filme com a Xuxa, eu assisto sem reclamar), e sobretudo da história do lendário Kong – cuja produção original, aquela de 1933, é uma das minhas fitas prediletas. Envelhecida, mas ainda marcante.

Ainda assim, confesso que tinha certas preocupações. Embora confie bastante no potencial de Jackson, estamos falando de um remake, e todos sabem que tenho certa aversão por remakes (principalmente quando sou fã devoto da versão original). Pra ser bem sincero, nem me fixei tanto neste aspecto, já que defendo que o King Kong de 1933, com seus dinossauros e tal, é uma das poucas produções que mereciam uma nova roupagem, com direito a todos os maneirismos visuais que o cinemão hollywoodiano de hoje permite. O que pegou mesmo foi o estigma O Senhor dos Anéis: até então, sabemos que boa parte do elenco da graciosa trilogia conseguiu exorcizar seus personagens e partir para outros campos sem ficar marcados numa boa; restava saber se Peter Jackson poderia fazer isto.

E o neozelandês conseguiu? Sim, conseguiu. Aliás, não diria somente isto. Peter Jackson sabe que uma boa fita de aventura não depende somente de seqüências impactantes e o roteiro que se exploda – pensamento este que parece reger os últimos filmes de Steven Spielberg, principalmente o patético Guerra dos Mundos (não, não me canso de descer a lenha!). Assim, Jackson soube extrair o que O Senhor dos Anéis tinha de melhor: a junção de entretenimento de qualidade, efeitos visuais impecáveis, atuações dedicadas e roteiro inteligente. Com esta ideologia na cabeça, o cineasta nos fez esperar ansiosos a cada final de ano depois de A Sociedade do Anel e nos deixou com uma dolorosa sensação de orfandade quando entregou o derradeiro O Retorno do Rei.

Esta sensação de abandono, garanto, não existirá em 2005: King Kong é simplesmente embasbacante. Com uma nova ótica e nem um pouco parecida com as milhares de refilmagens e releituras do original, a estrutura do trabalho de Jackson transformou a triste história do macacão numa película grandiosa, depressiva e absolutamente perturbadora. Exageros e faniquitos de fã à parte, não é exagero ou injusto dizer que King Kong é anos-luz superior a TUDO, eu digo TUDO o que surgiu nos cinemas neste ano (e incluo neste meio até Batman Begins e Sin City, dois excelentes e indiscutíveis trabalhos). Quando você sai da sala de projeção, o turbilhão de sentimentos é tão intenso que adjetivos como sensacional, espetacular ou impressionante soam pequenos, muito pequenos, para definir o longa.

Para resumir numa única frase, King Kong é disparado a melhor experiência cinematográfica do ano, um verdadeiro idílio à arte de fazer cinema. E nem venham me xingar sem argumentos: assistam antes de qualquer coisa. É… Peter Jackson sabia o que estava fazendo.

O que torna King Kong uma película tão única, afinal de contas? Duas coisas. A primeira é realizar a façanha de despertar o interesse em um enredo já meio batido e que todo mundo conhece. Sim, todos sabem como esta história termina, e ainda assim a produção prende a atenção e nos comove, nos faz rir, sentir ódio e chorar (prá cacete!) praticamente o tempo todo. O espectador não consegue desgrudar os olhos da tela e descolar o fiofó da poltrona em nenhum momento das suas três horas e dez de projeção. Pois é, três horas e dez, mas que passam como meia hora. E no final, ainda dá aquela sensação de “puxa, queria mais”. Eu mesmo poderia rever o longa mais de uma vez e em seguida…

O outro fator: ao contrário de todas as outras fitas protagonizadas pelo simpático gorila, Peter Jackson nunca nos deixa esquecer a real natureza da trama. King Kong, como ele mostra a cada fotograma, nada mais é do que uma singela e tocante história de amor. Ui, ui, ui. :-)

Então, vamos falar da história: como todos sabem, o poderoso roteiro desenvolvido por Jackson, Fran Walsh e Phillipa Boyens esquece toda e qualquer variação do enredo (incluindo aí o frustrante longa-metragem de 1976, estrelado por Jessica Lange e Jeff Bridges, que cometeu a cagadinha de atualizar o contexto da obra para os dias atuais) e concentra-se no plot do original, com algumas mudanças. Assim, conhecemos a aspirante a atriz Ann Darrow (Watts), que luta para conseguir vencer na vida em Manhattan, no auge da Depressão dos anos 30. Ann não tem dinheiro nem mesmo para comer, e sabe que a única saída para ganhar alguns trocados é tornar-se dançarina de cabaré, mas evita o negócio a todo custo.

Certo dia, Ann cruza o caminho do picareta cineasta Carl Denham (Jack Black, num papel inacreditavelmente sério), cujo contrato com um grande estúdio acabou de ser cancelado depois que os executivos não endossaram seu último projeto. Denham fugiu, levando consigo os rolos do filme inacabado, equipamentos e seu assistente Parker (Colin Hanks, filho daquele-que-não-podemos-dizer-o-nome). O plano: concluir seu projeto em Singapura. Mas para isto, precisa de uma atriz para interpretar a protagonista. Mesmo com um pé atrás, Ann concorda ao saber que o roteirista da tal produção é ninguém menos que o renomado dramaturgo Jack Driscoll (Adrien Brody), seu maior ídolo.

A coisa começa a complicar quando a tripulação do S. S. Venture, já no meio do oceano, descobre que Singapura não é bem o destino de Carl Denham. Na verdade, o diretor está de posse de um mapa que indica a posição da sugestiva Ilha da Caveira, uma suposta ilhota inabitada e não explorada. É lá que Denham quer terminar seu filme. E é lá que a tripulação do cargueiro será atacada por nativos enloquecidos, e Ann, seqüestrada para ser oferecida em sacrifício ao deus-macaco Kong, o último sobrevivente de uma linhagem de gorilas gigantes, que até pensa em devorá-la mas termina caidinho pela moça… Perfeitamente justificável que ele se apaixone. É a Naomi Watts. ;-D

Quanto ao resto da história… bem, nem preciso comentar muita coisa, todos sabem o que acontece a partir daí e como o lance todo acaba (mal). Mas a estrutura linear do script, embora seja a mais simples possível, é bastante cuidadosa. Na primeira hora, totalmente utilizada para a apresentação dos personagens, aprendemos que um dos grandes méritos de Peter Jackson é saber escolher seus atores; não há um que não entregue uma interpretação no mínimo muito boa – com destaque para o alemão Thomas Kretschmann como o destemido Capitão Englehorn, com uma pronúncia da língua inglesa totalmente enxuta; Andy Serkis, o Gollum, em papel duplo (e um deles é o próprio Kong, num processo de captação de imagens idêntico ao utilizado com o ardiloso ex-hobbit); e principalmente Kyle Chandler, do finado seriado Early Edition, intérprete do impagável galã metido a besta Bruce Baxter.

Duas observações: nesta primeira hora, os cinéfilos se deliciarão com as zilhões de referências à meca do cinema da época (incluindo aí uma piadinha bem bacaninha com o elenco do Kong original). A outra observação: quando assume seu outro personagem, o cozinheiro Lumpy, Andy Serkis fica igualzinho ao Popeye, é inacreditável! :-D

Apresentados os personagens, a habilidade em deixar o espectador nervoso toma conta do titio Jackson. E pra valer! Já adianto que King Kong possui pelo menos cinco grandes e eletrizantes seqüências, daquelas que farão qualquer espectador querer rever o filme e até comprar o DVD:

1. O S. S. Venture chega à Ilha da Caveira

O “pega-pra-capá” dá a partida aqui, e de uma maneira beeem nervosa, pode acreditar. Mas o que poderia haver de tão tenso na simples chegada de um navio à uma ilha? Nada… só o fato de a Ilha da Caveira surgir do nada, encoberto pela névoa, a pouquíssimos metros de distância na frente do Venture, que está em alta velocidade! E aos detratores de plantão: não, o design do paredão da ilha NÃO LEMBRA o Abismo de Helm em As Duas Torres, como o trailer deu a entender.

2. O estouro da manada de braquiossauros

O que dizer de uma seqüência que mostra os pobres coitados dos humanos, liderados por Driscoll, tentando fugir de um enlouquecido bando de braquiossauros? E o que dizer quando descobrimos que, além dos enormes herbívoros em disparada, os caras ainda precisam se preocupar com um grupo de… velociraptores assassinos tentando abocanhá-los? Eu digo: UAU! Neste momento, percebemos que Peter Jackson não está para brincadeiras. Afinal, ele não hesita em matar seus personagens, e das maneiras mais grotescas! O momento mais legal de toda esta cena envolve o marinheiro Jimmy (Jamie Bell) e vááários braquiossauros despencando de um precipício…

3. Kong vs. Tiranossauro Rex

No longa original, Kong enfrentava um amigo Tio Roy no mano-a-mano, não sem antes largar sua amada Ann Darrow no topo da árvore mais alta que encontra. Aqui, não há tempo para este ato de inteligência: Kong sai no braço com nada menos que três Tiranossauros AO MESMO TEMPO, e apenas com um braço! Enquanto isto, Ann voa de um lado a outro, passando de mão em mão… Esta seqüência é um ótimo exemplo da perfeição dos efeitos visuais de King Kong, dos dinossauros e da própria Naomi Watts. E a “cena dos cipós” é de fazer roer as unhas das mãos, dos pés e de quem estiver sentado ao seu lado. :-)

4. Kong à solta em Nova York

Uma palavra é o suficiente: CAOS! Afinal, aqui estamos nos anos 30, e esta é a graça do lance todo! Como lidar com uma “ameaça” tão inconcebível naquela época? Chega a ser engraçadíssimo ver Kong, à procura de Ann, agarrando todas as loiras gritantes que vê pela frente e arremessando-as longe quando percebe que nenhuma delas é a garota…

5. Kong vs. biplanos no alto do Empire States

E como não poderia deixar de ser, Peter Jackson guarda os momentos mais aflitivos de King Kong para o seu clímax. A seqüência do macacão no topo do Empire States Building, protegendo sua amada ferozmente dos ataques dos biplanos que tentam derrubá-lo, já entrou para o rol dos momentos mais belos do cinema. E quem tem PAVOR de altura, como eu, deve se preparar. Todo mundo levando um cházinho ou um suco de maracujá para o cinema, por favor. Eu não levei, e quase “chamei o Hugo”. :-P

O centro de King Kong, contudo, não é a pancadaria rolando solta. O que move a fita é justamente o que ela tem de melhor: o relacionamento entre Kong e Ann Darrow. É difícil conter a emoção e não se comover quando vemos Darrow conquistando a simpatia do gorilão com números do teatro vaudeville, ou quando ela tenta, em vão, impedir que Kong sofra a crueldade dos humanos. A ligação emocional entre Ann e o animal move praticamente toda a ação, que ainda aproveita para evidenciar a prepotência dos seres humanos tidos como “racionais” perante às raças tidas como “inferiores”. Se o negócio já é dolorido antes dos chocantes momentos finais, prepare-se para sair do cinema em frangalhos – e a visceral atuação de Naomi Watts é fundamental para que isto funcione.

Depois de tantos elogios tecidos a King Kong, é de se perguntar: “Será que não há um momento ruim sequer nesta fita?”. Eu digo: há um. Um único momento. É o momento em que as luzes da sala de projeção acendem-se, os créditos finais rolam pela tela e você se vê, mais uma vez, de volta à realidade. E então, você finalmente percebe que aquela horrível sensação de abandono e despedida tida com o final da saga de O Senhor dos Anéis será sanada temporariamente pelo amável gorila. É cinema em estado bruto, finalmente provando o real significado da expressão “a magia da sétima arte” e o motivo de tantos referirem-se à indústria cinematográfica como Carl Denham refere-se a Kong: “a oitava maravilha do mundo”.

Que presentão de Natal. Obrigado, Peter Jackson.

CURIOSIDADES:

• Peter Jackson, fã declaradíssimo de King Kong, possui uma vasta coleção de objetos raros utilizados nas filmagens do filme dos anos 30. Muitos destes objetos estão espalhados pelos cenários da nova película. A câmera de mão utilizada por Jack Black para rodar seu filme inacabado é uma Bell & Howell 2079, raridade que vale uma fortuna hoje em dia. O King Kong original foi rodado com uma câmera do mesmo modelo. O chapéu utilizado por Naomi Watts durante o jantar com o personagem de Jack Black é o mesmo utilizado por Fay Wray na versão original.

King Kong seria originalmente rodado em preto-e-branco.

• Num processo semelhante ao utilizado em O Senhor dos Anéis, Andy Serkis teve cerca de 132 sensores de captação de movimentos grudados em sua face. Seus movimentos e suas expressões faciais foram gravadas, codificadas em um microcomputador e transformadas em CGI, de modo que as feições de Serkis pudessem reger as feições de Kong.

• Para compor os maneirismos de Kong, Andy Serkis estudou gorilas selvagens em Rwanda, os mesmos protegidos no passado pela falecida bióloga Dian Fossey (vivida por Sigourney Weaver na bela cinebiografia Nas Montanhas dos Gorilas, de 1988).

• Em certo momento do longa, o personagem de Jack Black, o cineasta Carl Denham, cogita a possibilidade de contratar um certa Fay para atuar no filme a ser rodado em Singapura, mas desiste da idéia ao lembrar que a tal Fay não estava disponível, por conta das filmagens de uma superprodução da RKO Pictures. Ele refere-se a Fay Wray, que, em 1933, assinara contrato exclusivo com a RKO para atuar na versão original de King Kong.

• Muitas tomadas de King Kong, entre elas a cena em que Ann Darrow rouba uma maçã, outra (que só aparece no trailer) em que Denham dirige Darrow apavorada com uma ameaça invisível e também a cena final, são réplicas idênticas de tomadas do King Kong de 1933.

• Peter Jackson recriou no remake uma seqüência que foi rodada em 1933, mas perdeu-se na sala de montagem e nunca mais foi encontrada: a cena em que a equipe de filmagem e os tripulantes do S. S. Venture são atacados por aranhas, pernilongos e besouros gigantes.

• Durante a produção de King Kong, Peter Jackson desenvolveu uma espécie de diário de bordo em vídeo e disponibilizou-o no website de fãs KongIsKing.net. A cada dois ou três dias, Jackson publicava um vídeo apresentado por um membro qualquer da equipe, com detalhes do andamento da produção. Eventualmente, usuários eram convidados para enviar dúvidas e sugestões sobre a película.

• O KongIsKing.net também foi palco de uma brincadeira que animou muita gente – e assustou todo o resto: no dia 1.º de Abril de 2005 (o April Fool’s Day, ou Dia da Mentira), Peter Jackson divulgou uma falsa entrevista, na qual declarava que já iniciara a produção de duas seqüências para o filme do macacão: King Kong: Son of Kong (O Filho de Kong) e King Kong: Into the Wolf’s Lair (Na Toca do Lobo). As supostas produções, que estreariam simultaneamente em 2006, retratariam o filho de Kong lutando contra criaturas geneticamente modificadas por Hitler (?!). Seria MUITO, MUITO BOM se isto acontecesse! :-D

• Kong é descrito no roteiro do novo longa como um gorila da altura de 7.62 metros nas pernas traseiras, exatamente metade do tamanho do macacão do primeiro filme (quase 16 metros). Em comparação a pessoas e objetos, entretanto, percebe-se que os dois gorilas são praticamente da mesma altura. Aliás, no original, é impressionante como Kong “cresce” e “encolhe” durante a projeção… Mas como a fita é beeem velhinha e na época não havia nada parecido no cinema, a gente respeita. ;-)

• Os tiranossauros de King Kong têm três dedos nas mãos, contrariando o que a ciência afirma (dois dedos, segundo os especialistas). Esta é uma das milhares de referências ao King Kong original, já que os bichanos de 1933 também possuiam três dedinhos. Quando questionados sobre a estranha aparência dos dinossauros da Ilha da Caveira, os roteiristas explicaram que, na concepção do enredo, as criaturas da ilhota evoluíram 65 milhões de anos a mais do que os dinossauros que conhecemos.

• Em uma certa seqüência protagonizada por Adrien Brody, é possível ver uma placa com a inscrição Sumatran Rat Monkey (o macaco-rato de Sumatra). Este é o nome da criatura que espalha a maldição dos zumbis num dos longas anteriores de Peter Jackson, o clássico Fome Animal (1992).

KING KONG • EUA/ZEL • 2005
Direção de Peter Jackson • Roteiro de Peter Jackson, Fran Walsh e Phillipa Bowens
Baseado no roteiro de King Kong (1933), escrito por Merian C. Cooper e Edgar Wallace
Elenco: Naomi Watts, Andy Serkis, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Jamie Bell, Colin Hanks, Kyle Chandler, Evan Parke.
189 min. • Distribuição: Universal Pictures.

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