Trekkies 2

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/10/2004.

Documentários são muito legais. O problema é escrever sobre eles. Afinal, tem muita diferença entre elaborar um artigo sobre um longa de ficção e um de não-ficção: geralmente, os documentários tendem a agradar somente àqueles que são bem familiarizados com o tema a ser tratado. Por exemplo: adoro Buena Vista Social Club, o oscarizado doc de Wim Wenders, mas um dos grandes motivos desta adoração é porque sou um pouco chegado na cultura e na arquitetura cubana. Caso contrário, talvez tirasse um belo de um cochilo na sala de projeção. Por isso, ficaria muito mais fácil pra mim falar sobre ele do que para outra pessoa que não gostasse deste universo. O que dificulta a popularização dos filmes documentais (à exceção, claro, de qualquer um do Michael Moore, que dispensa apresentação) é justamente a restrição quanto ao tema abordado. O que não é caso deste Trekkies 2 (2004). E olha que nem sou tão fã assim de Star Trek: Jornada nas Estrelas. Na verdade, não sou chegado mesmo.

Mas como assim? Como alguém pode não ser fã de uma coisa e gostar de um documentário que fala sobre esta coisa? Simples: o trabalho do diretor Roger Nygard não retrata exatamente o universo Star Trek, mas sim o gigante e complexo universo chamado planeta Terra. No primeiro Trekkies, de 1996, Nygard e a atriz Denise Crosby (a tenente Tasha de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, que assina a produção executiva deste documentário) percorreram os EUA na tentativa de compreender o que se passa pela cabeça dos trekkies, ou seja, os aficcionados por Jornada nas Estrelas, aqueles que se fantasiam e tudo mais. Visitaram convenções, conheceram muitos malucos e realizaram assim um dos mais divertidos docs dos últimos tempos. Nesta segunda parte da cinessérie – que ganhará um terceiro capítulo nos próximos anos -, Nygard e Crosby vão além: os dois e sua equipe viajam nada menos do que sete países e, meio que sem querer, não só retratam os costumes de cada local (mesclados com a mitologia do seriado, claro) como traçam um belo e comovente painel da intolerância no mundo. Mas o que mais impressiona é notar que um simples seriado lançado há mais de 30 anos ainda mexe (e transforma) com a vida de muita gente.

O trajeto começa em Bonn, Alemanha, onde a trupe visita a FedCon, uma das mais conhecidas convenções para fãs do planeta. Lá eles participam do Trek Dinner – nada mais do que um jantar vulcano – e Denise Crosby conhece um rapaz que está rodando um filme amador que narra a juventude do Capitão Kirk. Muito estranho! Em seguida, Crosby se manda para a Inglaterra, mais exatamente ao bairro de Hinckley, onde um fã simplesmente construiu o interior de uma espaçonave dentro de sua casa – isolando, com isto, todas as janelas e entradas de ar. Esta casa, aliás, está à venda no e-Bay por US$ 2 milhões… Neste segmento do filme, aprendemos que é extremamente prejudicial à saúde chegar na Inglaterra e chamar um trekkie de “Anorak”! Assista e entenda o porquê. :-D

Já na Itália, Nygard é convidado a ir à 17.ª Convenção Italiana de Star Trek, onde registra pelo menos dois fatos muito bizarros: uma mulher que realmente acredita ser uma klingon, e um padre que fundou uma igreja em que os fiéis possam ir “caracterizados” de seus personagens preferidos do seriado sem ser recriminados. É absolutamente hilariante ver o pároco recitando diálogos entre Picard e Q no lugar do evangelho (!). O Brasil também está lá: em São Paulo, Denise conhece o Trek Dia Feliz (em que fãs se reúnem para uma festa regada a “teatro vulcano”), um colecionador obcecado e também a loja USS Brazil, conhecida no país inteiro. Na França, de todos os países sem dúvida o mais preconceituoso, trekkies desabafam sobre a rotulação por parte dos considerados “normais”. Um francês explica neste segmento que só conseguiu se formar no colégio depois de se tornar obcecado pelos filmes da série e, por tabela, aprender inglês com eles.

A Austrália corresponde aos momentos mais engraçados do filme. É lá que Nygard retrata um grupo de senhoras de idade que se tornou trekkie única e exclusivamente por causa do “calor” que sentiam quando viam qualquer homem vestido com o uniforme de Star Trek, em especial o ator Connor Trinneer (intérprete do comandante Trip Tucker em Enterprise). E a parte mais incrível de Trekkies 2 é, sem sombra de dúvidas, quando Crosby chega à Sérvia e descobre que o país, mesmo devastado pela guerra, tem um núcleo forte e muito unido de fãs. É quase impossível não se emocionar quando algumas pessoas falam em como o seriado criado por Gene Roddenberry o ajudam a manter a sanidade no lugar e a esperança num mundo melhor e menos violento.

Mas ninguém supera os americanos em termos de “excentricidades”: em Baltimore, um homem discutiu com um policial por causa da espada klingon de um de seus gatinhos (!). Na pequena cidade de Little Rock, uma senhora se tornou celebridade instantânea por desafiar as autoridades ao participar de um julgamento como jurada usando o uniforme da tripulação da Enterprise (!!). Esta mesma mulher se engaja numa discussão calorosa com um funcionário da loja em que trabalha. O motivo: este cara teve a infeliz idéia de declarar a ela sua preferência por Star Wars (!!!). Em Minneapolis, um fã move mundos e fundos para rodar uma fita amadora que joga o Capitão Kirk e o Dr. Spock em pleno Velho Oeste (!!!!). E na sede da Paramount Pictures, em Los Angeles, os executivos do estúdio mostram um projeto enviado por um trekkie que envolve um ataque à Enterprise comandado por um caranguejo gigante (!?!?!).

Nygard também aproveita a estadia nos States e revisita o jovem Gabe Köerner – de 21 anos, projetista de efeitos especiais e nerd absoluto retratado no longa anterior, autor da frase “Esta é a pior hora pra você ligar, suma daqui!”, que marcou o primeiro filme e se tornou chavão entre os trekkies -, que atualmente recebe cartas e e-mails fogosos de meninas (e homens também) loucas para tirar a virgindade do garoto… Hehehe! E o tal Köerner já foi convidado até do Drew Carey Show!

Até então, Trekkies 2 aparentemente é um longa muito engraçado. Sim, realmente é. Mas por que é universal? Bem, durante a projeção, Nygard nos revela detalhes emocionantes: no Trek Dinner, na Alemanha, todo o dinheiro arrecadado é doado para hospitais. Na Austrália, uma garota que sofria de depressão foi salva do suicídio depois de assistir a um capítulo da série. Nos Estados Unidos, talvez o momento mais bonito de todo o filme, uma senhora cujo filho morreu por conta de uma doença grave teve ajuda negada pelo governo, e só pôde pagar os remédios e o enterro do garoto depois de receber ajuda voluntária de uma comunidade trekkie.

O que Roger Nygard quer nos deixar claro é que, para estes fãs, o fato de se fantasiar e alimentar uma obsessão quase doentia por Star Trek é apenas uma possibilidade de formar um núcleo de pessoas baseado apenas na amizade, sem distinção de raça, cor, credo, sexo e sexualidade. Ao final, com este registro alegre e comovente, entendemos que as manias de cada um não são nada perto da complexidade das relações humanas, e se cada um pudesse fazer o favor de ser um pouco mais tolerante com o próximo, o mundo seria um lugar bem melhor pra se viver. E ninguém precisa ser fã de ninguém pra se engajar neste grupo muito especial. Quer algo mais universal que isso? :-)

TREKKIES 2 • EUA • 2004
Direção de Roger Nygard • Roteiro de Roger Nygard
Elenco: Denise Crosby, Gabriel Köerner, Connor Trinneer, Casey Biggs.
93 min. • Distribuição: UIP/Paramount.

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