Not Too Late

Crítica de Música – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/02/2007.

A esmagadora maioria dos pobres mortais brazucas certamente deve lembrar daquela gracinha chamada Norah Jones apenas por uma de suas canções, a arrasadora Don’t Know Why, que ilustrou há algum tempo uma novela global que, sinceramente, não me lembro e prefiro nem lembrar – esta mesma canção, por sinal, é um dos carros-chefes de seu primeiro álbum, o excelente Come Away With Me, de 2002 (que vendeu nada menos que 20 milhões de cópias em todo o planeta). E digo isso porque Norah Jones é o oposto da maioria das cantoras/bandas da atualidade em dois aspectos: a) ela não precisa mascarar uma suposta falta de talento com decotes, rebolados e letras pornográficas e ofensivas, e b) ao contrário de quase tudo que está nas paradas, Jones REALMENTE é ótima naquilo que faz, e não apenas um par de peitos siliconados, uma bunda gigante e uma dose cavalar de vulgaridade.

E por qual razão Norah Jones é praticamente ignorada por boa parte do público? Simples: aparentemente, não há espaço nas paradas para a mistura de jazz, blues, folk e country que é a marca registrada da menina. Isto diz respeito à qualidade do trabalho de Norah Jones? Claro que não – e no meio de tanto lixo fonográfico que somos obrigados a engolir, do insuportável hip-hop cometido por Beyoncé Knowles ao pseudo-punk de coisas como My Chemical Romance, é praticamente uma bênção divina poder relaxar ao som do piano triste, do violãozinho nada agressivo e da voz rouca de Norah Jones. Na boa, dá para contar nos dedos de uma única mão os artistas de hoje que me fazem querer gastar o dinheiro que for comprando um CD, e esta aqui é um destes poucos artistas sim.

Seu terceiro álbum, Not Too Late (2007), que finalmente chega às lojas com uma invejável reputação – afinal, o disco, produzido por Lee Alexander (namorado de Norah), conseguiu bater até o Confessions Tour de Madonna nas paradas britânicas -, não passa de uma afirmação do enorme talento de Jones como cantora, como instrumentista e como compositora. Se o estilo aplicado em Come Away With Me e no belo Feels Like Home (2004), seu segundo disco, mantém-se quase intacto, é em suas letras que nota-se como Norah Jones vêm amadurecendo a cada álbum que lança. E é de se admirar quando sabemos que todas as 13 faixas que compõem o álbum saíram exclusivamente da cabeça da garota.

É verdade, porém, que é necessário um mínimo de apego ao gênero folk para curtir as músicas da moça e principalmente este Not Too Late. Suas faixas exploram de maneira ainda mais profunda o estilo que Norah Jones delineou em seus trabalhos anteriores – curiosamente, enquanto artistas como Nelly Furtado começaram suas carreiras demonstrando muito talento, perderam-se no meio do caminho e renderam-se gananciosamente ao pop-rapper-dance-bundinha-várzea (!), Norah Jones ousa dar o ponto de partida interpretando o que gosta de interpretar e mergulhando de cabeça neste mesmo estilo. Graças aos céus, jamais precisaremos ver Norah Jones protagonizando um clipe usando roupas mais finas que um fio de nylon (!) ou fazendo duetos com criaturas das profundezas como Jay-Z e Ja Rule. :-P

Os fãs já notarão o sutil amadurecimento na faixa de abertura, a fabulosa Wish I Could, onde o habitual piano de Norah é substituído por um violão e dois violoncelos. A partir daí, é só depressão (hehehe), no melhor sentido da palavra: valendo-se de poucas canções mais alegres, como as bacaninhas Sinkin’ Soon e Little Room, o disco usa e abusa de composições melancólicas, mas nunca chatas, como Wake Me Up e Rosie’s Lullaby. Mas claro que “melancolia” não está obrigatoriamente associada a “amor de juventude”, como a gente imagina logo de cara. Um belo exemplo é a ótima The Sun Doesn’t Like You, composta durante a passagem de Norah pelo Brasil em sua turnê, e também a macabrésima My Dear Country – sério, a letra dessa música é bizarra! Afe maria. :-)

Se há uma pá de faixas bem trabalhadas, porém, confesso que senti falta de alguma canção marcante e destruidora, como o é Sunrise no segundo álbum, e Don’t Know Why e principalmente Nightingale no primeiro. Por outro lado, existem pelo menos três faixas em Not Too Late que merecem (muito) destaque: a própria The Sun Doesn’t Like You, a bela Thinking About You – que já ganhou um clipe bem esperto (exibido constantemente pela Multishow e pela VH1) e provavelmente será usada em alguma maldita novela global num obscuro futuro próximo – e a faixa-título, Not Too Late, que encerra o disco de forma simplesmente genial. Talvez a melhor faixa do CD, e olhe que é difícil escolher uma melhor entre 13 músicas tão bacanas.

Sendo assim, ficou mais do que claro que Not Too Late é um CD essencial para aqueles que são meio chegadinhos em um folk suave e beeem pra baixo. Fanzoquices à parte, até mesmo porque já cansei de comentar por aí o quanto sou fã da mocinha aí, Not Too Late leva com facilidade o título de melhor álbum da carreira de Norah Jones até então, justamente por apresentar o velho estilo adotado pela intérprete aliado a um violento amadurecimento de letras, de arranjos e de idéias. Fora com as várzeas que só sabem rebolar! Viva a voz rouquinha de Norah Jones! E já estou guardando dindim para o próximo disco. ;-)

NOT TOO LATE • NORAH JONES • EUA • 2006
Line-Up: Norah Jones (vocais, piano), Lee Alexander (baixo), Andrew Borger (bateria), Jesse Harris (guitarra).
13 faixas • 46 min. • Distribuição: Blue Note Records/EMI.

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