Lavoura Arcaica

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/10/2005.

Impossível falar de cinema brasileiro e deixar de comentar ao menos uma linha sobre o ódio com que os próprios cinéfilos e não-cinéfilos conterrâneos encaram as produções cinematográficas de nossa querida terrinha. E quer saber? Por mais que este que vos fala seja um entusiasta do nosso cinema, ou pelo menos de alguns exemplares, não condeno e em muitos casos até concordo com este pé-atrás que o público brazuca arreda quando o assunto é cinema nacional.

Por quê? Simples. É só olhar para as produções made in Brazil que chegaram às telonas após a retomada, no início dos anos 90. Filmecos como o fraco Mais Uma Vez Amor, o verborrágico Quanto Vale ou é Por Quilo e principalmente Coisa de Mulher – indiscutivelmente uma das coisas mais escrotas já lançadas por aqui – estão aí para provar que, quando não querem apenas arrancar dinheiro do espectador desavisado com subprodutos de significância zero, querem somente servir de palanque para discursos panfletários. Com pseudo-produções como estas citadas acima, que infelizmente correspondem à maior parte de nosso acervo, é perfeitamente justificável que o público fuja de seu cinema. E olhe que nem cheguei na parte dos filmes das apresentadoras infantis e dos padres superstars! Ugh! Esta subdivisão cruel eu prefiro nem citar, para poder dormir em paz à noite, sem ser perturbado por pesadelos. :-P

Para nossa sorte, nem tudo é tragédia: há também muita coisa boa correndo por aí. Fitas como Casa de Areia, Jogo Subterrâneo e o fascinante Cabra-Cega mostram que os cineastas brazucas podem, sim, produzir coisas de qualidade. Não à toa, Walter Salles e Fernando Meirelles iniciaram recentemente a construção de uma promissora carreira lá fora, graças às películas que assinaram. Ainda assim, não há como negar que falta uma produção que represente um divisor de águas, falta um filme que marque na memória do espectador durante muito tempo.

Faltava.

Eis que, depois de quatro anos de espera, finalmente chega ao formato DVD aquele que é considerado pelos críticos como a primeira e até agora única obra-prima produzida pelo Brasil após a retomada: Lavoura Arcaica (2001), a polêmica estréia do diretor de novelas Luiz Fernando Carvalho na direção de longas-metragens. A produção já está disponível para aluguel a partir deste mês e será lançada nas lojas para venda direta em dezembro. Uhúúú! Quem quiser, pode aproveitar o 13.º e me presentear com este DVD. Eu não fico chateado, juro. :-D

Este lançamento, pelo selo da Europa Filmes, foi recebido com festa pelos cinéfilos tupiniquins (inclusive eu, claro!). Pois Lavoura Arcaica – que fez relativo sucesso em mostras e festivais internacionais – é um magnífico exercício de sentidos que quase não foi visto por aqui, e também de perseverança; por pouco o filme não desapareceu para sempre. Construiu uma bem-sucedida carreira nas Mostras do Rio e de São Paulo e, em seguida, ganhou um discreto lançamento nas salas comerciais – o que não diz muito, já que a película sofreu um belo boicote de boa parte dos exibidores que, numa atitude pra lá de hipócrita, simplesmente recusaram-se a exibir Lavoura Arcaica, reservando à fita o trágico destino de mofar no circuito alternativo. Isto, lá pelo ano de seu lançamento: 2001. Depois, Lavoura Arcaica evaporou dos cinemas e nunca mais ouviu-se falar dele. Fez “puf”, o coitado. :-P

Como se não bastasse tudo isto, Lavoura Arcaica quase não viu a luz do Sol, já que seus produtores, como exigência para lançá-lo, queriam que Luiz Fernando Carvalho reduzisse a metragem da fita de quase 170 minutos para 110 minutos. Quase 40% de história poderia parar no chão da sala de montagem! O diretor, que não é bobo, preferiu manter seu trabalho intacto e no limbo a vê-lo mutilado.

E por que este bafafá todo? Bem, o lance é que Lavoura Arcaica é realmente diferente de tudo o que já foi visto nas telonas desde que Carlota Joaquina renovou o interesse do público para seus próprios filmes. Pra começar, Lavoura Arcaica é a transposição para as telas do cultuadíssimo romance do paulista Raduan Nassar (autor de Um Copo de Cólera, que também ganhou as telonas) que, mesmo com apenas 180 páginas de livro de bolso e com letras garrafais, traz uma composição ultracomplexa e era até então tido como infilmável. Isto, porque o enredo do romance é quase 100% contado através de metáforas, e metáforas beeeem complicadas de se pescar. Luiz Fernando Carvalho não só traduziu estas metáforas em imagens à perfeição e quase totalmente fiel aos escritos originais, como ainda conseguiu a proeza de imprimir ao longa seu indefectível estilo narrativo, visual e fotográfico, tão bem explorado em seus trabalhos para as telinhas, como Renascer.

Mas antes que você, caro usuário, largue este texto pela metade e corra para a locadora mais próxima, já vou avisando: não é qualquer um que conseguirá gostar de Lavoura Arcaica. Aliás, digo sem culpa e sem medo de errar que muitos detestarão a fita com todas as forças. Afinal, estamos falando de um filme de três horas, quase totalmente apoiado no silêncio, na lentidão, nas imagens arrebatadoras e em significados ambíguos para contar uma história difícil e mais do que espinhuda. Ui! :-P

Se você duvida, olha só a trama: na primeira seqüência da fita, André (Selton Mello, perfeito), hospedado em um sebento quarto de pensão, recebe a visita de seu irmão mais velho, Pedro (Leonardo Medeiros). Pedro recebeu a tarefa de levar o irmão de volta à fazenda de onde André fugiu há algum tempo. André, torturado por um incômodo sentimento de liberdade – liberdade esta que definitivamente não existe sob as asas da família -, não resiste à ordem, mas sabe que seu retorno pode representar o prenúncio de uma tragédia. No caminho de volta, André revisita em pensamento os motivos que o fizeram fugir: a repressão e a rigidez do pai (Raul Cortez) e o amor excessivo e sufocante da mãe (Juliana Carneiro da Cunha).

O motivo maior, entretanto, André esconde a sete chaves e, caso seja revelado, pode trazer sérios problemas à tão sagrada estrutura da famíla: André é apaixonado por Ana (Simone Spoladore), sua própria irmã. Uma paixão puramente sexual, diga-se de passagem. E o pior de tudo é que este amor pode ser correspondido. Viu, falei que o negócio era brabo! Eu, hein. :-P O fato é que o sentimento que André nutre por Ana funciona mais como outra metáfora; o conflito do rapaz é basicamente entre se entregar à liberdade e tentar alcançar uma felicidade que pode ser falsa (a libertação da natureza, a lavoura) ou manter-se à sombra e carregar “o peso da família nos ombros” (o conservadorismo ultrapassado, arcaico).

Tema muito pesado? Sim, não resta dúvidas. A história incomoda? Bastante. O bacana é que Lavoura Arcaica não é restrito a isto. Nas duas horas e quarenta e cinco minutos de duração, Luiz Fernando Carvalho estraçalha todas as convenções ao qual tem direito. Questiona o sentido da união da família, defende os desvios morais de cada um de seus personagens e provoca a religião que, em sua visão, parece estar mais preocupada em condenar do que perdoar e absolver – uma prova disto é a cabeludíssima seqüência em que André declara-se a Ana na base do “5 contra 1″… no altar de uma capela (!). O que não significa, de modo algum, que as situações sejam gratuitas: Carvalho dirige a trama com tamanha sensibilidade que não há como não se comover com o turbilhão de sentimentos que dominam os personagens.

Enquanto destrói convenções, entretanto, a câmera de Carvalho apresenta ao espectador uma seqüência de imagens que, de tão harmoniosas, geraram ao filme o glorioso apelido de “poesia filmada”. A junção das cenas e dos fortes e excelentes diálogos, retirados dos escritos de Nassar com o máximo de semelhança possível, resultam em seqüências bem inspiradas, como a visão de André sobre os lugares à mesa de cada um dos integrantes do clã – uma comparação bastante oportuna com as ramificações dos galhos de uma árvore -, o lirismo de alguns atos do personagem, como esmiuçar a terra e cobrir-se com folhas (algo que faz o tempo todo) e o tenso e hipernervoso diálogo entre André e o pai. Esta última seqüência, por sinal, desafia qualquer um a tentar apontar qual dos dois atores ali é melhor, Selton Mello ou Raul Cortez.

O grau de criatividade e fidelidade imposta pelo roteiro e pela direção ao romance estão presentes também nos chocantes e aterradores momentos finais de Lavoura Arcaica: a conclusão desta história, que no livro já é de fazer borrar as calças, ganha um ar bastante sugestivo no longa-metragem, visto que a direção optou por não mostrar muita coisa (mas ainda assim é de fazer qualquer um usar fraldinhas). Outra excelente sacada diz respeito ao último capítulo do livro, mas claro que não contarei aqui, né! :-) O jeito é alugar para tirar a prova…

Enfim, nenhum texto assemelha-se à experiência de conferir Lavoura Arcaica na íntegra. Por mais que esta injustiça esteja prestes a ser remediada com o tão esperado lançamento em DVD, é triste saber que será muito difícil ver o público brasileiro, tão viciado em coisas mastigadas, fazendo glória de uma fita tão importante e provocativa quanto esta. Afinal, Lavoura Arcaica tornou-se um marco no nosso cinema justamente por nadar contra a corrente das atuais produções e fazer com que o público PENSE. E convenhamos: pensar é exatamente aquilo que boa parcela que freqüenta os cinemas hoje em dia desacostumou a fazer. Gostando ou não, será impossível qualquer um sair de uma sessão deste filme sem ficar com aquelas imagens martelando na mente por um bom tempo. Algo, podemos dizer, raríssimo hoje em dia. :-)

LAVOURA ARCAICA • BRA • 2001
Direção de Luiz Fernando Carvalho • Roteiro de Luiz Fernando Carvalho
Baseado no roamance “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar
Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Simone Spoladore, Juliana Carneiro da Cunha, Leonardo Medeiros, Caio Blat.
163 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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