O Lobo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/06/2005.

Assim como existem algumas histórias verídicas que não parecem fazer muito sentido no cinema – vide o caso de Kinsey – Vamos Falar de Sexo -, há outros acontecimentos reais que pedem imediatamente uma adaptação para as telonas. Este é o caso das desventuras verídicas de Mikel Lejarza, espanhol que, nos anos 70, foi usado pela polícia como agente secreto infiltrado no perigoso grupo terrorista ETA durante a tomada do governo ditatorial do General Franco. Só por esta pequena linha, já é possível imaginar o pusta filmão que poderia sair daí, não é? Ainda mais por falar sobre um tema espinhudo até os dias atuais. Pois é, mas infelizmente não é exatamente o que acontece em O Lobo (El Lobo, 2004), produção comandada pelo diretor francês Miguel Courtois, especializado em longas para a TV.

Não que esta fita policial made in Espanha seja deplorável e possa causar um desejo secreto de tirar uma pestana ou cometer suicídio durante a sessão. O Lobo é um bom filme, com um plot coeso e até interessante. Mas dá a sensação de que o tratamento dado a este pedaço tão importante da história é raso. Pelo teor do enredo, deveria render no mínimo um ótimo trabalho, como curiosamente aconteceu com Kinsey. Irônico, não? Enquanto Kinsey é corajoso e muito bem feito, mesmo não tendo razão para existir, este O Lobo é apenas mais um trabalho de ação como tantos que vemos por aí sendo lançados direto em VHS ou DVD, que poderia e provavelmente passará em branco nos cinemas. Ainda mais em plena época de blockbusters.

Logo na primeira seqüência, percebe-se que a direção de Courtois apenas recicla os zilhões de clichês já esgotados no cinema: um homem armado, correndo desesperado por uma rua e invadindo a residência grã-fina de um casal de idosos. Em seguida, o roteiro volta alguns anos no tempo para contar como o tal elemento chegou até aquele estado desesperador. Clichê? Não, que é isso, quem disse que isso é clichê? :-D

O tal cara em questão é José Maria Loygorri (Eduardo Noriega). Loygorri – ou Txema, como é conhecido pelos amigos – é um trabalhador de uma construção civil, casado e pai de primeira viagem, que acaba preso por ter conexões com um grupo terrorista que acabou de assassinar um homem a sangue frio. O serviço secreto, chefiado pelo obscuro Ricardo (José Coronado), vê em Txema um cara ideal para realizar uma pequena tarefa: infiltrar-se no grupo terrorista – o ETA, ainda em início de formação – para entregar os novos planos da organização. Em troca, o cara ganha um dinheirinho (que ajudará a desafogar sua situação familiar) e ainda sai com a ficha limpa. Txema sabe que terá que abandonar a família, que o odiará caso descubra que ele serve para os inimigos: os aliados da ditadura. Ainda assim, tentado pela oportunidade de melhorar de vida, Txema adota a alcunha de Lobo e infiltra-se no ETA.

Como era de se esperar, o negócio não é tão simples quanto aparenta. Um vez lá dentro, Txema conhece os dois lados da mesma moeda: os integrantes do ETA estão divididos em pequenos grupos. Enquanto alguns, liderados por Asier (Jorge Sanz), desejam abandonar a luta armada e dedicar-se a construir um forte partido político, outros apóiam-se no perigoso Nelson (Patrick Bruel) para defender a permanência das atividades terroristas até que seja proclamada a independência do país. Estes conflitos internos, inclusive, são geralmente resolvidos na base do sangue. À medida que Txema simpatiza com algumas pessoas e cresce gradativamente no conceito dos poderosos do ETA, ele fica cada vez mais dividido entre entregar-se à luta armada para defender seus ideais ou continuar fazendo o joguinho da polícia secreta para livrar seu couro. Pra engrossar ainda mais o caldo, o Lobo apaixona-se pela engajada Amaia (a bela Mélanie Doutey), que aliás, fornece mais do que xuxu na serra, mas isto é apenas um detalhe! :-D

O pepino maior que Txema deverá enfrentar, contudo, ainda está por vir: os chefes militares em Madrid declaram guerra ao ETA depois que os terroristas assassinam o primeiro-ministro Blanco. Ricardo até consegue conter os ânimos da galera, até que o Lobo consiga concluir seus planos de desmantelar a organização. Mas quando a polícia de rua de Barcelona captura o suposto cabeça do ETA, os chefes militares “cancelam contrato” com o serviço secreto e decidem agarrar todo e qualquer membro do grupo terrorista vivo ou morto. E isto inclui Lobo. Cabe à Txema tentar escapar tanto da polícia (que o considera também um terrorista), quanto do serviço secreto (que deseja “queimar arquivo”) e dos sobreviventes do ETA (que a esta altura já conhecem a real identidade do Lobo).

Viram só? História ducaramba! Mas qual o problema, então? Na verdade, quase não há problemas. Como disse antes, O Lobo é um bom trabalho. Um filme correto, dirigido corretamente, com um roteiro certinho e tal. Aí é que está: é tudo tão no seu lugar que acaba tornando-se maçante. O roteiro de Antonio Onetti – experiente roteirista de TV estreando em cinema – não consegue evitar o didatismo da história e preocupa-se mais em não cometer falhas do que ousar tecnicamente. E pra piorar a situação, alguns integrantes do elenco são nada menos que sofríveis, principalmente Mélanie Doutey e Jorge Sanz. Doutey, então, carrega o azar de assumir uma personagem totalmente antipática. Interpretando mal, ainda… :-P

Por outro lado, a película conta com vários méritos, como o competente trabalho de Eduardo Noriega (de dois filmaços com F maiúsculo chamados Abre Los Ojos e Plata Quemada) no papel central – com uma interpretação construída basicamente em cima de olhares e leves expressões de rosto – e as bacaníssimas canções da trilha sonora, que vão desde a psicótica Highway Star, do Deep Purple, até a excelente The Partisan, de autoria do ultra-master Leonard Cohen. Bem, tendo músicas do Leonard Cohen na trilha, até filme do Renato Aragão se salva pra mim! :-D Enfim, os pontos positivos de O Lobo são suficientemente bons para garantir pelo menos uma boa diversão. Pena que, no saldo geral, o diretor Miguel Courtois se entregue a clichês batidos e uma estrutura até de certa forma covarde e termine por deixar escapar uma bela oportunidade de entrar para a história.

Na dúvida, com esta pancada de produções bacanas nos cinemas, é preferível esperar o lançamento em DVD ou alguma exibição na TV a cabo de algum documentário que conte a vida do verdadeiro Mikel Lejarza, que provavelmente deve ser mais emocionante. Ou então fique com Kinsey mesmo, fazer o quê? Pelo menos tem o Henri Ducard no elenco! Deus, eu sou nerd… :-D

CURIOSIDADES:

O Lobo venceu o Goya (o Oscar espanhol) nas categorias Montagem e Efeitos Visuais.

• O verdadeiro Mikel Lejarza prestou serviços infiltrado no ETA entre 1973 e 1975, e foi o responsável direto pela prisão de diversos membros chave e até alguns figurões de alto escalão do grupo terrorista. A real função do ETA era acabar com a ditadura Franco, que interrompia o processo democrático na Espanha. A “Operação Lobo” foi a operação policial de maior êxito contra o ETA em toda a história. Como conseqüência, a organização terrorista sentenciou Lobo à morte, espalhando cartazes com a imagem de Mikel e oferecendo prêmios pela captura do indivíduo. Mikel trocou de identidade, passou por cirurgias plásticas e hoje vive desaparecido. Diz a lenda que até hoje os integrantes do ETA andam com uma bala de revólver extra, destinada exclusivamente para apagar o Lobo.

• Eduardo Noriega é o astro central de Abre Los Ojos, filme que lançou o consagrado e hoje oscarizado cineasta Alejando Amenábar (Os Outros, Mar Adentro). Abre Los Ojos foi refilmado nos EUA por Cameron Crowe e rebatizado Vanilla Sky, e Tom Cruise assumiu o papel de Noriega. E, como diria o Fanboy, “enfraqueceu a amizade”! :-D

• Outro longa protagonizado por Eduardo Noriega é o aterrorizante A Espinha do Diabo, dirigido por Guillermo Del Toro, o homem forte por trás da versão para as telas das (des)venturas do carismático Hellboy.

• Jorge Sanz é o astro de Sedução, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Sanz atuou neste filme com Penélope Cruz, que fez par com Noriega em Abre Los Ojos.

EL LOBO • ESP • 2004
Direção de Miguel Courtois • Roteiro de Antonio Onetti
Elenco: Eduardo Noriega, José Coronado, Mélanie Doutey, Jorge Sanz, Patrick Bruel, Santiago Ramos.
123 min. • Distribuição: Paris Filmes.

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