O Jardineiro Fiel

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/10/2005.

O diplomata britânico Justin Quayle, radicado na África, despede-se de sua esposa, Tessa Quayle, que embarca num avião na companhia de um médico rumo a um povoado. Um corte de cena, e um jeep capota num deserto, sendo invadido em seguida por algumas pessoas, que embrulham um corpo em saco plástico e o carregam consigo. Mais um corte, e Justin, em seu escritório, recebe a notícia de que Tessa fora assassinada.

Estas seqüências juntas, que não duram cinco minutos, formam a absurda seqüência inicial de O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005), o tão aclamado longa de estréia lá fora de ninguém menos que o brazuca Fernando Meirelles, um dos responsáveis pelo cultuado Cidade de Deus e mais conhecido como “aquela figura que fez um sinal bisonho com os dedos no Oscar passado”. Ao contrário de seu conterrâneo, o camarada Walter Salles – que rodou uma série de longas intimistas e decidiu estrear nos States com Água Negra, uma fita bem comercial -, Meirelles preferiu explorar um terreno mais delicado e, diria eu, até mais perigoso. O resultado? Bem, a fita é realmente muito, muito boa. Sinceramente, não acho que seja a oitava maravilha do mundo, como muitos andam saudando por aí. Mas é, sim, uma película magistral, tanto como thriller de ação, quanto drama romântico. O que diminui levemente o impacto é justamente… Cidade de Deus. Mas hein? o_O

Calma lá, que eu explico. Mas antes, o roteiro: a partir da seqüência inicial, o roteiro de Jeffrey Caine (cujo trabalho mais significativo é o roteiro de 007 Contra GoldenEye) divide-se em duas partes: na primeira parte, volta no tempo e acompanha o relacionamento de Justin (Ralph Fiennes, ótimo como sempre) e Tessa (Rachel Weisz, certamente no papel de sua vida). O comportamento anárquico e “xabuzento” da ativista contrasta com o modo tranqüilão do diplomata apaixonado por botânica, acostumado, por conta do trabalho, a manter a serenidade e o racionalismo em situações tensas. Ainda assim, o romance engata.

O casamento parece sofrer um abalo quando Tessa, que não é “mulher de falar” e sim “de agir”, começa a engajar-se em obscuras causas políticas ao lado do médico keniano Arnold Bluhm (Hubert Koundé). Tessa distancia-se cada vez mais de Justin, e este passa a desconfiar das atitudes da esposa, mas ainda nota-se uma ligação sentimental entre os dois.

Na segunda parte, Tessa está morta. Ao chegar do velório e fuçar suas coisas, Justin descobre evidências que comprovam que a morte de sua esposa pode ter sido nada menos que “queima de arquivo”. O fato é que Tessa descobrira há pouco que dois grandes conglomerados farmacêuticos usavam a população carente dos povoados africanos para testar novos remédios com nível de segurança zero, pouco importando-se com os efeitos colaterais. Ela sabia demais, e provavelmente foi apagada por isto. Dominado pela dor da perda e por um enorme sentimento de culpa, por ter duvidado de sua fidelidade ao matrimônio, Justin decide que é hora de honrar a memória da esposa assassinada e investiga seus últimos passos à procura da verdade.

Ok, este é o enredo. Um pusta de um senhor enredo, diga-se de passagem. E a fita não deixa por menos: a direção sutil e ao mesmo tempo corajosa de Fernando Meirelles entrega cenas de amolecer até mesmo o mais duro dos corações (ou seja, eu!); O Jardineiro Fiel não poupa o espectador, mergulhando fundo na paupérrima situação do povo africano e entregando seqüências bastante difíceis de engolir. Pois é, não pense que você encontrará tomadas belíssimas da África, com o Sol poente ao fundo e um elefante correndo ali no cantinho (!). Aqui, o negócio é mais embaixo. Se você se impressiona fácil, evite a sala de cinema em que O Jardineiro Fiel esteja sendo exibido e procure outra fita pra ver.

O grande acerto da produção, a meu ver, é a excepcional e criativíssima montagem de Claire Simpson (de Platoon) e a escolha do elenco. Enquanto Ralph Fiennes – que não precisa provar pilombas a ninguém depois de seu maravilhoso desempenho em Fim de Caso, de Neil Jordan – entrega um Justin Quayle contido, centrado, mas cheio de conflitos internos e visivelmente prestes a explodir, Rachel Weisz, a mocinha de Constantine, dá um show de interpretação como a impulsiva e guerreira Tessa Quayle. Se dependesse de mim, o Oscar de Melhor Atriz do ano que vem poderia ser antecipado e entregue à indivídua sem maiores pepinos. E ela é linda. Isto não tem nada a ver com o filme, mas ela é mesmo! :-D

Mas como disse lá em cima, O Jardineiro Fiel é um excelente cinema, mas não é perfeito. E seu defeito é justamente o estigma Cidade de Deus. Ou seja, excesso de estilo. Bem, eu até gosto de Cidade de Deus, mas acho que seu grande problema é ser estilizado demais. Tudo bem, Fernando Meirelles têm sua marca própria, mas sempre achei que Cidade de Deus poderia ter sido bem mais impactante se não fosse tão carregado em sua fotografia e tão elétrico em seus enquadramentos de cena. Este é exatamente o mesmo problema de O Jardineiro Fiel: a estética de Meirelles matou boa parte do realismo existente no enredo, o que o tornaria automaticamente muito mais visceral do que já é – e como conseqüência, o transformaria num clássico.

Claro que isto é apenas um mero detalhe: nada que estrague a terrível e incômoda experiência de assistir a O Jardineiro Fiel, somente diminui o tranco. Fernando Meirelles prova que pode ir muito além e que é, sim, um cineasta de muito respeito. Mas como filme-político, ainda acho que O Senhor das Armas é mais desolador. Afinal, enquanto este aqui nos alerta para o lado pobre do planeta e nos diz que somos verdadeiros egoístas, já que podemos fazer muito para melhorar o mundo mas nada fazemos, o longa do titio Nicolas Cage mostra que, infelizmente, só o que podemos fazer naquele caso é assistir – e lamentar.

Tá bom, tá bom! Eu chorei de novo, tá? Duas vezes, pô! :-P

CURIOSIDADES:

• Os espectadores mais atentos encontrarão em O Jardineiro Fiel pelo menos quatro descaradas referências a Cidade de Deus. Um delas, óbvio, é a cena das indefectíveis galinhas correndo de um lado a outro… É o John Woo com pombas e o Fernando Meirelles com galinhas. Que bizarro, isso. :-)

• Originalmente, o inglês Mike Newell seria o diretor de O Jardineiro Fiel. Newell pulou fora ao receber o convite para comandar Harry Potter e o Cálice de Fogo. Melhor assim: alguém aí duvida que o filme perderia todo seu senso de filme-denúncia e se transformaria em mais uma coisa melosa e grudenta, bem aos moldes de A Luta Pela Esperança? :-P

• Ralph Fiennes segurou e operou a câmera em diversas seqüências, com o objetivo de mostrar os fatos pelo ponto de vista de Justin Quayle.

O Jardineiro Fiel foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2005. Perdeu o prêmio para O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee.

THE CONSTANT GARDENER • ING • 2005
Direção de Fernando Meirelles • Roteiro de Jeffrey Caine
Baseado no romance The Constant Gardener, de John Le Carré
Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Danny Huston, Daniele Harford, Packson Ngugi, Pete Postlethwaite e Bill Nighy.
129 min. • Distribuição: Focus Features.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: