007 Cassino Royale

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/12/2006.

Não é exagero algum dizer que 007 Cassino Royale (Casino Royale, 2006), novo longa estrelado pelo glorioso agente secreto a serviço de sua majestade James Bond, é de longe o mais polêmico de todos os 21 filmes do personagem já lançados até hoje – isto, claro, sem contar as produções extra-oficiais. E não é preciso dizer por qual razão a controvérsia rolou solta quando pipocaram os primeiros anúncios acerca da película… “Daniel Craig como Bond???”. Pois é. É bem provável que a Via Láctea inteira tenha detestado a idéia insana de colocar aquele sujeitinho tampinha, truculento e com a maior cara de vilão de filme B de pancadaria na pele de um dos heróis (ou anti-heróis, se alguém aí preferir) mais aclamados e desejados da literatura e do cinema. Sabe-se que apenas um único ser humano da face da Terra não viu problema algum no lance – e ainda comemorou. Um ser cujo nickname começa com “Z”, termina com “O” e tem “A”, “R” e “K” no meio. :-D

Tá bom, vai. Eu juro que não vou berrar “EU FALEI, EU FALEI!”. E prometo que não vou pedir que você busque aqui a crítica de Nem Tudo é o Que Parece, para que você, leitor, releia o texto e veja quem não pensou duas vezes em afirmar, num passado muito distante, que Craig seria uma escolha bem adequada para o papel do agente secreto.

Bem, antes de qualquer coisa, vamos falar sobre este negócio do Daniel Craig como 007. Como todos sabem, bastou o ator de Nem Tudo é o Que Parece assinar contrato com a Sony e os protestos começaram. Fãs enfurecidos declararam seu repúdio ao diretor Martin Campbell (responsável por outra divertida fita da cinessérie, 007 Contra GoldenEye) e chegaram ao cúmulo de montar até um website chamado CraigNotBond, onde tentaram dar início a um boicote. Não curtir o cara, ainda vai, mas… boicote? Coisa de quem precisa de um emprego, não é? O troço piorou ainda mais quando saíram as primeiras imagens e o primeiro trailer de Cassino Royale: muita gente, muita gente MESMO, reclamou do excesso de cenas de ação e pirotecnia, algo que realmente destoa do universo de Bond.

O que eu tento explicar a qualquer um que reclame da escolha de Craig na minha presença, é que o James Bond escolhido para Cassino Royale é atípico, diferente e distante do padrão, mas isto é proposital. Porque a história de Cassino Royale, do livro e do novo filme, é atípica, diferente e distante do padrão. Todo mundo sentou a toba no ator e ninguém se preocupou com o fato de que a trama é, em suma, bem diferente do 007 habitual, daquele que conhecemos dos filmes de Sean Connery, de Roger Moore… E é de fato muito suspeito ver tantos ditos “fãs” por aí que simplesmente ignoraram ou não conhecem um detalhe tão importante.

Tá, mas qual é esta diferença, afinal? Bem, a esta altura, todo mundo já sabe que Cassino Royale foi o primeiro romance protagonizado por Bond, escrito por Ian Fleming nos primórdios dos anos 50. O livro é o princípio de tudo, aquele que mostra o espião em sua primeiríssima missão como 007. Como os direitos autorais deste romance foram guardados a sete chaves por Fleming durante um longo tempo, os produtores das adaptações cinematográficas das aventuras de James Bond não puderam colocar em prática a idéia de transformar Cassino Royale em primeiro filme da série – posição que ficou com o bacana 007 Contra o Satânico Dr. No. Então, a trama funciona aqui como um prequel, embora não seja declaradamente um reset na cinessérie.

Enfim, por ser a primeira missão com sua notória licença para matar, por ser praticamente o primeiro contato do agente com aquele mundinho que se transformaria, mais tarde, em seu “próprio abismo infinito” (não entendeu a referência? Assista Hora de Voltar, pô! Hehehe), é natural que a trama apresente um protagonista ainda acostumando-se com sua posição. Simplifiquemos desta forma: o 007 de Cassino Royale está aprendendo a domar seus próprios passos. Comete muitos erros, tem um ego maior do que a orelha do George Lazenby (!), empolga-se quase sempre, só quer saber de ação e mais ação, leva alguns tombinhos, aprende a se levantar e, à medida que a projeção da fita se desenrola, o sujeito começa a aperfeiçoar-se, a controlar seus instintos, até chegar à sofisticação, ao controle físico e emocional e à maturidade do 007 que nós conhecemos de outros filmes.

Esclarecendo este ponto, vamos à pergunta: Cassino Royale é bão ou não é bão? Hummm… Se eu disser que estamos falando de um dos melhores exemplares da franquia, você acredita? Então tá, digamos que esta fitinha calará a boca de muita gente. PRONTO, FALEI!

Sim, sim. Martin Campbell realizou um filmaço de ação e de espionagem que, considerando tudo o que comentei acima, compete pau a pau com as fitas mais legais de James Bond. Aqui, há espaço para tudo: há a ação desenfreada, há os momentos de perseguições alucinantes, há toda a cafajestagem do indivíduo com relação às criaturas do sexo feminino, há uma boa dose de humor… e há também todos os elementos que caracterizam o universo de 007. Bond-Girls, vilões alucinados e com planos de dominação mundial, aliados importantes, bugigangas, carrinhos bonitinhos e muito caros (!). E há Daniel Craig que, desculpe, realmente é a escolha perfeita para viver o papel. Talvez seja até mesmo o melhor Bond que o cinema já viu. Sabe por quê? Porque de todos eles, inclusive de Sean Connery, Craig é o melhor ator fora de 007. Ele é o que melhor transpõe para a tela, sem exagerar um milímetro na dose e sem ridicularizar seu papel, que James Bond é o que é hoje justamente por esmagar seus sentimentos, e não por sofrer da ausência deles.

Antes de qualquer coisa, o enredo. Bem, Bond acabou de ganhar sua licença para matar e está nítidamente DOMINADO pela sede de aventura, de poder – o que deixa sua chefe, M (Judi Dench, ótima como sempre), com os nervos à flor da pele. É engraçadíssimo, aliás, notar que, em todas as suas aparições, M está furiosíssima e só quer saber de soltar os cachorros em cima do cara! Hehehe. E com razão: o cara é convencido demais e só arruma confusão para o lado da chefona. Só para citar um exemplo, uma investigação em Madagascar, que deveria ser discreta, termina com uma aterrorizante perseguição em cima de um guindaste a metros e metros de altura, uma explosão e muitos feridos. Em uma cena seguinte, entendemos que o ego e a gana de ação não permite que Bond entre silenciosamente na sala de segurança de um hotel para achar gravações de rotina: ele precisa destruir um carro no estacionamento para desviar a atenção de todos – missão esta, por sinal, que não fora autorizada pelo MI6. Assim é o sujeito, vai vendo bem.

Enfim, a primeira missão de Bond como 007 é seguir a Montenegro, mais exatamente ao famigerado Le Cassino Royale, e jogar pôquer com o banqueiro Le Chiffre (o fantástico dinamarquês Mads Mikkelsen). O caso é que Le Chiffre é nada menos do que o homem que “patrocina” um sem número de terroristas; Bond precisa vencer o meliante no jogo, para que Le Chiffre não embolse uma quantia milionária e a use para financiar diversas organizações terroristas espalhadas pelo mundo. Para garantir o sucesso da missão e evitar que Bond estrague tudo com seu jeitão explosivo, M envia a belíssima agente Vesper Lynd (Eva Green… ai, ai) para acompanhá-lo. E então… bem, é melhor parar por aqui. ;-D

Detalhar a produção é um pecado, acredite. E chega a ser até desnecessário: se você conhece a estrutura narrativa do cinema de 007, sabe muito bem o que irá encontrar aqui. A diferença é que o cineasta Martin Campbell aproveita os intervalos das cenas de ação para explorar o que os outros filmes não ousaram, à exceção de 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade: a carga dramática do personagem. Cassino Royale justifica muitas das atitudes tomadas por Bond em suas películas anteriores e destrincha uma série de mitologias. Em dado momento, aprendemos até mesmo como é preparado o Martini que o sujeito tanto adora! :-D

Quando me refiro à carga dramática, entretanto, quero dizer especificamente que finalmente é possível entender o que raios transformou o homem no poço de frieza que ele é, no sujeito aparentemente desprovido de qualquer espécie de sentimentos. Um dos momentos mais marcantes da projeção – e que surpreendentemente deve deixar alguns com lágrimas nos olhos – refere-se ao primeiro bandido que Bond é forçado a matar. Basta um único olhar de Daniel Craig para compreender que aquele evento o transformou naquele segundo, automaticamente, em uma outra pessoa. Sim, é um bandido. Mas é um homem. Um homem morto por Bond e um caminho sem volta. Não é mais uma brincadeira. Pode acreditar: Cassino Royale está repleto de momentos assim. Bem, não poderíamos esperar algo raso quando sabemos que um dos autores do enredo é ninguém menos que Paul Haggis, o oscarizado roteirista de Menina de Ouro e diretor de Crash – No Limite, não é mesmo?

Mas é claro que estes momentos singelos não são o centro da fita. Há uma infinidade de seqüências de pancadaria embasbacantes, e eu particularmente delirei com a fodáxima perseguição de Bond ao terrorista Mollaka (Sebastien Foucan) na Embaixada de Nambutu, uma das cenas iniciais do longa. É incrível o grau de insanidade desta seqüência – para quem não sabe, o francês Foucan é um exímio corredor e um dos criadores do Le Parkour, uma bizarríssima técnica que consiste em correr freneticamente e desviar-se, das formas mais ABSURDAS e HUMANAMENTE IMPOSSÍVEIS, de diversos obstáculos. Sério, só assistindo a esta cena para saber do que Foucan é capaz. As outras cenas de ação também são divertidíssimas, e agradarão aos fãs da série em cheio.

Ah sim: a seqüência de abertura, ao som de You Know My Name, do ex-Soundgarden Chris Cornell, é muito bem-sacada. E a Eva Green está mais linda do que nunca – mas tem adversárias de peso nas figuras de Caterina Murino (como Solange, a infeliz amante de um comparsa de Le Chiffre que não pensa duas vezes em conferir pessoalmente o “armamento” do Bond… – afe, que piadinha horrível) e a eletrizante Ivana Milicevic (como Valenka, uma apetitosa Bond-Girl do mal). Mas confesso que senti muita falta da lendária Gunbarrel – aquela aberturazinha de 20 segundos na qual Bond atira em direção à tela e tudo fica vermelho. A gunbarrel, desta vez, está inserida diretamente na seqüência musical e de uma maneira bem diferente, mas há um sentido para esta mudança.

Na verdade, o grande diferencial de Cassino Royale é que talvez seja o primeiro longa-metragem da franquia com uma dose cavalar de alma. Não estamos falando apenas de uma reinvenção da história de James Bond, mas também de uma fita que ousa apresentar ao público mais do que belas paisagens, belas mulheres e belas máquinas. Agora, o espectador já sabe que James Bond não é apenas um indivíduo com um talento fora do comum para a espionagem e para a galinhagem (hehehe), e sim um homem que, como qualquer ser humano que se preze, já tomou umas cacetadas da vida e fez sua escolha. O resultado final é uma produção que transcende seu rótulo de “entretenimento de férias” para se transformar em um dos filmes mais legais deste final de ano. E de quebra, ainda injeta um novo sangue e uma nova visão no universo do espião mais amado do cinema.

Pois é, ser um dos melhores exemplares de toda a franquia é pouca coisa para quem achou que Cassino Royale seria apenas um 007 com um ator feinho, hein? Hunf. :-/

CASINO ROYALE • EUA/ALE/ING/TCH • 2006
Direção de Martin Campbell • Roteiro de Neal Purvis, Robert Wade e Paul Haggis
Baseado no romance Casino Royale, de Ian Fleming
Elenco: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Sebastien Foucan, Isaach De Bankolé.
144 min. • Distribuição: United Artists.

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