Vigaristas

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 03/11/2009.

Filmes de comédia protagonizados por golpistas carismáticos já se tornaram um subgênero dentro do gênero da comédia, e podemos dizer numa boa que este nicho tem, digamos, “retorno garantido” — estas fitas raramente dão errado, geralmente são bastante inteligentes e cheias de piadas realmente engraçadas (pois é, esqueçam coisas como Espartalhões ou fitas do Martin “ugh” Lawrence) e algumas delas renderam produções absolutamente inesquecíveis. Quem não se lembra, por exemplo, de Steve Martin fingindo ter problemas mentais em Os Safados ou Eddie Murphy tentando atravessar a rodovia em Os Picaretas? E olhe que nem citei os clássicos como Golpe de Mestre, Como Agarrar um Milionário, Um Dia nas Corridas (com os maravilhosos Irmãos Marx), Os Imorais

Vigaristas (The Brothers Bloom, 2008) é um exemplar muito digno da categoria. O filme do promissor Rian Johnson, que comandou o ótimo porém obscuro A Ponta de um Crime, é um primor em história e atmosfera, e à exemplo das produções de Wes Anderson (A Vida Marinha com Steve Zissou, Viagem a Darjeeling), diverte bastante não só pela criatividade do enredo e espirituosidade de seus diálogos, mas também pela galeria mais do que exótica (e apaixonante) de personagens. É cada um pior que o outro… A maior característica deste trabalho de Johnson, contudo, também é um elemento chave no estilo de Anderson: a notável habilidade de se equilibrar entre o drama existencialista e a comédia (ora discreta, ora nonsense, bem ao estilo dos já citados Irmãos Marx), e não desapontar em nenhuma de suas verves.

A excentricidade da história já dá a partida na introdução, que apresenta a infância dos infames irmãos Bloom do título original. Órfãos que já foram expulsos de 38 famílias adotivas (!) por tentar extorquir seus próprios familiares (!!), os meninos Stephen e Bloom enxergam neste “mercado” uma ótima oportunidade de se dar bem sem precisar fazer muito esforço. Stephen, o cabeça, é quem perpetua os “esquemas” em intrincadíssimos organogramas, e Bloom é o brilhante executor, desempenhando papéis paradoxais com extrema versatilidade.

As coisas começam a desandar quando os meninos chegam à idade adulta. É aí que Bloom (Adrien Brody) acorda para a vida, percebe que não conquistou muita coisa com seus próprios méritos e sempre foi um títere nas mãos de Stephen (Mark Ruffalo). Decide, enfim, que é hora de parar e correr atrás de sua própria existência. Embora não queira que a “sociedade” se desfaça, Stephen consente… não sem antes propor um último “trabalho”. Logo, os irmãos Bloom estão em Montenegro, executando o golpe derradeiro em sua mais nova vítima: a psicótica multimilionária Penelope (Rachel Weisz), solitária e sedenta por aventuras, e também dona de hábitos pouco usuais como “dar PT” em um Porsche por dia (!) e ter espasmos em momentos no mínimo “incomuns”…

O problema é que qualquer sujeito com conhecimento mínimo em cinema (até mesmo eu, HÁ!) sabe que, no que diz respeito a este subgênero, a expressão “último golpe antes da aposentadoria” geralmente está acompanhada de uma outra expressão: “vai dar m****”. Será?

Engana-se, contudo, quem pensa que Vigaristas rende-se fácil aos clichês do gênero. A trajetória dos Bloom até a conclusão do seu plano final, se é que o plano chegará a ser concluído, é permeada por situações absolutamente surreais — a primeira abordagem de Bloom à milionária é tão absurda quanto divertida. Soma-se à estrutura narrativa algumas boas reviravoltas, como é de costuma em tramas desta estirpe, e divertidíssimas atuações do elenco central, incluindo aí a ótima Rinko Kikuchi (Babel), como a monossilábica parceira dos Bloom, a japinha Bang Bang.

Todo este conjunto de fatores só é significativo graças ao talento do diretor Rian Johnson. Vigaristas é, sim, um primor em enquadramentos de cena, trilha sonora, dedicação de elenco (ótimo, por sinal) e desenvolvimento de enredo, mas nada disso seria possível se Johnson não demonstrasse total domínio de sua história e um perfeito timing para a comédia. Essa salada de gêneros transforma Vigaristas em uma excelente pedida tanto para quem quer ver uma fitinha descompromissada com pretensão única de divertir, quanto para quem gosta de um pouco de tridimensionalidade mesmo em um filme cômico. Uma prova concreta de que, de fato, não importa se a história já cansou de ser contada, desde que seja BEM contada.

Mais filmes de golpistas, por favor! E que não seja da série “Dez mil homens e milhões de segredos” (!) porque aquilo já deu no saco.

THE BROTHERS BLOOM • EUA • 2008
Direção de Rian Johnson • Roteiro de Rian Johnson
Elenco: Adrien Brody, Mark Ruffalo, Rachel Weisz, Rinko Kikuchi, Robbie Coltrane, Maximilian Schell, Ricky Jay, Max Records, Zachary Gordon.
114 min. • Distribuição: The Weinstein Co./Paris Filmes.

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