Jogos Mortais 3

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/10/2006.

Recentemente, o cineasta Darren Lynn Bousman declarou que seu Jogos Mortais 3 (Saw 3, 2006), a iminente segunda seqüência do thriller que fez a cabeça de meio mundo em 2004, agradaria em cheio tanto aos fãs do lado psicológico do universo do Jigsaw (o que predominou no bacanudo primeiro filme) quanto aos fãs da matança desenfreada que marcou presença na projeção do segundo longa-metragem, legal mas não tão bom quanto o primeiro. Bousman queria, na verdade, usar este novo Jogos Mortais para se desculpar com aqueles que esperavam do segundo filme algo mais consistente e de teor psicológico mais avançado do que apenas “um festival de mortes nojentas com uma reviravolta e uma surpresa no final”.

E não é que Darren Lynn Bousman estava certo? Bem… quase.

O que acontece é o seguinte: o primeiro Jogos Mortais conquistou uma fatia considerável de fãs por apresentar uma trama intrincadíssima e quase 100% apoiada na construção de seus personagens – o que o fez assumir o glorioso título de “o filhote mais digno de Seven“, ainda que muitos ousassem mantê-lo pau a pau com a obra-prima de David Fincher, o que já é um tremendo exagero. Enfim, Jogos Mortais 2 lançou um pouco disto tudo por terra ao apresentar zilhões de personagens pouco tridimensionais ao mesmo tempo e favorecer aquilo que, em seu antecessor, ficava apenas na sugestão: as mortes, as mutilações, as torturas. Ou seja: o que antes era bem mais macabro, ficou gratuito. O resultado até agradou, mas não chegou aos pés do primeiro Saw.

Em Jogos Mortais 3, o que se tem é um pouco dos elementos característicos de cada um dos anteriores. O número de personagens importantes em cena diminuiu consideravelmente, e o roteiro – mais uma vez assinado por Leigh Whannel, que viveu o fotógrafo Adam na primeira película – deu bastante atenção a cada um deles. A trama continua rocambolesca e cheia de segredos, além das inevitáveis ligações com as tramas anteriores; desde já, aviso que, se você ainda não assistiu Jogos Mortais ou Jogos Mortais 2 é INÚTIL assistir a este aqui. Veja os outros antes, para não se perder em meio às referências.

Maaaaas… se a produção voltou a detalhar seus personagens como deveria, os erros cometidos em Saw 2 também passeiam livremente por aqui. O resultado final de Jogos Mortais 3 é bem superior ao segundo longa, é verdade, mas ainda está distante do impressionante saldo geral da primeira aparição nas telonas do tal Jigsaw, o assassino que, na verdade, nem chega a ser um assassino… :-)

A história, como eu disse no parágrafo anterior, tem muitas ligações e referências às (des)venturas anteriores do senhor Jigsaw. Seria impossível esmiuçar as nuances do enredo aqui sem entregar qualquer surpresinha. Então, vamos somente ao que dá pra falar sem entregar nada, ok? Se ainda assim você decidir descobrir as coisas por si só – o que, na boa, é beeeem mais legal -, PARE DE LER ESTE TEXTO AGORA! Volte aqui quando chegar do cinema, ok? Adeus, e obrigado pelos peixes. E quando voltar, volte pela sombra. :-D

(Um minuto para esperar o povo sair da sala)

Se você continuou aqui, então tá. Antes de qualquer coisa, uma introdução para quem não está familiarizado com o universo da película: Jigsaw (o esquisitíssimo Tobin Bell), ou O Assassino do Quebra-Cabeça, é uma espécie de serial killer que tem o estranho hábito de seqüestrar pessoas e aprisioná-las em jogos cujo objetivo é sair com vida. Não conseguiu concluir o jogo da forma que deveria, morre. E se concluir, pode contar que sairá com váááários hematomas, váááárias mutilações e váááárias seqüelas físicas e psicológicas… tecnicamente, Jigsaw não pode ser apanhado, pois ele não suja as mãos assassinando suas vítimas: apenas fornece as “armas” para que elas se matem (ou não) sozinhas. O engraçado é que Jigsaw se considera um “salvador”, um homem cujas idéias macabras a respeito da morte servem para “salvar” as pessoas, e não destrui-las. Ah, então ok, né?

Em Jogos Mortais 3, há duas novas “vítimas”, e a novidade é que, mesmo sem qualquer contato, uma depende da outra para concluir seu jogo. A primeira, a médica Lynn (Bahar Soomekh, a filha do comerciante persa em Crash – No Limite), é negligente no casamento por se dedicar demais à sua profissão. Pelo menos, ela é considerada a melhor no ramo… o que a traz até Jigsaw, que está à beira da morte. Raptada pelo maníaco, Lynn é obrigada a manter o já agonizante Jigsaw vivo a qualquer custo. Um colar cheio de bombas preso ao pescoço de Lynn e ligado ao maquinário de reprodução dos batimentos cardíacos do sujeito é a arma e a sentença: quando o coração de Jigsaw parar de bater, o colar de bombas é acionado. Trocando em miúdos, quando Jigsaw morrer, Lynn perde a cabeça! Hehehe (desculpem, não consegui evitar o trocadilho infame). ;-)

Mas há uma esperança. Jigsaw só precisa ficar vivo até o “outro” jogo chegar ao fim. O “outro jogo” é protagonizado por Jeff (Angus MacFadyen, presença constante no seriado Alias), pai de família que viu a esposa botar-lhe um belo par de galhos e agora só vive para matar o indivíduo que, bêbado, atropelou e matou seu filho pequeno. Jeff acorda preso dentro de uma caixa e, quando consegue se libertar, se vê trancado em um casarão-labirinto. Ele precisa seguir as pistas fornecidas por Jigsaw e passar por uma série de provações deveras tortuosas para chegar ao final do jogo, onde finalmente se verá face a face com o sujeito que matou seu rebento. Mas uma surpresinha o aguarda… se conseguir concluir o jogo, Jeff consegue sair vivo. Conseqüentemente, Lynn é libertada.

E ainda há aquela que é uma das coisas mais características da saga: a fulaninha chamada Amanda (Shawnee Smith), que… bem, deixa quieto. :-D

Ok, esta é a linha central do enredo. Há, claro, muito mais nas entrelinhas, e o roteiro de Leigh Whannel é bastante bem-sucedido e criativo neste quesito – infelizmente não dá pra comentar nada além do já dito (a não ser, claro, que você goste de spoilers… hehehe!). Quanto à história, não há mesmo do que reclamar. Já o restante…

Pra começar, a direção de Darren Lynn Bousman exagera e MUITO nos maneirismos técnicos. A montagem é acelerada demais e alguns movimentos de câmera são vertiginosos demais, e em certos momentos tem-se a impressão de que tudo isto não passa mesmo de “enfeite” (na boa, em algumas seqüências o negócio ficaria muito mais cru e visceral sem estes maneirismos altamente desnecessários). Outro problema é o “complexo de Scooby-Doo” que impregna a película: a cada revelação-surpresa, a direção repassa ao espectador flashes de todas as cenas que sugeriram pistas para esta revelação, para mostrar que tudo estava lá o tempo todo. É como se o diretor tivesse medo de o espectador não entender bulhufas, e então ele sentisse a necessidade de explicar tudinho tintim por tintim. Nós não somos burros, pô! Ou pelo menos a maioria de nós. :-D

Das atuações, nem vou falar. Angus MacFadyen é maior legal, mas a Bahar Soomekh é ruinzinha que só ela! A menina atua como uma porta! Mas tudo bem, a beleza da dita cuja já compensa. :-)

Porém, o que me incomodou de verdade é esse lance de alçar Jigsaw àquela categoria de “Deus do crime”. No primeiro filme, o assassino era apenas um louco perigoso que precisava ser capturado a qualquer custo. No segundo longa e também neste aqui, o roteiro tenta colocar o personagem como uma mente “brilhante”, um homem incompreendido e machucado pela sociedade, daqueles que, ao melhor estilo John Doe ou Hannibal Lecter, tem idéias genialmente insanas que serão estudadas por anos e anos e atitudes que podem ser interpretadas como promissoras, excluindo o fato de matar pessoas para apresentá-las. Só o detalhe da citação bíblica no primeiro teaser-trailer do filme já dá a entender que Jigsaw é algo muito além de um simples criminoso. Não, não é assim. Jigsaw é um homicida engenhoso, mas não é Hannibal. E quando Jogos Mortais 3 teima em colocá-lo num patamar acima disto, soa prepotente pra dedéu.

Não que importe muito, de verdade. Jogos Mortais 3 é extremamente bem-sucedido como thriller: é tenso, dá uma aflição do cacete e tem pelo menos três seqüencias de fazer o público se entupir de calmantes – a saber, a cena da cirurgia do Jigsaw, a seqüência do abate dos porcos e o traumático encontro entre Jeff e Timothy, o assassino de seu filho. E caso realmente seja o ponto final na saga do louco Assassino do Quebra-Cabeça, é um ponto final que fecha o universo de Saw com chave de ouro. Só não chega nem perto de ser tão impressionante quanto o primeiro – o que não significa que o ingresso não seja um dinheiro muito bem empregado.

O que eu espero, de coração, é que o produtora da série, a Lionsgate, não comece a inventar moda e não faça mais Saws (!). Até mesmo porque este aqui deixa tudo redondinho e nem dá margem a (mais) uma seqüência. Mas quando um filme dá muito dinheiro, vale tudo, né? E só pra terminar: essa Amanda, viu? Ô mulherzinha doida! Cacetada! Desculpe, essa eu precisei soltar. :-D

CURIOSIDADES:

Jogos Mortais 3 foi tão aguardado pelos fãs da série que o primeiro teaser-trailer da fita, exibido pela primeira vez nos cinemas norte-americanos na primeira sessão de Abismo do Medo, foi gravado e uploadeado para a Internet pouquíssimas horas depois de sua exibição. No mesmo dia, já tinha sido visto por mais de mil computadores.

• Segundo Darren Lynn Bousman, a trama de Jogos Mortais 3, escrita por Leigh Whannel no prazo recorde de seis dias (!), foi altamente influenciada pelas sugestões oferecidas pelos usuários do portal House of Jigsaw.

• Uma edição especial do pôster de Jogos Mortais 3 (aquele com o rosto de Jigsaw) ganhou a limitadíssima tiragem de 1.000 impressões, sendo que cada um deles foi vendido a US$ 20 – à exceção do primeiro impresso, assinado por todo o elenco e jogado a leilão. A renda total foi revertida à Cruz Vermelha. Tobin Bell doou cerca de 2 litros de seu próprio sangue, que foram misturados à tinta usada na impressão dos cartazes. Isso é que é dar sangue por um trabalho! Hóhóhó.

• Os produtores desta película solicitaram permissão à Columbia Pictures para poder usar o cenário do banheiro que serviu de base para o primeiro Jogos Mortais. O que acontece é que o cenário original foi destruído por alguma razão não esclarecida, e a Columbia tinha em seu poder uma réplica exata daquele cenário, réplica esta utilizada nas filmagens da pseudo-comédia Todo Mundo em Pânico 4.

SAW 3 • EUA • 2006
Direção de Darren Lynn Bousman • Roteiro de Leigh Whannel
Elenco: Tobin Bell, Shawnee Smith, Angus MacFadyen, Bahar Soomekh, Dina Meyer, Mpho Koaho, Barry Flatman, Costas Mandylor, Debra Lynne McCabe, Donnie Wahlberg, Leigh Whannel.
107 min. • Distribuição: Lions Gate Pictures

Uma resposta para Jogos Mortais 3

  1. emily disse:

    adorei o filme

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