007 Nunca Mais Outra Vez

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 30/11/2006.

Em 1983, o agente secreto britânico a serviço de sua majestade, o excelentíssimo senhor James Bond, já era dono de uma franquia de 12 filmes muito bem-sucedidos, além de um prestígio incalculável e uma gama de fãs. O “pai” de Bond, o escritor Ian Fleming, não tinha do que reclamar. Afinal, o cara estava literalmente executando sua higiene íntima e pessoal com notinhas de cem (hehehe). Com o sucesso de Bond, veio o dinheiro. E com o dinheiro, vieram os problemas legais… E é aí que entra 007 Nunca Mais Outra Vez (Never Say Never Again, 1983). Ops, é melhor falar apenas Nunca Mais Outra Vez, senão podemos ser processados! Hehehe… :-)

Nunca ouviu falar disso? Tudo bem, você está perdoado – e nada mais lógico, já que Nunca Mais Outra Vez sequer é um “integrante da cinessérie”. Ou quase. O que acontece é que o famigerado Nunca Mais Outra Vez foi a primeira (e talvez a única) grande dor de cabeça interna que os produtores oficiais dos filmes de James Bond tiveram em toda a história do personagem nas telonas – à exceção da versão original de Cassino Royale, que nem foi tão problemático assim. Mas para entender o que aconteceu de fato, vamos voltar um pouco no tempo.

A história toda teve início em 1965, com o lançamento da 4.ª fita da série, 007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball). Embora seja um dos trabalhos mais aclamados da série pelos fãs, um sujeitinho não curtiu muito o resultado final. Este sujeito é o produtor e co-autor do roteiro de Thunderball Kevin McClory, que faleceu recentemente. McClory, adorador confesso do personagem e desta história em particular, ficou insatisfeito com o saldo final de Thunderball. O produtor já tinha sido o pivô de uma pequena confusão envolvendo esta história: quando especulou-se a idéia de levar os livros de Ian Fleming às telonas, Thunderball foi escolhido para ser a trama de estréia, mas foi substituído às pressas por Dr. No, que gerou o bacana 007 Contra o Satânico Dr. No (1962).

E por quê tudo isso? Kevin McClory alegou que foi ele, e não Ian Fleming, o criador de um dos elementos mais mitológicos do universo de Bond: a organização criminosa S.P.E.C.T.R.E., que deu as caras pela primeira vez no universo de Bond em Thunderball. Fleming negou, e o circo estava armado.

Enfim, com o lançamento do quarto filme nos cinemas, McClory não gostou nada do que viu e decidiu desenvolver por sua conta uma nova versão do romance, com o apoio de uma major: a Warner. Para rodar sua visão de Thunderball, entretanto, McClory precisava de um pequenino detalhe: os direitos da adaptação cinematográfica da obra. Os direitos estavam em poder de Albert R. Broccoli, o produtor-cabeça da franquia de 007, e da EON Productions. Se inicialmente já seria difícil conseguir uma liberação por parte dos detentores dos direitos de adaptação, tornou-se impossível considerar qualquer espécie de negociação quando Broccoli soube que McClory espalhou aos quatro ventos que sua real intenção era criar uma segunda franquia protagonizada por James Bond. Competição? Nem pensar.

Irritado, Kevin McClory decidiu lutar pelo direito de produzir sua visão de 007 Contra a Chantagem Atômica no tribunal. O produtores e o estúdio responsável pela franquia original, a MGM, tentaram de todas as formas impedir, mas de nada adiantou. McClory ganhou a causa, com a condição de que só poderia explorar o potencial de Thunderball à sua maneira após o ano de 1975. Então, em 1983, finalmente chegou aos cinemas Nunca Mais Outra Vez, simultaneamente ao lançamento nas telonas de 007 Contra Octopussy, o “autêntico Bond” já estrelado por Roger Moore. Desencantou, o negócio. :-D

Um adendo: as duas produções, que concorreram nas bilheterias, tiveram saldos bastante satisfatórios. A crítica da época chegou até a referir-se à batalha da MGM vs. Warner Bros. pela preferência do público com o termo Bond Vs. Bond. Octopussy, claro, saiu na vantagem, mas Nunca Mais Outra Vez até que agradou também.

Ainda assim, desenvolver o troço todo não foi tão fácil: McClory tinha um material, mas foi proibido por lei de explorar as características criadas pelos filmes. Não poderia usar de forma alguma a abertura com número musical, o logo de 007, a trilha sonora imortalizada por John Barry… O produtor e o cineasta Irwin Kershner (sim, o mesmo de Star Wars – Episódio V: O Império Contra-Ataca) só conseguiram o apoio de Sean Connery no elenco pois o ator recebeu, na época, um sálario absurdo (algo em torno de US$ 5 milhões). O que o dinheiro não faz, já que, depois de 007 Os Diamantes São Eternos, Connery fora incisivo ao afirmar que jamais faria outro longa na pele de Bond – não à toa, o título original de Nunca Mais Outra Vez, que é Never Say Never Again (“Nunca Diga Nunca Novamente”) é uma bela tiração de sarro em cima disso; até mesmo porque a produção não podia, de forma alguma, usar o título original da obra – hoje a história é outra, já que a MGM comprou os direitos de distribuição rental do filme.

Saber que Nunca Mais Outra Vez não faz parte da cinessérie oficial de 007 e saber que foi sumariamente rejeitado pelos fãs durante muito tempo descredencia a película? Hum, chegamos ao ponto.

Bem, a resposta para a pergunta acima é SIM e NÃO. É inegável que a ausência dos elementos tão marcantes da história do personagem nas telonas faz muita falta. Só para se ter uma idéia, aqui não temos oportunidade nem de ouvir o lendário chavão Bond. James Bond – até os nomes de alguns personagens foram trocados por imposição da Justiça norte-americana. É estranho assistir a Nunca Mais Outra Vez, saber que estamos falando de um filme do 007… e simplesmente não reconhecer estes elementos na tela. Por outro lado, Nunca Mais Outra Vez consegue ser tão divertido e tão climático quanto qualquer longa-metragem estrelado pelo agente secreto. Ao final, a falta da atmosfera típica de 007 não chega a incomodar e até deixa a produção com um clima mais maduro, mais realista. E ver Sean Connery reprisando seu mais notório papel após 12 longos anos vale qualquer coisa! ;-D

A trama não deve em nada aos melhores exemplares da série: Bond (Sean Connery, já com certa idade e uma maturidade que coube muito bem ao papel) não é mais um agente secreto, mas decide voltar à ativa, nem que seja por pouco tempo, para tentar deter seu mais notório inimigo, a S.P.E.C.T.R.E. O problema é que a organização do mal enviou dois de seus maiores vilões, Maximilian Largo (Klaus Maria Brandauer) e o amiguinho do 007, Blofeld (Max Von Sydow), para roubar algums mísseis nucleares. O plano da S.P.E.C.T.R.E. é ameaçar detonar duas grandes metrópoles do planeta – mas a atitude pode ser abortada a qualquer momento, basta que os países da OTAN concordem em desembolar uma grana generosa como resgate dos mísseis. 007 precisa infiltrar-se na organização para evitar que algo mais grave aconteça.

Isto, se ele conseguir sair da cama da belíssima Domino Harvey… ops, Domino Petachi (Kim Basinger… UAU!), amante de Largo que ficou caidinha por ele. E isto, se ele conseguir despistar as investidas da maligna Fatima Blush (Barbara Carrera, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz por este papel), sensualésima assassina profissional contratada pela S.P.E.C.T.R.E. especialmente para dar fim ao espião.

Como pode-se ver, não são todos os elementos de 007 que ficaram para trás. E nem poderia ser diferente, já que estamos falando de uma adaptação de um romance, antes de qualquer coisa. Então, pode esperar por zilhões de perseguições alucinantes, vilões bizarros (ainda que levemente alterados), muito amor e carinho distribuídos entre as Bond-Girls – por sinal, Barbara Carrera é simplesmente espetacular… Ao final, tecendo comparações entre este longa e o padrão da franquia do personagem, quase não há mudanças. Nota-se, porém, que Nunca Mais Outra Vez impõe um ar menos caricato ao espião e aos seus inimigos. Talvez esta seja a mudança mais singificativa para Kevin McClory mas, num saldo geral, o cara brigou, brigou e brigou para entregar nada menos que um “filme da franquia”. O que não é ruim de modo algum.

Para resumir: Nunca Mais Outra Vez é 007 Contra a Chantagem Atômica, só que com um título diferente! E com duas Bond-Girls bem melhoradas. Para quem é fã da saga do personagem, é obrigatório e diversão garantida. ;-)

Em tempo: diz-se que o resultado final de Nunca Mais Outra Vez também não agradou Kevin McClory. Tanto que, nos anos 90, o produtor tentou, mais uma vez, refilmar Thunderball. O projeto, que teria o título Warhead 2000, seria oferecido a Pierce Brosnan e, caso este recusasse, a Timothy Dalton. Desta vez, entretanto, a Justiça ianque foi impiedosa: simplesmente disse NÃO. Vixe, acho que a tal segunda franquia que o produtor idealizou só teria variações desta mesma história… :-P

NEVER SAY NEVER AGAIN • EUA/ING/ALE • 1983
Direção de Irwin Kershner • Roteiro de Lorenzo Semple Jr.
Elenco: Sean Connery, Klaus Maria Brandauer, Barbara Carrera, Kim Basinger, Max Von Sydow, Edward Fox, Bernie Casey, Rowan Atkinson.
134 min. • Distribuição: PSO International/Warner Bros.

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