O Filho de Chucky

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 04/01/2005.

Em meados de 1988, eu era um pivete maluco e meu nerd-pai resolveu antecipar o meu rito-nerd de passagem à vida adulta: me levou para assistir meu primeiro filme de terror no cinema. O nome da fita era Brinquedo Assassino, dirigido por Tom Holland (do clássico do “terrir” A Hora do Espanto) e que fez enorme sucesso à época. Se eu gostei? Bem, eu só tinha 8 anos e era uma criança, então estava muito mais preocupado em tapar os olhos e os ouvidos de tanto medo que eu tinha daquele boneco deformado com cara de Fofão. Cheguei em casa, me enfiei no quarto e expulsei do mesmo todos os bonequinhos do Comandos em Ação, expostos em uma mini-trincheira que eu tinha montado num cantinho qualquer. Os coitados ficaram desabrigados! :-)

Quando assisti ao filme novamente, depois de alguns anos, já mais maduro e não ligando muito em levar sustos e coisas do gênero, descobri que Brinquedo Assassino era o maior filmaço, terrorzão muito do bacana que mexe mesmo com os nervos da platéia com uma situação insólita e tratada com bastante realismo. Além disso, a fita alçou à condição de astro o feioso boneco Chucky, “protagonista” da fita. Em 1990, chegou às telas Brinquedo Assassino 2 e, em 1991, Brinquedo Assassino 3, e eu, já um fã do brinquedo sádico, fui correndo assistir – mas não passaram nem perto do primeiro em questão de “meeeedo”. Ao contrário: recheou o carismático assassino com diálogos cômicos e bem irônicos, mas não se decidiu entre seguir a linha de comédia ou a linha de terror. O resultado foi o fracasso retumbante e merecido destas duas continuações e, como conseqüência, o envio de Chucky ao limbo cinematográfico. Tadinho dele…

Em 1998, porém, o diretor Ronny Yu (da tosqueira-mór Freddy Vs. Jason) se juntou ao criador do personagem, Don Mancini, e deu uma renovada muito bacana no personagem ao criar o primeiro longa da série com Chucky assumidamente cômico (e muito cômico, por sinal): A Noiva de Chucky, em que o brinquedo malévolo ganha uma “parceira” tão maluca quanto ele, interpretada por Jennifer Tilly (aquela que fez par com Gina Gershon em Ligadas pelo Desejo). Bom, já que o cara ganhou uma esposa, nada mais natural que ganhasse também um filho, num futuro próximo. Tudo era questão de tempo.

E eis que estamos em 2005, e chega aos cinemas o hilário quinto filme da franquia, O Filho de Chucky (Seed of Chucky, 2004), dirigido pelo criador da série em pessoa, o tal Don Mancini. E quando todos pensavam que seria mais uma bomba como outra qualquer, ou mais uma fitinha com pretensões de tirar uns trocados dos desavisados… Surpresa! O longa é divertidíssimo, daqueles de fazer rir de cinco em cinco minutos. Claro, Chucky deixou de ser um cara macabro há muito tempo, e está mais palhação do que nunca. O insano passa o tempo todo matando e fazendo piada com isso. Se você espera tremer na poltrona, é melhor nem passar perto do cinema. Se você quer levar susto, a fita tem um ou dois, e ainda assim o som da sala precisa estar no talo – então é preferível procurar outra produção de horror (como Eliana e o Segredo dos Golfinhos). Agora, se você procura piadas, está no lugar certo! Aqui tem aos montes! E, por incrível que pareça, algumas são até bem inteligentes, não apenas jogadas ao vento… Mas vamos e venhamos: quem vai assistir a um troço desses esperando sentir calafrios na espinha?

Para começar a contar um pouco da história de O Filho de Chucky (calma, não vou entregar nada importante), vamos voltar um pouco ao final do filme anterior, A Noiva de Chucky. – ATENÇÃO, OLHA O SPOILER! – Primeiro, para que todos entendam o lance, Chucky foi revivido por sua namorada Tiffany, que acabou virando também uma boneca e depois os dois ensacaram. Antes disso, porém, Tiffany apareceu grávida (!). Só não me perguntem como bonecos de plástico fazem para gerar rebentos! Enfim, como sempre, Chucky morre de todas as maneiras, e Tiffany também. Mas não sem antes dar a luz (!) numa cena esdrúxula mas perfeita… – OBS.: Pausa no texto, pois acabei de me lembrar da ridícula piada sobre “látex” que Chucky dispara no quarto filme da série.

Neste novo filme, o tal bebê está crescido (a seqüência de abertura, imitando Olha Quem Está Falando, é ótima) e supostamente órfão. O garoto-boneco (dublado pelo impagável Billy Boyd, o Pippin da trilogia sagrada O Senhor dos Anéis) é encontrado por um popular e apelidado de “Chacota”, vivendo preso num circo de ventríloquos (!). Como se jã não fosse o suficiente, o bonequinho ainda passa o sofrimento de não ter o mesmo instinto assassino dos lendários papai e mamãe (pois é, o garoto literalmente urina nas calças sempre que tem pesadelos com morte!). Enquanto isso, os “corpos” de Chucky e Tiffany foram reconstruídos e despachados para Hollywood, onde são usados nas filmagens de um filmeco B que conta a “lenda urbana” dos brinquedos. O filme dentro do filme é estrelado por Jennifer Tilly (interpretando ela mesma além de dublar Tiffany novamente), que não agüenta mais fazer papéis deste tipo.

O negócio começa a esquentar quando Chacota vê uma reportagem na TV falando sobre o tal filme e descobre (num momento ridiculamente engraçado) que aqueles dois bonecos feiosos são… seus pais. Então, o bonequinho – uma das coisas mais horrorosas criadas por Hollywood nos últimos anos, devo dizer – foge do circo e dá um jeito de chegar até Hollywood, onde revive papai e mamãe (não vou contar como) e lhes confidencia que é… seu filho! A partir daí, a palhaçada começa pra valer: Chucky acha que o boneco é homem, então lhe dá o nome de Glen. Já Tiffany acredita que Glen é uma menina e lhe dá o nome de… Glenda (numa referência impágavel ao grande Ed Wood). Só que Glen (ou Glenda) acaba se tornando uma vergonha aos pais justamente por não gostar de matar (!) e também por sua indefinida sexualidade (!?!?!). Pois é, nem o garoto sabe se é mocinho ou mocinha. Enquanto eles tentam se tornar uma… bem… “família de verdade”, mais corpos ensangüentados se amontoam, como nos melhores exemplares de filmes B.

Só para se ter uma idéia de quão bizarro é o negócio, imagine um diretor de cinema interpretado pelo rapper Redman, que quer rodar uma produção bíblica sobre as “aventuras da Virgem Maria” (oi?). E pensem na idéia de Tiffany ligar para um centro de auto-ajuda pedindo conselhos para parar de matar (oi?). Além disso, também há uma série de citações às tosqueiras produções B dos anos 50 e também a trabalhos conceituadíssimos como Psicose e O Iluminado (esta cena, aliás, é uma das melhores). E sem contar, também, a já clássica seqüência envolvendo a popstar Britney Spears (se você não viu o trailer, nem vou falar pra não estragar a surpresa). O grande trunfo da fita, porém, é o fato de O Filho de Chucky não se levar a sério em momento algum. Uma decisão acertadíssima de Don Mancini, que assumiu a veia cômica do personagem de vez e transformou o que poderia ser uma tremenda bomba num dos trabalhos mais descompromissados e alegres deste verão. Se você não leva a vida muito a sério, assim como nós aqui deste glorioso website, vai ser moleza gostar de O Filho de Chucky.

Mas atenção: como já disse antes, para que você se divirta aos montes com esta “família bizarra”, deixe o mau humor e a crítica fora da sala, e entre na sessão apenas com a vontade de rir. Um conselho: deixa de ser cri-cri, meu! Vá, dê muitas risadas e esqueça logo depois! Bom, uma coisa é garantida: a cena em que Tiffany mostra os seios vai te fazer gargalhar, com certeza. E pelo amor de Deus, se você quer realmente se borrar nas calças, vá até a locadora e alugue O Bebê de Rosemary. Ou então qualquer bomba da Xuxa. Porque aquilo sim dá muito medo! :-)

CURIOSIDADES:

• O roteiro de O Filho de Chucky foi originalmente oferecido à Universal Pictures em 1998, mas a empresa recusou. Assim, o projeto foi comprado pela Focus Features, uma divisão da Universal. O problema é que a Focus Features não queria associar sua imagem, geralmente ligada a longas independentes e premiados, ao esculacho que é este filme. Então, os caras da Focus criaram mais uma subdivisão, chamada Rogue Pictures, para fazer o longa sem perder a imagem cult.

• O filme conta com uma série de participações muito especiais, desde o “rei do trashJohn Waters (diretor de Hairspray, Éramos Todos Jovens e do ainda inédito por aqui A Dirty Shame), como um atrevido fotógrafo, até Jason Flemyng (colaborador habitual do inglês Guy Ritchie), que interpreta a primeira “vítima” do casal Chucky e Tiffany.

• Ao contrário do que andaram dizendo por aí, a cena da Britney Spears não foi rodada com participação da própria. Era uma sósia mesmo. Mas pelo sarro e pela sua conclusão, até poderia ter sido…

• A idéia original de Don Mancini era fazer Jennifer Tilly emagrecer para viver o papel, por ter uma série de piadas ligadas à anorexia que domina Hollywood. Mas como a atriz é meio “fofinha”, Mancini alterou vários pontos do enredo para não deixar passar este detalhe em branco.

• O Chucky e aquela velha lenda urbana me fizeram incinerar escondido meu boneco do Fofão em 1988. Acho que era o que eu precisava pra virar gente!

SEED OF CHUCKY • EUA • 2004
Direção de Don Mancini • Roteiro de Don Mancini
Elenco: Jennifer Tilly, Brad Dourif, Billy Boyd, Redman, John Waters, Hannah Spearritt.
87 min. • Distribuição: Paris Filmes.

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