Comédias Inofensivas Para Quem Odeia Carnaval

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 03/02/2005.

Pois é, o Carnaval está aí. E assim como todo ano, o ritual se repete: blocos carnavalescos e trios elétricos nas ruas, desfiles de escolas de samba na televisão, mulher pelada aos montes e muita, muita diversão. Para muitos, no entanto – e incluo aí uma pancada de nerds como eu e provavelmente você que está lendo este artigo, o evento anual não passa de “apenas uma barulheira bagunçada e insuportável”, como minha vovó costumava dizer (é, eu sei, barulheira bagunçada soou um pouco estranho, mas é assim mesmo que ela falava). Ah, tem um lado bacana nessa história toda: vários dias de feriado! :-)

Brincadeiras à parte, é realmente muito grande a parcela da população que prefere se enclausurar em casa a literalmente cair no samba. Afinal, não é todo mundo que é chegado em brincar a noite inteira, né? E como tem aí cinco dias de “descanso” – ops, quatro dias e meio -, nada melhor do que varrer a estante de sua videolocadora predileta. Por isso, nós aqui d’A ARCA fizemos uma seleçãozinha básica de filmes muito legais para que você, caro amigo, não fique à toa neste feriadão de Carnaval. VIU COMO NÓS GOSTAMOS DE VOCÊ?

Bem, e o que estas fitas têm em comum? Pois é, já que o Carnaval celebra acima de tudo a alegria, separamos aqui somente comédias bem levinhas, bem inofensivas, daquelas que você assiste, se diverte aos montes e fica com um sorrisão na cara o resto do dia. Só lembrando que todos os filmes citados aí embaixo estão disponíveis em DVD. Faça sua escolha aí embaixo e até a quarta-feira de cinzas! Isso se eu estiver inteiro – e sóbrio – até lá… :-P

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS CLÁSSICAS…

Considerado pela crítica como uma das mais divertidas comédias já feitas, o clássico Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935) também é tido como a obra-prima definitiva dos notórios Irmãos Marx – para quem não sabe, são quatro: Groucho, Chico, Harpo e Zeppo Marx. Os comediantes, que fizeram muito sucesso nos palcos entre 1910 e 1918, vinham de uma lucrativa carreira nas telonas na Paramount quando rodaram esta sexta fita, a primeira na MGM, que caiu nas graças do público e lotou os cinemas em 1935. Este clássico absoluto conta a história de um empresário picareta que é auxiliado por dois tenores atrapalhados na tentativa de assumir uma companhia lírica na montagem do espetáculo Il Trovatore em Nova York. Parece simples, não? Mas o longa reserva muitas e hilariantes surpresas em seu decorrer. Dentre as zilhões de gags imortalizadas pelo quarteto – que inspirou praticamente TODAS as fitas do gênero a seguir, até hoje -, Uma Noite na Ópera traz a tão famosa “cena do camarote” (um aposento de um navio em que não pára de entrar gente). Assista e entenda porquê os Irmãos Marx são tão conceituados e por quê esta fita é presença constante em muita listinha de “dez mais de todos os tempos” por aí.

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS ADOLESCENTES…

Um dos filmes mais bacanas dos anos 80 (e também um dos mais conhecidos) é Picardias Estudantis (Fast Times at Ridgemont High, 1982), da diretora Amy Heckerling (que depois viria a dirigir o sucesso Olha Quem Está Falando). A fita retrata um ano na vida de seis adolescentes num colégio secundário da década de 80, dentre eles a virgem Stacey (Jennifer Jason Leigh, Mulher Solteira Procura), obcecada em perder a virgindade; o mentiroso Brad (Judge Reinhold, Vice-Versa), irmão de Stacey, que nunca transou com a namorada, mesmo mantendo o relacionamento há cerca de dois anos; a “experiente” Linda (Phoebe Cates, Gremlins), gloriosa de namorar um universitário; e o desligadão Jeff (Sean Penn), cujo único esporte é fumar maconha… Apesar de ter uma roupagem característica de “filme adolescente”, Picardias Estudantis explora com certa seriedade o universo dos jovens da época – tambem pudera: o roteiro é de ninguém menos que Cameron Crowe (Vida de Solteiro, Quase Famosos)… O trabalho de Heckerling, além de ter se dado bem nas bilheterias em 82, definiu alguns dos conceitos básicos do subgênero “comédia adolescente”, que depois seriam explorados em trabalhos inferiores como Porky’s, A Primeira Transa de Jonathan, O Último Americano Virgem e American Pie, só pra citar alguns, e também apresentou ao mundo os ótimos Jennifer Jason Leigh e Sean Penn. Obrigatório!

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS PARA A FAMÍLIA INTEIRA…

O diretor Joe Dante, cujo nome foi parar lá na estratosfera com o sucesso de fitas como Viagem Insólita e Gremlins, andava meio em baixa lá pelos idos de 1993 quando rodou o divertidíssimo Matinê: Uma Sessão Muito Louca (Matinée), seu 11.º filme. O longa não foi lá estas coisas no que diz respeito a bilheteria, mas rapidamente se tornou cult entre os adultos, mesmo sendo voltado à molecadinha que está entrando na adolescência. E não é pra menos. Olha só o enredo: o produtor de cinema Lawrence Woosley (John Goodman, perfeito no papel) chega à uma cidadezinha da Flórida para a estréia de seu mais novo filme, Mant. Estamos em 1962. Woosley aplica as mesmas técnicas utilizadas à exaustão pelo master William Castle em suas fitas: instala dispositivos de choque nas poltronas, contrata figuras fantasiadas de personagens bizarros, aciona bombas de fumaça, entre outras coisas. O problema é que a concorrida matinê de estréia de Mant se dá em plena época da crise dos mísseis em Cuba, o que detonará uma série de confusões. Junte a isso uma subtrama bacaninha sobre o rito de passagem da adolescência à fase adulta e você tem uma fita engraçada, divertida, nostálgica e cheia de boas tiradas. Ótimo pra se assistir numa sessão-da-tarde!

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS ROMÂNTICAS… – PARTE 1!

Imagine viver um dia… todo dia. É basicamente o que acontece com o cínico meteorologista de televisão Phil Connors (Bill Murray) no já clássico Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993). O cara é obrigado a ir até uma cidadezinha do interior chamada Punxsutawney (!), na Pensilvânia, para cobrir um evento inútil chamado de “Dia da Marmota”, em que acredita-se que uma marmota consegue prever o fim do inverno todo dia 2 de Fevereiro (!). Connors e equipe, formada pela bela assistente Rita (Andie MacDowell, Quatro Casamentos e um Funeral) e o cameraman Larry (Chris Elliot, Quem Vai Ficar Com Mary), são obrigados a ficar na cidade mais um dia, cortesia de uma nevasca que fechou a estrada de volta. Coisa, aliás, que o insuportável Connors não podia nem conceber em sua mente. Só que, no dia seguinte, quando acorda, Connors percebe que o dia é… o mesmo que o anterior. Bizarro! E o mesmo 2 de Fevereiro se repete, e se repete, e se repete… Qual o objetivo disto? É o que Connors – e o espectador – precisa descobrir nesta hilariante comédia lotada de metáforas. Feitiço do Tempo arrasou nas bilheterias ianques graças à divulgação boca-a-boca e também ao excelente e originalíssimo enredo, que salva até a geralmente fraca Andie MacDowell. E Bill Murray nos seus melhores dias já compensa qualquer preço de locação, né? Favor prestar atenção ao ridículo e hilariante Ned Ryerson, personagem do eterno coadjuvante Stephen Tobolowsky.

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS ROMÂNTICAS… – PARTE 2!

Outra excelente pedida é o aclamadíssimo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001), bem-sucedida mistura de drama, comédia e romance do cineasta Jean-Pierre Jeunet (Alien: a Ressurreição). Acho que todo mundo conhece a história, mas em todo caso vai lá: a ingênua francesinha Amélie (a belíssima Audrey Tatou, que estará em breve nas telonas com o drama Eterno Amor, também de Jeunet) dedica-se aos “pequenos prazeres da vida”, em sua própria definição (olha a malícia aí, hein galera!). No dia da morte da Princesa Diana, Amélie encontra um pequeno tesouro escondido em sua casa: uma pequena e antiga caixa, cheia de velhos brinquedos e pertences de uma criança. Depois de encontrar o dono da caixa – no caso, um velho senhor -, Amélie resolve se dedicar a fazer o bem aos outros, mas é negligente quando o assunto é a sua própria felicidade. Esta fita francesa vencedora de uma pá de prêmios por aí (entre eles o BAFTA, o Goya e o César, além das várias indicações ao Oscar neste ano) dispensa qualquer apresentação, fazendo qualquer coração de pedra se emocionar com a simplicidade do enredo e provando de uma vez por todas que não, filme francês NÃO É CHATO! :-D

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS DE HUMOR NEGRO…

…É só cavucar a extensa filmografia de Woody Allen. Porque humor negro é só o que tem por lá! Aliás, um dos grandes trabalhos da carreira de Allen (e também um dos mais obscuros) é um típico exemplar do gênero: Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery, 1993), primeira incursão do cineasta nas comédias rasgadas depois da fase intimista que contou com frutos do porte de A Era do Rádio, Hannah e Suas Irmãs, Neblina e Sombras e Maridos e Esposas. Um Misterioso Assassinato em Manhattan também marca o primeiro longa de Allen depois da confusão toda envolvendo Mia Farrow e a filha adotiva do casal, Soon-Yi. Voltando ao longa: no hilário enredo, o casal Larry (Allen) e Carol Lipton (Diane Keaton, num de seus melhores dias) mora ao lado de um casal de idosos, Paul e Lilian House. Um certo dia, Lilian morre. Carol passa a desconfiar que a morte, dita natural pelos médicos, possa na verdade se tratar de homicídio quando percebe que Paul está mais feliz da vida do que nunca, e passa a investigar o suposto “crime”, para desespero de Larry. Traduzindo: piadas fantásticas, diálogos idem, atuações excelentes de todo o elenco (que ainda conta com Anjelica Huston e Alan Alda, que está concorrendo ao Oscar este ano por O Aviador)… Bem, um típico produto de Woody Allen. Uma curiosidade: o filho de Allen e Keaton é interpretado por ninguém menos que Zach Braff, o J.D. do excelente seriado Scrubs, da Sony.

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS IRÔNICAS… – PARTE 1!

Já que o aclamado e oscarizável Sideways está finalmente entrando em cartaz no circuito brazuca, nada melhor do que desenterrar uma das pérolas do cineasta Alexander Payne para aproveitar e conhecer um pouco de seu estilo. Mesmo tendo feito só filmaço, seu ponto alto (pelo menos até este último) ainda é o fenomenal Eleição (Election, 1999). A tal eleição do título definirá o presidente do grêmio estudantil de uma escola secundária qualquer dos States. O evento, que deveria ser apenas “mais um evento escolar”, se transforma num terrível pesadelo para o pacato professor Jim McAllister (Matthew Broderick). Tudo isto porque Tracy Flick (Reese Witherspoon, em seu papel definitivo no cinema), a melhor aluna do colégio, está concorrendo à vaga. McAllister alimenta um ódio profundo e silencioso por Tracy, por motivos que são revelados no decorrer do filme. Para impedir que Tracy vença, o professor arruma um candidato de oposição, o imbecil Paul Metzler (Chris Klein, em seu único papel no cinema que prestou até agora). O problema: Tracy está disposta a TUDO para vencer esta eleição. Só para se ter uma idéia da acidez do enredo, a terceira candidata à presidência do grêmio é a revoltada Tammy Metzler, irmã de Paul, uma pré-adolescente… lésbica. O excelente roteiro dá várias reviravoltas bem amarradas e a direção firme e segura de Alexander Payne entrega pelo menos uma cena clássica: a do discurso dos candidatos. E pelo amor de Deus, só a música tema do Navajo Joe, composta por Ennio Morricone, presente nas cenas em que Jim McAllister “pensa” em Tracy Flick, já valem qualquer dinheiro gasto com esta fita!

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS IRÔNICAS… – PARTE 2!

Outra trabalho bastante interessante é Como Enlouquecer Seu Chefe (Office Space, 1999), de Mike Judge, mais conhecido por ser o criador dos hilariantes seriados Beavis & Butt-Head e O Rei do Pedaço. Peter Gibbons (o semi-desconhecido Ron Livingston, de Swingers: Curtindo a Noite) detesta seu emprego de programador de computadores. Pra piorar ainda mais a situação, Gibbons está sendo traído pela namorada. Depois de presenciar a morte de seu hipno-terapeuta, em plena sessão de hipnose, Gibbons tem uma visão e decide simplesmente… não se preocupar mais. Larga da namorada, arruma uma outra (no caso, a solteira-de-novo Jennifer Aniston) e, na tentativa de ser mandado embora do emprego, passa a negligenciar totalmente o trabalho. Chega atrasado, não aparece aos Sábados, vai trabalhar com qualquer roupa, estas coisas. Só que está atitude o faz… crescer de cargo! Mais ou menos assim… É, se isso funcionasse na vida real… Enfim, esta despretensiosa comédia de Mike Judge é uma jóia do humor corrosivo. Afinal, que outro trabalho do gênero incita empregados de uma empresa a desviar grana para uma conta fantasma? E que tal mostrar aquele glorioso “dedinho do meio” para o seu patrão? Fita bem gostosa de assistir, que combina perfeitamente com um sofá, um copo de Guaraná e um balde de pipocas.

• SE VOCÊ GOSTA DE COMÉDIAS DE AÇÃO…

Quatro amigos britânicos juntam uma graninha e decidem apostar tudo num jogo de cartas contra um terrível mafioso chamado Harry Machado (sim, é isso mesmo). Além de perder a aposta, ainda saem devendo uma nota preta. Pra ser mais exato, 500.000 libras. O mafioso dá o prazo de uma semana para que eles arrumem a grana. Caso não consigam, terão seus dedos decepados. Com esta pequena linha de história, a produção de ação Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998) lançou o inglês Guy Ritchie ao mundo – e aos braços e pernas de Madonna, mas isso é uma outra história… Enfim, logo em seu primeiro filme, Ritchie provou que tem as manhas de comandar um trabalho bem feito com pouca verba, ótimos e desconhecidos atores, montagem acelerada e muita, mas muita criatividade. Afinal, o enredo (que é absurdamente complexo mas totalmente verossímil e todo amarradinho) mistura, além deste plot, mais uma dúzia de personagens, uma plantação gigante de maconha e os tais “dois canos fumegantes” do título, duas espingardas raríssimas que têm importância vital na trama. A mesclagem de ação e comédia rasgada também é uma especialidade de Guy Ritchie, que mais tarde viria a realizar o não-menos-engraçado Snatch: Porcos e Diamantes. Se você ainda não assistiu, está esperando o quê, catzo?

Pois bem, estas são as nossas dicas. Corra à sua videolocadora mais próxima, faça o “rapa” nas prateleiras e um ótimo Carnaval a todos! E qualquer reclamação, é só procurar o Procon. :-P

COMÉDIAS INOFENSIVAS PARA QUEM ODEIA CARNAVAL
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 03/02/2005
Complemento do especial de Carnaval do website A ARCA.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: