O Quarteto Fantástico

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 07/07/2005.

Num mundo perfeito, não precisaríamos nos preocupar em ter que presenciar mais uma atrocidade de Tim Story invadindo os cinemas, pois o cara seria banido da face do planeta para todo o sempre. E isto não é um acesso iminente de cólera de um fã xiita do Quarteto Fantástico, pois como todos sabem, eu não sou exatamente o que poderia-se dizer “um expert em HQs”. Apesar de tudo, já posso dizer que não sou totalmente leigo no ramo, visto que fui apresentado recentemente e ando folheando algumas revistinhas bastante puras e inocentes, como Preacher, Authority, Hellblazer, Alias e afins… Aliás, a Jessica Jones, estrela de Alias, provou ser digna de meu respeito, pois só mesmo um herói para agüentar calado a carcada que aquele armário chamado Luke Cage deu nela no, er, digamos, “Lado B” da coisa. :-)

Voltando ao assunto: num mundo perfeito, Tim Story não teria sequer nascido (!). E isto não é papo de fã de gibi revoltado. Digo com relação a cinema mesmo. Afinal, quem, assim como eu, teve a coragem de se submeter a torturas psicológicas como Uma Turma do Barulho e Táxi, sabe e talvez concorde comigo que a direção deste “pseudo-cineasta com nome de filme da Pixar” é simplesmente sofrível. Quanto ao controverso longa-metragem do Quarteto Fantástico, dirigido por Story e principal estréia da semana, não posso falar nada, pois ainda não pude conferir. E talvez nem vá: primeiro, porque acho o Ioan Gruffudd o maior mané. Segundo, porque prefiro guardar meu punhado de moedas para outra coisa fantástica: uma certa fábrica de chocolates cujos portões estão perto de abrir. Ei, entenderam o trocadilho? Hehehe!

Por mais que eu sinta um asco tremendo pelos filmes de Tim Story – e também saiba que o lance neste novo trabalho não está tão diferente assim -, devo concordar que, em comparação a um VHS surgido no meio dos anos 90, a nova aventura do Sr. Fantástico e companhia é digna de um Oscar de Melhor Filme! Sim, estou falando do mitológico O Quarteto Fantástico (The Fantastic Four, 1994), uma tosqueira produzida em 1994 por ninguém menos que o master dos filmes B Roger Corman. Se você curte quadrinhos e ainda não assistiu a esta “jóia”, tenho certeza de que pelo menos ouviu falar dela, ou de sua lenda: quem aí nunca ouviu falar da fita que foi produzida, mas os produtores decidiram não lançar, depois que conferiram o resultado final e viram o tamanho do abacaxi que tinham em mãos?

Antes de mais nada, voltemos no tempo para entender o que aconteceu: lá pelos idos do final dos anos 80 e início dos anos 90, com a febre do Batman de Tim Burton, os estúdios queriam apostar todas as fichas em adaptações de heróis dos quadrinhos para as telonas. Quem saiu na frente foi justamente a New Horizons, empresa do homem mais tosco de todos, o mequetrefe Roger Corman. A New Horizons foi acionada pela empresa alemã Constantin Film para rodar uma fita do Quarteto. O tal estúdio alemão detinha os direitos de adaptação dos personagens desde 1989, mas este contrato venceria em quatro anos e o custo da renovação seria muito caro – a não ser que a produtora realmente produzisse um material qualquer com os personagens. Assim, poucos meses antes do vencimento do contrato, a New Horizons de Corman rodou O Quarteto Fantástico em apenas um mês e com um orçamento “milionário” de US$ 1,5 milhão, apenas para dizer que fez alguma coisa… :-P

O resultado desta empreitada deixou os executivos da Marvel de cabelos em pé. Mesmo não sendo oficialmente confirmado, muitas fontes afirmam de pé junto que a Marvel, então representada por Stan Lee, sentiu-se tão ofendida com o material apresentado por Roger Corman que proibiu o lançamento da fita por lei, embora a Constantin Film tivesse planos de realizar um discreto lançamento nos cinemas. No final dos anos 90, quando disseminou-se o boato sobre a existência da “fita maldita do Quarteto Fantástico”, a Marvel chegou a publicar que destruiu a cópia matriz. O que aparentemente não é verdade, visto que há uma cópia bem prejudicada rolando pela Internet.

Mas afinal, O Quarteto Fantástico é tão ruim assim? Sim, é. Eu não diria “ruim”, diria logo TRÁGICO, embora não saiba dizer se o péssimo roteiro escrito pelos “famosos quem?” Craig J. Nevius e Kevin Rock ofende ou não a essência do histórico dos personagens. O que posso dizer com convicção é que o longa-metragem dirigido por um tal de Oley Sassone (hein?) é mal escrito, mal interpretado, reúne o maior número de clichês de folhetins mexicanos por metro-quadrado e é bastante amador no sentido visual da coisa, o que não é desculpa alguma para justificar certos erros. Para entender melhor o que digo, aqui vai um breve resumo do enredo.

Tudo começa quando os melhores amigos Reed Richards (Alex Hyde-White) e Victor Von Doom (Joseph Culp), ainda em sua juventude, criam uma máquina para tentar extrair energia de um cometa radioativo chamado Colossus, que passa pela Terra de 10 em 10 anos. O plano dos dois é aquilo de sempre: abastecer o planeta de modo que os gastos possam ser reduzidos e blá blá blá. Um mau pressentimento de Reed e um erro de cálculo resultam numa explosão e na aparente morte de Victor, que fica todo “torradinho”. Até este momento, somos presenteados com pelo menos duas cenas muito “perturbadoras”: o inexplicável tombo da piveta que “interpreta” a jovem Sue Storm, e a patética seqüência do “abraço” entre Reed e Ben Grimm (Michael Bailey Smith) no hospital. Olha, quem adora tirar um sarro da amizade entre Frodo e Sam na trilogia sagrada O Senhor dos Anéis, precisa urgentemente ver isso aqui! :-P

Dez anos depois, Reed é um conhecido cientista e construiu uma hiper-espaçonave com o objetivo de capturar a tal energia do Colossus. Reed convida Ben para fazer parte da tripulação da tal nave, assim como os irmãos Sue Storm (Rebecca Staab) e Johnny Storm (Jay Underwood). Detalhe: Sue e Johnny não entendem nada de astrofísica, mas Reed os convida mesmo assim! É incrível como os caras chegam na casa dois e perguntam “Querem ir para o espaço?”, e eles respondem “Sim, queremos!”. É aqui que você poderá encontrar o diálogo mais chumbrega de todo o filme. Afe!

Enfim, para viajar pelo espaço, Reed precisa de um diamante gigante e ultra-detalhado que filtrará a energia do “Colossus”, de modo que mantenha a tripulação segura. Mas um bandido que apareceu na história do nada, chamado “O Joalheiro” (por sinal, um personagem parecido ATÉ DEMAIS com o Pingüim de Danny DeVito em Batman, o Retorno), rouba a pedra preciosa, substituindo-a por uma réplica idêntica (que ninguém sabe de onde veio). Isto, claro, ocasiona na explosão da nave e na conseqüente transformação dos tripulantes no Quarteto Fantástico. E quando você pensa que o negócio não poderia ficar pior… voilá! E alguém aí me explica: como um acidente em pleno espaço desintegra a nave por completo e seus tripulantes caem na superfície terrestre sem sofrer NENHUM DANO?

Enquanto isso, Victor revela-se vivo e convertido no famigerado Dr. Destino – praticamente um irmão-separado-no-nascimento do nobre Esqueleto de Mestres do Universo, aquela coisa medonha com o Dolph Lundgren -, já em seu país natal, a Latvéria (local onde “coincidentemente” o grupo caiu), planeja roubar os poderes dos quatro infelizes. Mas como o vilão adivinhou que a turminha do titio Richards tinha super-poderes, visto que eles acabaram de cair? E como a Sue Storm arrumou o uniforme do Quarteto em tão pouco tempo? E como QUALQUER ROUPA que a Mulher Invisível coloque desaparece junto com ela? Por que o lar do Dr. Destino é um típico Castelo do Conde Drácula, bem na pontinha de um precipício e com vários raios subindo ao fundo? Por que a insuportável musiquinha edificante toca a toda hora? Como diria a dona Milu: Mistéééééééério.

As maiores falhas surgem a partir deste ponto: é impressionante como os quatro conhecem seus poderes e assustam-se com o que vêem, para dali a dois minutos já levarem tudo numa boa e dominarem totalmente suas “particularidades”. Os efeitos especiais são um show à parte: enquanto o Tocha Humana surge no formato de uma terrível animação cuja seqüência é um visível loop de uma única cena (!), o Sr. Fantástico utiliza-se de braços e pernas literalmente de borracha para se esticar – reparem nas mãos e pés do indivíduo, é muito mal feito! Já o Coisa não passa de um boneco de espuma com cabeça de Tartaruga Ninja, que até engana quando está parado, mas quando se movimenta… Vixe! No saldo geral, as demonstrações de poderes são totalmente risíveis – não para os fãs, claro, que sentirão um desejo claro de arremessar a TV longe.

Quanto às interpretações… bem, as interpretações dos atores centrais, todos ilustres desconhecidos, são horrorosas. Não dá pra saber quem é o pior. Um destaque especial, na minha visão, é o péssimo Jay Underwood, que vive o Tocha Humana. Céus, como aquele cara é ruim! Enquanto isso, a fraca Rebecca Staab, como a Mulher Invisível, não faz nada além de “alisar” o Reed Richards e sorrir o tempo todo. O “menos ridículo” de todos é Michael Bailey Smith, que até tenta dar um pouco de dignidade quando está na pele de Ben Grimm, mas torna-se tão ruim quanto os outros quando vive o Coisa. Não tem como não rolar no chão com a grotesca e hilariante seqüência dramática a la novela mexicana do SBT, em que o Coisa revolta-se com sua condição e tenta se aproximar de duas garotas na cidade grande. Talvez este seja o momento mais lamentável (e conseqüentemente engraçado) da fita inteira. :-P

Bem, se relacionássemos todos os pontos negativos deste O Quarteto Fantástico by Roger Corman, este texto jamais terminaria (!). Afinal, ainda temos as montagens mal-feitas, a trilha sonora composta de apenas três faixas – uma para os momentos de ação, outra para os momentos tristes e mais uma terceira faixa “meio circense”, para as aparições escabrosas do Joalheiro. Nem a Alicia Masters, escultora cega e paixão platônica de Ben Grimm, escapa da humilhação! Aliás, as cenas protagonizadas pela garota (interpretada por uma tal Kat Green) são de gelar a medula. Isso porque me recuso a comentar a pavorosa cena final do casamento e do “tchauzinho”, tão ruim que é capaz de causar suicídios coletivos em massa (!), e a pontinha do horroroso George Gaynes, para quem não lembra, o Comandante Lassard da cinessérie Loucademia de Polícia

Então, uma pergunta que todos devem ter feito até agora: o negócio é tão tosco e tão ruim que justifique a suposta decisão da Marvel de enterrar a produção no buraco mais fundo que pôde cavar? Depois da terrível experiência de assistir a esta coisa, eu digo: sim, esta iniciativa da empresa é perfeitamente justificável. É como aquela máxima da Lei de Murphy: “Quando algo está ruim, lembre-se de que pode ficar ainda pior”. E olhando agora, devo confessar que blasfêmias como a visão de Joel Schumacher para o Cavaleiro das Trevas e até mesmo a escalação de Tim Story para uma película protagonizada por super-heróis não parece ser tão horrível assim… Vade retro!

THE FANTASTIC FOUR • EUA/ALE • 1994
Direção de Oley Sassone • Roteiro de Craig J. Nevius e Kevin Rock
Baseado nos personagens de HQ criados por Stan Lee e Jack Kirby
Elenco: Alex Hyde-White, Jay Underwood, Rebecca Staab, Michael Bailey Smith, Ian Trigger, Joseph Culp, George Gaynes, Kat Green.
90 min. • Distribuição: New Horizons.

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