Maria Antonieta

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/02/2007.

Em sua primeira exibição oficial, que aconteceu no último Festival de Cannes, Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006) foi vaiado por meio mundo, execrado pela outra metade e sua comandante, Sofia Coppola, saiu da sala chorando e a ponto de cometer suicídio (!). O fato, claro, foi comentado aos quatro ventos e estampou tudo quanto é veículo de cultura pop. E aí você lembra que Sofia Coppola é ninguém menos que aquela cultuadíssima nova cineasta, filha do mega-master Francis Ford Coppola, e que precisou de apenas dois filmes no currículo como diretora – a saber, os maravilhosos As Virgens Suicidas (1999) e Encontros e Desencontros (2003) – para comover e conquistar os cinéfilos de plantão e também o público em geral (ainda que um ou outro espectador por aí ainda teime em virar a fuça para o estilinho próprio da menina).

E então você lembra que Maria Antonieta, terceira aventura da Coppolinha na direção de longas, é justamente o projeto dos sonhos da moça, o projeto que fez a filhota do Coppolão querer insistir em uma carreira cinematográfica, o projeto que moveu sua vida até então. Conseqüentemente, este deveria ser o seu melhor trabalho, certo? Afinal, de técnica Sofia entende muito bem, como seus dois trabalhos anteriores comprovaram com honra ao mérito. Somando-se aí uma boa dose de amor e afeição à história… pô, NADA podia dar errado. Então…

…o que diabos aconteceu?

Bem, o que acontece é que Maria Antonieta mexe em vários vespeiros, tanto do ponto de vista de importância histórica quanto da visão de cinema enquanto técnica. Pra começar, estamos falando mesmo do filme mais particular de Sofia Coppola. A narrativa é hiper-lenta, com um ou outro momento bem arrastadinho. Isto, sem contar o bizarríssimo final em aberto e também a controversa escolha em mesclar uma (sensacional) trilha sonora pop, que traz gente do calibre de Gang of Four, New Order (eu me odeio pois não fui ao show deles…), Siouxsie & The Banshees e os caras do Air, à história ambientada em plena França do século XVIII. Esta escolha, analisando o resultado final, caiu como uma luva, mas não há como negar que, à primeira vista, parece bem estranho e inadequado.

Se este fosse o único porém de Maria Antonieta, meno male. O causo é outro: Maria Antonieta é uma figura naturalmente ODIADA pelos franceses. A austríaca assumiu o trono ao lado de Luís XVI numa época em que a miséria dominava a França e o povo ansiava por independência e pelo fim da monarquia – afinal, a alta classe que rondava a Família Real como urubus esbanjavam valores incalculáveis enquanto os plebeus eram forçados a pagar uma fortuna em impostos e conseqüentemente morriam de fome. A culpa era atribuída à própria, já que ela era estrangeira. Ajudou bastante a fama de extravagante e de adepta fervorosa do luxo, não pensando duas vezes em torrar o dinheiro do país em coisas fúteis. Não à toa, a péssima gestão de Luís XVI e Maria Antonieta revoltou o povo e deu a partida na Revolução Francesa, que terminou com as mortes do rei e da rainha na guilhotina, a extinção da nobreza e, finalmente, a adoção dos direitos de constituinte ao povo francês. A tal “liberdade, igualdade e fraternidade” que rege o país até hoje.

E o filme de Sofia Coppola diz, a todo o tempo, que Maria Antonieta era, na verdade, a inocente da história toda. A produção não retrata a figura como a vilã que a França adora pintar, mas como uma pobre lazarenta que foi jogada no meio do ninho de cobras e se lascou apenas por estar lá. A culpa, diz Coppola, é da própria França. Agora imagine uma platéia lotada de franceses, em um conceituadíssimo festival de cinema sediado no país da Torre Eifell, sendo forçada a engolir uma visão ianque dos acontecimentos que exime a “monstra” de qualquer culpa e transfere esta culpa ao povo considerado vítima. Claaaaaro que o resultado só podia ser este. Mesma coisa seria rodar um filme sobre o nosso atual presidente, declarar metaforicamente que o elemento não tem nada a ver com a situação do país e fazer uma pré-estréia exclusiva para um bando de anti-petistas. Ia sair tiro! :-D

Cabe, porém, um esclarecimento. Muita gente não entendeu o que raios Maria Antonieta pretende ser. Não estamos falando de uma cinebiografia da detestada rainha da França, tampouco de um retrato fiel dos últimos dias da monarquia e dos primórdios da Revolução. Na verdade, Sofia Coppola só quer mesmo contar uma história sobre uma adolescente ingênua (sim, ingênua) que, de repente, é obrigada a assumir uma carga insuportável de responsabilidade e, como qualquer jovem que mal saiu das asas da mãe, não consegue lidar com a situação e arca com todas as conseqüências. Não importa se é uma patricinha dos dias de hoje ou uma rainha de séculos atrás; a juventude é a mesma, as dúvidas são as mesmas, as burradas são as mesmas, o medo é o mesmo em qualquer era.

Maria Antonieta não deixa de ser um filme teen – com o diferencial de que é ambientado no século XVIII e é dirigido por uma indivídua incontestavelmente genial.

Este ponto de vista fica nítido quando analisamos a estrutura narrativa do ótimo roteiro de Sofia Coppola: logo de cara, acompanhamos Maria Antonieta (Kirsten Dunst, perfeita no papel) sendo praticamente vendida por sua mãe para a monarquia francesa. Assim, a menina de 14 anos sai de Viena, Áustria, onde desfrutava de uma vida confortável e sossegada, para a França, onde será entregue a seu futuro marido, o delfim Luís XVI (Jason Schwartzman), filho de Luís XV (Rip Torn). A cena da chegada de Maria Antonieta à fronteira já dá uma idéia da visão da cineasta com relação aos nobres: antes de pisar em solo azul, vermelho e branco, a garota é forçada a trocar de roupa, inclusive de roupa de baixo, para “se purificar”. O que mais doeu foi vê-la ter que abandonar seu cãozinho. Ai ai, não façam nada com os cachorrinhos! :-P

Voltando, na corte de Versailles, a deslocada Maria Antonieta rapidamente torna-se o assunto do momento. É literalmente sarrada pelas costas (ui!), além de conhecer um pouco do cotidiano da aristocracia ao presenciar as fofocas maldosas das solteironas Madame Sophie (Shirley Henderson) e Madame Victoire (Molly Shannon). Somando à isso as “regras de rainha” impostas e ensinadas pela entojada Condessa de Noailles (Judy Davis) e a presença constante da vulgar meretriz Madame Du Barry (Asia Argento, deliciosamente mundana), acompanhante do rei Luis XV, Maria Antonieta conclui: “Isto é ridículo”, e é imediatamente rebatida por Noailles: “Isto, madame, é Versailles”.

A partir daí até os últimos instantes das duas horas de projeção, só o que o público acompanha é a rotina de pesadelo de Maria Antonieta. O fracasso de seu casamento arranjado e sem amor; a pressão para gerar um herdeiro – embora Luís XVI não esteja tão interessado em consumar o matrimônio (não por supostas tendências homossexuais, como dizem, mas por se sentir tão deslocado quanto a garota); o desejo puramente sexual que alimenta pelo robusto Conde Fersen (Jamie Dornan); a cumplicidade com seu mentor, o Embaixador Mercy (Steve Coogan, ótimo) e sua melhor amiga, a Duquesa de Polignac (Rose Byrne); a falta de contato com a realidade do povo que em breve governará… A pressão em cima de Maria Antonieta é tanta, principalmente quando Luís XV morre e seu filho assume o trono, que a jovem entrega-se inconscientemente a uma vida de luxo e riquezas como válvula de escape. Se não pode com o inimigo, junte-se a eles, né não? :-P

E quando Maria Antonieta se dá conta de que precisa amadurecer para levar a França nas costas, a plebe já se revoltou por se sentir abandonada e a Revolução Francesa já arrisca seus primeiros passos. É tarde demais.

Deu pra notar como a coisa toda é explosiva, não? Há mesmo passagens que deixarão qualquer entusiasta dos livros de história de cabelos em pé. Em uma das cenas mais comentadas, por exemplo, Sofia Coppola afirma veementemente que Maria Antonieta JAMAIS soltou a máxima “Se eles não têm pão, que comam brioches”, frase que ironiza a miséria do povo francês e que é atribuída a ela. Para piorar a coisa, passagens importantíssimas da vida da monarca, como o polêmico Caso do Colar, são simplesmente ignoradas. E a explosão da Revolução Francesa… bem, se você viu o trailer, já viu tudo, tudo MESMO, que o filme mostra a respeito do evento. Quase nada! O máximo que vemos de violência causada pela Revolução é um salão do Palácio de Versailles abandonado e destruído. A conclusão em aberto, por sinal, despertará o ódio em muita gente – mas devo dizer que não haveria final mais perfeito e mágico para este filme.

Na boa? Esqueçamos tudo isso. A proposta de Sofia Coppola com Maria Antonieta não é ser um tratado definitivo da vida da moça, nem escrever um novo capítulo nos livros escolares. A personagem principal ser Maria Antonieta é um mero detalhe do verdadeiro foco da questão: a delicadeza e a rebeldia da adolescência interrompida e aniquilada pela opressão do mundo adulto.

Então… Maria Antonieta não é digno das vaias que recebeu em Cannes? Absolutamente não. Infelizmente, o ritmo meio arrastado e cansativo da narrativa não permite que a película seja tão magistral quanto os trabalhos anteriores da cineasta, mas isto não o torna ruim em momento algum. Maria Antonieta é comovente, engraçado, vivaz e cheio de momentos mágicos; na verdade, é um típico trabalho de Sofia Coppola, com todas as características técnicas e emocionais que permeiam sua filmografia. E se não é tão excelente quanto seus antecessores, pelo menos serve para provar que, além de ter amadurecido violentamente na técnica e na interpretação de seus atores, a Coppolinha não só é uma sujeita de sensibilidade aguçadíssima como também é uma pusta de uma corajosa. Não é qualquer um que tem cojones para defender um ponto de vista e ainda esfregá-lo na cara de seus detratores.

E se os jornalistas franceses não gostaram, que comam brioches. Hunf. :-D

CURIOSIDADES:

Maria Antonieta seria rodado logo após As Virgens Suicidas. Durante a preparação do roteiro, entretanto, Sofia Coppola sofreu uma estafa por conta da dificuldade em adaptar a história e lidar com muitos personagens. Para se distrair enquanto recuperava o fôlego e ganhar tempo, Coppola escreveu, de brincadeira, um pequeno roteiro sobre as aventuras de dois norte-americanos perdidos em Tóquio. O resultado deste pequeno roteiro é Encontros e Desencontros, que rendeu à diretora/roteirista seu primeiro Oscar e gerou renda suficiente para finalmente tirar Maria Antonieta do papel.

• Uma das marcas registradas dos filmes de Sofia Coppola é mostrar sua heroína com a cabeça encostada no vidro de um carro em movimento, perdida em pensamentos. Esta marca também aparece aqui. Mas não com um carro, óbvio, e sim com uma carruagem. ;-)

• Judy Davis foi originalmente considerada para o papel de Maria Theresa, mãe de Maria Antonieta. Ao ver o teste da atriz, porém, Coppola entendeu que Davis tinha todo o perfil da Condessa de Noailles; o papel de Maria Theresa acabou nas mãos da não menos talentosa Marianne Faithfull.

• O papel de Luís XV foi inicialmente oferecido a ninguém menos que Alain Delon, uma das maiores lendas do cinema francês.

• A vagaba Madame Du Barry seria vivida por Angelina Jolie, que acabou desistindo do papel para rodar O Bom Pastor, de Robert De Niro. Antes de optar por Asia Argento, Sofia Coppola ofereceu o personagem a Catherina Zeta-Jones.

• Em um dos takes que exploram o gigantesco closet de Maria Antonieta, é possível enxergar rapidamente, no meio de zilhões e zilhões de sapatos… um par de tênis All Star. E estas brincadeiras de referenciar os dias atuais com a vida da monarca estão espalhadas por toda a projeção. :-)

MARIE ANTOINETTE • EUA/FRA/JAP • 2006
Direção de Sofia Coppola • Roteiro de Sofia Coppola
Inspirado no romance Marie-Antoinette: A Journey, de Antonia Fraser
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Judy Davis, Steve Coogan, Asia Argento, Marianne Faithfull, Danny Huston, Rose Byrne, Shirley Henderson, Molly Shannon, Jamie Dornan.
123 min. • Distribuição: Sony Pictures Classics.

2 respostas para Maria Antonieta

  1. vivi ferreira disse:

    um dos meus longas favoritos, sem sobra de duvidas!
    fantastico:D

  2. victor disse:

    parabéns pelo post. o filme também é excelente!

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