Spunk: The Official 1977 Bootleg Album

Crítica de Música – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 26/12/2006, e no Whiplash.Net, em 12/01/2007.

É bem verdade que o lendário Sex Pistols é um dos alicerces do movimento punk que reinou na Inglaterra – e no resto do planeta – a partir do final dos anos 70 até meados dos 80, e que tem seguidores fiéis até hoje (viva Manchester!). É bem verdade também que a banda é amada e odiada na mesma proporção por muitos dos próprios fãs do punk-rock, que sentiram-se traídos depois que os Pistols simplesmente renegaram os rótulos que ajudaram a criar. Tudo isto colaborou para a aura mitológica que ergueu-se em cima da banda, que ganhou uma série de coletâneas tidas “não-oficiais” (como o essencial Kiss This), além de camisetas, bandanas (eu tenho uma!) e tralalá e trololó.

Para entender, portanto, a importância de Spunk: The Official 1977 Bootleg Album (1977/2006), bootleg do grupo liderado pelo senhor Johnny Rotten que finalmente chega ao formato do disquinho, basta dizer que este é, basicamente, o raro PRIMEIRÍSSIMO disco da banda. Bem, mais ou menos: Spunk é, na verdade, uma compilação dos primeiros demos gravados pelos Sex Pistols e que, poucos meses e algumas modificações depois, formariam a tracklist de seu primeiro álbum de estúdio oficial, o notório Never Mind the Bollocks Here’s The Sex Pistols (1977). Por 30 anos, Spunk rodou o mundo apenas em versão pirata e pouquíssimas cópias. Em seu trigésimo aniversário, nada mais justo e oportuno do que um lançamento digno em CD, com toda a qualidade de áudio que o formato proporciona. :-)

Por outro lado, a importância do bootleg restringe-se somente ao lado histórico da coisa, mesmo.

Não, não me xingue, eu explico: antes que qualquer um saia por aí desesperado atrás do CD, digo logo que, se você é um fã ardoroso dos Pistols e já dispõe de todo o material dos caras lançados até então, este álbum aqui deverá constar em sua estante única e exclusivamente por razões sentimentais. Não há nenhuma faixa inédita, não há nenhuma novidade escondida: Spunk traz todas aquelas velhas, boas e lendárias canções que já figuraram nas zilhões de coletâneas da banda. A diferença é que estamos falando de um material ainda cru, sofrendo mudanças, sendo aprimorado, com os arranjos de algumas faixas bem diferentes das “versões oficiais” que conhecemos. Aliás, é bem evidente aqui a influência dos novaiorquinos do New York Dolls, elemento que a banda sempre tentou encobrir.

O destaque, como era de se esperar, fica para os clássicos, que aparecem aqui com seus nomes originais. Nookie, por exemplo, é somente Anarchy in the U.K. com um título diferente; a clássica God Save The Queen dá as caras como No Future; e por aí vai. O diferencial é mesmo o arranjo mais “calminho” que caracteriza os demos: as músicas são executadas de um forma nitidamente descompromissada, leve até, e em algumas faixas (como na ótima Satellite, um bem-bolado cover de Lou Reed) Rotten não sente culpa em errar a letra ou engasgar disfarçadamente. O curioso é que dá para perceber que, às vezes, uma guitarra executada de modo diferente pode mudar tudo: uma de minhas músicas preferidas, Pretty Vacant, ficou ainda mais legal como Lots of Fun, sua versão demo. Com relação às outras, entretanto, ficou basicamente o mesmo.

Para um fã da banda como este que vos fala, o que mais valeu neste álbum foi mesmo a participação de Glen Matlock, o então baixista oficial da trupe que caiu fora em meados de 77, dando lugar àquele sujeitinho maluco e desconhecido chamado Sid Vicious. Sério, comparando os dois, dá a impressão de que os Pistols simplesmente sofreram uma overdose de adrenalina com a chegada de Vicious. A versão de God Save The Queen apresentada em Spunk é um belo exemplo de como Vicious injetou uma dose de eletricidade na banda que, até então, era até meio “moderadinha” para os padrões do gênero.

Atenção para No Fun, um bem-sacado cover não-editado dos Stooges. Aquilo NÃO PARECE Sex Pistols, meu! A não ser a partir de sua metade, quando aparentemente o baterista Paul Cook enfiou a baqueta na tomada, levou um choque e despirocou na batera. Aí Rotten começou a gritar feito um doido e então já viu. :-D

Num saldo geral, Spunk não foge à regra da discografia da banda. Trocando em miúdos, é um álbum para fãs e ponto. Se você é adepto do som dos Sex Pistols, você se sentirá na pele de um espectador convidado de uma jam session e, vamos lá, a gente sabe como isto é delirante. Não é, contudo, um disco fundamental para qualquer um que curta punk-rock em sua essência. Serve mais como uma espiada curiosa nos bastidores do início de uma era de ouro na música britânica. Ah sim, e o Johnny Rotten é o maior legal! Ele certamente compareceu mamado à gravação destas demos! Novidade, não? ;-)

SPUNK: THE ORIGINAL 1977 BOOTLEG ALBUM • SEX PISTOLS • ING • 1977/2006
Line-Up: Johnny Rotten (vocais), Steve Jones (guitarra), Paul Cook (bateria), Glen Matlock (baixo entre 1975 e 1977), Sid Vicious (baixo entre 1977 e 1978)
15 faixas • 56 min. • Distribuição: Dynamo Records.

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