Os Piratas Invadem o Cinema

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/07/2006.

Não apenas um inesperado e gratificante sucesso de bilheteria, o divertidíssimo Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, que SÓ O FANBOY NÃO GOSTOU, representou também o retorno magistral às telonas de um gênero totalmente desgastado e a quebra de uma regra já tradicional no cinema de entretenimento até então. Afinal, os pouquíssimos filmes de piratas que surgiram nos cinemas nos últimos anos, à exceção deste próprio, resultaram em fracassos retumbantes de bilheteria – e em filmecos ruinzinhos que só eles… o que aparentemente daria continuidade a esta “tradição”, fez exatamente o contrário.

E se Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest), que chega aos cinemas nesta semana, revitalizará o subgênero de vez, só alguns aninhos dirão. Mas que merece, merece! :-D

A FORMAÇÃO DA ESTRUTURA PIRATA NOS ANOS 20

O cinema-pirata (favor não confundir com pirataria… hehehe) surgiu com o advento dos filmes de aventura, isso lá pelos anos 20, e ao lado das produções capa-e-espada (como Zorro), fez muito sucesso nas telonas. Seu primeiro título significativo foi The Black Pirate (1926), superprodução em cores dirigida por Albert Parker e estrelada pelo rei dos primórdios do cinema-pipoca, Douglas Fairbanks – intérprete de outras nobres figuras como D’Artagnan e o próprio Zorro.

Além de bastante engraçado, ainda que totalmente datado, The Black Pirate (que conta a história de um homem que infiltra-se em uma gangue pirata para vingar a morte de seu pai) serviu também para fixar os alicerces do subgênero – para ser um bom filme de pirata, era obrigatório ter uma história mais do que rocambolesca, ação desenfreada, locações em ilhas desconhecidas, tesouros escondidos e, claro, a mocinha que começa a história como vítima do ataque dos piratas e termina como aliada e interesse amoroso para o astro da história. Os efeitos visuais, que utilizam miniaturas e imagens do longa mudo The Sea Hawk (1924), são risíveis hoje em dia, mas em sua época, eram um fenômeno.

O gênero fortaleceu-se com a chegada de um astro que mexeu com o público nos anos 30: Errol Flynn. Flynn estrelou o fantástico Capitão Blood (1935) ao lado de Olivia de Havilland e com direção de Michael Curtiz. A fita, que readapta a história de Robin Hood, mostra um médico condenado injustamente por roubo em 1685, que foge da cadeia e decide tornar-se um pirata para “tirar dos ricos e dar aos pobres”. A parceria entre Curtiz e Flynn rendeu mais um longa de piratas em 1940, o ótimo O Gavião do Mar, que conta a história de Geoffrey Thorne (Flynn), um aventureiro contratado pela Rainha Elizabeth I em pessoa para subjugar a armada espanhola, que pretende atacar a Inglaterra, mas que questiona sua posição ao se apaixonar por uma bela tripulante inimiga, Dona Maria (a simplesmente sensacional Brenda Marshall).

OS ANOS 40 E 50: A ERA DE OURO DAS GARRAFAS DE RUM

As investidas de Douglas Fairbanks e Errol Flynn ao subgênero dos piratas instigou os estúdios. Em 1934, por exemplo, a Metro-Goldwyn-Mayer tratou de filmar A Ilha do Tesouro com o popularíssimo Wallace Beery e o pivete Jackie Coogan (que muitos anos depois, tornaria-se o mal-humorado Perry White dos longas do Superman com Christopher Reeve). A Ilha do Tesouro – cujo comando ficou a cargo do mesmo Victor Fleming que cinco anos depois entraria para a história ao dirigir as grandes obras-primas O Mágico de Oz e E o Vento Levou – foi refilmado em 1950 por Byron Haskin (o mesmo que dirigiu a primeira e única versão de A Guerra dos Mundos que vale alguma coisa) e também rendeu um filminho estrelado pelos Muppets em 1996 e um fracassado animado futurista da Disney em 2002, Planeta do Tesouro – que provavelmente só o Fanboy assistiu.

Outros notórios longas que beberam nesta fonte foram: Os Mares da China (1935), cujo elenco era formado pelo adorado Clark Gable e pela gloriosa vênus platinada Jean Harlow; A Princesa e o Pirata (1944), mistura de ação e comédia que serviu de veículo cômico para a dupla de comediantes Bob Hope e Virginia Mayo; Capitão Kid (1945), clássico da Sessão da Tarde com elenco formado por Charles Laughton, Randolph Scott e John Carradine; e o não menos importante O Corsário sem Pátria (1958), com direção de Anthony Quinn e atuação de Charlton Heston e um Yul Brynner em início de carreira.

Os cinemas deste período também presenciaram a febre das serials (quer saber o que é serial? Procure neste notório website a matéria sobre serials que lá eu te explico!). E claro que os piratas não poderiam ficar fora desta: pelo menos dois trabalhos em forma de seriados trabalharam esta temática em grande estilo, e estes dois trabalhos atendem pelos nomes de The Sea Hound (1947), uma das mais elogiadas serials de todos os tempos (não à toa, seu astro era ninguém menos que Buster Crabbe, o rei dos seriados de cinema), e As Aventuras do Capitão Kid (1953), com John Crawford e duração de 15 capítulos.

O DECLÍNIO E A QUASE EXTINÇÃO…

Mas tudo que sobe, um dia tem que descer… e se os piratas gozaram de absoluta popularidade nas décadas de 40 e 50, os anos 60 chegaram e trouxeram o declínio ao lado de paupérrimas e tenebrosíssimos produções oriundas principalmente da Itália. Fitas como La Venere Dei Pirati (1960), Morgan Il Pirata (1961), Il Leone di San Marco (1963) e I Pirati della Malesia (1964) ajudaram a enterrar o gênero, que já sofrera um desgaste por conta do interesse do público em filmes mais maduros.

Um dos primeiros a tentar trazer os baderneiros dos sete mares de volta à vida no celulóide foi Roman Polanski, no ultra-mega-hiper-super-fuckin-fracassado Piratas (1986), comédia de humor-negro que tentou seguir a mesma fórmula de sucesso do bacanudo A Dança dos Vampiros (1967) e acabou se dando mal – custou cerca de US$ 40 milhões e só rendeu 1,6 milhões de doletinhas… Ainda que fracassado, é errado dizer que Piratas é ruim. Não é lá aquela maravilha, mas vale uma espiada, nem que seja para se deliciar com a megnífica interpretação de Walter Matthau na pele do psicótico Capitão Red, astro da película.

AS TENTATIVAS DE REVITALIZAÇÃO

Três anos antes, chegou às telas a divertida adaptação do espetáculo da Broadway The Pirates of Penzance (1983), do compositor de óperas William S. Gilbert, também conhecido como Gilbert & Sullivan. The Pirates of Penzance, comédia-musical que acompanha um jovem (Kevin Kline) que torna-se o Rei dos Piratas por engano, foi um tremendo fiasco de bilheteria por conta de um capricho dos produtores – o que acontece é que a produção foi exibida simultaneamente no cinema e na TV, mais exatamente na emissora SelecTV, de Los Angeles; irados, os exibidores e donos de cinemas simplesmente boicotaram o filme, tirando-o do circuito em seu segundo dia de exibição. Apenas uma sala de cinema nos EUA, localizada em Washington, manteve Pirates rodando por mais de uma semana. O que não adiantou muito, já que quem realmente queria ver o filme, não se incomodou em sair de casa e preferiu ver na telinha mesmo.

A maldição continuou em 1991, com a chegada aos cinemas do ambicioso Hook – A Volta do Capitão Gancho de Steven Spielberg, livre adaptação da clássica trama de Peter Pan centrada em seu vilão, o maligno Capitão Gancho (Dustin Hoffman), talvez o pirata mais famoso da história – depois de Jack Sparrow, claro! Hehehe. Relativo fracasso em números – rendeu US$ 119 mi só nos EUA, cifra considerada baixa para seu custo de mais de US$ 70 milhões – e massacrado pela crítica, Hook não decolou como o esperado. O mesmo aconteceu com o engodo A Ilha da Garganta Cortada (1995), dirigido por Renny Harlin e estrelado por Matthew Modine e Geena Davis: a brilhante direção de arte não conseguiu disfarçar o péssimo enredo e ninguém caiu na teia. Resultado? Rendeu apenas US$ 10 milhões, e olhe que custou US$ 92 milhões! :-P

O subgênero dos piratas só voltou mesmo a cair nas graças do público com um certo longa-metragem lançado em 2003, com um certo Johnny Depp, inspirado em uma certa atração de um certo parque temático estadunidense… mas isso é outra história! ;-)

PIRATAS ANIMADOS, ENGRAÇADOS E SAFADINHOS

Obviamente, estas figuras não se restringiram apenas ao gênero de ação. Além dos já citados Planeta do Tesouro e Os Muppets na Ilha do Tesouro, os piratas também serviram de inspiração para vários desenhos animados, estrelados por figuras tarimbadas como Mickey Mouse (em Shanghaied, de 1934), Popeye (Popeye e os Piratas, de 1947), Scooby-Doo (Scooby-Doo na Ilha dos Zumbis, 1998, além de milhaaaares de episódios de seu desenho sessentista) e principalmente Looney Tunes – os maiores algozes dos saqueadores dos mares, geralmente vividos por Hortelino Troca-Letras ou Eufrasino Puxa-Briga, eram Pernalonga e o bizarro galo Frangolino (hehehehe!). Isto, sem contar os indivíduos que protagonizaram a excelente e já antológica seqüência de abertura do maravilhoso desenho animado em longa-metragem do Bob Esponja! :-D

Até o cinema pornô se rendeu à febre. Pirates, épico (leia-se: filme de suadeira com historinha) dirigido por Joone (?) e estrelado por Janine, ganhou nada menos que 11 prêmios no último AVN Awards, o Oscar do pornô. E olha, independente das cenas mais, ahn, “nervosas” (:-D), devo dizer que o trailer desta pérola do cinema pornográfico tem, no mínimo, uma produção muito bem cuidada! Não, ainda não assisti, um amigo meu que me contou, tá? :-D

E AGORA? O QUE DEVEMOS ESPERAR DESTE SUBGÊNERO?

Por enquanto, só mesmo a terceira parte de Piratas do Caribe, batizada Pirates of the Caribbean: at World’s End e com previsão de chegada aos cinemas no próximo ano. Mas se render bons frutos – e certamente ninguém tem dúvidas disso -, podemos esperar muito, muito mais. E de preferência, com o infame Jack Sparrow no meio. :-D

OS PIRATAS INVADEM O CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 20/07/2006
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem PIRATAS DO CARIBE: O BAÚ DA MORTE (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest).

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