Fonte da Vida

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/11/2006.

Então, finalmente chega aos cinemas o mais do que esperado Fonte da Vida (The Fountain, 2006), terceiro filme do conceituado indie Darren Aronofsky e seu primeiro “trabalho de estúdio grande”, que sofreu tudo quanto é tipo de maldição. Sério, parece que o universo inteiro conspirou contra esta coisinha! Engatilhado desde 2002, quando Brad Pitt foi escalado para o papel central, a fita ganhou a geladeira com a saída do ator (diferenças criativas, o sujeito alegou à época) e o conseqüente desinteresse dos produtores, e só conseguiu enxergar a luz do Sol porque Darren Aronofsky, indivíduo deveras insistente, topou reduzir os custos da produção e deu seus pulinhos para concluir o projeto. O resultado final, até o momento apresentado apenas em mostras e festivais de cinema, provocou uma reação morna da crítica especializada. Em Veneza, vaiaram. Muitos acusaram Aronofsky de “pretensioso”. Outros se apaixonaram.

A pergunta: a espera valeu a pena? Bem, é tudo uma questão de ponto de vista.

Vamos às explicações: para quem não sabe, Darren Aronofsky apareceu do nada em 1998, quando comandou um suspense inteligentíssimo e ultra-bizarro chamado Pi, e em seguida dirigiu um visceral drama-quase-terror intitulado Réquiem para um Sonho, considerado por muitos (inclusive eu!) nada menos do que uma obra-prima. Com estes dois trabalhos, o cineasta mostrou não somente um domínio impressionante de linguagem cinematográfica, mas também uma tendência forte a transformar suas histórias em exercícios altamente criativos em termos de montagem e narrativa. Tais tendências tornaram Aronofsky o novo queridinho do circuito alternativo-independente, lhe deu uma parcela considerável de fãs… mas também fez muita gente torcer o nariz. Há quem diga que Pi é confuso demais e que Réquiem para um Sonho é totalmente gratuito. Bah. Descrentes.

O parágrafo acima deve ser levado em consideração por qualquer um que tencione ir ao cinema para conferir Fonte da Vida – digo desde já que, se você não travou nenhum contato com a filmografia do cara, deve obrigatoriamente correr até a locadora, alugar Pi e Réquiem para um Sonho e se familiarizar com o estilo de Aronofsky antes de pensar nesta nova produção. O causo é que o diretor é chegado em simbolismos, em metáforas bem escondidas, em pirotecnia visual, em usar toda e qualquer espécie de trama bizarra para falar de um mesmo assunto: pessoas mergulhadas na mais absoluta paranóia. E se você não conhecer ou não curtir a filmografia de Darren Aronofsky, nem perca seu tempo: você odiará Fonte da Vida com todas as suas forças.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que a fita é um típico trabalho do cineasta, é também totalmente diferente do que existe em seu currículo. Para simplificar a questão, pensemos em Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan: primeiro, o cara entregou o popularíssimo O Sexto Sentido e encantou o público em geral; depois, fez uma fita autoral, calcada em tomadas silenciosas e uma narrativa anti-convencional, e não agradou a muita gente, mesmo que este segundo trabalho tenha sido superior a seu antecessor no resultado final (e foi mesmo!). Não pude evitar pensar em Corpo Fechado durante a projeção de Fonte da Vida porque, mesmo sem um traço de semelhança entre suas estruturas, assim como Corpo Fechado segue um caminho oposto ao de O Sexto Sentido, Fonte da Vida segue um caminho oposto ao de Pi e Réquiem. Enquanto os outros filmes eram focados em temas soturnos (drogas, loucura), este é focado no amor, e nada de visões deturpadas: o negócio é bonito mesmo. Só que tudo é muito escondido; para encontrar os sentidos impostos pelo diretor, é necessário garimpar cada cena, cada diálogo, cada seqüência. Não é à toa que vaiaram o filme.

O barato é que também não consegui evitar pensar em Blade Runner: o Caçador de Andróides. Não podemos nos esquecer de que a magnífica sci-fi dos replicantes caçados por Harrison Ford foi execrada pela crítica e ignorada pelo público na ocasião de seu lançamento, em 1982 – e hoje, quase 25 anos depois, tornou-se cult e é tido por muitos, muitos mesmo, como um clássico indubitável. Será este o destino de Fonte da Vida? Nada como um dia após o outro.

A história de Fonte da Vida, ao melhor estilo As Horas, acompanha três contos em paralelo: a primeira, ambientada no século XVI, narra a obstinada busca do explorador espanhol Tomas Crep (Hugh Jackman, uma escolha perfeita para o papel) à lendária Árvore da Vida – uma entidade que, segundo prega a lenda, presenteia com o dom da imortalidade aquele que beber de seu néctar. Tomas acredita que a Árvore da Vida é a única salvação para livrar a Espanha de seus muitos inimigos, mas o que ele quer mesmo é conquistar o grande amor de sua vida, a Rainha Isabel (a oscarizada Rachel Weisz).

A jornada de Tomas Crep é lida pelo cientista Tommy Creo (Jackman) nos dias atuais. O livro é um presente de sua amada esposa, Izzy (Weisz). Fascinado pela leitura, Tommy toma aquela história para si e segue na desesperada busca de uma cura para o câncer em estado avançado que consome Izzy e, muito em breve, a levará para a morte. Finalmente, no século XXVI, o astronauta Tom (Jackman) encara o fato de que pode ter sofrido várias reencarnações e, ao lado das memórias de Izzy (Weisz), está prestes a descobrir a derradeira resposta para as questões fundamentais do universo e do sentido da vida. E não é 42! (desculpe a piadinha, não pude evitar). Enfim, as três tramas paralelas mostram Tom e suas variações em sua busca eterna… pela vida eterna.

O desenrolar de Fonte da Vida, aparentemente simples, é o que pega. Como eu disse lá em cima, é necessário ter uma afinidade com o jeitão de Darren Aronofsky para catar o sentido da fita. Sim, todos os elementos característicos do meliante, ou pelo menos a maioria, estão lá. Marcam presença as pontinhas de seus atores preferidos, Ellen Burstyn (ótima!), Mark Margolis e Sean Gullette (o anti-herói de Pi), o criativo uso de câmera, a montagem extravagante, a marcante trilha sonora de Clint Mansell… aliás, a trilha é excelente! Clint Mansell acabou de entrar na minha listinha de “grandes compositores de cinema”, ao lado de Howard Shore, Jon Brion, Bernard Herrmann, Mark Mothersbaugh e Angelo Badalamenti.

Voltando, todas as características de Darren Aronofsky estão em Fonte da Vida, mas seu resultado final é, digamos, um pouco diferente. É inegável que o longa é recheado de qualidades: o elenco está nada menos que impecável e o aspecto visual da produção é de encher os olhos. Por outro lado, o roteiro de Fonte da Vida poderia ter sido melhor trabalhado… na verdade, até melhor simplificado. Perde-se muito tempo criando situações para esconder as muitas metáforas existencialistas do enredo, que algumas situações parecem demasiadamente forçadas, escritas às pressas. Um pecado, visto que a maior qualidade dos filmes do diretor é justamente sua facilidade em transmitir suas idéias. Somando-se a este defeito, temos também o uso exagerado do visual; talvez a produção não soasse tão pretensiosa se Aronofsky lapidasse a fotografia e não se excedesse tanto na plástica do filme.

Bem, então… qual é o saldo geral, afinal de contas? É uma questão de ponto de vista, como disse lá em cima. Confesso que minha primeira impressão ao sair da sala de cinema foi razoável. No momento, achei bem mais ou menos, de verdade. No entanto, algum tempo depois me peguei pensando, repassando em minha mente cada uma das seqüências, e encontrei diversos significados que, no calor da sessão, passaram batidos. Com algumas idéias amadurecidas, repensei meu parecer e cheguei à conclusão final de que adorei cada segundo de Fonte da Vida. Hoje, digo que é um dos meus preferidos do ano.

Ainda assim, mantenho firme minha posição: se você não é fã de Darren Aronofsky, não tente curtir. Todo cinéfilo sabe que estamos falando de um cineasta sem concessões, que não se rende fácil ao esquemão hollywoodiano e está mais preocupado em contar suas histórias à SUA maneira – o que, diga-se de passagem, não agrada a muitos. Ao final, Fonte da Vida revela-se nada mais do que um belo filme independente disfarçado de superprodução e vendido da forma mais errada possível. Eu achei o máximo, mas se você odiar, eu entenderei e lhe darei razão. Uma coisa, entretanto, é inquestionável: Darren Aronofsky está caminhando a passos largos para se tornar uma referência obrigatória no futuro. Enquanto Tomas Crep quer a eternidade, Aronofsky aparentemente já conseguiu faz tempo.

Ah, sim, uma correção: Fonte da Vida não é, na verdade, sobre o amor. É sobre o medo do homem em enfrentar a chegada de um futuro iminente e, conseqüentemente, a PERDA trágica do amor. Ou seja, no final das contas, Darren Aronofsky continua sendo o mesmo bastardo insano e psicótico de sempre. ;-)

CURIOSIDADES:

• Se você achar os efeitos visuais de Fonte da Vida meio, ahn, “esquisitinhos”, não repare. É que o diretor recusou-se terminantemente a fazer bom uso do batido CGI. A exemplo de Francis Ford Coppola no maravilhoso Drácula de Bram Stoker, Aronofsky preferiu desenvolver uma nova técnica de efeitos visuais, criadas através do uso da micro-fotografia de reações e experiências químicas. O resultado ficou fascinante e totalmente experimental, mas muita gente vai achar tosco, já vou avisando.

• Em 2002, Fonte da Vida representaria a esperada união de dois astros cultuadíssimos do cinema atual: Brad Pitt, que viveria Tom (e suas variações), e Cate Blanchett, que assumiria o papel de Izzy. Quando Pitt se desligou do projeto, Blanchett também pulou fora. Curiosamente, os dois só conseguiram atuar juntos também em 2006, no elogiado drama Babel, de Alejandro González-Iñarritú, ainda inédito em nossos cinemas.

• A trilha sonora composta por Clint Mansell para Fonte da Vida foi interpretada também pelos caras do Kronos Quartet (que já trabalharam com o músico em Réquiem para um Sonho) e pela banda de rock escocesa Mogwai.

• Repare que evitei tecer comentários a detalhes da produção, algo que sempre faço. Foi por uma boa causa. Acredite, qualquer detalhezinho entregue pode matar a experiência.

• Brad Pitt desistiu de Fonte da Vida para poder atuar no babaquinha Tróia. Primeiro fez isto e depois deu um pé na buzanfa da Jennifer Aniston. Burrinho.

THE FOUNTAIN • EUA • 2006
Direção de Darren Aronofsky • Roteiro de Darren Aronofsky
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Sean Gullette, Stephen McHattie, Cliff Curtis, Ethan Suplee, Sean Patrick Thomas.
96 min. • Distribuição: 20th Century Fox/Warner Bros.

Uma resposta para Fonte da Vida

  1. vivi ferreira disse:

    Zarko, nossaaa
    procurando por textos sobre o filme o qual revi nesta madrugada (você acredita que a globo teve a maldade de passar o filme na Sessão de Gala?) encontrei o seu claro muito bem escrito…sou sua fã desde os tempos da arca e agora que descobri o seu blog irei passar sempre por aqui. Gosto muito de Fonte da Vida por ser, pra mim, uma experiencia filosófica.
    Um grande filme, que merece ser apreciado meticulosamente:D
    Abraços,
    vivi

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