O Massacre da Serra Elétrica

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/02/2005.

Boa parte do pessoal que lê A ARCA vai estranhar esta matéria. Afinal, todo mundo sabe que sou um cara absurdamente avesso à remakes, exceto uma ou outra coisa obscura. Enfim, no saldo geral, quero mais é que as refilmagens se explodam. E olhem que eu até tinha motivos de sobra para querer dar cabo de minha existência miserável quando, mais uma vez, a voz do Fanboy surgiu no meu aparelho telefônico, dizendo aquelas palavras tão (ou mais) assustadoras quanto o “seven days” que a Sadako-cover solta em O Chamado: “Zarko, meu filho, tenho trabalho pra você”!

O trabalho em questão era, claro, uma matéria sobre O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 2003). Tá, então vamos começar por aí: 1) Um remake (Entenderam essa parte? Um remake! Quem sou eu? Aquele que odeia remakes!); 2) Um remake de um filme de horror – gênero obrigatório para a minha pessoa; 3) Um remake de um filme de horror trash gore dos anos 70 – sem dúvidas, o subgênero preferido dentro do meu gênero preferido; 4) Um remake de um filme de horror trash gore dos anos 70 que é apenas um dos meus longas definitivos do gênero, no caso O Massacre da Serra Elétrica autêntico de 1974, o longa-mór, o clássico do canibalismo e do “horror realista”. Ah, qual é, vai dizer que você não se arrepiou todo com a loira ensangüentada rindo que nem uma louca na caçamba da caminhonete? :-D

Pra deixar o leite ainda mais azedo, a produção da refilmagem é do Michael Bay, o louco psicopata por trás da terrível cagada chamada Pearl Harbor, e a direção ficou a cargo de um tal de Marcus Nispel, videoclipeiro responsável por vídeos musicais da Amy Grant e da Janet Jackson… SOCORRO! Quando tomei conhecimento do elenco desta releitura, que seria liderado por Jessica Biel (Blade: Trinity), aí surtei de vez. Catzo, os caras queriam transformar a história do maluco Leatherface em mais um porre adolescente do tipo Eu Sei o Que Vocês Fizeram na Segunda-Feira de Carnaval às Dez e Quarenta e Cinco da Manhã… E não tinha ninguém pra proibir este pecado, ô meu Deus.

O que mais me deixou apreensivo, porém, foi o atraso no lançamento aqui no Brasil – impressionantes 15 meses (!). Isso porque na Argentina a fita só chegará às telonas em Junho deste ano, e com relação à nossa querida terrinha, a distribuidora passou um bom tempo decidindo se lançaria este novo Massacre direto em DVD ou nos cinemas mesmo. Entretanto, o lance todo tinha um lado bom: esta refilmagem construiu uma carreira de sucesso nos States, arrecadou praticamente dez vezes mais o que custou (no caso, a fita comeu US$ 9 milhões da Focus Features e gerou quase US$ 90 milhões) e uma parcela da crítica elogiou o trabalho. O que é, diga-se de passagem, um ponto muito positivo, já que os filmecos de horror de hoje em dia são “massacrados” (desculpem o trocadilho) por 100% destes caras. De qualquer forma, fui enfrentar a sessão já me preparando para dizer aqui que a versão em 30 segundos e re-encenada por coelhinhos era bem melhor – se você não sabe do que raios estou falando, visite o site AngryAlien.com, uma das coisas mais engraçadas que já surgiram na Internet, e seja feliz. ;-)

Voltando: então, eu vi o filme. E… tá bom. Eu admito. Gostei desta nova versão. Gostei bastante, até.

Mas tenho um detalhe importantíssimo para apontar: o novo Massacre não pode ser considerado, de forma alguma, uma refilmagem. Nem pensar: é “quase” uma fita totalmente nova, e este é só o primeiro dos acertos do roteiro de Scott Kosar, que assinou o script do magnífico O Operário. Então pode esquecer a possibilidade de rever cenas marcantes como a própria seqüência da garota na caminhonete, o jantar e – a minha preferida – Leatherface dando seus “pulinhos” contra o Sol no meio da estrada. E foi ótimo assim: se O Massacre da Serra Elétrica versão 2003 naufragasse nas bilheterias ou ganhasse a antipatia da crítica, correria o sério risco de queimar grandão a obra-prima B de Tobe Hooper (que mais tarde, viria a comandar Poltergeist para o titio Spielberg).

Os personagens, inocentes demais no primeiro filme – o que é justificável, afinal a produção é de 1974 -, também sofreram metamorfoses muito das bem-vindas. Então não temos mais a mocinha pura e casta Sally Hardesty, seu irmão tetraplégico Franklin e afins. Os novos personagens, bem mais “propícios” à nossa época, digamos assim, são Erin (Biel), seu namorado Kemper (Eric Balfour, de Lições para Toda a Vida), o drogadinho Morgan (Jonathan Tucker, de Até o Fim e 100 Garotas), o safado Andy (Mike Vogel, do seriado Grounded for Life) e a totalmente várzea Pepper (Erica Leerhsen, a nova musa de Woody Allen em longas como Igual a Tudo na Vida e Dirigindo no Escuro). Os cinco amigos viajam numa kombi caindo aos pedaços, mas não mais procuram a casa da avó como no original e sim voltam de uma viagem “de negócios” – leia-se: foram comprar maconha no México.

O terror tem início quando a turma quase atropela uma garota em estado de choque (na outra fita, um rapaz). Resolvem ajudá-la. A garota, que balbucia coisas do tipo “eu quero voltar pra casa”, termina por cometer suicídio na frente deles (numa cena muito, mas muito bacaninha). Mesmo com Morgan, Andy e Pepper defendendo a alternativa de jogar o corpo num cantinho da estrada e se mandar, Erin e Kemper, visivelmente os líderes da turma, pensam que devem avisar a polícia, uma vez que “quem não deve não teme”. A kombi estaciona num bar de beira de estrada, e então… então… Vai ver o filme, ora essa! :-P

Bem, a partir daí, todo mundo sabe o que vai acontecer. Mas este é o ponto que menos importa, já que o trajeto até lá é bem sofrido. Vou explicar: Enquanto a película de Tobe Hooper se apoiou exclusivamente na fotografia crua e numa captação de imagens bem pobre, criada propositadamente para parecer um “falso-documentário”, o filme de Marcus Nispel é assumidamente uma produção de cinema, fazendo bom uso de uma fotografia e uma montagem bem tradicional – mesmo que apele para seqüências “documentais” ao início e ao final da projeção. Ao contrário de Hooper, que metia medo com a intenção de ser “real”, Nispel rodou apenas um filme de horror, mas um belo dum filme de horror, com todos os elementos típicos das boas produções do gênero.

Ou seja: tem susto a dar com o pau, tem sangue jorrando a torto e a direito, dá aquela vontade de xingar quando os caras resolvem ficar parados quando deveriam sair correndo, e tem uma boa fatia de personagens odiosos e aterrorizantes, como o novo Leatherface (que dá de dez a zero no primeiro em matéria de crueldade, desculpa falar isso!) e o escroto xerife Hoyt (R. Lee Ermey, de A Vingança de Willard e Seven – Os Sete Crimes Capitais). Outro grande ponto a favor deste novo O Massacre da Serra Elétrica é a coragem de ser visualmente perturbador, elemento imprescindível que transformou a primeira versão no clássico do cinema gore que é hoje. Então espere numa boa por imagens bizarras e sádicas, com muito sangue, pedaços de carne, pedaços de cérebro…

Mas sem sombra de dúvida, o mérito maior do filme é o respeito que esta “quase refilmagem” tem com relação a seu antecessor: no bom trabalho que fez no roteiro, Scott Kosar não se concentrou em copiar ou refazer cena a cena o trabalho de Hooper e Kim Henkel (os roteiristas do primeiro), mas sim contar a mesma história sob uma nova e atual perspectiva, sem afetar a fita de 1974. O que, decididamente, fez toda a diferença. Pois é, eu gostei mesmo, não importando se é um remake ou não! Porém, se alguém aí me pressionar, ainda falo que prefiro o original. E na verdade, prefiro mesmo. Afinal, preciso manter minha fama. :-P

CURIOSIDADES:

• A história de O Massacre da Serra Elétrica é inspirada em um caso dito verídico, ocorrido nos anos 50. Na ocasião, o FBI finalmente prendeu o criminoso Ed Gein, que confeccionava e vendia objetos de artesanato. Detalhe: os objetos eram feitos com pedaços de suas vítimas, geralmente viajantes perdidos que estacionavam na fazenda de Gein para pedir informações. No quintal de Gein, haviam vários pedaços de corpos espalhados. O que não era vendido, Gein comia no jantar. Sim, é sério.

• O primeiro Massacre foi filmado em 16mm por Tobe Hooper quando este ainda era praticamente um moleque. O filme foi proibido em diversos países por mais de dez anos, inclusive no Brasil. Aqui, só foi lançado oficialmente mesmo depois que cópias piratas começaram a se espalhar, isso lá pelos idos de 1983. A nova versão é proibida na Ucrânia até hoje, por ordem do Ministro da Cultura. Nos cinemas americanos, em 1974, eram distribuídos sacos de vômito antes da sessão. Isso podia ser adotado no Brasil, antes de qualquer sessão de filmes da Xuxa…

• Na nova versão, em uma determinada cena, a personagem Erin manuseia uma faca e, quando questionada sobre a origem do utensílio, ela diz que “ganhou de seu irmão”. Isto é uma referência ao filme original, em que Sally toma emprestado uma faca de seu irmão Franklin, obcecado por canivetes. Ela nunca devolveu a faca…!

• Durante seu teste, Erica Leerhsen gritou tão alto que pessoas de outras partes do prédio acionaram a polícia, pensando que a atriz estivesse sendo atacada!

• A trilha sonora do Massacre versão 2003 seria composta originalmente pelo roqueiro-bizarro-mutante Marilyn Manson, que não pôde aceitar o convite por problemas de agenda. O papel de Erin seria originalmente feito por Katie Holmes.

• Preste bastante atenção nas cenas que se passam no porão de Leatherface: lá, é possível você encontrar o rosto mutilado de ninguém menos que Harry Knowles, do Ain’t It Cool News!

THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE • EUA • 2003
Direção de Marcus Nispel • Roteiro de Scott Kosar
Baseado no filme The Texas Chainsaw Massacre, escrito por Kim Henkel e Tobe Hooper
Elenco: Jessica Biel, Jonathan Tucker, R. Lee Ermey, Erica Leerhsen, Eric Balfour, Mike Vogel.
95 min. • Distribuição: Focus Features/Europa Filmes.

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