Deixa Ela Entrar

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 02/10/2009.

O que torna um filme verdadeiramente BOM? No caso deste que vos escreve, há uma paulada de “fatores determinantes”. O roteiro precisa ter um mínimo de coerência, mesmo se tratando de uma história de fantasia; o desenvolvimento do enredo, independente de sua complexidade ou simplicidade, precisa respeitar ao máximo o espectador enquanto “cabeça pensante”, como diria nosso querido amigo Raulzito (hehehe); e acima de tudo, o conjunto da obra precisa ser exatamente aquilo que se propõe, ou seja, se é um filme de comédia precisa fazer rir, se é um suspense precisa deixar tenso, e por aí vai.

E o que torna um filme verdadeiramente SENSACIONAL? Mais fatores determinantes somados aos relacionados acima. Para mim, é aquela fita que apresenta uma história sob uma perspectiva incomum e pouco explorada, deixando aquela sensação de originalidade mesmo quando o tema é batido e clichê; ou então aquela fita que experimenta novas linguagens tanto tecnicamente quanto em termos de enredo (desde que estejam, claro, bem alinhadas com os outros fatores); e acima de tudo, aquela que transcende seus próprios conceitos e, mesmo rotulado em um gênero específico, causa uma série de sentimentos contraditórios no espectador e o deixa pensando naquilo tudo por um bom tempo após o término da sessão. Analisando a atual safra cinematográfica, não preciso dizer que encontrar uma produção digna de se encaixar nesta segunda categoria é como encontrar alguma coisa boa nos filmes da Xuxa, não é mesmo? :-D

Difícil, sim. Mas não impossível. E se você aceitar perder duas preciosas horinhas de seu tempo em uma sessão de um longa-metragem chamado Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In, 2008), que finalmente chega aos nossos cinemas depois de um longo período de incertezas e um invejável currículo de 56 prêmios internacionais, você concordará comigo que raras vezes uma produção conseguiu concentrar TODOS os fatores determinantes relacionados acima como este aqui conseguiu. E olhe que estamos falando de uma fita de terror… vinda da Suécia… e que fala de vampiros…

Ok ok, sei o que você pensou, “vampiros de novo não!”, já que atualmente o mundo do entretenimento vive um “frenesi vampirístico” – de um lado é True Blood, do outro lado é The Vampire Diaries e no centro do furação, aquela coisa medonha chamada Crepúsculo (pausa para a ânsia de vômito), este último, por sinal, com foco parecido até demais com Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In, o livro, foi publicado em 2004, portanto saiu na vantagem, hehehe). Relaxe: Deixa Ela Entrar é tão amplo que, em certos momentos, até esquecemos de que uma das personagens é, afinal, um vampiro. A trama comandada com impressionante leveza pelo cineasta Tomas Alfredson centra seu poder de fogo na afeição entre duas personagens desajustadas e potencialmente rejeitadas pela sociedade, e sobretudo na consequente aceitação destas pessoas por elas mesmas. É um troço muito além do “medinho”.

Pena que os estadunidenses, sempre eles, estão prestes a estragar tudo isso – para quem não sabe, Deixa Ela Entrar já está ganhando sua versão ianque pelas mãos de Matt Reeves (Cloverfield).

Enfim, vamos lá: ao início do longa, somos transportados para Blackeberg, subúrbio de Estocolmo, na década de 80. Oskar (Kåre Hedebrant) tem 12 anos e é constantemente humilhado e agredido por colegas de escola. Tímido, desajeitado, potencialmente violento e muito introvertido, Oskar não tem amigos e nem pretende tê-los, tanto que prefere passar seus dias “ensaiando” o momento (que nunca chega) de enfrentar seus agressores e nem se importa tanto quando descobre que um apartamento vizinho ao seu será ocupado por novos moradores, no caso uma garotinha que mal aparece e esconde-se por trás de uma placa de papelão que cobre sua janela, e o que parece ser seu pai, um sujeito de meia idade que não pára em casa.

Mais tarde, Oskar fará amizade com a tal menina, Eli (Lina Leandersson), que conta que tem “mais ou menos 12 anos há muito tempo”, vive suja, aparentemente não sente frio e só dá as caras no parquinho do prédio à noite. Alguns bizarros assassinatos na região de Blackeberg intensificam as suspeitas de Oskar, suspeitas estas que serão confirmadas em breve pela própria Eli. Ela é uma vampira.

Simples? Não. Pra começar, esqueça os clichês básicos deste plot. Deixa Ela Entrar carrega uma profundidade emocional que basicamente o exime de “apenas um filme de vampiros” e o alça a uma condição muito maior. O fato de Eli ser uma impiedosa sugadora de sangue é mero pretexto para que o brilhante roteiro de John Ajvide Lindqvist, também autor do romance na qual o filme se inspirou, reflita sobre a sensação de deslocamento a qual Oskar e Eli se adequam, cada um a seu modo. Mesmo conhecendo a natureza da menina, Oskar não pensa duas vezes em querê-la a seu lado, como sua melhor amiga, talvez como um “algo mais”. O menino aceita Eli como ela é, e ela idem – aceitação esta com a qual sonharam a vida inteira. Como troca, Eli se sentirá um pouco mais “parte do mundo”, e Oskar encontrará forças para enfrentar de vez seus medos.

Estamos falando, contudo, de um filme de horror. Então, nem pense em encontrar por aqui a mela-cuequice de Crepúsculo e prepare-se para algumas seqüências bastante nervosas – duas delas em especial, a cena decisiva em que Eli é desafiada a entrar na casa de Oskar sem ser convidada (e todo mundo aí sabe o que pode acontecer a um vampiro quando aparece sem convite a algum lugar, não sabe?) e o absurdo clímax na piscina (desde já um dos momentos mais apavorantes do cinema recente de terror), são de perder o sono. Mas nada gratuito: a direção de Alfredson segue uma linha bastante comedida, e grande parte da “ação” propriamente dita é sugerida (embora haja sangue e mutilação a rodo). Os fãs do gênero não terão do que reclamar.

O que torna Deixa Ela Entrar uma experiência fascinante, porém, não é só a excelente atuação do casal central, Kåre Hedebrant e Lina Leandersson (perfeitos no papel), o surpreendente exercício de direção de Tomas Alfredson, que mergulha o espectador em um clima soturno, azulado e cheio de neve, ou sua construção narrativa altamente anti-convencional – é tudo bastante silencioso e poucas perguntas são de fato respondidas, o que nos faz querer sair por aí pesquisando tudo sobre o filme para completar nosso raciocínio. O que torna este pequeno filme sueco tão singular é que, ao melhor estilo Drácula de Bram Stoker, a figura vampiresca presente na história é apenas ponte para uma trama que mexe com os sentimentos do público em vários aspectos. É terror sangrento, mas é também um drama envolvente, um suspense nervoso e uma história de amor e amizade sem limites capaz de emocionar qualquer um. Para resumir tudo numa única palavra: SENSACIONAL. :-D

Ah sim, e o que torna um filme verdadeiramente HORROROSO? Nem quero saber. Assista Crepúsculo, que a resposta está lá. E ninguém enfiou uma estaca no coração daquele mané do Robert Pattinson ainda? :-P

LÅT DEN RÄTTE KOMMA IN • SUE • 2008
Direção de Tomas Alfredson • Roteiro de John Ajvide Lindqvist, baseado em seu romance
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg.
115 min. • Distribuição: Filmes da Mostra.

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